Imprensa ameniza crítica de Kelly Slater ao Brasil (ou “Mais um caso de plágio em série”)

Morreu hoje no início da tarde o surfista brasileiro Ricardo dos Santos, após sofrer três tiros na porta de sua casa ontem  após uma briga com duas pessoas que estacionaram o carro por ali e estariam consumindo drogas. O assassino é um policial militar que estava passeando e, segundo testemunhas (tio e avô da vítima), estariam em estado alterado.

Embora assassinato seja algo comum no Brasil, a perda de um atleta tão jovem abalou o mundo do esporte. Surfistas do mundo todo ficaram chocados com a notícia e fizeram suas homenagens. Porém, nenhum depoimento foi mais chamativo que o do maior atleta da modalidade, Kelly Slater, em seu perfil no Instagram. Além de lamentar o ocorrido, Kelly Slater fez uma corajosa contextualização e crítica ao ambiente inóspito brasileiro. Leiam o trecho abaixo com um destaque meu:

This was truly a senseless loss of life. It unfortunately brings to light the number of murders yearly in Brasil, officially documented at over 50,000 with many thousands more going unreported. Lack of education, poverty, and drugs don’t make for a good mix and make life challenging in this country, one of the most beautiful and scariest places I’ve been.

Traduzindo seria:

É realmente uma perda de vida sem sentido. Isto infelizmente joga luz no número anual de assassinatos no Brasil, oficialmente contados acima de 50.000, com muitos outros milhares não sendo registrados. Falta de educação, pobreza e drogas não criam uma boa mistura e tornam a vida desafiadora neste país, um dos mais belos e assustadores lugares em que já estive.

A imprensa brasileira não pôde escapar do que foi dito por Kelly Slater. Porém, inacreditavelmente, os jornalistas ocultaram um trecho FUNDAMENTAL da postagem do 11 vezes campeão mundial: “one of the most beautiful and scariest places” virou apenas “um dos mais belos lugares“. Se isto não revela uma dificuldade em aceitarem o estado de barbárie que vivemos devido à violência (que no texto de Slater é associada à falta de educação, pobreza e drogas), serve pelo menos como mais um caso em que os jornalistas, preguiçosos, saem a se plagiar sem dó. O mesmo erro ou omissão é encontrado em praticamente todas as reportagens da grande imprensa que traduzem a postagem de Slater. A chance de tantos jornalistas terem esquecido uma palavrinha por acidente na hora da tradução é mínima.

Cliquem nas imagens abaixo caso não estejam legíveis os trechos:

Site da RedeTV também omite palavra na tradução.

Site da RedeTV também omite palavra na tradução.

G1 omite palavra na tradução.

G1 omite palavra na tradução.

Folha, com reportagem da BBC, omite palavra na tradução.

Folha, com reportagem da BBC, omite palavra na tradução.

Estadão omite palavra na tradução.

Estadão omite palavra na tradução.

Curioso notar o “traz a luta” (de “brings to light“) presente nas reportagens do Estadão, Globo Esporte e RedeTV.

Links:
Post de Kelly Slater;
Reportagem no site do Estadão;
Reportagem no site da Folha de São Paulo;
Reportagem no site Globo Esporte;
Reportagem da “Rede TV“:
Mais casos de estranhas semelhanças em reportagens de veículos diferentes: 1, 2 e 3.

34 comentários para “Imprensa ameniza crítica de Kelly Slater ao Brasil (ou “Mais um caso de plágio em série”)

  1. Miguel Brusell

    Se tivesse poder, proibiria as pessoas de falarem a imprensa. Primeiro que não existe a imprensa. São várias imprensas. O correto seria as imprensaS. É muito fácil reunir toda a imprensa brasileira, (direita, esquerda, centro, especializada, não especializada) e botar a culpa nela. A imprensa parece um organismo único, maléfico e com as piores das intenções.
    Em tempo, o EsporteNaRede não omitiu a palavra “assustador” e também pagou pela a omissão dos outros…
    Sou imprensa e me tire dessa lama….

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  2. Renato

    SEJA POR INCOMPETÊNCIA OU POR CUMPLICIDADE MESMO, A MÍDIA, TV, JORNAIS IMPRESSOS, JÁ NÃO SERVEM PARA INFORMAR!… CADA UM DELES DEVE SER JOGADO NA LATA DE LIXO E COLHER O DESPREZO QUE LHES É MERECIDO!!!

    DEUS ABENÇOE A INTERNET!… OBRIGADO DEUS E ESTADOS UNIDOS!

