A acusação de Alexandrino Alencar a Onyx Lorenzoni seria uma vingança?

O princípio que rege as delações premiadas é muito claro: tudo que um delator afirma precisa ser provado, ter indícios muito sólidos para que somente assim ele seja beneficiado com diminuição da pena. Se ele mentir, ele deve ser punido. Mas e no caso de um delator que entregou vários esquemas de corrupção? Se ele mentir em um ou outro, como fica?

Essas perguntas vêm à tona por conta do estranho caso da menção a Onyx Lorenzoni, deputado do DEM do Rio Grande do Sul que, desde 2005, tem sido um dos destaques nas medidas e debates focados em combater a corrupção. Após uma entrevista indignada de Onyx explicando seu caso na rádio Jovem Pan e suas publicações nas redes sociais, fomos conferir a acusação e verificamos muitas peculiaridades.

A ACUSAÇÃO DE ALEXANDRINO

Alexandrino Alencar seria o responsável pelo setor de propinas da Odebrecht encarregado da região Sul do país. No documento produzido pelo MPF que embasa o pedido de inquérito, está assim registrado o caso envolvendo o democrata gaúcho:

Percebeu que o Deputado Federal ONYX LORENZONI era uma pessoa importante, uma nova força política, e que o grupo precisava mantê-lo próximo (4min43s). Em razão disso, procurou o candidato a Deputado Federal pelo então PFL, demonstrando interesse em apoiá-lo financeiramente.
A iniciativa teria sido do próprio Grupo Odebrecht, e não do candidato. Na reunião com ONYX LORENZONI, ALEXANDRINO teria afirmado: “Estamos percebendo o seu desempenho, a sua conduta, e nós gostaríamos de termos aí como um parceiro futuro nas suas atividades como deputado federal” (5min23s).

Com a anuência de ONYX LORENZONI, a doação para a campanha de 2006 foi feita sem qualquer contabilidade oficial, no montante de R$ 175.000,00 (cento e setenta e cinco mil reais), sendo registrada no sistema Drousys com o codinome “Inimigo”.

Por fim, ALEXANDRINO DE SALLES RAMOS DE ALENCAR informa que não precisou reportar a nenhum superior sobre a doação ao mencionado Deputado Federal, já que tinha uma alçada para a região sobre a qual tinha a liberdade para realizar as doações.

O depoimento de Alexandrino ao MPF pode ser visto no Youtube:

OS PROBLEMAS DA ACUSAÇÃO

1– Apenas Alexandrino menciona este pagamento de Caixa 2 – Alexandrino delatou muitos pagamentos que fazem partes de outros inquéritos. Porém, nos casos de Ônyx, do deputado Vander Luiz dos Santos Loubet (PT/MS, sobrinho do governador Zeca do PT e investigado no Inquérito 4417) e Maria do Rosário (PT/RS, Inquérito 4398), somente Alexandrino relata o pagamento. E apenas Ônyx era de um partido de oposição. Nos inquéritos de Caixa 2 para Vicentinho, Paulo Pereira da Silva e Yeda Crusius (então governadora do RS) por exemplo ele é apenas um dos delatores.

2- Alexandrino não comunicou a ninguém – Em nenhuma outra acusação de pagamento de propina há um relato semelhante ao feito por Alexandrino quanto a Ônyx. Neste trecho:

ALEXANDRINO DE SALLES RAMOS DE ALENCAR informa que não precisou reportar a nenhum superior sobre a doação ao mencionado Deputado Federal

Não relatou a nenhum superior? Qual a necessidade deste destaque? Parece uma vacina para o caso de não poder apresentar nenhuma pessoa que tenha tomado conhecimento da doação.

3 – Alexandrino não menciona nenhuma participação de terceiros – Além de destacar que não comunicou a nenhum superior, Alexandrino também não menciona a participação de nenhum outro elemento na transação. Se tivesse mencionado, esta terceira pessoa poderia confirmar ou negar a acusação. Quem pagou a propina? Foi o próprio Alexandrino?

4 – Alexandrino não menciona onde nem como foi feito o pagamento – Não é possível saber pelo depoimento se o pagamento foi feito em dinheiro ou depositado em conta. Seja qual for o método, é de se imaginar que outra pessoa tenha participado (como já destacamos no item 3). Essa informação é crucial para se comprovar a acusação. Além disso, onde foi o encontro mencionado na acusação?

