Respondendo a Joel Pinheiro da Folha

O economista e colunista da Folha, Joel Pinheiro da Fonseca, publicou um ‘desabafo’ em seu perfil no Facebook contra nós, a Reaçonaria, e o MBL.

Diz o colunista: “Outro dia peguei o twitter do portal Reaçonaria mentindo abertamente na tentativa de denegrir uma matéria da Folha. Corrigi, mostrei o erro, óbvio que nem me responderam. 

Na sequência, vejo que o MBL se negou a oferecer qualquer fonte dos seus fatos, porque fazer “fact checking” é censura. E publicam carta toda orgulhosa “bisnagando” o grupo de jornalistas que – crime dos crimes – tentava apurar a verdade. É de dar vergonha.”

Em primeiro lugar, nossa surpresa! Joel Pinheiro apontou um erro em nosso texto? Fomos atrás da resposta e em nosso Twitter, através da busca do site, achamos o bendito tweet:

Primeiro esclarecimento: Joel apontou o ‘erro’ para um tweet programado pelo aplicativo Buffer, ou seja, ninguém estava online, ninguém viu, ninguém leu. Esses tweets são possíveis de se identificar através da URL buff.ly. É possível ver em nosso perfil que recebemos mais de 200 interações por dia só ali. Quem nos segue sabe que respondemos e interagimos na medida do possível, quase sempre as respostas mais recentes que aparecem no feed em detrimento das mais antigas. Assim como Joel, muitas outras pessoas ficam sem resposta, nem por isso ficam com a vaidade ferida. Todos os dias somos adicionados em grupos de DMs, não damos conta de responder todos como gostaríamos. E o Twitter é, sem dúvida, a rede social em que mais interagimos.

Joel fala de um texto nosso intitulado “FLAGRA: Vejam como a FOLHA manipulou o processo de Lula em reportagem contra sua condenação” .

Agora, vamos ao ponto do tweet de Joel: “Em casos de crimes graves e complexos, que não deixam provas diretas” – tá no texto da matéria. Vcs erraram.”

Não, nós não erramos. Joel, colunista da Folha, errou ao defender a jornalista da Folha.

Dissemos em nosso texto: “A Folha de São Paulo publicou hoje, como reportagem, a opinião de Estelita Hass Carazzai em que são endossadas as teses da defesa do ex-presidente Lula, que em breve será condenado no processo da Lava Jato que trata do tríplex no Guarujá. Chamar aquilo de artigo de opinião da jornalista é a forma mais benevolente de tratar o texto. Como pode ser visto abaixo, toda a opinião de Estelita publicada sob a chamada “Ação contra Lula dirá se indício pode condenar” é baseada numa clara omissão do documento que ela toma por base para afirmar que o que se está julgando é a admissibilidade de indícios para condenação.”

O pulo em que apontamos a manipulação é a omissão de um trecho das alegações finais do MPF na matéria. Na Folha, deixa-se entender que a citação de um voto da ministra Rosa Weber na AP 470, o Mensalão, faz parte de uma defesa por parte dos procuradores da Lava Jato de que o uso de indícios são suficientes para condenar (aqui Joel reforça o texto da Folha: ‘Em casos de crimes graves e complexos, que não deixam provas diretas’).

A transcrição do voto da ministra, sem omissão, mostra que as provas indiciárias, como dissemos: “são acessórias para as provas de fato. Mais ainda, o ponto específico que a jornalista da Folha recortou vem em meio a uma série de citações a reforçar a tese de que, para alguns crimes, os indícios ajudam a compor as provas – na peça do MPF eles citam, além de Rosa Weber, manifestação de Ricardo Lewandowski.” 

Há mais, a matéria da Folha abre com o seguinte parágrafo: “Às vésperas da primeira sentença do ex-presidente Lula na Lava Jato, acusação e defesas vêm travando um debate: indícios são suficientes para condenar?”

O texto da Folha é uma espécie de muleta na imprensa para a defesa de Lula, pois não há o debate apontado logo no primeiro parágrafo, há ativismo da defesa de Lula na tese de que não há provas contra Lula, apenas indícios. Já o MPF-PR reforça que nos crimes de corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro que envolvem o ex-presidente Lula (PT), apenas no caso do ‘tríplex do Guarujá’, há centenas de provas. O MPF não está militando pelo uso de indícios como provas em “crimes graves e complexos que não deixam provas diretas“. Muito pelo contrário. A escritura do tríplex apreendida na residência de Lula em São Bernardo é apenas indício? O dinheiro que saiu da Petrobras e foi gasto exclusivamente na reforma e mobília do tríplex e descontado e rastreado em planilhas de propina para o PT e para as contas Zeca Pagodinho são apenas indícios? Há, literalmente, centenas de provas.

