Alckmin vs Aécio. Ou: O PSDB é Social Democrata?

Desde 2002, a guerra interna do PSDB para a nomeação do candidato presidencial tem causado prejuízos à democracia brasileira.

No Brasil, não existe a possibilidade de candidaturas independentes, ou seja, os partidos políticos são o único caminho para alguém ser eleito. Isso transforma o funcionamento dos partidos em uma importante engrenagem de nossa democracia.

Se não existe democracia interna partidária para a nomeação de candidatos, como fica a qualidade da representação política brasileira?

O PSDB, assim como o PT, foi fundado como um partido de correntes. O PT teve relativo sucesso na disputa interna entre suas correntes – trotskismo, marxismo, socialismo, lulismo –  que compõem a doutrina partidária do “Socialismo Petista”. A prática da disputa partidária aglutinou as correntes em tendências internas do petismo.

Já o PSDB sofreu o sufocamento de suas correntes fundadoras – democracia-cristã, liberalismo social, socialismo democrático e social democracia –  que compõem a doutrina partidária da “Social Democracia Brasileira”.

O Partido da Social Democracia Brasileira é Social Democrata?

É impossível falar na história do PSDB sem falar no MDB. O Movimento Democrático Brasileiro nasceu com o propósito de ser um partido de Frente Ampla de Oposição. A “ideologia partidária” do MDB era ser oposição à Ditadura Militar. Por causa disso, o partido era um aglutinamento de trabalhistas viúvos do João Goulart, centristas como Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, democratas cristãos como José Richa e Franco Montoro e comunistas como o Roberto Freire da época.

O PSDB nasceu com o fetiche de ser um “PMDB honesto”. Em outras palavras, o PSDB nasceu querendo ser também um partido de frente ampla, mas com a queda da Ditadura ficou impossível a frente ampla ter os mesmos propósitos do PMDB.

Em 1988, FHC e José Serra (políticos progressistas que na Constituinte compunham o MUP) foram grandes ideólogos de fundação do PSDB. Mas sabemos que, em 1988, FHC não possuía base partidária. Ele era um sociólogo trazido do CEBRAP por Ulysses Guimarães para repensar o MDB e só surgiu como político após assumir a vaga no Senado de suplente do Franco Montoro. Por sua vez, José Serra contava com reminiscências do movimento estudantil pré-64 como sua base partidária. Gente que ficou no Brasil e cresceu politicamente no estado de São Paulo no MDB/PMDB. E isso, sabemos, não basta para formar um partido.

A insatisfação de diversos políticos durante o governo Sarney desemboca em conversas sobre a formação de um partido “diferente”. Diferente do PT que eles consideravam “atrasado” e diferente do PDT que eles consideravam “personalista”.

Ideologia, base e representação

Nos encontros para a formação do “novo partido” era preciso definir os rumos ideológicos e de ação, e para isso diversos seminários foram organizados. Dois em especial: um no Hotel Nacional, em Brasília, e outro no Hôtel Jeu de Paumme, em Paris. Esse último contou com especialistas de 19 países diferentes, incluindo o futuro nobel de Economia, Amartya Sen.

Nesses encontros ficou definida a opção pelo centro. Havia a percepção de que a esquerda brasileira estava organizada com bases orgânicas de ação e que ela não tinha apreço pelas instituições da República. O ranço revolucionário – na visão dos fundadores – os diferenciaria do próximo partido.

Governadores Montoro (SP) e José Richa (PR) em comício das Diretas Já!

Governadores Montoro (SP) e José Richa (PR) em comício das Diretas Já!

Se a esquerda revolucionária detinha as bases orgânicas de ação, e a “direita” estava na órbita do PDS, como ficariam as bases do próximo partido? A resposta veio da democracia-cristã e do liberalismo (liberais do PFL e do PMDB). O ex-governador Franco Montoro (PMDB-SP), o maior expoente que a Democracia Cristã já produziu no Brasil, e o ex-governador José Richa (PMDB-PR) garantiram a capilaridade do próximo partido em São Paulo e Paraná. Jayme Santana (PFL-MA) e Saulo Queiroz (então secretário geral do PFL)  são nomes que participam ativamente da formação do novo partido. A preocupação em ser um partido de  Frente Ampla era tão forte que Tutu Quadros (filha do ex-presidente Jânio Quadros) foi uma das 88 assinaturas de fundação do partido.

