Clarissa Rosenbaum

@clarissarosen

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PNE: O lero-lero do desleixo versão conto do vigário

Greve

Plano Nacional de Educação seria votado hoje em comissão especial da Câmara, porém o relator José Pimentel solicitou mais tempo para avaliar as mais de 40 emendas apresentadas pelos senadores Inácio Arruda, Cristovam Buarque e Randolfe Rodrigues, ao seu relatório. O documento de 55 páginas possui 10 diretrizes, dentre as quais se destacam a erradicação do analfabetismo, a melhoria da qualidade da Educação e a valorização dos profissionais da área.

O documento parece ser uma versão impressa das palestras proferidas em formações de professores. Contém o óbvio: melhorar índices, promover a inclusão, respeitar as particularidades regionais. Estipula metas a serem atingidas em 10 anos, num processo de avaliação bienal. Prontifica-se a oferecer recursos financeiros, tecnológicos e materiais para que se consiga sair desta vergonhosa situação que é estar à frente somente de Tunísia, Jordânia, Qatar e Indonésia no ranking do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes).

Até aí, nenhuma novidade. Mas, logo de cara, damos com a seguinte diretriz:

III – superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual;

Desnecessário dizer que aquilo que se lê após a vírgula foi adicionado por um esquerdista. Então vamos a algumas perguntas:

  1. Como o professor alfabetizador pode promover a igualdade racial-regional-de-gênero-e-de-orientação-sexual ao ensinar um código linguístico (a.k.a. “juntar letrinhas”)?

  2. Imaginando-se que tal diretriz seja aplicável do Fundamental II em diante, como é que o professor de matemática, ao ensinar equações por exemplo, promoverá a igualdade racial-regional-de-gênero-e-de-orientação-sexual?

  3. Uma vez que as escolas públicas trabalham com turmas completamente heterogêneas – acrescentem-se os portadores de necessidades especiais, físicas e mentais, que são jogados em turmas regulares e lotadas para legitimar a farsa da inclusão plena – oferecer a mesma aula para todos e cobrá-los com o mesmo rigor (excetuando-se os que possuem necessidades especiais, evidentemente), já não é promover a IGUALDADE?

  4. Considerando-se que alunos que moram no mesmo bairro e frequentaram a mesma escola a vida inteira, descontadas as relações familiares e o interesse individual, têm as mesmas oportunidades educacionais, oferecer cotas exclusivamente aos negros e aos indígenas deste grupo é promoção da igualdade ou discriminação?

  5. Há escolas que segregam os alunos? Se sim, por que ainda continuam funcionando? Se não, e creio que não, pois isso seria denunciado aos quatro ventos, por que enfatizar a promoção da igualdade, quando é isso o que as escolas fizeram sempre? Aliás, o ato de exigir uniforme já é a promoção da igualdade, embora alguns gestores entendam que, mesmo que o aluno tenha recebido calça, camisetas, blusa, bermuda, meias e tênis, exigir que ele use isso é humilhação e constrangimento…

Essa obsessão pela promoção da igualdade, quando os indivíduos são diferentes uns dos outros, explica o motivo pelo qual a Educação Brasileira está destinada à mediocridade:

“Mas, voltando a liberdade × igualdade, principal tensão na democracia: segundo Tocqueville, não há como evitar essa tensão porque ambas são valores de raiz da democracia. Quando você dá mais espaço para a liberdade, a tendência é de que a democracia acentue as diferenças entre as pessoas e os grupos que nela vivem. Mas a liberdade é a chave da capacidade criativa e empreendedora do homem. Quando você acentua a igualdade, a democracia ganha em nivelamento e perde em criatividade e geração de abundância para as pessoas. O politicamente correto é um caso clássico de censura à liberdade de pensamento, por isso, sob ele, o pensamento público fica pobre e repetitivo, por isso medíocre e covarde”. (PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. São Paulo: Leya, 2012.)