No mais, destacamos o trecho seguinte do desabafo de Joel, contra o MBL, por consideramos um importante sintoma de nossos tempos:

“Agora, quero ver um grupo de jornalistas de direita fazer o trabalho contrário: ir lá no Sakamoto, Laura Carvalho e outros e cobrar as fontes, mostrar erros de interpretação. Tem gente séria fazendo isso, na verdade, só não estão nos holofotes dos movimentos e nas hostes dos “mitadores”.

Bom, páginas como a Caneta Desesquerdizadora e o Instituto Liberal de São Paulo estão fazendo isso com muita qualidade. Não é exagero dizer que o foco de sites independentes como o Senso Incomum ou canais como o Terça Livre é a luta ingrata contra os erros de interpretação e manipulação da informação na grande imprensa. Todo ‘meio ambiente de direita’ na internet é basicamente reativo. Portanto, mais um erro de Joel.

Vamos ilustrar o que nós, a Reaçonaria, pensamos dessa gente ‘séria’, contando um caso com personagens fictícios e ficará a critério do leitor decidir se é uma literatura que reflete o espírito do nosso tempo ou não:

“Era uma vez um japonês guerrilheiro militante de direitos humanos com inserção política e interesses nas estruturas do Estado. Esse japonês viu que um grupo de amigos que escreviam na internet resolveu juntar todos os blogs em uma espécie de central de blogs. Para a surpresa dos amigos, com exceção do Brasil 171, a nova central de blogs tinha mais audiência que todos os blogs que eram financiados por um grupo político no poder logo em seu primeiro ano de existência.

Esse japonês guerrilheiro, que entende muito bem de comunicação, armou uma arapuca com um deputado mafioso que já foi muito bem adjetivado pelo MP-SP.

O japonês guerrilheiro combinou uma matéria com o deputado mafioso e a situação seria a seguinte: o japonês publicaria em seu blog, hospedado no maior portal brasileiro e, portanto, de repercussão nacional, uma matéria em que diria que anônimos estavam atacando jornalistas. Então, a Polícia Federal, o Ministério Público e a ALESP tomariam providências para rastrear as formas de financiamento do site a partir do pedido de providências do deputado mafioso. O japonês guerrilheiro, para sua tristeza, mediu a nova central de blogs com a régua que mede seus amigos.

Os membros da central de blogs ficaram indignados. Primeiro porque não eram anônimos, segundo porque não eram financiados por ninguém e terceiro porque não perseguiram jornalistas. E, se fosse assim, justamente por não serem anônimos, os autores do texto poderiam responder judicialmente caso houvesse perseguição de fato.

Pois bem, os ‘anônimos do site’ foram até o gabinete do deputado mafioso muito bem adjetivado pelo MP-SP, colocaram o RG na mesa (literalmente) e desandaram a falar os maiores impropérios contra o abuso, a tentativa de intimidação e censura que o japonês guerrilheiro estava armando com o deputado mafioso muito bem adjetivado pelo MP-SP. Não satisfeitos, exigiram que a secretária de gabinete anotasse os nomes, contatos, quem eram e o que faziam, pois não aceitavam ser tachados de anônimos financiados clandestinamente. Possuíam nome, sobrenome e profissão. Não aceitavam o uso do Estado para perseguição.

Curiosidade: na entrada do gabinete há um retrato na parede do deputado mafioso abraçado com o japonês guerrilheiro.

Mais tarde, o chefe de gabinete liga para o telefone de um dos ‘anônimos’ para pedir desculpas, dizer que não ia para a frente a perseguição e que foi tudo um mal entendido. A arapuca, que contou com estrutura dos MAVs do PT durante o dia espalhando a mentira, ficaria restrita a isso, apenas uma mentira no site do japonês guerrilheiro que deveríamos entender como uma ação política que tinha que ser esquecida.

A dor de cabeça de ser exposto assim para amigos e familiares era apenas um ‘efeito colateral’.

Esse mesmo japonês guerrilheiro anda atrás judicialmente de um blogueiro que colocou na internet os repasses do governo federal para a ONG do japonês. Tudo com link do site da Transparência federal. A sorte do blogueiro é que ele realmente é anônimo.

Fim.”

Esse conto reflete algo que não era o que acreditávamos, mas que se consolidou como crença ao longo da existência do nosso site: os filhos da puta são uma força da natureza. Não há debate razoável ou possível nesse nível que não seja o da farsa. Por isso, não legitimamos ações desses grupos, justamente por acreditarmos que elas nem deveriam estar sendo debatidas.

Outras ações de outros parlamentares e tentativas de intimidação sofridas ao longo da existência do site consolidaram a ‘violência’ que se tornaram marca de nossos textos (e que temos plena noção do efeito que causa em leitores mais moderados). Os leitores, junto conosco, também endureceram perante a farsa do debate público brasileiro.

