Um Conto de Duas Revoluções, por Robert A. Peterson

Um Conto de Duas Revoluções, por Robert A. Peterson. Tradução de @maresolitude.

Terça, 1º de Agosto de 1989.


O senhor Peterson é diretor da The Pilgrim Academy em Egg Habor City, Nova Jérsei.

O ano de 1989 marca o 200º aniversário da Revolução Francesa. Para celebrá-la, o governo francês está fazendo a sua maior festa dos últimos 100 anos no mínimo e para durar o ano inteiro. Nos Estados Unidos, um Comitê Americano sobre a Revolução Francesa foi estabelecido para coordenar os programas neste lado do Atlântico, enfatizando o tema, “França e América: Parceiros na Liberdade.”

Mas foram a Revolução Francesa e a Revolução Americana realmente similares? Superficialmente, havia paralelos. Porém ao longo dos últimos dois séculos, vários observadores conectam a Revolução Americana à pacífica Revolução Gloriosa de 1688, enquanto que a Revolução Francesa tem sido considerada a precursora das muitas e violentas revoluções que resultaram em totalitarismo. Como o naturalista, autor, soldado e príncipe russo Petr Kropotkin afirma, “O que aprendemos do estudo da Grande Revolução [Francesa] é que ela foi a fonte de todas as atuais concepções comunistas, anarquistas e socialistas

É pelo fato de a Revolução Francesa ter terminado de forma tão violenta que muitos franceses têm problemas em celebrá-la no seu 200º aniversário. O autor francês Leon Daudet escreveu: “Comemorar a Revolução Francesa? Isso daí é como celebrar o dia em que você pegou febre escarlate.” Um Movimento Anti-89 até mesmo começou a vender lembranças para que o francês de hoje recorde dos excessos da Revolução, incluindo faixas de braço na cor preta em apoio à nobreza e calendários que zombam das datas sagradas da Revolução Francesa.

Os franceses deveriam de fato se sentir incomodados em relação à sua Revolução, pois enquanto que a Revolução Americana trouxe uma economia relativamente livre e um governo limitado, a Revolução Francesa trouxe primeiro a anarquia e depois uma ditadura.

A França do século XVIII era o maior e mais populoso país da Europa Ocidental. Abençoada com um solo rico, recursos naturais e um litoral longo e variado, a França era a maior potência da Europa e a cultura dominante no continente. Infelizmente, como todos os outros países da Europa daquele tempo, a França era adepta da filosofia econômica do mercantilismo. Ao desencorajar o livre comércio com outros países, o mercantilismo mantinha as economias das nações-estados da Europa na estagnação e suas populações na pobreza.

No entanto, em 1774, o rei Luís XVI tomou uma decisão que poderia ter evitado a Revolução Francesa ao injetar novo gás na economia da França: Ele nomeou o fisiocrata Robert Turgot como Controlador Geral das Finanças. Os Fisiocratas eram um pequeno grupo de seguidores do médico francês François Quesnay, cujas recomendações econômicas incluíam impostos reduzidos, menos regulação, a eliminação dos monopólios fornecidos pelo governo e das taxas e tarifas internas — idéias que encontraram o seu grito de guerra no famoso slogan, “laissez-faire, laissez-passer.”

Os fisiocratas exerceram uma profunda influência em Adam Smith, que passou um tempo na França durante a década de 1760 e cujo clássico A Riqueza das Nações incorporava o ataque dos fisiocratas ao mercantilismo e argumentava que as nações enriquecem ao praticar o livre comércio. [2] Sobre Smith, Turgot e os fisiocratas, o grande estadista Frédéric Bastiat (1811-1850) escreveu: “A base de todo o seu sistema econômico pode ser verdadeiramente dito que reside no princípio do auto-interesse. . . . A única função do governo de acordo com essa doutrina é proteger a vida, a liberdade e a propriedade.” [3]

Abraçando o princípio do livre comércio não apenas como um conveniente temporário, mas como uma filosofia, Turgot conseguiu que o rei assinasse um decreto em janeiro de 1776 que abolia os monopólios e privilégios especiais das guildas, corporações e companhias de comércio. Ele também aboliu o trabalho forçado dos camponeses nas estradas, a odiada corveia. Ele, então, dedicou-se a simplificar as tarifas internas da França. Ao limitar os gastos do governo, ele pôde cortar o orçamento em 60 milhões de libras francesas e reduzir os juros da dívida nacional de 8.7 milhões para 3 milhões de libras francesas.