O “novo partido” vira PSDB

O Estado de S. Paulo - 25/6/1988

O Estado de S. Paulo – 25/6/1988

A escolha do nome se deu por votação no Auditório Nereu Ramos na Câmara dos Deputados. Nas escolhas estavam:

PPP – Partido Popular Progressista
PDP – Partido Democrático Popular
PMD – Partido de Mobilização Democrática
NPD – Novo Partido Democrático
PSDB – Partido da Sociedade Democrática Brasileira ou Partido Social Democrático Brasileiro (sem Partido da Social Democracia Brasileira, nome atual).

PDP e PSDB foram para o segundo turno e PSDB acabou vencendo. O “B” de PSDB foi escolhido por FHC que nas discussões internas já vislumbrava a possibilidade de PSDB incorporar “social democracia” no nome. FHC sempre foi contra o partido ter em seu nome “social democracia”. O “Brasileira” foi sua vacina para integrar as correntes internas em torno da doutrina partidária. Em suas palavras. “Eu dizia, como vamos apresentar como social democracia um partido que não tem sindicatos? Os partidos social-democratas da Europa se formaram para generalizar o Estado do bem-estar social: educação, saúde, previdência. O grande instrumento para alcançar esse objetivo foram os sindicatos, os grandes beneficiários, os trabalhadores; ou seja, os que não tinham acesso a esses benefícios” [A Soma e o Resto – FHC, pg 87].

Posteriormente, para a fúria de Franco Montoro, ficou definido que PSDB seria o Partido da Social Democracia Brasileira. A resposta do ex-governador paulista foi a criação do “tucano”, símbolo partidário. Montoro, inclusive, não suportava ser chamado de social democrata, sempre corrigia o interlocutor dizendo ser um “tucano”.

Sobre Montoro e a fundação do PSDB, Bresser-Pereira declarou ao Valor:

Valor: E quando o senhor chegou ao PSDB?

Bresser-Pereira: Em 1988, fui um dos fundadores do PSDB. Na época da fundação, o Montoro não queria o nome de social-democracia para o partido, porque tinha origem na democracia cristã, que a vida inteira tinha lutado contra os social-democratas na Inglaterra, na Alemanha e na Itália. Nós ganhamos, pelo fato de sermos centro-esquerda. Mas aí ele dizia: “Muito bem, mas e se esse bendito PT, que se diz revolucionário, que tem propostas para a economia brasileira completamente irresponsáveis, chega no poder ou perto do poder e se domestica, e se torna social-democrata, como aconteceu na Europa? Eles têm toda uma integração com os trabalhadores sindicalizados, que nós não temos, então nós vamos ser empurrados para a direita”. E foi isso que aconteceu.

Outro grande nome do PSDB foi o ex-governador paulista Mário Covas, que passou de 1988 à 1994 pregando a importância de o Brasil adotar uma agenda liberal de desenvolvimento, para só então, passar a discutir uma agenda social democrata.

Em 1989, Mário Covas foi o primeiro candidato a presidente da República pelo PSDB. Se nas últimas campanhas tivemos como slogans “Agora é Aécio” ou “O Brasil pode mais”, com Covas presidente tivemos “Um choque de capitalismo”. Sim, o Brasil já teve uma candidatura presidencial com o mote de “Um Choque de Capitalismo” pelo PSDB.

Em seu discurso de lançamento de candidatura, Covas disse em 1989:

Hoje, com a aceleração das transformações tecnológicas, geopolíticas e culturais que o mundo está atravessando, a opção é manter-se na vanguarda ou na retaguarda das transformações. É com esse espírito de vanguarda que temos que reformar o Estado no Brasil. Tirá-lo da crise, reformulando suas funções e seu papel. Basta de gastar sem ter dinheiro. Basta de tanto subsídio, de tantos incentivos, de tantos privilégios sem justificativas ou utilidade comprovadas. Basta de empreguismo. Basta de cartórios. Basta de tanta proteção à atividade econômica já amadurecidas.

Mas o Brasil não precisa apenas de um choque fiscal. Precisa, também de um choque de capitalismo, um choque de livre iniciativa, sujeita a riscos e não apenas a prêmios. (…)

O Estado brasileiro cresceu demasiadamente como produtor direto de bens, mas atrofiou-se nas funções típicas de governo. Vamos privatizar com seriedade e não apenas na retórica. Vamos captar recursos privados para aumentar os investimentos de empresas públicas estratégias e rentáveis.”

Antes do golpe de 64, como político do PST, Covas era um Conservador. Sua Carta de Princípios de 1962 possui trechos como:

“I – Cremos na Família, célula primeira da sociedade, na infância,  e na juventude, credoras do melhor de nossos esforços e sacrifícios.

XII – Cremos no desenvolvimento social e econômico, à luz dos ensinamentos contidos na Encíclica “Mater et Magistra”, de sábio alcance e inadiável aplicação.