Quanto às diretrizes destacadas: erradicação do analfabetismo, valorização dos profissionais da educação e melhoria da qualidade, falta um item no documento, que seria uma resposta aos três itens: diminuição da quantidade de alunos por sala nas séries iniciais. Não há qualquer menção a isso, que vem a ser a principal solicitação dos profissionais da educação. Imagine-se o seguinte quadro: primeiro ano, com 33 alunos de 5 e 6 anos matriculados e presentes, dentre os quais há ao menos 2 com laudos médicos, portadores de algum distúrbio, 1 autista, 10 que não levam material nunca – mesmo ganhando -, 4 violentos, que realmente batem nos colegas, e os demais alunos que nunca recebem atenção necessária do professor. Aliás, enquanto a professora se abaixa para corrigir um caderno, na mesa do aluno, uma criança bate na outra, o autista grita e bate a própria cabeça na parede e a menina que deixou o lápis cair no chão, antes de olhar para baixo para procura-lo, se levanta para reclamar que a outra menina roubou seu material. A cena grotesca não é comédia e não é fictícia, infelizmente. Descrevo uma das primeiras séries da minha escola em dia comum. Não sou alfabetizadora, mas não vejo possibilidade de alfabetizar um único indivíduo em meio a tamanho tumulto. Ainda assim, as professoras do nível I conseguem alfabetizar mais da metade da turma, todo ano, nessa condição insana, cruel, desumana. Às custas de muito esforço físico, esgotamento psicológico e perda vocal. Resta alguma dúvida de que a maior valorização de um profissional é permitir que ele EXERÇA SUA PROFISSÃO e não passe o período apagando fogo e contornando o caos? Alguns cairão na esparrela dos recursos infinitos, previstos no § 4º:

– Serão utilizados 50% (cinquenta por cento)dos recursos do pré-sal, incluídos os royalties, diretamente em educação para que, ao final de 10 (dez) anos de vigência do PNE, seja atingido o percentual de 10% (dez por cento) do produto Interno Bruto para o investimento em educação pública.

A esses, vai o aviso: contar com os royalties do pré-sal é, respeitando a variante popular da língua portuguesa, contar com o ovo no fiofó da galinha. É a muleta do político moralmente aleijado: “se nunca extraírem uma gota desse petróleo, não nos culpem, pois o que vale é a nossa intenção”. E os messiânicos DezPorcentoDoPIBpraEducação, aguardados com fé pelos professores, não representarão nada em termos salariais, se é o que esperam. É sabido que a área mais fácil de desviar dinheiro público é a Educação. Mas, ainda que esse valor chegasse efetivamente às escolas, em forma de recursos materiais e recursos humanos, cabe lembrar que o Município de São Paulo investe R$1.088,11 mensalmente por aluno, enquanto o Estado investe R$599,96. E, segundo dados do próprio IDEB 2011, as estaduais tiveram melhor desempenho no Fundamental I e na avaliação das 8ªs séries ficou pouco atrás das municipais :

Rede

4ªSérie/5ºAno

8ªSérie/9ºAno

Municipal

4.8

4.3

Estadual

5.3

4.1

(Fonte: http://ideb.inep.gov.br/)

Quase o dobro do investimento estadual não garante resultado equivalente na aprendizagem. Mas amacia professores calejados quase sempre.

Então já sabemos que o analfabetismo não será erradicado e que os profissionais da educação não serão valorizados. Consequentemente, não haverá melhora na qualidade também. Afinal, o professor de português do 6º ano pode ser excelente, mas como trabalhará interpretação de texto e gramática com os analfabetos?

Ele não trabalhará.

E o péssimo resultado do PISA será creditado à… tcham tcham tcham tchaaaaaaam: má formação docente e falta de investimentos na Educação.

E tem mais: para aumentar a quantidade de turmas e reduzir a quantidade de alunos por sala, é necessário ter espaço físico. Com a maravilhosa e milagrosa escola em tempo integral, haverá redução desse espaço, pois os mesmos alunos ocuparão as mesmas salas várias horas por dia. É difícil enxergar o óbvio. Especialmente quando deputados consultam acadêmicos e burocratas que, por sua vez, desprezam a fala dos professores.

Mas não há razão para preocupação. Afinal, o documento prevê a criação de mecanismos para resolver tudo (o termo aparece 11 vezes). Bem no estilo petista de debater, quando perguntados acerca de estratégias para resolver qualquer problema de ordem prática, eles sacam a criação/implementação/utilização de mecanismos para isso. O que são mecanismos? De onde vieram? De que se alimentam? Para onde vão? Clarissa explica: mecanismos são seres fantásticos que nunca foram vistos, mas se as pessoas tiverem fé, resolverão qualquer contratempo com a ajuda desses pequeninos. Nas formações continuadas, os palestrantes falam em “estabelecer uma série de ações” para enfrentar problemas graves, como apanhar de aluno portador de necessidades especiais. As séries de ações são o feminino dos mecanismos. No fundo, significam a mesma coisa: cada um que se vire como puder, enquanto a gente finge que está interessado nas queixas de vocês.