Tivesse Turgot a permissão para continuar com as suas políticas de livre comércio e menos intervenção do governo, a França poderia muito bem ter sido o primeiro “mercado comum” da Europa e teria evitado uma revolução violenta. A maré em ascensão teria levantado todos os barcos. Infelizmente para a França e para a causa da liberdade, a resistência da Corte e de grupos de interesse provaram-se muito poderosos e Turgot foi exonerado da sua posição em 1776. “A exoneração desse grande homem,” escreveu Voltaire, “esmaga-me. . . . Desde esse fatídico dia, eu não tenho acompanhado nada. . . e estou pacientemente esperando que alguém venha cortar nossas gargantas.” [4] Os sucessores de Turgot, seguindo a política mercantilista de intervenção governamental, apenas fizeram a economia francesa piorar. Em um movimento desesperado para encontrar dinheiro diante da insatisfação geral ao redor do país e reestabelecer a harmonia, Luís XVI concordou em convocar os Estados Gerais para maio de 1789. Enquanto isso, o novo ministro das finanças do rei, Jacques Necker, um especialista financeiro suíço, prorrogou os efeitos do mercantilismo ao importar grandes quantidades de grãos.

No dia 5 de maio, os Estados Gerais reuniram-se em Versalhes. Em 17 de junho, o Terceiro Estado proclamara-se em Assembléia Nacional. Três dias depois, os delegados fizeram o famoso Juramento de Péla [nota do tradutor: péla é uma modalidade esportiva], prometendo não se separar até que a França tivesse uma nova constituição.

Mas a verdadeira Revolução Francesa não começou em Versalhes, mas nas ruas de Paris. No dia 14 de julho, uma turba de parisienses atacou a  velha fortaleza conhecida como Bastilha, libertando, como disse um observador, “dois idiotas, quatro falsificadores e um depravado”. A Bastilha não estava mais sendo utilizada como prisão política e Luís XVI até mesmo tinha planos para destrui-la. Isso fez pouca diferença para a turba, que estava de fato procurando por armas.

Prometendo aos guardas salvo-conduto se eles se rendessem, os líderes da turba quebraram sua palavra e os trucidaram até a morte. Seria a primeira das muitas promessas não cumpridas. Logo as cabeças, torsos e mãos dos outrora guardas da Bastilha estavam balançando nas pontas das lanças pelas ruas. “No fim,” como o historiador Otto Scott colocou, “um vitória gloriosa de cidadãos desarmados sobre as forças da tirania, ou foi mais ou menos isso que os jornais e a história depois disseram.”[5] A Revolução Francesa havia começado.

Apesar do derramamento de sangue na Bastilha e o quebra-quebra em Paris, havia algumas pessoas pensando de forma sensata. Mirabeau queria manter a Coroa mas também limitá-la. “Nós precisamos de um governo como aquele da Inglaterra,” ele disse [6]. Mas os franceses não apenas odiavam coisas inglesas, eles começaram a desprezar a sua própria herança cultural — tanto a parte boa quanto a ruim. No dia 5 de outubro, a Assembléia abraçou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão — um bom documento decerto, mas apenas se fosse para ser respeitado.

Vinte e oito dias depois, a Assembléia mostrou que não tinha nenhuma intenção de fazê-lo: Todas as propriedades das igrejas na França foram confiscadas pelo governo. Era a maneira errada de criar uma sociedade livre. Certamente a Igreja [Católica] era responsável por alguns abusos, mas buscar a construção de uma sociedade livre destruindo os direitos de propriedade é como derrubar árvores para que cresça uma floresta. Tal confisco apenas estabeleceu um precedente para violações posteriores dos direitos de propriedade, o qual, por seu turno, viola os direitos individuais — os mesmíssimos direitos do homem e do cidadão que o novo governo estava proclamando tão histericamente. Ao confiscar as propriedades das igrejas — não importa o quão justificado fosse — os líderes revolucionários na França mostraram que eles não estavam interessados em uma sociedade verdadeiramente livre, apenas em uma que fosse criada à imagem e semelhança de seus próprios filósofos. Como Bastiat mais tarde observou, eles estavam entre os primeiros engenheiros sociais do mundo moderno.