XIV – Cremos em DEUS, lembrados de que os Homens têm na Fé, o caminho para a evolução espiritual.

Se Covas começou sua carreira como Conservador e foi um Liberal durante a Ditadura, após a fundação do PSDB, sua conversão aos princípios tucanos é clara em seus discursos. Sua pregação liberal sempre respeitava a fidelidade doutrinária do PSDB. A social-democracia foi alvo constante de pregação por sua parte.

Dito tudo isso, fica a questão: Afinal, o que é o PSDB?

A carência de partidos ideológicos e coesos no Brasil faz com que toda a oposição se aglutine em torno do PSDB. Conservadores e Liberais, por não contarem com partidos próprios, acabam votando nos tucanos por falta de opção. Mas esses eleitores teriam direito de voz no partido? Sim, teriam.

Pela opção de frente ampla centrista que o PSDB fez em sua fundação e por ter colocado o Liberalismo e a Democracia-Cristã como correntes fundadoras [Programa PSDB, 1988, página 2]. Esses eleitores “de direita”, se filiados,  têm direito pelos documentos do partido a voz. E por que isso não ocorre?

A chegada do PSDB à Presidência se deu com a ala progressista do partido. Os grandes nomes da era FHC foram: Sérgio Motta, Clovis Carvalho, José Gregori,  Paulo Renato e José Serra (dentre outros). Já na Câmara, nomes como Arnaldo Madeira e José Aníbal foram destaque. Isso fez com que a corrente social-democrata se tornasse hegemônica na máquina partidária nacional.

Se de um lado o então deputado Franco Montoro filiava o PSDB na Organização Democrata Cristã da América (braço regional da Internacional Democrata Centrista), por outro, José Aníbal reclamava do PDT e do PT  por eles terem trabalhado para excluir o partido do XXII Congresso da Internacional Socialista.

Hoje, o PSDB conta com 6 governadores, mais de 700 prefeitos, mais de 5 mil vereadores, 54 deputados federais, 12 senadores e mais de 1 milhão de filiados. Todos são social democratas?

A ausência de prévias/primárias impede que o partido debata internamente quem ele é, o que realmente pensa e saiba o real tamanho de suas correntes.

Com a ausência de prévias/primárias, o eleitor de oposição (e por ventura do PSDB) depende de apenas 90 dias de campanha para formar opinião sobre os candidatos. O partido não testa discurso interno, não testa teses furadas, não testa a aceitação de ideias dentro do próprio partido e da sociedade e faz com que boa parte do perfil do candidato seja definido durante a campanha, um absurdo.

Com prévias/primárias, todas as correntes internas do partido poderiam aparecer à luz do dia e não dependeriam de ser reféns ideológicas do período FHC na presidência. Com prévias/primárias, novas tendências poderiam surgir desde que fossem coerentes com o Programa/Estatuto/Manifesto.

Você, eleitor de oposição, ainda tem paciência para a briga interna dos presidenciáveis tucanos? A maior chance do PSDB se tornar um partido orgânico é debater junto com seus eleitores e filiados quem ele é e o que ele pode ser, e isso se dará com prévias/primárias, não com reuniões no IFHC.

Político de verdade tem que ser eleito por seus pares e eleitores, não ungido.

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Se todos estão de acordo, então, eleitores de oposição, vamos parar de brigar por Serra/Alckmin/Aécio e passar a lutar pelo fortalecimento da democracia brasileira. Prévias Já!

10 comentários para “Alckmin vs Aécio. Ou: O PSDB é Social Democrata?

  1. CAPITALISTA MORENO

    Vcs só podem estar LOUCOS em considerar o PSDB como “direita”. O PSDB é só mais uma linha auxiliar do PT. O Aloysio Nunes, por exemplo, ex-motorista do Marighella, quer DESARMAR o cidadão de bem, é a favor da IMIGRAÇÃO ILEGAL desenfreada etc. O Alckmin aprovou cotas raciais, Passe Livre e Conselhos Populares em SP etc. O FHC disse que a Dilma é uma “mulher honrada” e Lula é “um símbolo”. Hoje mesmo, o PSDB afirma que “auditou” as urnas – que não podem ser auditadas – e que as últimas eleições foram “legítimas”. Esse tipo de “oposição” seria muito bem vinda em Cuba ou na Venezuela.
    O ÚNICO político que realmente é de Direita no país é o Bolsonaro. Se vcs apoiam qualquer outro político, vcs não são de Direita – esqueçam! São só uma esquerda light, mas não Direita!

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  2. Retina Democrática

    O que estamos assistindo, não é a discussão sobre o que é, ou que deveria ser o psdb mas, sua total incapacidade de definir valores internos !

    As consequências disso ?