Esperem o pior.

Perdoando a Escola Pública

Começo este artigo pedindo outro perdão. Primeiro por falar sobre Educação, esse enfadonho tema que só possui menos entendidos e especialistas do que a seleção brasileira em tempos de Copa do Mundo. Em segundo lugar, porque vivo de fato o cotidiano escolar há mais de dez anos nas redes estadual e municipal, o que praticamente me descredencia para escrever sobre o assunto, haja vista que os autores, palestrantes e críticos da Educação ou jamais colocaram os pés numa sala de aula de escola pública ou, se já o fizeram, foi há mais de 30 anos.

A justificativa para que os palpiteiros pedagógicos sejam tratados como autoridades no assunto é aquela velha vigarice à qual estamos nos acostumando: “o olhar externo é mais objetivo e isento, livre das emoções que turvam a visão”. Essa carta é um coringão. Vale para qualquer pessoa, que normalmente domina menos o tema sobre o qual conferirá palestra do que o próprio público-alvo, subir num palco com microfone na mão, acusar a plateia de não ter mente aberta e visão ampla, ser aplaudida e pegar o pagamento ao término do evento.

Então, de cara também peço desculpas por isso. Não tenho mente aberta o suficiente para acreditar em grandes mudanças para melhor na Educação e nem visão ampla para ser criativa em relação à crise, porque, conforme os senhores verão nas próximas colunas – se o editor deste portal não me demitir – toda ideia boa que algum professor tem para driblar o fracasso iminente e as bizarrices cotidianas, que já deixaram de ser exceção, costuma ser abortada por ferir algum item da legislação à qual a escola está submetida ou o ultrapassado ECA, incapaz de proteger adolescentes inocentes da crueldade de outros adolescentes.

Feita a apresentação da autora e do estilo, vamos à proposta do título: perdoar a famigerada escola pública.

O termo “escola pública” assumiu nas últimas duas décadas uma conotação terrível: algo entre fábrica de criminosos e laboratório de violência. Não raro as famílias se privam de várias coisas para pagar pelo ensino privado das suas crianças e, quando não podem mais fazê-lo, matriculam os filhos no ensino público como se esses estivessem indo cumprir pena em regime semiaberto por um crime que não cometeram. Não lhes tiro a razão, embora a realidade não seja tão dolorosa para os alunos da malfalada instituição, exceto para os que levam os próprios estudos muito a sério – uma raridade entre os jovens de hoje -. O diabo não é tão feio como se pinta e, aliás, é justamente por isso que nada muda. A água nunca chega no nível que obriga os acomodados a nadar.

Tomemos como exemplo a rede municipal de São Paulo. Os professores, especialmente os que ingressaram depois de 2008, passaram em concursos difíceis –, com uma razão de 80 candidatos por vaga. O salário e os benefícios costumam ser maiores do que os oferecidos pelas escolas particulares de pequeno ou médio porte, o que tem feito muitos docentes largarem o ensino privado por jornadas maiores na Prefeitura. A merenda é rigorosamente elaborada por nutricionistas e o cardápio da quinzena é publicado no Diário Oficial. A fiscalização é constante. Caso o aluno tenha algum problema ou necessidade especial em relação à alimentação, a escola faz a compra do alimento adequado e a refeição desta criança é preparada separadamente. Há projetos de reforço, recuperação paralela, música, teatro, imprensa jovem, etc. Até o término da gestão Kassab, havia o programa “Minha Biblioteca”, em que todos recebiam 3 livros paradidáticos por ano, além dos livros didáticos correspondentes à série. Nas escolas da prefeitura costuma haver material (cartolinas, EVA, pistolas de cola quente, câmeras, projetores, amplificadores, microfones, etc.) e recursos para aquisição de livros para as bibliotecas e equipamentos eletrônicos em geral. E isso sem milagrosos 10% do PIB para a Educação!*

E com tudo isso, os índices de aprendizagem são tão ruins por quê?

A resposta está nas queixas dos professores. As mesmas queixas que não são levadas em consideração, porque subjetivas e desequilibradas, ditas ao calor das emoções. As mesmas falas que têm o microfone desligado nas jornadas pedagógicas, em auditórios cheios de autoridades e especialistas cujo discurso pode ser resumido em “não estamos preparados para o aluno do século XXI”. O triste é que há professores, devidamente amaciados pela leitura de Paulo Freire, que acatam a culpa pelo fracasso de um sistema programado para isso.