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  3. Ricardo

    A mídia é conivente e, até mesmo, tem grande culpa do que está acontecendo no Brasil. A omissão de cobrar das autoridades atitude mais punitiva(poder judiciário e legislativo) gera a banalização do crime e é certamente cúmplice da falta de justiça e da ausência de punição com o mesmo rigor do crime cometido.

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  4. paulo

    Boa crítica, ótima chamada de atenção para a indústria do jornalismo no Brasil. Só para corrigir a notícia do amigo, e evitar que caia na mesma armadilha a qual tanto critica no texto, o Ricardinho foi atingido por dois disparos, um abaixo do braço e outro pelas costas (e não três como informa o texto), e os acusados, após exames toxicológicos, não estavam consumindo drogas, ao menos não ilícitas, porém estavam embriagados de acordo com a legislação brasileira (alto nível de álcool no sangue). No demais, desejo a todos muita paz e reflexão nesse momento. O estado de Santa Catarina está de luto!

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  5. João Carlos

    ESTE É MAIS UM FATO A ATESTAR A SUPERFICIALIDADE E A FALSIDADE DA IMPRENSA BRASILEIRA…QUE PRESTA TODOS OS DIAS UM VERDADEIRO DESERVICO PARA A SOCIEDADE BRASILEIRA

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  6. Ana Silvia Amaral

    Devem ter usado o tradutor do Google! Ao invés de digitarem light devem ter digitado fight! Perceberam que traduziram luz como luta? E, com certeza, plagiaram a notícia, a probabilidade de todos terem cometido o mesmo erro é quase nula!

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  7. Deusa Yasmin

    Qual seria o motivo da imprensa, no Brasil, de “amenizar” o comentário do Kelly Slater? Sinceramente, acredito na preguiça mental para traduzir de maneira correta e não em qq outra motivação!

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  8. Simone Werner

    o comentário do K Slater é isso mesmo, país do abandono, onde se faz luto por traficante. Onde não se prepara um dos segmentos mais importantes da sociedade, o policial. Não que esteja generalizando, temos policiais excelentes, homens de bem, porém precisam de muita atenção dos governantes. País que leve um quadrilha pra governar o país. Jamais um policial reincidente como este poderia continuar na PM. Ele tem alguns processos administrativos. Três tiros pelas costas, não tem defesa. Quem conheceu o ricardinho, sabe jamais, jamais, escrevo novamente iria partir para cima de alguém com um facão. Estamos num país onde nossos filhos saem de casa e não sabemos como vão voltar, antes ficávamos apreensivos quando saíam a noite, agora as 8:40 da manhã. É um louco se acha no direito de em legítima defesa atirar. É o fim dos tempos, é o fim do mundo. Eu sou Charlie, Sou Ricardinho, e sou mãe acima de tudo compartilho com Luciane a dor da perda de um filho, á ela todo meu carinhos.

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  9. Milena Bertolini

    Excelente texto, porém “bring to light” significa “chama à atenção” ou ” traz à atenção”. Não se pode suprimir o significado de um conteúdo qdo se traduz, porém tampouco pode se traduzir literalmente qdo não faz sentido em português.

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    • Pedro H.

      milena o termo “trazer á luz” é comumente usado justamente para dar o sentido de evidenciar ou deixam claro. outro termo que TALVEZ pudesse ser usado é “trazer á tona” porém nesse caso você daria uma tradução beeem livre.

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  10. Gustavo

    Num país onde juizes e desembargadores, engenheiros, contadores, advogados, médicos e tantos outros usam e abusam dos “escragiários”, porque não os jornalistas??? Só podia dar nisso… Isso sem contar os erros de português dos mais grosseiros e das posições parciais dos editores…

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  11. carlos coqueiro

    Outra coisa é que já li três versões diferentes sobre o ocorrido. A primeira versão, repetida neste blog, dizia que duas pessoas estariam consumindo drogas em frente à casa do surfista. A segunda versão dizia que estariam fazendo barulho. E a terceira versão já dizia que estacionaram o carro em cima de um cano da casa que estava em construção, E, nesta última versão, apareceu mais um elemento que seria avô do surfista e quem deu este testemunho. Sei lá, as coisas estão estranhas…

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  12. André Luiz Castro

    A impressa que esconder o que todos sabem. Nas comunidades morrem pessoas todos os dias e fica por isso mesmo ou por bala perdida ou por erro de policiais que pensa que a pessoa é bandida e quando vai ver é um trabalhador e tenta colocar uma arma fria pra dizer que aquela pessoa era bandida e muitos e muitos casos que ocorre e fica por lá mesmo. Só quem mora em comunidade sabe e não pode falar se não morre.