Há outra questão: quem aceita debater nos termos postos pelo adversário já perdeu. É aí que entra mais profundamente a questão do MBL vs Sakamoto e a censura, tratada no desabafo de Joel, e que vamos abordar até porque tínhamos replicado em nosso Twitter a resposta do MBL.

Checar fatos não é censura. O MBL não diz isso, quem critica as agências de checagem de fatos também não diz. A questão é a do viés de quem ‘checa’ a notícia e a instrumentalização desse tipo de serviço. Exemplo:

Se um parlamentar diz que a maioria da população apoia X medida e que em números esse apoio chega a 51%, uma agência de checagem pode tanto carimbar ‘na verdade, o que existe é um empate técnico‘ ou ‘sim, apesar de estreita, a maioria da população realmente aprova‘. Ou, uma agência pode carimbar uma coisa e outra agência outra distinta. Quem tem a palavra final no tribunal da verdade?

A questão é tão ridícula (e a sua existência é a prova da deterioração das redações da grande imprensa) que as agências de checagem estão criando graus de veracidade dos fatos.

Confiram os graus de veracidade da Agência Lupa:

O leitor que chegou até aqui sabe a crise que a mídia vive e o quanto as redes sociais e os sites independentes estão acelerando esse processo. O site Implicante, por exemplo, chega a ter mais interações em seu Facebook que portais como a Folha e a Exame.

Já o portal O Antagonista analisou uma pesquisa ‘séria’ de um instituto ‘sério’, como o Datafolha, em que é afirmado que ideias ‘de direita’ estão perdendo apelo na população. Quando se analisa os dados, para o Datafolha, ser gay ou não ser homofóbico e ser contra a desigualdade são valores de pessoas de esquerda.

As agências de verificação nasceram a partir do lobby da grande imprensa americana nas grandes empresas de tecnologia para inibir o crescimento da imprensa alternativa. Empresas como o Facebook, o Twitter e o Google pretendem em um esforço coletivo banir  de suas plataformas quem tenha a verificação de seus textos atestada como falsa. Ou seja, a grande imprensa, patrocinando as agências verificadoras, vai poder carimbar os pequenos sites como fake-news.

O combate à ação deletéria de propagar notícias falsas está sendo usado como desculpa para sufocar sites sérios e alternativos. Quando se chega no limite de interpretação e não  é possível afirmar que se trata de uma notícia falsa, inventaram até o termo ‘pós-verdade’. Um verbete da novilíngua utilizado invariavelmente por filhos da puta.

O MBL não se negou a dar a fonte de seus dados, o MBL ironizou a incapacidade da agência paga para checar a veracidade dos fatos. Mandou a agência usar o Google. O MBL está correto. Joel, novamente, está errado.

A reação no mundo contra as agências de achacagem checagem está rendendo frutos e o mais provável é que tudo não passe de um espirro mal-sucedido na tentativa de controlar narrativas políticas. A checagem de fatos existe desde que existe a imprensa. Isso é papel do editor e responsabilidade do jornal.

Afirmar que quem reclama do uso político das agências estaria reclamando da checagem de fatos é um caso claro de indigência mental. É o rabo mordendo o cachorro. É repetir a narrativa falsa que membros dessas agências utilizam como desculpa para praticar barbeiragens e dizer que sofrem com uma perseguição inexistente.

Tá aí, nossa resposta ao Joel da Folha.

Você poder ler o desabafo de Joel aqui.

Você pode ler um texto sobre a arapuca da checagem de dados e o seu possível uso para censura aqui.

Você pode ler a resposta do MBL aqui.

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4 comentários para “Respondendo a Joel Pinheiro da Folha

  1. Pedro Rocha

    “Bom, páginas como a Caneta Desesquerdizadora e o Instituto Liberal de São Paulo estão fazendo isso com muita qualidade.”

    O jornalista estava se referindo a sites de direita. O ILISP é liberal, ou seja, de esquerda (liberal) e a “Caneta” faz parte da tal “nova direita”, que é a esquerda liberal aliada aos socialistas fabianos “light”, representados por Doria.

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    • Pedro Rocha

      Por sinal, depois do “papo reto” de Eduardo Bolsonaro para cima dessa turma apareceu um bocado de “melancias” por aí.

      Essa tal “nova direita” nada mais é do que uma nova lâmina, criada com a esquerda liberal e pseudo-conservadores (assim denomino os tais “conservadores seculares”) para fazer par com a esquerda, pois a extrema-esquerda está enfraquecida e foi posta para escanteio pela Lava Jato, cabendo-lhe a função de fazer badernas e chicanas.

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