Qual a chance real de Aécio ou Alckmin cederem a candidatura presidencial ao Doria?

Se as instituições brasileiras funcionassem, os partidos políticos fossem instrumentos legítimos de participação política da sociedade (e não instrumentos cartoriais de registro de candidaturas) e a população fosse menos passiva, os pré-candidatos à presidência enrolados na Lava Jato já estariam varridos da vida pública. É importante ressaltar o fator ‘população’ porque em outros lugares (EUA, Canadá, alguns países da Europa ou  o Japão), indícios de corrupção forçariam o político a abdicar de seu mandato sem deixar que ele fosse transformado em instrumento de luta pela sobrevivência. Aqui a presunção da inocência se transformou em presunção da inocência até transitado e julgado em segunda instância.

É curioso que manobras para salvar a própria pele sempre sejam transformadas em discurso para não paralisar o país. O corrupto por aqui se vende como fiador das ‘reformas que o Brasil precisa’ e os investigadores da Lava Jato se transformam em ‘agentes de desestabilização econômica’, sendo que o fator de desestabilização sempre é o agente corrupto que com suas manobras não larga o osso e deixa as instituições seguirem o curso sem ele. O corrupto nos faz acreditar que ele é imprescindível. Nós aceitamos isso.

Dito  isso, já está exposto na grande imprensa que o grupo mineiro do PSDB nacional junto com o grupo paulista ligado a José Serra está alimentando nos jornais a ideia de que o partido cogita João Doria como presidenciável tucano. A ideia faz todo o sentido, afinal, quem jogaria fora um candidato que pode salvar as pretensões eleitorais do partido nacionalmente? Segundo o presidente tucano da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, deputado Cauê Macris, e outros interlocutores de Alckmin, essa ideia está sendo propagada e confirmada como forma de antagonizar Alckmin e Doria e fortalecer Serra e Aécio. Fato ou mito?

O governador Geraldo Alckmin conta com míseros dois membros na executiva nacional do PSDB: Eduardo Cury e Silvio Torres. João Doria nenhum. José Serra é majoritário e Aécio Neves possui a presidência (você pode conferir a composição da executiva nacional tucana aqui). A história tucana nos ensina que quem possui mais votos no diretório nacional tratora o adversário e faz com que a executiva nacional indique seu nome. Já o perdedor faz corpo mole na campanha do vencedor do partido e trabalha para conseguir ser majoritário na próxima composição da executiva e do diretório nacional. Democracia interna tucana.

Geraldo Alckmin fez o dever de casa, venceu seus adversários internos na capital e consagrou João Doria como candidato tucano, depois foi o político que mais elegeu aliados, prefeitos e vereadores tucanos no Brasil. Como consequência natural, elegeria neste ano um maior número de aliados no diretório nacional e seria maioria na executiva nacional do partido. Já Aécio Neves perdeu a eleição nacional e estadual em 2014 e a prefeitura da capital em 2016, portanto não teria condições políticas de continuar presidente do partido. Isso se o PSDB e o Brasil fossem normais.

A eleição interna tucana ocorre a cada dois anos e, neste ano, José Serra e Aécio Neves deram um golpe em Geraldo Alckmin. Prorrogaram na canetada os próprios mandatos e serão responsáveis pelas decisões do partido em 2018. Aécio Neves ficará inéditos seis anos como presidente do PSDB. Há expectativa de que Aécio e Serra, através do PSDB nacional,  forcem no PSDB paulista a candidatura de Serra como governador por conta desse acordo, pois o PSDB nacional tem poder de decisão e veto sobre qualquer outro diretório tucano. Geraldo Alckmin considerou a manobra sua ‘expulsão branca‘ do partido e passou a atuar de maneira mais firme em duas frentes: a pregação de que o PSDB deve fazer prévias ou primárias para a escolha do candidato, pois não conseguirá a indicação da executiva (e já conta com o apoio aberto dos governadores Beto Richa e Marconi Perillo), e a fusão do PPS com o PSB para ser seu novo partido. O PTB já declarou que está de portas abertas para ser abrigo presidenciável de Alckmin. É importante ressaltar que na ‘política profissional’ o agente atua sempre como aquela mãe de supermercado que coloca um filho em cada fila e a que andar primeiro ele vai.

Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves estão enrolados na Lava Jato. Há sempre chance de que o STF deixe os crimes prescreverem ou que os julgue só depois de 2018. Porém, partiu do Instituto dos Advogados de São Paulo um movimento para que o STF utilize a previsão legal de seu Regimento Interno e convoque juízes federais e desembargadores para auxílio na realização de um mutirão para julgar a Lava Jato. A ideia foi defendida em artigo no Estadão pelo professor Dr. Miguel Reale Jr. e começa a ganhar corpo um movimento contra a possível impunidade causada pela morosidade do Judiciário.

Que outra forma, além do foro privilegiado e da morosidade do STF e do STJ, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves podem se proteger da Lava Jato? Com o artigo 86, §4º da Constituição Federal que diz: ‘ O Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções‘. Ou seja, eleito presidente, qualquer um dos três estaria imune de ser responsabilizado no âmbito da Lava Jato e outras investigações anteriores à presidência.

É ingenuidade acreditar que um dos três pré-candidatos abra mão da chance de concorrer à presidência por amor ao PSDB ou pelo país. Todos os três já demonstraram em ocasiões distintas que são movidos por projetos pessoais e não escondem que são inimigos nos bastidores. A pré-candidatura presidencial tucana, e uma possível vitória, é a blindagem dos sonhos dos tucanos. Vamos permitir?

Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra

Revisado por Maíra Pires @mairamacpires

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4 comentários para “Qual a chance real de Aécio ou Alckmin cederem a candidatura presidencial ao Doria?

  1. Vicente

    Claro, o Geraldo Alckmin foi vereador e prefeito de sua cidade, foi deputado estadual por 4 anos e deputado federal por 8 anos, vice-governador por 6 anos, eleito governador 3 vezes em primeiro turno, e ex-candidato à Presidência.

    Mas deve ser “varrido do mapa político” porque está sendo investigado (não há denúncia ainda, nem creio que haverá) e abdicar do legítimo desejo de ser novamente candidato à Presidente em favor de quem tem 4 meses à frente da Prefeitura de São Paulo.

    Parabéns.

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  2. Airton Martins

    Com o advento da lava jato, todos querem ter foro privilegiado, pois como só podem ser processados pelo STF, sabem que não correrão risco devido à lentidão que o mesmo, pelo embargos, terá que aguardar. Eis o motivo em que o PSDB se agarra, porque estando na presidência pode aumentar o número de ministérios e secretarias a fim de comportar todos os ministros tranquilamente. Simples assim!

    Além disso, continuar o projeto que seu primo-irmão, o PT, estendeu por mais de treze anos. Colocando as propostas de seu mentor maior, no intuito de comunizar em no máximo oito anos tudo que seu antecessor não conseguiu por más atitudes e corrupção desenfreiadas.

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  3. Wellington

    Gostaria mesmo de alckmin para presidente. Assim João Dória poderia continuar cuidando da cidade de São Paulo e Bolsonaro venceria a eleição tranquilamente.

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    • Pedro Rocha

      O problema da candidatura de Bolsonaro é o “day after”: como ele vai governar sem apoio no Congresso e com um Judiciário e MP aparelhados pela esquerda Fabiana e pela extrema-esquerda bolivariana?

      Temos que ver como o establishment vai reagir à Lava Jato e se preparar para 2018. Conforme rolou hoje na imprensa, PT, PSDB e PMDB estão se aproximando para preparar um contra-ataque possivelmente encabeçado pelo próprio Lula, que de todos ainda é o mais forte por ter o aparelhamento mais forte, crime organizado (PCC) e forças terroristas (MST, MTST etc.) à disposição.

      Já havia imaginado essa manobra e ela está se materializando a olhos vistos.

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