Um exemplo de como Reinaldo Azevedo mente para defender o PSDB

O arquivo de Reinaldo Azevedo está aí. Então, vamos analisar um exemplo prático de como o colunista de Veja desqualificou a delação de Sérgio Machado, ex-líder do PSDB no Senado, para defender o senador Aécio Neves  e o alto tucanato que foram expostos na delação.

A delação, além de implicar Michel Temer e a cúpula do PMDB, explicava como o senador Aécio Neves atuou com a ajuda de Sérgio Machado para arrecadar recursos ilícitos para os deputados do PSDB. Em troca, Aécio Neves contaria com o respaldo da bancada para disputar a presidência da Câmara.

O título de nosso texto diz que Reinaldo Azevedo mentiu. Não damos margem para questão de opinião do jornalista acerca da delação, fazemos uma acusação séria e vamos provar.

Diz Reinaldo Azevedo em um texto de 16/06/2016 que foi atualizado em 8/02/2017 (grifos nossos):

“É mentira que Aécio já fosse pré-candidato à Presidência da Câmara em 1998; qualquer jornalista que cobrisse política à época sabe disso; é mentira que Mendonça de Barros atuasse com recursos de campanha

E Sérgio Machado decidiu deixar claro que, no que lhe diz respeito, a canalhice independe de cor partidária.

Segundo afirmou, quando ainda era tucano, ajudou a arrecadar recursos de forma ilícita para a eleição de 50 deputados, que depois colaboraram para fazer de Aécio Neves presidente da Câmara — o hoje senador teria sido também um dos beneficiários.

Segundo Machado, ele próprio, Aécio e Teotônio Vilela Filho teriam armado um esquema ilegal, que teria movimentado R$ 7 milhões, nas eleições de 1998. Parte dos recursos teria origem na campanha de FHC, e o intermediário seria o ex-ministro e ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros. (…)

O que eu sei
Luiz Carlos Mendonça de Barros nunca atuou como caixa de campanha do PSDB. Isso é simplesmente mentira. Nem mesmo tinha interferência nessa área, seja como presidente do BNDES naquele ano (de novembro de 1995 a abril de 1998), seja como ministro das Comunicações (abril de 1998 a novembro de 1998).

Aécio fala a verdade quando afirma que não se cogitava seu nome como presidente da Câmara em 1998, ano da eleição. Isso só foi acontecer em fevereiro de 2001. Entendam: se houve ou não captação irregular de dinheiro, que se investigue. Afirmar que a candidatura de Aécio à Presidência da Câmara foi calculada com três anos de antecedência e que se procurou eleger uma bancada com esse fim é um delírio absoluto.

Qualquer jornalista que cobria política à época sabe que isso é uma mentira gritante.

Ah, claro!, Aécio era líder do PSDB em 1997, e havia uma notícia ou outra de que poderia ambicionar a Presidência da Câmara um dia, mas era uma especulação sem consistência ainda, que poucos levavam em consideração.”

O texto completo, sem grifos e trechos selecionados, pode ser conferido no blog de Reinaldo Azevedo aqui.

A coluna de Reinaldo Azevedo faz propositalmente uma confusão entre a articulação para a presidência da Câmara, em 1998, e a eleição de Aécio para o posto, em 2001, no mesmo mandato. Quanto ao economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, é importante que o leitor saiba que ele foi sócio da extinta revista Primeira Leitura (que Reinaldo depois virou um dos donos). É curioso que o colunista corra para decretar a honestidade do ex-ministro sem nem ao menos exigir investigação. A delação, lembramos, só vale com provas e esse tipo de movimentação financeira deixa rastros.

Agora, confiram o noticiário da época, que Reinaldo também desqualifica, sobre a tentativa de Aécio Neves ser presidente da Câmara (ainda em 1998) causando instabilidade na base aliada de FHC.

Na Folha de São Paulo:

(20/04/1997)

“É evidente que há muito mais do que uma rixa pessoal por trás das desavenças entre os líderes do PSDB, Aécio Neves, e do PFL, Inocêncio Oliveira.

O quase confronto físico entre Aécio e Inocêncio, na semana que terminou ontem, é só a ponta de um problema estrutural que está se solidificando entre os partidos que compõem a base do governo. (…)

A se confirmarem as previsões mais óbvias para a eleição do ano que vem, o presidente Fernando Henrique Cardoso será reeleito. Com isso, os tucanos entrarão em 99 com a maior bancada no Congresso. (…) É por isso que Inocêncio Oliveira tanto implica com Aécio Neves. Preocupado em reconquistar a presidência da Câmara em 99, o líder pefelista precisa se firmar desde já.”

