Carol Zanette

@carolzanette

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As razões para ir no dia 12

Eu vou ao protesto do dia 12 de abril, assim como fui no dia 15 de março.

E escrevo aqui um resumo de razões, obviamente pessoais, pelas quais eu acho que você deveria ir também.

A primeira delas é uma questão de pressão. Independentemente de o impeachment ser pouco provável, acho importante que o mal-estar que existe com o governo seja manifestado democraticamente nas ruas, assim como ocorreu no dia 15 e nos diversos panelaços. Estamos aprendendo a fazer barulho agora e já provamos que sabemos nos manifestar de maneira pacífica e ordeira. Vamos de novo.

A segunda razão é que o impeachment, mesmo que improvável, seria a solução correta para começar a resolver um grande problema moral do país. Muitas pessoas, ou porque ainda acreditam no petismo (também não entendo como) ou porque querem ser “isentas” argumentam: “mas o PT não inventou a corrupção”. Todos sabemos que não, o PT não inventou a corrupção. Mas o PT ampliou a corrupção até torná-la sistêmica. E a institucionalizou. E instituições dependem de legitimidade, que vem de sistemas culturais. O PT criou um discurso e espalhou-o (usando seu dinheiro e “jornalistas” que se vendem por qualquer valor) até torná-lo um mantra entre seus apoiadores. E qual é esse discurso? É o discurso de que “todos fazem”, minimizando, portanto, a gravidade do problema. É também o discurso de “corrupção é coisa do coxinha que não quer ver pobre andando de avião”. O crime de corrupção é, em tal concepção, pouco relevante perante a “justiça social” que só seria obtida por meio do PT. E todos aqueles que criticam o partido seriam necessariamente opositores da “justiça social”. Acredito que a institucionalização da corrupção em tais moldes seja uma das piores heranças que o PT deixará para o país. É a reinvenção do “rouba mas faz” com um componente moral que coloca todos aqueles que criticam o partido como vilões. Eu vou para a rua no dia 12 para dizer que rejeito tal discurso.

A terceira razão está relacionada à responsabilização. Mesmo que o destino da operação Lava Jato, por questões jurídicas, acabe em pizza e mesmo que não haja fundamentos jurídicos para um impeachment pois não haveria crimes neste mandato, o fato é que Dilma foi durante muito tempo presidente do Conselho de Administração da Petrobrás. E por isso ela é responsável, pelo menos em parte, por todos os “malfeitos” que vêm sendo divulgados. Sem contar as diversas intervenções feitas por seu governo na empresa, que sangraram o caixa da Petrobrás e definharam a estatal. Eu vou para a rua no dia 12 para dizer que a Dilma é responsável pelo caos na Petrobrás (e no setor sucro-energético por tabela).

Vamos novamente!

A quarta razão é que, diferentemente do que muitos dizem, o PMDB não é o maior problema do país. Primeiramente, o PMDB estava na chapa do PT. Quem votou no PT votou também no PMDB. Em segundo lugar porque o PMDB, ainda que fisiológico e com muitos políticos corruptos, não tem relações de sangue com grupos como o MST e o MTST (do Guilherme Boulos), que se um dia foram movimentos sociais com pautas legítimas, há muito deixaram de ser. Além disso, o PMDB não importou médicos cubanos para sustentar ditadores. E também não houve nenhum político do PMDB fazendo campanha para Nicolás Maduro. O PMDB tem os problemas típicos de partidos brasileiros. Mas não faz elegia desse antro de mediocridade que é a esquerda bolivariana latino-americana, uma estrovenga que deveria ficar apenas em filmes ou livros de ficção que misturassem distopia com humor, pois são ditaduras por demais caricatas. Também não ameaça a imprensa pedindo “democratização dos meios de comunicação” a cada vez que se sente acuado. Além disso, o PMDB sustentou a relativamente frágil democracia brasileira em momentos de crise sem arroubos autoritários. Honestamente, Michel Temer seria bem melhor que Dilma Roussef e um congresso com o PMDB nervoso é bem melhor que um congresso apático. Eu vou às ruas dia 12 para dizer que o PT é bem pior que o PMDB.