    Comparando com outros partidos, o número de oportunistas barrados pela lei da ficha limpa, é proporcionalmente maior ao PMDB que é nacional !

    PSDB 56
    PMDB 49
    PP 30
    PR 25
    PSB 23

    Isso é um reflexo de que o psdb está se tornando um partido perigoso para a democracia brasileira!
    Se ele continuar a crescer desta forma, será apenas um satélite do pt que é um partido nocivo, que mais atrapalha do que ajuda o desenvolvimento da democracia !

    A legislatura não pode ser um instrumento de posse do ESTADO pelos partidos, mas um instrumento de criação de cidadãos livres, que precisam cada vez menos do ESTADO!

    Que parte da verdade acima os políticos brasileiros não conseguem entender ?

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  3. Wagner Guimaraes

    Excelente texto, muito esclarecedor. O PSDB é a única forma que os que não concordam com as doutrinas marxistas encontram para tentar ser representados. Porém, esta falta de coesão do partido, acaba deixando-os órfãos, e reféns das políticas ditatoriais do ParTido. Isto está abrindo caminho para uma ala conservadora, muito grande na sociedade brasileira, articular-se em busca de representação. O embrião do futuro Partido Conservador, o CONS, já está sendo gestado. Esta ideia quando lançada oficialmente, será aceita de forma rápida pela sociedade, que clama pela parada na permissividade dos marxistas hoje no poder. O país não pode mais manter a máquina pública gastando mais do que arrecada, grupos não podem ter privilégios em detrimento de outros, a livre iniciativa deve ser incentivada. Como disse Mário Prata em uma crônica, A Direita e a Esquerda em um País Central, hoje não temos direita no país, temos esquerda moderada e centro-esquerda.

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    • Mario D. La Gatto

      Não há “falta de coesão” no PSDB, mas falta de um líder carismático cujas ordens não podem ser contrariadas como acontece no PT. Outro “problema” do PSDB é que tem um bom número de homens muito bem qualificados e preparados para governar, algo que não acontece em nenhum outro partido brasileiro. Os debates da campanha presidencial de 2014, mais uma vez, deixaram isso claro. É um erro grave dizer que o Brasil não tem direita. Sempre teve. Ocorre que a direita no Brasil sempre se fantasiou de esquerda. Nunca nenhum político teve coragem e honestidade de fazer discurso ou se declarar de direita. Os políticos brasileiros, como em outros países da AL, sempre enganaram o povo com discurso de pseudo-esquerda.

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  4. Davy Nogueira

    Parabéns pela publicação, sou prova viva de que os mais de 1 milhão de tucanos não são bem representados em seus ideias, aliás a maior parte dos eleitores do PSDB são justamente os que repudiam as doutrinas de esquerda do PT, logo para criar maior ligação com a sociedade e justificar os mais de 50 milhões de votos recebidos em 14 o PSDB deveria rumar mais a Direita… Inclusive por questões de sobrevivência, existem no Brasil mais de 10 Partidos com viés socialista, está cada vez mais difícil conquistar votos desta ala da população, por outro lado os cidadãos que se identificam com os valores de Direita sentem se cada vez mais órfãos, infelizmente o PSDB só se dará conta da falha que está cometendo quando algum Partido, como o NOVO conseguir arrebatar seus eleitores ANTI MARXISTAS… Mas aí talvez seja tarde demais.

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    • Mario D. La Gatto

      O problema não está no PSDB, mas numa grande fatia do eleitorado brasileiro que durante décadas foi inculcado por um discurso supostamente anti-imperialista, anti-capitalista, a favor do “povo”, do “trabalhador”, etc. O PT e seus satélites (CUT, MST, PSOL, PCdoB, etc.) a esta altura até por falta de opção, continuam a pregar assim, sendo que todos seus chefões mafiosos ficaram biliardários e o que menos representam é o povo trabalhador. Chegam ao absurdo de se manifestarem a favor da inepta Dilma, mas contra o tecnocrata Levy, seu subordinado. Hoje muitas pessoas admitem ter votado no PT e se dizem decepcionadas. A maioria acreditou que era possível construir uma sociedade com muitos direitos, mas quase sem obrigações.

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  5. Guilherme

    Excelente artigo! Se possível, façam mais artigos como este (com documentos históricos, pronunciamentos de políticos…) sobre os outros partidos políticos do Brasil. A verdade é que os brasileiros pouco sabem sobre as origens dos partidos. Só dizem (com razão) que “não nos representam”, mas não sabem sabem encontrar encontrar saídas para esse problema. Talvez a saída esteja nos próprios partidos que já existem…. só que ainda falta conhecimento sobre eles.

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