Não demorou para que a França começasse a mergulhar em um abusmo no qual ela ficaria pelos próximos 25 anos. Nas cidades onde os prefeitos leais à nobreza ainda eram populares, bandos de homens invadiam as assembléias locais e matavam os seus magistrados. Milhares de pessoas vendiam suas casas e fugiam do país, levando consigo habilidades e capital humano preciosos. Fançois Babeuf, o primeiro comunista moderno, criou a Sociedade dos Iguais dedicada a abolir a propriedade privada e a destruir todos aqueles que tivessem algum patrimônio. Os guardas do rei foram eventualmente capturados e mortos. O Marquês de Sade, que deu ao mundo o termo sadismo, foi libertado da prisão. A Comuna de Paris tomou conta da capital francesa.

Inflação Através da Moeda Fiduciária

As ações do governo eram ainda mais radicais do que aquelas do povo em geral. Para arcar com a contínua crise econômica, a Assembléia recorreu ao dinheiro impresso — os infames assignats, lastreados ostensivamente na propriedade confiscada das igrejas. Ainda que a maior parte dos delegados estivesse ciente dos perigos do dinheiro impresso, imaginava-se que se o governo emitisse apenas uma quantidade pequena — e que fosse lastreada nas propriedades confiscadas — os assignats não criariam o tipo de desastre econômico que haviam ocorrido no uso de dinheiro impresso no passado.

Mas como sempre acontece na história, o governo mostrou-se inapto em se disciplinar. Como Andrew Dickson observou na sua obra Fiat Money Inflation in France: “Pediam-se novos lotes de dinheiro impresso da mesma maneira que um bêbado pede mais garrafas. Novos lotes apenas aumentavam o mal; capitalistas estavam muito relutantes em investir o seu dinheiro nesse mar de dúvidas. Trabalhadores de todos os tipos eram cada mais vez deixados no desemprego. Lote após lote da moeda veio; mas nenhum alívio resultou disso exceto um estímulo momentâneo que agravou a doença.” [7]

Escrevendo da Inglaterra em 1790, muito antes da inflação francesa ter feito o seu pior, Edmund Burke viu os perigos da moeda fiduciária. De acordo com Burke, emitir assignats era a resposta simplista do governo para qualquer problema: “Há uma dívida a ser paga urgentemente? Emita assignats. Compensações precisam ser feitas ou um auxílio decretado àqueles que tiveram suas propriedade subtraídas em seus empregos, ou foram expulsos de suas profissões? Assignats. Uma nova esquadra será inaugurada? Assignats. . . . Os velhos assignats estão depreciados em seu valor de mercado? Qual é a cura? Emita novos assignats.” Os líderes da França, disse Burke, são como médicos charlatões que receitam o mesmo remédio para todas as doenças.

Burke viu na Revolução Francesa não uma redução no poder do Estado, mas o seu aumento: “O estabelecimento de um sistema de liberdade deveria dar nova força [à moeda da França]; e portanto teria de fato feito isso se um sistema de liberdade tivesse sido estabelecido.” Quanto ao confisco das propriedades — primeiro a propriedade da Igreja Católica; depois de qualquer um acusado de ser um inimigo da Revolução — Burke disse: “Nunca um Estado, em qualquer caso, enriqueceu a si mesmo através do confisco das propriedades dos cidadãos.” [8]

Mas a emissão de assignats era apenas o começo. Na primavera de 1792, o primeiro Comitê de Segurança Pública foi estabelecido, encarregado de julgar e punir os traidores. Não demorou para que o sangue corresse nas ruas de Paris, enquanto milhares de pessoas eram mortas na guilhotina. No outono seguinte, o governo francês anunciou que estava preparado para ajudar os povos oprimidos do mundo a ganhar sua liberdade. Assim, em vez de exportar pacificamente produtos franceses e idéias francesas sobre liberdade, os franceses começaram a exportar guerra e revolução. . . Daí o ditado, “Quando a frança espirra, o mundo inteiro pega gripe.”

