O “mecanismo” de José Padilha e o STF

Por conta da hegemonia da esquerda socialista nos meios culturais e da recente ascensão do PT ao governo federal, a esquerda virou sinônimo de petismo e socialismo. Pessoas como José Padilha, que não são socialistas e muito menos petistas, acabam sendo demonizadas por gente “anti-pêtê” simplesmente por não serem de direita. Um radicalismo deletério.

Para saber mais sobre esquerda e direita, leia o artigo: “A mente revolucionária e a dicotomia entre esquerda e direita”

O cineasta José Padilha, em entrevista recente, abordou a corrupção no establishment político e no STF:

“Com o que tem acontecido no Rio de Janeiro, a pergunta é: você tem uma bola de cristal?

É claro que o principal problema do País é o “mecanismo”, a máquina de corrupção que dominou e moldou nossa política (e o Estado) em todos os níveis da Federação, no Legislativo e no Executivo. Isto deveria ser óbvio para todos muito antes do Tropa de Elite 2. No entanto, a grande maioria dos formadores de opinião do país tem posições ideológicas marcantes. O pessoal da esquerda sempre fez malabarismos intelectuais absurdos para justificar a corrupção de seus líderes, evidente desde as prefeituras do PT. E o pessoal da direita… bom, este pessoal faz isto desde sempre… Logo, os dois grupos demoraram muito para perceber algo essencial: o mecanismo não tem ideologia. Usa a ideologia para defender seus pares, enquanto faz o trabalho sujo. Eu tenho bola de cristal? Certamente que não. Apenas não tenho ideologia.

Te assusta as similaridades do que se viu em Tropa de Elite 2 e a política no Rio de Janeiro?

Me assusta muito mais o comportamento dos juízes do STF, que têm acesso aos processos, sabem de tudo em detalhe, e mesmo assim deram às assembleias legislativas a prerrogativa de decidir sobre a aplicação de penas a deputados e senadores condenados por corrupção. Isso significa que, muito provavelmente, a maioria do STF faz parte do mecanismo. Significa que, muito provavelmente, boa parte dos juízes do STF está diretamente envolvida em corrupção. E se este for o caso (a minha “bola de cristal” acha muito provável que seja), o que vai acontecer com o Brasil no curto e no médio prazo, depois que a população entender que a Justiça decidiu que os políticos podem roubar sem serem punidos?”

Aqui no site acreditamos que o momento político exige a união de pessoas honestas e comprometidas com a democracia. A luta é contra a classe política e o “mecanismo”.

Para entender o ‘mecanismo’ sobre o qual Padilha fala, leia seu artigo “A importância da Lava Jato”:

José Padilha, O Globo

1) Na base do sistema político brasileiro opera um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do estado e grandes partidos políticos. (Em meu ultimo artigo, intitulado Desobediência Civil, descrevi como este mecanismo exploratório opera. A diante me refiro a ele apenas como “o mecanismo”.)

2) O mecanismo opera em todas as esferas do setor público: no legislativo, no executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

3) No executivo ele opera via o superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e as empresas estatais.

4) No legislativo ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.

5) O mecanismo existe a revelia da ideologia.

6) O mecanismo viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita.

7) Foi o mecanismo quem elegeu o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Foi o mecanismo quem elegeu José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

8) No sistema político brasileiro a ideologia está limitada pelo mecanismo: ela pode balizar politicas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do mecanismo.

9) O mecanismo opera uma seleção: políticos que não aderem a ele tem poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos.

10) A seleção operada pelo mecanismo é ética e moral: políticos que tem valores incompatíveis com a corrupção tendem a serem eliminados do sistema politico brasileiro pelo mecanismo.

11) O mecanismo impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes entendem como ele funciona e as pessoas honestas não o aceitam.

12) A maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do mecanismo, ou se o mecanismo decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do mecanismo este sempre será o caso.)

13) A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo mecanismo.

14) Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em cheque o funcionamento do mecanismo.

15) Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o mecanismo terá contra ele a maioria dos membros da sua classe.

16) A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo.

17) Resulta daí que na vigência do mecanismo o estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos.

18) As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o mecanismo, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário.

19) Embora o mecanismo não possa conviver com um estado eficiente, ele também não pode deixar o estado falir. Se o estado falir o mecanismo morre.

20) A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixos, seguidos de crise fiscal, seguidos ajustes que visam conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal…

21) Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos eleitos pelo mecanismo, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. (Pense no foro privilegiado. Pense no fato de que apesar de mais de 500 parlamentares terem sido investigados pelo STF desde 1998, a primeira condenação só tenha ocorrido em 2010.)

22) A operação Lava-Jato só foi possível por causa de uma conjunção improvável de fatores: um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômica que causou, uma bobeada do parlamento que não percebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era incompatível com o mecanismo, e o fato de que uma investigação potencialmente explosiva caiu nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes rígida, competente e com bastante sorte.

23) Não é certo que a Lava-Jato vai promover o desmonte do mecanismo. As forças politicas e jurídicas contrárias são significativas.

24) O Brasil atual esta sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o mecanismo, e que quer mantêlo funcionando.

25) O desmonte definitivo do mecanismo é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo.

26) Sem forte mobilização popular é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do mecanismo.

27) Se o desmonte do mecanismo não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o mecanismo por um longo tempo.”

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6 comentários para “O “mecanismo” de José Padilha e o STF

  1. Gustavo

    Concordo em grande parte com o Padilha. Porém, ao pegar um conceito existente, trocar seu nome, e fazer parecer que é o descobridor desse conceito me parece bastante ignorante ou desonesto. Digo isso por que Raimundo Faoro, com ampla divulgação do Olavo, criou o termo Estamento Burocrático para definir essa coisa que agora o Padilha chama de “mecanismo”.

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  2. Edson Paiva

    Padilha, que sempre viveu ideologicamente à esquerda, ainda que seja uma “esquerda vegetariana”, moderada, não percebe que o “mecanismo” é o ESTADO.
    Só quando o Estado for o menor possível, algo que nunca ocorreu no Brasil, as coisas irão andar de forma razoável.

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  3. Sami Haua

    Só não entendi uma coisa. Quando houve um governo de direita no Brasil? Acha que o PMDB é de direita? Acha que os militares que fecharam a economia ao capitalismo eram de direita?

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  4. Night

    “O pessoal da esquerda sempre fez malabarismos intelectuais absurdos para justificar a corrupção de seus líderes, evidente desde as prefeituras do PT. E o pessoal da direita… bom, este pessoal faz isto desde sempre…”

    Achei o texto de Padilha bem lúcido quanto a visão do estado, mas queria saber quem são esses lideres de direita corruptos a quem defendemos, até pouco tempo atrás “lideres” (entenda políticos) de direita eram mais raros que mosca branca, ainda são.

    Será que alguém capaz de escrever um texto desses também é bobo o suficiente para acreditar que os esquerdistas chamados de direita pela esquerda são realmente de direita?

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    • Alexandre Macedo

      Padilha faz, não sei se intencionalmente, a mesma confusão feita por vários analistas: para eles, todos que não se dizem de esquerda são de direita.

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