César Benjamin, fundador do PT e do PSOL, diz que racialização no Brasil é criação da Fundação Ford

O sociólogo César Benjamin, fundador e dissidente do PT e do PSOL, criador da Editora Contraponto e atual secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro, causou polêmica ao afirmar em seu Facebook que a “racialização do Brasil” é uma “uma criação (…) do Departamento de Estado dos Estados Unidos” ao comentar a controvérsia causada com a fala da atriz Thaís Araújo de que as pessoas atravessariam a rua quando vêem alguém da cor de seu filho.

Pessoal, eu sei que fui derrotado, sei que sou minoria da minoria, sei que vou apanhar de novo. Mas continuo detestando …

Posted by Cesar Benjamin on Monday, November 20, 2017

O jornal O Estado de São Paulo perguntou para o secretário o que ele quis dizer com isso. Reproduzimos abaixo a entrevista:

O senhor causou grande polêmica junto ao movimento negro por causa da sua última postagem. O senhor esperava toda essa repercussão?

Faço esse tipo de alerta sobre os perigos da racialização da nossa sociedade desde a década de 1990. Desde então sou patrulhado. O problema só se agravou. Hoje leio nos jornais, rotineiramente, expressões como “o escritor branco Fulano de Tal”, “o cineasta negro Beltrano”, “o professor Cicrano, branco”. Naturalizamos a divisão racial dos brasileiros. Ninguém mais reage. Dizer que os brasileiros mudam de calçada quando veem uma criança negra na rua é uma ofensa ao nosso País. Essa histeria tem que parar. Alguém tem que dizer que é mentira.

O que, exatamente, o senhor quis dizer quando afirmou que a “racialização do Brasil foi uma criação do Departamento de Estado dos Estados Unidos”?

Na década de 1990, amigos gaúchos pediram-me que os recebesse no Rio de Janeiro e os acompanhasse em uma reunião que teriam na sede da Fundação Ford, que ficava na Praia do Flamengo. Queriam verificar a possibilidade de obter algum financiamento para projetos de educação em áreas rurais. Fiquei chocado com o que vi. Os funcionários da fundação disseram abertamente que só financiariam projetos que destacassem a questão racial no Brasil. Exigiram que eles mudassem todo o projeto que levaram. Estabeleci ali uma conversa tensa sobre isso. Um deles disse, para todos ouvirmos: “Temos 15 milhões de dólares e vamos provar que o Brasil é racista.” Entendi perfeitamente a mensagem.

Pensemos num computador. Ele tem um hardware, que são seus componentes físicos, mas para funcionar precisa de um software, um programa que lhe dá as instruções sobre o que fazer. Uma sociedade também tem componentes físicos, que são a sua infraestrutura, e componentes ideológicos, que organizam o comportamento das pessoas. A Fundação Ford, que é um braço do Departamento de Estado, mirou no coração do nosso software, o conceito de povo brasileiro. Acertou em cheio. Se não há povo brasileiro, o Brasil não vale a pena. Isso é parte importante da grande crise civilizatória que se abateu sobre nós e nos paralisa.

O senhor acha que o Brasil é um país racista? Ou o senhor acha que vivemos uma democracia racial? 

Há racismo no Brasil, assim como há em praticamente todo o mundo. Nunca usei e não conheço quem tenha usado a expressão democracia racial. Mas, ao contrário do que ocorre em vários outros países, o sistema de valores que a sociedade brasileira escolheu não legitima o racismo. Isso é muito importante. Um sistema de valores não descreve fielmente o que existe, mas aponta os caminhos que desejamos seguir. Sinaliza uma trajetória desejada. Os americanos transformaram essa nossa grande virtude em hipocrisia. Adestraram uma geração de militantes que detesta o Brasil.

Muitos argumentam que, em sua palestra, a atriz Taís Araújo, ao dizer que as pessoas mudam de calçada quando veem seu filho, estaria falando de forma simbólica, metafórica, sobre o racismo no Brasil. O senhor não viu desta forma?

Eu não vi a palestra da atriz, por quem tenho grande afeto. O que me chamou a atenção não foi a palestra em si. Foi a quantidade de gente que replicou essa barbaridade nas redes sociais de forma completamente acrítica, como se fosse verdade literal: os brasileiros atravessam a rua quando veem uma criança negra. Francamente…

As estatísticas mostram que a discriminação racial é um fato no País. Os negros são os mais pobres, os que mais morrem, os que mais são vítimas da polícia, a maior parte da população carcerária. O senhor discorda disso?