À medida que mais soldados eram necessários para “libertar” o resto da Europa, a França instituiu o primeiro alistamento militar obrigatório — a condição máxima de controle estatal sobre as vidas dos cidadãos. Enquanto isso, por se opôr à Revolução, a maior parte da cidade de Lyons foi destruída. E Lafayette, que havia inicialmente abraçado a Revolução, foi preso como traidor.

Controles Sufocantes

Não demorou para que um imposto de renda progressivo fosse aprovado, preços dos grãos foram controlados, e a pena de morte foi imposta aos que se recusassem a vender segundo os preços definidos pelo governo. Cada cidadão era obrigado a andar com um cartão de identidade emitido pela comuna local e chamado de, em uma distorção owerlliana da língua, Certificados de Boa Cidadania. Cada casa tinha que afixar na parte de fora uma listagem de seus ocupantes legais; as Comunas Revolucionárias tinha comitês que vigiavam todo mundo na vizinhança; e passes especiais eram necessários para viajar de uma cidade para outra. As prisões logo ficaram abarrotadas com mais pessoas do que na época do rei Luís XVI. Eventualmente, uma fulminante torrente de leis foi aprovada de tal maneira que virtualmente todos os cidadãos eram tecnicamente culpados de algum crime contra o Estado. O desejo pela igualdade absoluta fez com que todos se designassem de “cidadão”, bem parecido com os comunistas dos dias atuais e que se designam entre si de “camaradas”.

A educação foi centralizada e burocratizada. As antigas tradições, dialetos e lealdades locais que ajudavam a prevenir a centralização — e, assim, a tirania — foram eliminadas, enquanto a Assembléia estabelecia uma rede definida matematicamente de departamentos, cantões e municipalidades em uma França insuspeita. Cada departamento tinha de ser comandado exatamente como os demais. Considerando que as “diferenças” eram aristocráticas, planejamentos eram feitos para eliminar culturas, dialetos e costumes locais. Para conseguir tal feito, professores — pagos pelo Estado — começaram a ensinar uma língua uniforme. O conteúdo do currículo escolar era controlado totalmente pelo governo central. Ao resumir tal programa, Saint-Juste disse, “As crianças pertencem ao Estado,” e defendia que os meninos fossem tomados de suas famílias quando tivessem 5 anos de idade. [9]

Muito do estatismo moderno com todos os seus horrores de desrespeito pelo individualismo começou com a Revolução Francesa. O “expurgo”, a “comuna”, a cor vermelha como símbolo do estatismo, e até mesmo os termos políticos esquerda, direita e centro vieram dessa época. A única coisa que deu um fim à carnificina — dentro da França, pelo menos — foi “um homem montado sobre um cavalo,” Napoleão Bonaparte. A Revolução Francesa trouxera primeiro a anarquia, depois o estatismo, e, finalmente, uma ditadura. Não fosse pelo espírito indomável do francês médio e a posição da França como o maior país da Europa Ocidental, a França talvez nunca tivesse se recuperado.

Agora, contrastem tudo isso ao que foi a Revolução Americana — mais corretamente chamada de Guerra de Independência. A Revolução Americana foi diferente porque, como Irving Kristol observou, ela foi “uma revolução moderada e relativamente sem sangue. Uma guerra foi feita com certeza e soldados morreram nela. Mas. . . não houve a selvageria que nós estamos acostumados a aceitar como natural em uma guerra revolucionária. . . Não houve uma ‘justiça revolucionária”; não houve um reino do terror; não houve proclamações sedentas de sangue feitas pelo Congresso Continental.” [10]

Uma “Revolução Conservadora”

A Revolução Americana foi essencialmente um movimento “conservador”, feito para conservar as liberdades que os colonos tinham duramente construído desde a década de 1620 durante o período da “negligência salutar” britânica — na realidade, um período de governo baseado no laissez-faire no que diz respeito às colônias. Samuel Eliot Morison observou: “[A] Revolução Americana não foi feita para obterliberdade, mas para preservar as liberdades que os americanos já possuíam como colonos. A independência não foi um objetivo consciente, secretamente cultivado em algum porão ou em uma mata por conspiradores barbudos, mas um último recurso, para preservar ‘a vida, a liberdade e a busca pela felicidade.'” [11]