Mesmo quem não se arroga especialista em Educação, sempre tem um “se fosse comigo, eu faria…” para devolver a um professor angustiado que acaba fazer um desabafo. Normal. Quem tem mais de 20 anos e frequentou a escola, costuma se lembrar de algum professor que tinha “pulso firme” e botava ordem na cambada. Eu mesma tive uma professora que acertava giz nos tagarelas e nos distraídos. Acertava na testa, com uma mira invejável (levei muito giz por viver num mundo à parte). Nós a adorávamos, de verdade. Com o tempo, ela nem precisava mais usar tal recurso didático, pois todos prestavam atenção às aulas 100% expositivas (nada lúdicas, nada práticas, nada recomendável pelo politicamente correto da educação, doravante eduquês). Essa professora não teria vez ou voz com as turmas que tenho hoje. Aliás, provavelmente seria processada por agressão física ou responderia por constrangimento de menor…

Daí alguém conta uma ocorrência comum – sim, comum – como: “O aluno se recusou a fazer silêncio e ainda ficou berrando ofensas contra o colega, enquanto eu tentava explicar. Chamei-o para conversar, expliquei que ele estava atrapalhando, que não poderia fazer isso, mas ele riu e continuou atormentando todo mundo”. “E você não mandou para a direção? Não botou pra fora?”- questionarão os honestos, pensando no que a professora que botava ordem na cambada faria. Talvez isso seja um choque, mas nem todas as escolas permitem que os professores coloquem alunos para fora da sala. Alguns gestores, influenciados por certos autores, ainda afirmam que “se livrar do aluno, colocando-o no corredor ou na direção é incompetência do professor, que não soube lidar com a criança”. Não é raro acontecer do aluno mandar aquela cascata, fazendo-se de vítima, e retornar à sala de aula com cara de sofredor, para, nas costas do inspetor, imediatamente após a porta se fechar, continuar o deboche, então mais intenso. Afinal, ele venceu, ele retornou à sala, ele tem o direito de permanecer no recinto e os outros têm a obrigação de aturá-lo.

Passemos para algo mais grave, a violência física. O aluno bateu em três colegas por causa de figurinhas – agora chamadas de cards pelos pequenos -. Desrespeito ao professor, ainda que chegue no campo das ameaças de morte, é algo que alguns gestores toleram bem. “Ai, essa juventude é assim mesmo, inconsequente…”. Já sair aos tapas com outros alunos é inadmissível. Os pais devem ser convocados. Aí começa o verdadeiro calvário: 1- Procuram-se os telefones de contato no prontuário do aluno; 2- Se houver, reza-se** para que estejam atualizados; 3- Agenda-se uma ida de um dos responsáveis à escola; 4- Reza-se em dobro para que o responsável não seja pior do que o próprio aluno. Dadas essas pré-condições para a conversa com a família, haverá o encontro. Às vezes, o responsável dialoga bem e se compromete a orientar a criança. Às vezes, o pai e/ou a mãe se irritam e discutem aos berros com os professores, alegando perseguição (obrigada, Paulo Freire, por este termo lindo! Realmente, perseguimos crianças de 9 anos, que mal sabem escrever, por divergências ideológicas, pois estamos a serviço dos militares-Globo-tucanos-imperialistas-estadunidenses). Às vezes o pai e/ou a mãe dão aquele sermão no aluno, lá mesmo, na frente dos professores e ainda dizem “se ele der qualquer problema, este é meu celular, ligue a qualquer momento para falar comigo, nem precisa pedir pra secretaria”. Uma bênção. Mas o que tem acontecido de uns anos para cá com recorrência é o adulto responsável dizer que não sabe mais o que fazer com aquela criança. Isso é quase um código, uma mensagem que, decifrada significa: “você será desrespeitado, atormentado, terá suas aulas destruídas por esta criança até ela se formar e não poderá fazer nada por si e pelos outros alunos da classe”. Quando vem a senha “professora, você tem razão, viu, eu não sei mais o que fazer com esse menino, ele não me respeita, ele não faz nada em casa, só brinca”, o chão some. A conversa acaba. A criança, afinal, domina os pais. Ela não respeita ou teme as pessoas que moram sob o mesmo teto que ela e que a sustentam. O que a professora poderá fazer ou falar para que a criança mude de comportamento?