Uma grande mentira só prospera se tiver alguma aderência à realidade. Há verdade em tudo o que você diz, embora essas estatísticas sejam, em geral, de péssima qualidade. Mas são verdades seletivas, que acabam servindo a uma grande mentira: o Brasil é o País mais racista do mundo… A maior parte da população negra foi escrava até quase o final do século 19, há poucas gerações, e nossa mobilidade social não tem sido suficientemente grande para alterar posições historicamente constituídas. É um problema gravíssimo. Dedico minha vida a lutar contra ele. Mas a racialização não nos ajuda em nada. Só traz mais um problema. Impede-nos de ter uma aproximação amorosa em relação ao nosso próprio país.

O que o senhor quis dizer com “Quero que as raças se fodam”?

O conceito de raças humanas, além de cientificamente inepto, é pérfido, é do mal. Foi criado para justificar o colonialismo e desde então só separa, destrói, discrimina, justifica desastres humanitários de grandes proporções. Eu não quero que o Brasil seja um País de “escritores brancos ou negros” e “cineastas negros ou brancos”. Quero que seja um País de escritores e cineastas.

Como secretário de Educação, que tipo de ação o senhor tem tomado para evitar a discriminação nas escolas?

Pelo visto você foi capturada pela histeria racial, pois sua pergunta pressupõe que há discriminação em nossa rede, que você sequer conhece. Afinal, o Brasil é assim, não é? Lamento decepcioná-la, mas não conheço nenhum caso que possa confirmar isso. Nossa rede é um microcosmo do Brasil, profundamente miscigenada. Se aparecer racismo, ele será tratado como deve, como uma burrice e um crime. O racista é, antes de tudo, um burro. Achar, no século 21, que as pessoas devem ser julgadas pela cor da pele é o fim da picada.”

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6 comentários para “César Benjamin, fundador do PT e do PSOL, diz que racialização no Brasil é criação da Fundação Ford

  1. Moisés

    Na verdade com instrução e as midias como as redes sociais e internet trouxeram a tona problemas que antes eram aceitaveis e o status quo, o negro não se ve como “inferior e pobre e fragil mais” ele luta pela aceitação e isso é mostrado no dia dia cada vez mais evidente na burguesia branca que domina as politicas socio economicas do pais

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  2. Lorenzo Guerra

    A Fundação Ford doa dinheiro para movimentos pró-aborto no Brasil e também para ONGs
    Eles nem escondem isso. Aquela organização ”Católicas Pelo Direito de Escolha” (pró-aborto) no próprio site diz que a Ford ajudou na fundação e na manuntenção

    Evidente que não podendo refutar esses fatos esses esquerdistas dizem que ”a esquerda se vendeu”. Na verdade ela nunca se vendeu, ela nasceu vendida e sempre usou dinheiro dos capitalistas para implantar seus programas.

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  3. ronaldo rego

    Muito boas as declarações do Benjamim. O partido que ele fundou, quando acreditava em utopias, degenerou, tornando-se um monstro canceroso. Por prever isso desligou-se. Arrependeu-se, como tantos outros antes e depois dele. Os EUA, ou a “burguesia rica americana”, quer trazer para cá a luta racial que deu resultado por lá (elegerem um presidente negro não é uma vitória esmagadora?) e que gostariam de implantar aqui. Não perceberam que aqui houve miscigenação, que nosso povo, na maioria é misturado, pois temos todas as cores e olhos puxados de índígenas. Que esse povo mulato criou uma civilização própria nos séculos XVIII-XIX, e que tem muito orgulho disso. Mulatos aos milhares, como escritores, militares, políticos, músicos, engenheiros, etc.etc. onde os negros encontravam suas possibilidades de inserção na nova sociedade que surgia aos ímpetos.

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  4. Vagner Luis

    O cara colabora com a criação do PT e do PSOL e agora reclama da racialização? Ahhh… sinceramente, vá lá e acuse estes partidos por disseminarem tudo isto!

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  5. Marcio

    Entrevista perfeita, porém ele ficou pisando em ovos para não entrar na polêmica de denunciar a demagogia barata da atriz. Não interessa se foi literal ou uma figura de linguagem. O teor do discurso foi o que houve de mais danoso. Há tempos ela vem fazendo de declarações eivadas de “lacração e tombamento” o seu veículo de autopromoção. E eu a entendo, sinceramente. A senhora Taís Araújo abandonar o discurso do vitimismo, da correção política? Adeus papel de protagonista, adeus patrocínio da multinacional de cosméticos. De forma compreensível, ela quer manter seu atual padrão de vida e não voltar a tirar a roupa, como nos tempos de Xica da Silva.

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