Um senso de moderação prevaleceu durante todo o período. No Motim do Chá de Boston (ou Festa do Chá de Boston), não houve feridos ou destruição de propriedade, exceto o chá. Um patriota até mesmo retornou no dia seguinte para substituir um cadeado em uma arca marítima que tinha sido quebrado acidentalmente. [12] Isso não era o trabalho de anarquistas que queriam destruir tudo diante de si, mas de cidadãos ingleses que simplesmente queriam ter suas queixas atendidas.

Após o Massacre de Boston, quando soldados britânicos que tinham aberto fogo contra uma multidão foram trazidos para julgamento, eles foram defendidos pelos advogados americanos James Otis e John Adams. Em qualquer outra “revolução”, esses dois homens estariam pedindo que os soldados fossem executados. Em vez disso, eles os estavam defendendo no tribunal.

Quando a guerra finalmente começou, levou mais de um ano para que os colonos declarassem sua independência. Nesse ínterim, os oficiais do Exército Continental ainda bebiam com a saudação “Deus Salve o Rei.” Quando a independência foi finalmente declarada, foi mais por uma questão de desespero do que por um planejamento cuidadoso, enquanto os colonos buscavam a ajuda das nações estrangeiras, particularmente dos franceses. No final, foi a monarquia francesa — não os revolucionários [franceses; NT], já que eles ainda não estavam no poder — que ajudou a América a obter sua independência.

Ao longo dos sete anos da guerra americana, não houve execuções em massa, “reinados do terror”, rios de sangue correndo pelas ruas das cidades da América. Quando um congressitas sugeriu a George Washington pilhar o interior ao redor do Vale Forge para obter suprimentos para a sua famélica tropa, ele recusou de imediato, dizendo que tal ação iria colocá-lo no mesmo nível dos invasores.

A maioria das revoluções devoram aqueles que as iniciaram; na França, Marat, Robespierre e Danton todos tiveram uma morte violenta. Mas quando, em Newburgh (Nova Iorque), alguns oficiais ofereceram a Washington um poder virtualmente ditatorial, ele resistiu o seu impulso natural de comandar e insistiu que os oficiais apoiassem o processo republicano legislativo. O professor Andrew C. McLaughlin observou: “Ensinar nossos jovens e persuadir-nos de que os heróis da controvérsia eram apenas aqueles participando em motins do chá e vários atos de violência é inculcar a crendice de que a liberdade e a justiça estão principalmente na força da baderna. E ainda como uma questão de simples fato, a auto-moderação dos colonos é o mais notável; e o sucesso deles em realmente estabelecer instituições sob as quais nós ainda vivemos foi um feito extraordinário. Ninguém que conte a verdade sobre a Revolução tentará esconder o fato de que havia desordem. . . . [ainda assim] nós a encontramos explícita no conjunto da obra graças à capacidade política construtiva.” [13]

Sem Ataques à Liberdade Religiosa

Na América, ao contrário da França, onde os dissidentes religiosos eram condenados à morte, não houve um ataque indiscriminado à liberdade de religião. Na Convenção Constitucional de 1787, havia devotos congregacionalistas, episcopalianos, membros da Igreja Reformada da Holanda, luteranos, quacres, presbiterianos, metodistas, e católicos romanos. O deísta Benjamin Franklin pediu que uma oração fosse feita durante a Convenção e, vários meses depois, George Washington discursou em uma sinagoga. Durante a Revolução, vários membros do Congresso Continental frequentavam os sermões pregados pelo presbiteriano John Witherspoon, e ao mesmo tempo em que Thomas Jefferson trabalhava para separar igreja e estado na Virgínia, ele pessoalmente levantou recursos para pagar os salários dos ministros anglicanos, que perderiam o seu sustento bancado via impostos. Em assuntos religiosos, os líderes da Revolução da América concordavam em discordar.

