Estadão é o primeiro jornal a reclamar de novas regras do Facebook para notícias

O Brasil possui legislação para combater calúnia, injúria e difamação, além de mecanismos que garantem o direito de resposta. Também assegura a liberdade de expressão, em sua Constituição, da seguinte maneira (grifos nossos):

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, liberdade, igualdade, segurança e a propriedade, nos termos seguintes:

    • IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
    • VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
    • IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Art. 220 A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

  • § 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Com a internet, os veículos tradicionais de comunicação deixaram de ser os únicos formadores de opinião e se viram – pela primeira vez de maneira ampla – contestados sobre o conteúdo que produzem. Não é raro que críticas alcancem mais leitores que o conteúdo criticado.

Os jornais e os jornalistas não gostam e ainda não se adaptaram a essa nova realidade, que parece irreversível. Utilizando de seu poder, que hoje é mais econômico do que formador de opinião, gritaram em coro contra as chamadas “fake news“, que para esses veículos são todas as notícias não produzidas por eles. Há ainda um esforço para dar eco acadêmico ao novo momento: estaríamos vivendo na era da “pós-verdade“. Uma piada. Qualquer leitor da história, e principalmente da histórica política, sabe que a trajetória da imprensa e dos panfletos é recheada de produção de fatos incorretos. Hoje, quem se aventura a propagar informação falsa está sujeito a responder judicialmente.

Qualquer blog contemporâneo de notícias e opinião perde no quesito “propagar informações falsas” para a grande imprensa.

Mas a marcha do absurdo ainda tem outros capítulos surreais, como o financiamento de agências checadoras de notícias que na prática funcionam como tribunais da verdade (parece que os jornais abriram mão de ter editores nas redações). O ridículo da iniciativa é tão evidente que os “fact checkers” precisam trabalhar com graus de veracidade. As vítimas desses tribunais, claro, têm sido a própria grande imprensa.

E assim, perdida e nocauteada, a grande imprensa segue clamando por controle, controle e mais controle estatal. O futuro é claro e evidente, mas só a grande imprensa ainda não o viu. O controle A censura vai se voltar contra a própria imprensa e a liberdade de expressão e informação. Todos – repetindo – todos os blogs alternativos trabalham com opinião e ressonância do que a própria grande imprensa produz. Quando se estuda a propagação de notícias verdadeiramente falsas, percebe-se que seu impacto é mínimo. Dizer que as notícias falsas interferem na segurança da democracia é, hoje, propagar notícia falsa.

As agências de “fact checking” seguem desmoralizando a imprensa, e o mesmo deve acontecer com as empresas responsáveis pelas maiores redes sociais. Tudo isso deve finalmente resultar em uma legislação que dê verniz para a censura da sociedade e de toda a imprensa. A grande imprensa segue produzindo a própria forca.

O Estadão, um jornal que participa da grita contra as fake news, é o primeiro a reclamar das novas regras do Facebook em editorial.

Diz o jornal:

“Há poucos dias, o Facebook anunciou uma série de alterações nos algoritmos por trás de seu mural de notícias – a timeline – de modo a privilegiar o tráfego de postagens pessoais sobre aquelas produzidas por veículos de comunicação. Foi uma decisão no mínimo contraditória para uma empresa que se diz preocupada com a qualidade da informação e, em última análise, com a defesa da democracia. Ao restringir o tráfego de postagens de veículos de informação reconhecidos, o Facebook nada mais faz do que ampliar o espaço para a circulação de fake news.

Informação confiável requer investimentos em pessoas e meios. Confiança demanda tempo para ser conquistada. Se o Facebook quer valorizar a informação e a democracia, deve começar a valorizar os veículos que, sabidamente, fazem disso sua razão de existir.”

Que gracinha! Não só o jornal reclama da postura de um ente privado, como ainda quer tratamento diferenciado e reserva de mercado na disseminação e produção de informação.

O jornal deveria investir mais na qualidade da própria informação e na relação jornal/assinantes/anunciantes privados. A grande imprensa hoje é um grande parasita de verba pública de publicidade (um perigo para a independência jornalística). Só durante os governos do PT foram gastos inacreditáveis R$ 22 bilhões em propaganda estatal veiculada nos veículos de imprensa.

A grande imprensa precisa aprender a conviver com os blogs alternativos, que não são e nem nunca foram um perigo para a sua existência, mas apenas um outro canal de contestação dos governos e da própria imprensa.

Tudo o que os jornais tradicionais pedem para controle dos blogs alternativos irá resultar em controle dos próprios jornais. Quanto mais cedo perceberem isso, melhor.

 

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2 comentários para “Estadão é o primeiro jornal a reclamar de novas regras do Facebook para notícias

  1. Roberto

    Facebook nunca poderá ser usado como exemplo de isenção e acuidade de informação.
    Tentem escrever algo contra o politicamnetre correto dominante e vejam o que ocorre.

    Responder

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