Há aí omissão dos pais, claro. Não são os professores que têm o dever de educar as crianças, mas sim os responsáveis por elas. Ou, como apareceu no Facebook hoje:

professor é outra coisa

 

Esperar que a escola cumpra o papel dos pais e ainda promova a aprendizagem é injusto. A imagem que temos de uma boa mãe ou de um bom pai não é a de quem alfabetiza os filhos e lhes ensina o conteúdo que vai cair no vestibular quando adolescentes, mas sim a dos que ensinam valores tais como respeito por si e pelo próximo, honestidade, caráter, etc. Quem não tem um avô ou uma avó analfabeta, que ensinou lições de vida inesquecíveis e, por isso, mereceria o título de grande educador(a)? Pois é. A própria mudança do termo professor para educador já demonstra a responsabilidade jogada nas costas de pessoas que se formaram apenas para ensinar matemática, português, ciências… Não para educar moralmente os filhos dos outros em 50 minutos diários.

Se certos alunos atrapalham a aprendizagem dos demais, algo deve ser feito. É possível encaminhar casos mais graves – os que jogam cadeiras nas professoras grávidas e ameaçam professores de morte reiteradamente, por exemplo, pois, para menos que isso os órgãos superiores não costumam dispensar atenção – para Conselho Tutelar e Vara da Infância. E não é raro o caso do aluno que ameaça professor de morte, é transferido de escola, vai à ~Justiça~ (aspas comuns não expressariam meu sarcasmo aqui) e volta no ano seguinte, com ordem judicial para ser matriculado na turma em que desejar. Portanto, não é raro também o professor que pede transferência ou simplesmente falta no dia em que tem aula com a referida turma. A vida profissional de alguém é destruída por causa dos mimos que a lei concede a um adolescente violento e ninguém se importa. Depois se espantam com o índice de 40% de professores deprimidos…

Sempre o ECA, sempre a proteção excessiva ao pequeno ditador, ao jovem sem caráter, ao jovem criminoso. As demais crianças e os outros adolescentes, via de regra, têm dois caminhos: entregar-se à bagunça ao perceber que “não pega nada” aos que destroem a escola e ser popular com isso ou passar uma vida sem amigos, sofrendo bullying, mas lutando para que o professor não desista, não se cale. Os últimos são brilhantes, pois são os que vencem o contexto de injustiça e o convite à deliciosa mediocridade do não-pensar e da irresponsabilidade pelos atos concedida aos que pertencem a grupos (Todo mundo estava conversando! Não fui só eu quem chutou a porta! Todo mundo xingou a professora, metade da sala zoa aquele moleque!). Já lecionei em uma grande e renomada instituição privada, onde havia bons alunos aos montes. Mas, os melhores que já tive, contados nos dedos das mãos, são os pouquíssimos que não caíram na arapuca das facilidades da escola pública. Dentre eles há uma violinista da Orquestra Jovem OSESP, que passou pela máquina destruidora de inteligência e individualidade, mas sobreviveu.

Aprendi com o tempo a perdoar a Escola Pública. E, depois, a entender que ela cumpre à risca o que dela se espera. Ao ser tolerante com a grande legião da má vontade – que não demonstra respeito pela instituição, respeito pelos outros, vontade de estudar, que não cuida do material comprado com o dinheiro do contribuinte ao manter a vaga dos que a destroem, ao acolher tão bem os que debocham dos profissionais da educação, ao funcionar normalmente, sem ventiladores – que foram quebrados pelos próprios alunos – num calor de 38ºC, ao valorizar mais a presença do que o rendimento (o estudante é reprovado automaticamente ao atingir 25% de faltas, ainda que tenha boas notas e é promovido se tiver notas vermelhas e 80% de presença), o sistema transformou a escola prioritariamente num depósito de jovens e não num local de aprendizagem. Nesse espaço cercado de muros e grades, crianças e adolescentes têm vida social, alimentação de qualidade, acesso a computadores, e adultos que serão responsabilizados caso corram nas escadas e levem um tombo (justamente os professores que disseram para não correr), além de e estarem protegidas por algumas horas da “violência do mundo lá fora”, da oferta de drogas, da sexualidade precoce, etc. São apenas algumas horas por dia, é verdade. E, se alguns jovens aprenderem algo no meio do barulho ensurdecedor e da agitação perturbadora das turmas, será antes por mérito próprio e integridade de caráter, além do heroísmo de algum professor, que não desistiu de ensinar indivíduos, ainda que coagido pelo coletivo.

* Não fugiremos desse assunto, que é pauta de todas as greves.

** Reza-se escondido, pois a escola é laica.