Finalmente, ao contrário da Revolução Francesa, a Revolução Americana trouxe o que iria se tornar uma da sociedades mais livres do mundo. Houve, claro, dificuldades. Durante o “período crítico” da história americana, de 1783 até 1787, os 13 estados agiam como se fossem 13 nações separadas, cada uma cobrando impostos de importação ao seu bel prazer. Nova Iorque impunha tarifas sobre a cidra de Nova Jérsei, produzida do outro lado do rio, o mesmo facilmente ocorria com o rum das Índias Ocidentais. A guerra havia sido ganha, mas as batalhas diárias no mercado estavam sendo perdidas.

A Constituição dos E.U.A. mudou tudo isso ao proibir que os estados taxassem uns aos outros. O resultado foi, como John Chamberlain escreveu na sua obra sobre a história dos negócios na América, “o maior ‘mercado comum’ na história.” [14] A Constituição também buscava proteger os direitos de propriedade, incluindo os direitos às idéias (patentes e copyrights) e os de crença (a Primeira Emenda). Para Madison, esse era de fato o único propósito de um governo civil. Em 1792, ele escreveu: “O governo é instituído para proteger a propriedade de todo tipo. . . . Este sendo o único fim do governo, que apenas por si é um governo justo o qual imparcialmente garante a todo homem aquilo que lhe pertence.” [15] Alexander Hamilton, o primeiro Secretário do Tesouro, ajudou a restaurar a fé no crédito público com o seu programa econômico. Foi sob sua recomendação que o dólar americano foi definido em termos de hard money — prata e ouro. (Na Convenção Constitucional, os delegados estavam tão contrários à simples emissão de dinheiro impresso, que Luther Martin de Maryland reclamou que eles estavam “tomados pelo pavor ao dinheiro de papel.”)

As tendências centralizadoras de Hamilton teriam sido impróprias em qualquer outro momento na história americana; mas na década de 1790, o programa dele ajudou 13 nações se combinarem para formar um único Estados Unidos. Houvessem os sucessores na Secretaria do Tesouro continuado a trajetória iniciada por Hamilton de fortalecer o governo federal, às custas dos estados, a expansão econômica da América teria sido natimorta.

Felizmente, quando Jefferson chegou ao poder, ele trouxe consigo o financista e economista suíço Albert Gallatin, que serviu Jefferson por dois mandatos e Madison por um. Diferentemente do seu compatriota Necker, cujas políticas mercantilistas apenas aceleraram a chegada da Revolução Francesa, Gallatin estava comprometido a limitar o governo e a pôr em ação uma política econômica de livre mercado. Estabelecendo o tom do seu governo, Jefferson disse no seu discurso inaugural: “E ainda há mais uma coisa, caros cidadãos — um governo sensato e frugal, que impedirá as pessoas de se prejudicarem umas às outras, deve deixá-las de outra forma livres para regular suas próprias atividades de indústria e de progresso, e não deve tirar da boca do trabalhador o pão que ele batalhou para conseguir.”

Pelos oito anos seguintes, Jefferson e Gallatin trabalharam para reduzir a dívida nacional bem como os impostos. A dívida nacional foi reduzida de $83 milhões para $57 mihões, e a quantidade de funcionários federais foi diminuída. Apesar das restrições ao comércio ocasionadas pelos decretos de Berlim e Milão, feitos por Napoleão, e o bloqueio britânico à Europa, os comerciantes americanos continuaram a estabelecer conexões ao redor do mundo. No final do primeiro mandato de Jefferson, ele podia se gabar: “Qual agricultor, qual mecânico, qual trabalhador chega a ver um coletor de impostos nos Estados Unidos?” [16] Em 1810, a América estava a caminho de se tornar a maior potência econômica do mundo. A França, enquanto isso, ainda definhava sob a pesada mão de Napoleão.