A quinta razão é porque não podemos abrir mão de nossos valores e opiniões e deixar, como deixamos por tanto tempo, que pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores obtenham o monopólio da virtude. Faz bem pouco tempo que opiniões divergentes passaram a ter algum espaço no debate político brasileiro. A internet teve um papel primordial nisso. Falar em privatizações há até não muito tempo era um sacrilégio (a Petrobrás “é nossa”) Falar em reduzir a burocracia trabalhista era “reduzir direitos”. Tentar um debate sobre violência pública que não colocasse a desigualdade de renda como causa primária era “fascismo”. Tais posicionamentos, muitas vezes dogmáticos, representavam o monopólio da virtude por parte do PT. Estamos conseguindo ter mais pluralidade hoje. E por isso volto às ruas dia 12. Nem o discurso, nem as ruas, nem a virtude devem ser monopólio de um grupo, especialmente de um grupo como o PT.

A última razão é porque eu quero deitar minha cabeça no travesseiro e saber que eu tentei fazer do Brasil um país um pouquinho melhor. Quero dizer aos meus futuros filhos que eu fiz o que estava ao meu alcance. Que discuti, que li, que protestei, que escrevi, que tentei falar com as pessoas… Eu tentei. Eu tento.

Por isso eu vou. Vou mesmo que eu seja a única na minha cidade (o maridão pelo menos vai junto, espero!) Mesmo que esteja chovendo. Vou porque desejo para meus futuros filhos um país mais livre, mais seguro e mais maduro em seu debate político-intelectual.

Duvivier: um estudo de uma espécie típica da fauna petista

Outro dia escrevi aqui que um dos animais mais interessantes da fauna brasileira é o petista que acha que o PT está transformando o Brasil em uma Noruega tropical. Não teve como não me lembrar disso depois que vi o Duvivier no Jô.

O cara diz que vota no PT, em linhas gerais, porque agora muitos têm acesso a bens de consumo. Ele diz que vota na esquerda porque quer todo mundo rico e que por isso não vê contradição alguma entre ser de esquerda e comer no Leblon. Eu, particularmente, pouco me importo com o quê ou onde o Duvivier come. Até onde me consta seu dinheiro e de sua família (sua mãe é uma cantora excepcional, voz divina) vêm de ganhos legais e honestos.

O que é interessante, pois raso, no raciocínio dele é a justificativa do voto. Vamos lá: é fato que o PT tornou universal um programa de assistência social cuja abrangência não era satisfatória. É fato também que o PT incentivou o crédito ao consumo, que possibilitou a muitos a aquisição de bens de consumo que eram antes objetos de desejo.

Porém a ideia de ligar bonança ao PT traz consigo muitos problemas, os quais tento enumerar aqui:

1- A riqueza, para existir, precisa continuar sendo gerada. No primeiro mandato do Lula houve uma tentativa de criar confiança institucional dos agentes que geram a riqueza no PT. Foi o que os analistas chamam de era Palocci. Não que Palocci fosse um santo, mas a dupla Palocci-Meirelles aperfeiçoou a base econômica e institucional herdada pelo governo anterior enquanto o PT fazia seus programas sociais (e José Dirceu fazia o mensalão). Interessante é ver que o pessoal que é petista “da gema” ou nunca menciona o Palocci ou praticamente não o defende. Se o faz, não é com o mesmo ardor com quem defende Genoínos e Dirceus. Por isso, creio que ele possa ter sido abatido da política por “fogo amigo”.

2- Ambientes que criam riqueza, seja esta intelectual, cultural, econômica, etc. são ambientes propícios ao contraditório. O PT sempre fez um discurso de animosidade em relação ao contraditório. É o tal do “nós x eles”, o dividir para conquistar. O fato de termos como “aliados” (hahahahahah) gente como Putin (Dilma foi a ÚNICA a sentar do seu lado no G20), Castro, Maduro et caterva, mostra que o partido nutre muito amor por totalitarismos. Como ter um ambiente propício ao contraditório com um discurso institucional de ódio?

3 – Não adianta estimular o consumo, distribuir riqueza, e não criá-la. E riqueza não é criada por um ente centralizador, no caso o Estado. Onde houve tentativa de centralizar a criação de riqueza, houve pobreza. Dilma, diferentemente de Palocci, não só acredita em algo equivocado (que ela pode criar a riqueza, afinal, ela é uma cepalina), mas acredita nisso dogmaticamente. A partir do momento em que esta senhora tomou as rédeas do país, a coisa começou a degringolar por ela fazer uma receita econômica que incentiva o consumo, mas é tosca na criação da riqueza.

4 – Criação de riqueza exige estabilidade. Não adianta os petistas-que-odeiam-Palocci desdenharem “os mercados”. Os mercados existem e, diferentemente dos consumidores individuais ou de pequenos grupos, no agregado funcionam mais ou menos de maneira racional (exceto quando estão psicóticos ou cegos, o que acontece também, mas não é o caso com a Dilma). Se as regras do jogo mudam durante o jogo, ninguém mais vai querer jogar. Advinhem? É o que a Dilma tem feito.