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  13. Roberta Albuquerque

    Esse trabalho que vocês fazem é demais!
    Demais, demais e demais!
    Muito importante saber como parte da midia manipula as informações.
    Mesmo os mais esclarecidos acabam caindo em diversas mentiras e disfarces.
    Vocês estão de parabéns. Continuem esse excelente e esforçado trabalho!!!

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  14. Gabriel Dallagrana

    No caso do “traz à luta”, talvez seja algum erro grotesco até de algum OCR que entendeu “light” como “fight”, mas pode ser também que alguém pisou feio na bola ao fazer a tradução de “light” como se fosse “fight”… vai saber.

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  15. Jose

    Mas neste caso não trata-se de um traficante isolado da sociedade e sim de um homem qual jurou proteger a quem fosse para assim manter a paz na sociedade, qual recebeu uma arma para cumprir sua missão, qual sabe que caminho milhares já se foram nas drogas… e hoje usou da sua “ferramenta” para mostrar seu poder… seu poder sobre um jovem qual tinha a vida inteira pela frente e agora? onde esta o erro? onde isso vai parar? só saberemos quando chegar ao fim se chegarmos lá!

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  16. Andréa

    Ok! A impressa Sempre escreve do lado de quem manda. Mas vamos além, por favor! Visualizem o que escancaradamente ocorre no nosso país! É só olhar pros lados, a corrupção, a violência, crianças e velhos abandonados…posso escrever 3 paginas de coisas ruins… E o que o povo faz? Absolutamente nada para melhorar, entretando enaltecem os bandidos, e quando tem chance para fazer alguma coisa faz pior do que sua mais dura crítica! Sinceramente ñão vejo saída enquanto tratarmos as coisas dessa forma do tal jeitinho brasileiro em tudo pra tirar vantagens de todos!

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  17. Carvalho

    Vcs são muito bons ( os melhores até onde conheço) nesse acompanhamento dos furos da imprensa. É impressionante a ruindade, falta de precisão, nível de distorção e tendencionismo que vemos todo o tempo em sites, rádios, jornais e TV. São jornalistas ruins, em geral guiados por uma ideologia que prega a desinformação. Estamos lascados mesmo. Abraços.

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  18. Roberto Vieira Cavalcanti

    Ou foi simplesmente “burrice” mesmo. O fato de ter colocado burrice entre aspas não muda em nada fato de você ter tentado maneirar o ocorrido, é censura mesmo, só publicam depois de revisão pelos censores. Você faz parte do esquema ou não passa de uma Pollyanna?

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  19. DK

    Essa é a principal razão da alienação do eleitor brasileiro, uma imprensa se não vendida, no mínimo mal intencionada, que só noticia o que lhe interessa ou deturpa notícias, como nesse caso.
    É horrível a maneira como noticiários de rádio e televisão veiculam declarações oficiais, por mais mentirosas que sejam, sem nunca declarar os absurdos eventualmente contidos nessas declarações.
    Como resultado, uma mera declaração de um agente oficial passa, para a população desinformada, como verdadeira.
    É deprimente, e desesperadamente cansativa, esta situação.

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  20. Jasmiro Pinto de Júnior

    Nossa imprensa, EM SUA MAIORIA, sempre foi GOVERNISTA e PARCIAL e não IMPARCIAL e INDEPENDENTE, desde a ÉPOCA DO JORNAL IMPRESSO, passando pela ÉPOCA DE DOMÍNIO ABSOLUTO DO RÁDIO e DEPOIS a ÉPOCA DE DOMÍNIO ABSOLUTO DA TELEVISÃO até OS DIAS ATUAIS. Resta-nos, AGORA, somente os BLOGS DE NOTÍCIA INDEPENDENTES DA INTERNET. A imprensa TRADICIONAL (jornais impressos e emissoras de rádio e tv) já ERA. Triste fim PARA UM TIPO DE IMPRENSA QUE UM DIA FOI OS OLHOS E OUVIDOS DE UMA NAÇÃO. Hoje OS MEMBROS DESTES OLHOS E OUVIDOS DA NAÇÃO transferiram-se PARA A INTERNET, um lugar MAIS SEGURO, CONFIÁVEL, ABERTO e PERMISSIVO para que ESSES MEMBROS DOS OLHOS E OUVIDOS DE UMA NAÇÃO possam DIVULGAR SUAS MATÉRIAS COM IMPARCIALIDADE E SEM INTERFERÊNCIAS E/ OU CENSURA

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  21. Niel

    Um de muitos casos na qual expõe o quão degradada é a imprensa copy+paste em nossa digital, sem ao menos ter o mínimo a diligência de revisar seu material antes do lançar a notícia no site.

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