No seu relatório à Casa dos Representantes naquele mesmo ano, Gallatin resumiu as razões para a prosperidade da América: “Nenhuma causa. . . tem talvez mais promovido em todos os sentidos a prosperidade geral dos Estados Unidos do que a ausência daqueles sistemas internos de restrições e de monopólios que continuam a desfigurar o estado da sociedade em outros países. Não há leis aqui que direta ou indiretamente limitem um homem a uma profissão ou lugar em particular ou que excluam qualquer cidadão de qualquer atividade que ele pense em dado momento ser apropriada a seguir. A indústria é em todos os sentidos perfeitamente livre e sem restrições; cada tipo de ofício, comércio, arte, profissão e manufatura está igualmente aberta a todos sem necessitar de quaisquer aprendizagem, admissão ou licença prévias.” [17] À Revolução Americana, seguiu-se 200 anos de crescimento econômico sob o mesmo governo. Em contraste, a Revolução Francesa foi seguida de instabilidade política, incluindo três revoluções, um diretório, o Reinado do Terror, uma ditadura, a restauração da Monarquia dos Bourbon, outra monarquia e cinco repúblicas. Hoje, o socialismo tem um domínio mais considerável na França do que tem na América — ainda que a América não esteja tão atrás. Embora elas estivessem próximas no tempo, foi a Revolução Francesa que estabeleceu os critérios para a Revolução Russa e as outras revolução modernas, não a Revolução Americana.

A Opinião de Bastiat

Frédéric Bastiat claramente enxergou a diferença entre as duas. A Revolução Francesa, argumentou ele, foi baseada na idéia de Rousseau de que a sociedade é contrária à natureza e, portanto, deve ser radicalmente mudada. Porque, de acordo com Rousseau, o “contrato social” havia sido violado no começo da história do homem, isso permitiu a todas as partes desse contrato a retornar para um estado de “liberdade natural.” Em essência, o que Rousseau estava dizendo era, “Eliminem todos os freios da propriedade e da sociedade, destruam o sistema existente. Então, vocês serão livres, livres para se perderem na bondade coletiva da humanidade, sob os meus cuidados.” [18]

Os engenheiros sociais que emergiram do Caos da Revolução Francesa incluíam Robespierre e Napoleão. Na sua análise de Robespierre, Bastiat disse: “Observem que quando Robespierre pede ditadura, é. . . para fazer os seus próprios princípios morais prevalecerem por meio do terror. . . . Oh, desgraçados! . . . Vocês querem reformar tudo! Reformem a si mesmos primeiro! Isto será uma tarefa suficiente para vocês.” [19]

Na opinião de Bastiat, a Revolução Francesa Fracassou porque ela repudiava os mesmíssimos princípios sobre os quais uma sociedade livre é baseada: Auto-governo, direitos de propriedade, livre mercado, um governo civil limitado. A Revolução Americana, no entanto, trouxe a sociedade mais livre do mundo: “Olhem para os Estados Unidos,” escreveu Bastiat. “Não há país no mundo onde a lei se limite mais rigorosamente ao seu papel apropriado, o qual é garantir a liberdade e propriedade de todos. Por consequência, não há país em que a ordem social pareça se apoiar em uma fundação das mais estáveis . . . . É assim que eles entendem a liberdade e a democracia nos Estados Unidos. Lá, cada cidadão é vigilante tendo um cuidado zeloso para permanecer senhor de si. É pela virtudade de tal liberdade que o pobre tem a esperança de sair da pobreza e que o rico espera preservar a riqueza. E, de fato, como vemos, em um curto período de tempo tal sistema tem levado os americanos a um grau de empreendimento, segurança, riqueza e igualdade que os registros da raça humana não oferecem outro exemplo . . . . [Na América], cada pessoa pode com total confiança investir o seu capital e o seu trabalho para produzir. Elas não tem de temer que os seus planos e previsões serão prejudicados de uma hora para outra pela legislatura.” [20]

Bastiat via duas inconsistências na República Americana: A escravidão (“violação dos direitos de uma pessoa”) e as tarifas (“violação do direito de propriedade”). Segundo Bastiat, esses eram dois temas que dividiriam a América se não fossem tratados rapidamente.