5 – Houve um crescimento dos países emergentes na primeira década do século XXI, em geral. É bem provável que com qualquer partido governando, com ideologia que não PSOL para baixo (porque aí a Venezuelização seria muito rápida), o padrão de vida geral melhorasse.

Duvivier poderia e faria muito bem se refletisse um pouco sobre esses pontos.

Gregorio_duvivier_Parada

A síndrome do pombo enxadrista

A síndrome do pombo enxadrista é a definição de uma situação hipotética de autoria desconhecida, que diz que debater com certas pessoas é como jogar xadrez com um pombo, ou seja: o animal estraga o jogo, defeca no tabuleiro e sai cantando como se houvesse ganhado.

Comentários de textos em revistas e sites típicos defensores incondicionais do governo federal são feitos por pombos enxadristas. São pessoas usando informações erradas (ou propositadamente distorcidas) em argumentos mal construídos para concordar com o texto lido ou esmagar a opinião de algum desavisado que tenha lá postado de boa fé algo contrário à opinião dos defensores do governo de situação (boa parte sendo paga para passar o dia postando besteira na internet).

Pombo enxadrista

Ainda assim, seria de se esperar que a suposta intelligentsia governista não se comportasse de tal maneira, afinal, espera-se que líderes de governo (exceto o líder supremo, mas isto fica para outro post) ao menos pareçam pessoas educadas fazendo bom uso da língua portuguesa.

Mas definitivamente estamos no worst case scenario. Uma breve pesquisa no Google e encontraremos membros do alto escalão do partido do governo federal, incluindo ministros de Estado, dando as declarações abaixo:

“A nossa oposição fica esperando o que a mídia fala. É igual pegar um corpo inanimado para dar descarga elétrica. Cria no máximo um Frankenstein”.

Empresário ficar fazendo beicinho não dá” (comentário sobre insatisfação de empresários).

“Hoje infelizmente temos um poder econômico amesquinhado e empobrecido do ponto de vista espiritual, mas muito rico do ponto de vista material”

“Quando acontecem as manifestações de junho, da nossa parte, houve um susto. Ficamos perplexos. Quando falo ‘nós’, é o governo e também todos os nossos movimentos tradicionais. [Houve] uma certa dor, uma incompreensão, e quase um sentimento de ingratidão. [Foi como] dizer: ‘fizemos tanta por essa gente e agora eles se levantam contra nós’”.

“A marca de Cuba não é a violação dos direitos humanos e sim ter sofrido uma violação histórica, o embargo americano”.

Os políticos pombos enxadristas utilizam o mesmo comportamento dos pombos enxadristas comentadores de portais da internet. Desdenham da boa educação, da honra e da classe. Desdenha dos repórteres com a sua rudeza. Desdenham também do bom senso dos leitores, já que argumentam de modo falacioso. Por fim, desdenham do empreendedor brasileiro, que é quem paga o salário destes senhores e quem sustenta a Fantástica Fábrica de Ineficácia chamada governo petista (em todos os níveis).

Tamanho desdém, contudo, pode ser resultado da percepção de que pelo menos uma parte dos adversários de xadrez possíveis, os empresários, já concluíram que pombos não são enxadristas. São equivalentes a ratos com asas.

Os entraves ao agronegócio

O saldo da balança comercial (exportações – importações) brasileira em 2013 foi o pior desde o ano 2000. O superávit do país foi de apenas 2,6 bilhões de dólares. Como base de comparação, em 2012 tal saldo totalizou mais de 19 bilhões e nos três anos pré-crise de 2008 os resultados excediam os 40 bilhões de dólares.

A balança comercial é uma foto da economia brasileira atual. O governo do PT investiu em um modelo de “crescimento” que apostava no mercado interno. Facilitou o crédito para consumo, distribuiu benefícios sociais elevou o salário mínimo. Por outro lado, o governo negligenciou os investimentos, de forma que a infraestrutura do país continua muito deficiente, constatação que pode ser feita mesmo sem acesso a quaisquer dados estatísticos, mas simplesmente utilizando qualquer aeroporto nacional. A taxa de investimento do PIB brasileiro em dezembro de 2013 foi de apenas 19%, muito menor que a de países como México e Peru, que investem 25% de eu PIB.

Quando se investe em consumo, mas não em produção, importa-se mais. E é isso que vem acontecendo com o Brasil.