(20/04/1997)

O PSDB mandou recado a Inocêncio Oliveira (PFL). Se continuar a brigar com os tucanos, o partido boicotará sua candidatura à presidência da Câmara em 99. Ele já se atritou com Serjão, José Aníbal e Aécio Neves.”

(03/08/1997)

“Preocupação de estadista: Outra briguinha já começa a ganhar corpo entre PFL e PSDB. Sonhando em presidir a Câmara em 99, os líderes Inocêncio Oliveira e Aécio Neves disputam quase no tapa o crescimento de suas bancadas nas eleições de 98.”

(07/10/1997)

O PSDB hoje não teria um nome de expressão para disputar a presidência da Câmara, caso se torne a maior bancada em 98. O líder Aécio Neves quer, mas não é levado a sério.

(01/08/1998)

Um acordo costurado entre as cúpulas do PMDB e do PFL deverá garantir a reeleição dos presidentes do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP).

O maior obstáculo ao entendimento é o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), que mantém a disposição de disputar a presidência da Casa com o PMDB. (…) Outro problema é o PSDB. O líder tucano na Câmara, Aécio Neves (MG), diz que o partido tentará a presidência da Câmara se conseguir a maior bancada este ano.”

Nós vamos além! Buscamos uma biografia autorizada de Aécio Neves, escrita por Ana Vasco e prefaciada pelo ex-presidente FHC. No livro ‘Aécio Neves De Facto Et De Jure”, a disputa pela presidência da Câmara é descrita da seguinte maneira (grifos nossos):

Durante todo o ano, Aécio Neves dedicou-se, também, à campanha eleitoral de Fernando Henrique para a eleição presidencial, à sua própria campanha para deputado e à expansão da bancada tucana na Câmara Federal. (…)

O empenho de Aécio e outros líderes do partido deu bons resultados. Nas eleições de 1998, o PSDB, além de conseguir reeleger Fernando Henrique, 7 governadores e 15 senadores, foi o partido que mais cresceu na Câmara dos Deputados, passando a ocupar mais 33 cadeiras, além das 67 que o partido já possuía. (…)

Com o resultado obtido nas urnas, Aécio Neves ganhou confiança para reivindicar a participação do PSDB nas eleições para a presidência da Câmara. Sua primeira ação foi ameaçar o rompimento do acordo – feito com os parlamentares do PMDB, antes das eleições – que previa o apoio dos tucanos na reeleição do deputado Michel Temer para o cargo. Depois, Aécio tomou a frente das negociações com os partidos de oposição, para possibilitar uma candidatura avulsa para a formação da nova Mesa Diretora da Casa. (…)

O partido, unido ao PFL e ao PPB (…), ameaçou lançar um candidato avulso à presidência da Câmara. Aécio defendia muito essa ideia e sonhava alto com o cargo que queria ocupar. No entanto, um acordo entre líderes do governo e os partidos da base aliada garantiu que a eleição da nova mesa diretora e a composição das comissões técnicas e especiais fossem determinadas pelo tamanho das bancadas eleitas no último pleito. Assim, Michel Temer conseguiu, em 2 de fevereiro, garantir forças para se reeleger presidente da Câmara com 422 votos.”

Agora, vamos ao arquivo do jornal O Globo, resgatado por Guilherme Amado na coluna de Lauro Jardim:

 

Reportagens de 1998 sobre o noticiário político podem não ser muito úteis para a defesa de Aécio Neves contra as acusações que Sérgio Machado fez a ele na delação premiada.

Machado afirmou que houve um esquema de financiamento de candidatos tucanos naquele ano para o PSDB eleger uma bancada gorda e engrossar as chances de Aécio concorrer à presidência da Câmara em 2001.

O principal argumento usado por Aécio para rebater o delator foi afirmar:

— Qualquer pessoa que acompanha a cena política brasileira sabe que, em 1998, sequer se cogitava a minha candidatura à presidência da Câmara dos Deputados, o que só ocorreu muito depois.

Reportagens de 1998 do GLOBO, no entanto, mostram que Aécio se colocava já naquele ano como candidato à presidência da Câmara — com o apoio de Sérgio Machado inclusive —, o que chegou a ameaçar o pacto entre PFL e PMDB para a reeleição de Michel Temer, na presidência da Câmara, e de Antonio Carlos Magalhães, na presidência do Senado. Os dois acabariam reeleitos, com o apoio do PSDB.

Em 15 de outubro, disse Aécio ao GLOBO, insurgindo-se contra o acordo de Temer e ACM:

— O PSDB tem o dever de participar dessa discussão. Queremos um projeto para a Câmara. Somos o segundo maior partido da Casa e não há o menor sentido em aceitar um acordo feito antes desta eleição. Além disso, não vejo essa vinculação entre a presidência da Câmara e do Senado.