Qual foi a resposta para a América bem como para a França? “Sejamos responsáveis por nós mesmos,” disse Bastiat. “Procurem o Estado para nada além de lei e ordem. Não contem com ele para obter fortuna ou esclarecimento intelectual. Não mais o considerem responsável pelas nossas falhas, nossa negligência, nossa improvidência. Contemos apenas com nós mesmos para nossa subsistência, nosso progresso físico, intelectual e moral!” [21]

No 200º aniversário da Revolução Francesa, franceses e americanos podem realmente se tornar parceiros na liberdade, trabalhando para estabelecer os princípios defendidos por Bastiat, os Pais Fundadores da América e outros: Governo limitado, propriedade privada, livre mercado e pessoas livres.

 


 

1.   Petr Kropotkin, The Great French Revolution (New York: Putnam’s Sons, 1909), Introdução.

2. Tão forte era o elo entre os fisiocratas e Adam Smith que, segundo os economistas franceses, Charles Gide e Charles Rist, “Não fosse a morte de Quesnay em 1774 — dois anos antes da publicação da A Riqueza das Nações — Smith teriam dedicado sua obra máxima a ele.” Mais tarde, Frédéric Bastiat colocou Smith, Quesnay e Turgot juntos como “meus guias e mestres.” Dean Russell, Frederic Bastiat: Ideas and Influence (Irvington-on-Hudson, N.Y.: The Foundation for Economic Education, 1969), pp. 58, 19.

3. Russel,p. 20.

4.   Peter Gay and R. K. Webb, Modern Europe to 1815 (New York: Harper and Row, 1973), p. 462.

5.   Otto J. Scott, Robespierre: The Voice of Virtue (New York: Mason and Lipscomb Publishers, 1974), pp. 59-61.

6.   Ibid., p. 54.

7.   Andrew Dickson White, Fiat Money Inflation in France(Irvington-on-Hudson, New York: The Foundation for Economic Education, 1959), p. 107.

8.   Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France(Indianapolis: The Bobbs-Merrill Co., 1955, originally published in 1790), pp. 275-276, 280.

9.   Scott, pp. 223-224.

10.   Benjamin Hart, Faith and Freedom (Dallas: Lewis and Stanley, 1988), p. 301.

11.   Samuel Eliot Morison, The Oxford History of the American People (New York: Oxford University Press, 1965), p. 182.

12.   Gene Fisher and Glen Chambers, The Revolution Myth(Greenville, S.C.: Bob Jones University Press, 1981). p. 18.

13.   Andrew C. McLaughlin, The Foundations of American Constitutionalism (New York: Fawcett, 1932,1961), pp. 88-89.

14.   John Chamberlain, The Enterprising Americans: A Business History of the United States (New York: Harper and Row Publishers, 1974,1981), p. 37.

15.   Letters and Other Writings of lames Madison, Vol. IV (New York: R. Worthington, 1884), p. 478.

16.   James Richardson, ed., A Compilation of the Messages and Papers of the Presidents, Vol. 1 (New York: Bureau of National Literature, 1897), p. 367.

17.   John M. Blum, et al., The National Experience, Part I (New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1963,1981), p. 213.

18.   George Charles Roche, Frederic Bastiat.’ A Man Alone(New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1971), pp. 146-147.

19.   Ibid., p. 148.

20.   1bid., pp. 205-206, 244.

21.   Ibid., p. 164.

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2 comentários para “Um Conto de Duas Revoluções, por Robert A. Peterson

  1. Leonardo

    Essas reflexões me trazem tristeza e ânimo ao mesmo tempo​, pois vivemos no Brasil, parece um país pós revolução francesa​, mas também é possível uma saída mas será que a alcançaremos. Os que nos libertam são os mesmos que nos aprisionam.

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  2. Elias

    Se este texto tivesse mil páginas,eu teria lido sem perceber o tempo passar e nem me enfadar. Parabéns a quem escreveu esse texto,simplesmente esclarecedor,um raio-x bem resumido do que talvez foram os dois maiores eventos do século XVIII,um no sentido positivo e outro no sentido negativo.

    Liberdade,qualidade de vida e direito a propriedade,são estas coisas que nos trazem felicidade material,o resto é só ideologia de morte,roubo e escravidão,psicopatas tentando nos fazer uma presa sua através de vãs filosofias.

    Ouvir a palavra revolução,dá nojo!É como ouvir o som das portas do inferno se abrindo.

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