Um dos setores que mais “seguram a onda” das exportações é o agronegócio. Dos dez principais produtos da pauta de exportação brasileira, seis são do setor agropecuário, relacionados à soja, ao açúcar, ao milho e às carnes suína e bovina. O bom desempenho do agronegócio no Brasil deve-se a condições naturais como clima e solo, que proporcionam a existência de suas safras e à tradição agrícola nacional, já que temos escolas agrícolas desde o século XIX, cursos específicos de agronomia e centros como a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a ESALQ-USP. Além disso, em 1972 foi fundada a Embrapa, importante instituição na adaptação de várias culturas ao contexto geográfico brasileiro.

Mesmo sendo um setor tão relevante para a economia brasileira, o produtor rural enfrenta inúmeros problemas para manter seu negócio. Este artigo é uma tentativa de descrevê-los brevemente e iniciar uma discussão aqui neste espaço sobre como podemos facilitar a geração de valor no setor agropecuário.

O primeiro destes desafios é a infraestrutura. Com parcos investimentos por parte do poder público e entraves legais e burocráticos para a ação da iniciativa privada, estradas, portos, ferrovias e aeroportos no Brasil são a calamidade que todos que têm de enfrentar tal situação conhecem. Na região Norte não é incomum que estradas federais fiquem intransitáveis na época da chuva. As ferrovias são inexpressivas. Congestionamentos nos portos trazem prejuízos de centenas de milhões de reais, já que os produtos estragam nos caminhões. Este é um problema crônico e para o qual especialistas e a imprensa já alertam há muitos anos. Nada foi feito.

O segundo desafio é o excesso de intervencionismo somado à falta de planejamento, que está afetando o setor sucro-energético atualmente. Com um pensamento econômico bastante equivocado, a presidente Dilma acredita que é possível conter a inflação provocada por ela mesma (quem investiu em consumo e não em investimento quando chefe da casa civil e presidente, afinal?) com controle de preços. A Petrobrás está defasada e exibindo resultados muito aquém do que seria desejável. Tal situação reflete-se no setor de etanol, já que com o preço da gasolina abaixo do que o mercado exige o preço do etanol também não sobe. O mercado de etanol é intimamente ligado ao do açúcar, já que ambos vêm da cana, e o preço do açúcar chegou a uma baixa histórica recentemente, tendo apenas a partir do fim de janeiro mostrado alguns sinais de recuperação. Prejuízo de muitas empresas nacionais e internacionais que acreditaram nas promessas do presidente Lula quando este “vendeu” o etanol externamente como combustível eficiente e ecologicamente correto (coisa que o etanol é). Porém, com um governo sem planejamento, com a descoberta do pré-sal, uma aposta incerta que renderá muito menos do que o previsto (a revolução do xisto já está acontecendo nos Estados Unidos), todo o suposto compromisso do governo com o setor foi abandonado. Excesso de intervenção e falta de planejamento trazem problemas no mercado de açúcar. feira-tera-maquinas-para-uso-em-plantacoes-e-fazendas

O terceiro desafio é a crônica condenação à propriedade privada, parte da mentalidade de boa parte do setor público brasileiro (incluindo professores universitários). Tal condenação poderia ser exemplificada com processos abertos contra agricultores que muitas vezes carecem de fundamentos e evidências ou mesmo com a tolerância que sucessivos governos mostraram em relação aos movimentos que invadem terras e cometem violências, como o MST. Porém acredito que a situação mais exemplar é a questão indígena. Propriedades legítimas cujos donos há décadas cultivam vêm sendo invadidas constantemente. Existe uma grande pressão para que a proporção de 13% do território nacional hoje ocupada por indígenas seja aumentada. O processo de demarcação é arbitrário (apenas laudo antropológico) e não envolve a sociedade brasileira, representada democraticamente no congresso (por isso a PEC 215/2000 é tão importante, passaria a decisão para o congresso nacional). Além disso, o proprietário rural recebe apenas pelas benfeitorias (máquinas, construções) na maioria dos casos de desapropriação, não sendo indenizado pela terra que lhe foi tomada.

O agronegócio pode evoluir no Brasil. Existem condições naturais e pessoas capacitadas em número suficiente, tanto nas áreas técnicas, quanto nas áreas de gestão, para que sejamos conhecidos como o celeiro do mundo, para que tenhamos uma agricultura que respeite a natureza, gere riqueza e seja solo fértil para inovações. Mas se o governo não quiser ajudar, que pelo menos pare de atrapalhar.