5- Houve apenas um contato – Como alegado por Onyx,  Alexandrino relata apenas a aproximação para doação de recursos como Caixa 2 em 2006 e nenhum contato posterior. Não se pode alegar que isto se deve a ele não ter ocupado cargos no executivo. Tome-se o caso de Maria do Rosário: assim como Onyx, apenas Alexandrino a delatou. Porém, ele deixa bem claro que ela se aproximou e pediu o dinheiro para a campanha em 2010 após eles terem se conhecido em 2008. Está no Inquérito 4398 do MPF:

Nessa esteira, percebeu que a Deputada Federal MARIA DO ROSÁRIO era uma pessoa importante, uma liderança política no Rio Grande do Sul e que o grupo precisava mantê-la próxima (3 min). Em razão disso, por volta de 2008, aproximou-se da então candidata a Deputada Federal já antevendo o seu potencial devencer a eleição, demonstrando interesse em apoiá-la financeiramente.

Esclareceu que em 2010, a então candidata procurou o colaborador solicitando valores a pretexto de campanha (3min 20s). O repasse do recurso foi feito sem qualquer registro, pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht,’ no montante de R$ 150.000,00, sendo registrada no Sistema Drousys2com o codinome “SOLUÇÃO”.

6- O valor doado 1 – Segundo Alexandrino, foram R$ 175 mil doados ilegalmente para Onyx. É um valor muito alto para uma campanha a deputado federal, ainda mais levando em conta que o democrata não era aliado do governo federal. Como comparação a outros candidatos, Maria do Rosário teria recebido R$ 150 mil na campanha de 2010, quatro anos depois. Já Vander Loubet (PT/MS) teria recebido R$ 50 mil, também em 2010. Por que ele teria doado tanto a mais para um deputado oposicionista quatro anos antes, quando o esquema de propinas era muito menor?

7- O valor doado 2 – Os R$ 175 mil pra a campanha de Onyx representam um montante muito grande tanto comparando-se as doações a outros candidatos a deputados federais quatro anos depois, como demonstramos no item 6, como comparando-se às doações registradas da campana. A Prestação de Contas de 2006 pode ser vista neste link, e lá vemos que os maiores doadores de Onyx foram:

  • BRASIF S/A – R$ 50 mil em um pagamento
  • GERDAU AÇOS LONGOS S/A – R$ 100 mil em dois pagamentos (02/08 e 19/09)
  • FORJAS TAURUS S/A – R$ 110 mil em quatro pagamentos, sendo dois de R$ 20 mil (27/09 e 17/10), R$ 30 mil (13/09)  e R$ 40 mil (08/08).

Aqui neste site, somos admiradores do trabalho de Onyx Lorenzoni, embora nenhum de nós seja eleitor dele (não há um gaúcho nem mesmo entre os amigos colunistas que escrevem por aqui esporadicamente). Sua atuação contra o PT, pelas investigações do Mensalão, contra a quadrilha da Lava Jato, contra Eduardo Cunha e a favor das 10 medidas e contra a Reforma da Previdência proposta por Michel Temer nos fazem torcer para que ele realmente  não tenha sido beneficiário de dinheiro roubado.

Vamos aguardar os próximos passos da investigação quanto a seu caso específico. Com o que se tem, não será muito difícil comprovar se ele recebeu os R$ 175 mil: basta para isso que Alexandrino divulgue quem fez o pagamento e como, indicando também a conta destino ou o local de entrega das cédulas. Até lá, esta delação de Alexandrino parece muito mais uma escolha aleatória de uma pessoa querendo se vingar de quem combateu os esquemas que agora vieram abaixo e precisa descontar em qualquer um que seja visto como “INIMIGO“.

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2 comentários para “A acusação de Alexandrino Alencar a Onyx Lorenzoni seria uma vingança?

  1. Gilmar

    Me causou muita estranheza esta acusação do Alexandrino contra o Onyx, do qual não sou eleitor, pois não é do meu estado do Paraná.

    Se for mentira, O Alexandrino vai perder o benefício da delação e vai para atrás das grades…

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  2. Pedro Rocha

    Não ponho a mão no fogo por ninguém: lembrem-se de Demóstenes Torres.

    Além disso, é estranho acreditar que um delator ponha seus benefícios em risco para prejudicar alguém por motivos “pessoais”. Quanto aos valores, comprar alguém da oposição sempre vai ser mais caro do que comprar alguém da situação.

    O melhor é aguardar o trabalho das Autoridades e o esclarecimento dos fatos.

    Responder

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