Poucos dias antes, no dia 9, Aécio recomendava “humildade” a Jáder Barbalho, então presidente do PMDB, que defendia a reeleição de Temer:

— O presidente de um partido que chega com uma bancada federal tão distante de suas projeções iniciais e tão abaixo da bancada do PSDB tem que ter um pouco mais de humildade para discutir o assunto. Não há hipótese de um acordo que exclua o PSDB.

Na mesma reportagem, logo depois, o próprio Sérgio Machado, então líder do PSDB no Senado, defende o plano:

— O jogo mudou. Mudou a correlação de forças. Temos o direito de exigir a presidência da Câmara.

Até Michel Temer, em entrevista a Jorge Bastos Moreno, publicada em 18 de outubro, comentou o assunto. Perguntou Moreno:

— Então o senhor acha precipitada a manifestação do líder Aécio Neves pleiteando para ele e para o PSDB a presidência da Câmara?

Respondeu Temer:

— Cada um tem seu estilo. Para o meu gosto, entendo que este não é o momento de se tratar desse assunto.

Ouvido pela coluna, Aécio afirma, novamente, que Sérgio Machado mente e que “isso ficará provado”. Diz Aécio:

— Especulações sobre candidaturas são absolutamente normais e fazem parte da política, são lícitas e não se confundem com as acusações feitas por ele. O senhor Sérgio Machado nunca exerceu, nos governos do PSDB, qualquer cargo que lhe permitisse oferecer qualquer tipo de vantagem a quem quer que fosse. Minha eleição para a presidência da Câmara em 2001 se deu graças a uma grande articulação política, conhecida por todos, que uniu PSDB e PMDB.

Evidentemente, nada disso prova a afirmação de Machado, de que arrecadou ilicitamente recursos para eleger 50 deputados tucanos.

Machado tem agora que dar os nomes aos bois, ou mais precisamente o nome dos 50 deputados. Em sua delação, não deu um nome sequer.”

Não é só o arquivo de Reinaldo Azevedo que está aí.

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

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5 comentários para “Um exemplo de como Reinaldo Azevedo mente para defender o PSDB

  1. Pedro Rocha

    Tá posa de bonzão dono da verdade mas uma hora ele sentiria o peso do abandono e da desmoralização pela qual está passando.

    Como não tem como se justificar e cada vez mais ridicularizado, partiu para a baixaria com tudo e inutilmente está mentindo tentando inverter os fatos.

    http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/extrema-direita-que-arma-a-volta-de-lula-se-junta-contra-mim/

    Ele ataca a Lava Jato a ponto da extrema-esquerda usar seus textos e diz que quem discorda dele é que promove o petismo! Foi patético aquele texto no qual ele se autoproclama como o maior “fuzilável” pela esquerda – como se não fosse aliado e pago por eles na Folha – e agora esse chilique infantil típico de criança que tenta esconder a culpa apontando para os outros.

    Sinceramente, não achava que Reinaldo Azevedo se rebaixaria tanto!

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    • Marcos

      Esse texto soa assim para mim: “por favor, parem de me bater, olha lá, os esquerdistas estão voltando!”

      Sinal de que está acusando o golpe e precisa distrair a atenção dos críticos para tomar fôlego. Como se ele mesmo não estivesse dando toda a munição que pode para que Lula escape da condenação e possa concorrer em 2018. Não que eu acho que isso vai acontecer, mas o fato é que ele fez direitinho a parte dele para isso.

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  2. The End

    Esse opúsculo da análise e da retórica política, me lembra do dia que RA confessou ser um esquerdista, que ” tira uma onda” fazendo o papel de direitista!
    Eu parei com a mídia brasileira, o diversionismo é tão alto, que parece jogo de cartas marcadas, o objetivo ?
    ALIENAR AO POVO!
    O PSDB é sócio ideológico, daquele embuste eleitoreiro, que se aproveitou das reservas de mercado, para tentar sua sorte.
    Perda Total !

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  3. Pedro Rocha

    Parece-me que já está claro que Reinaldo Azevedo está completamente desmoralizado. Comparando-o hoje com um tucano ainda enrustido que atende pelo pseudônimo “Luciano Ayan”, vejo este como um inimigo mais perigoso.

    Já fazia tempo que não via o site do Ayan e não me surpreendi com ele atacando a manifestação de 26/03/17 e Eduardo Bolsonaro. Mas a diferença é que ele ainda finge usar uma lógica superior a qual os conservadores devem obedecer enquanto o Reinaldo já descambou para a baixaria, virando o “Brasil 24/7” do PSDB.

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