Arca Reaça

@reaconaria

Sermão do bom ladrão, de padre Antônio Vieira

Em 2004 ainda existia a revista “Primeira Leitura”, cujo editor era Reinaldo Azevedo. O site tratava com frequência de política, já a revista se dedicava mais a pensamento, resenhas, entrevistas e reflexões. Era um trabalho de altíssima qualidade e com colaboradores muito bons.

Quem acompanhou a revista ao longo do tempo pôde ver a “conversão” de Reinaldo Azevedo que, no início, se definia mais como social-democrata. O texto que trazemos ao “Arca Reaça” hoje é uma análise de Reinaldo publicada no site sobre um dos excelentes sermões do padre Antônio Vieira. O texto é longo e necessário:

Sermão do Bom Ladrão, de padre Antônio Vieira
Em dias em que autoridades vão à televisão para arrotar moralidade, embora sejam seus subordinados a meter a mão no dinheiro público, vale lembrar o que disse um jesuíta há 350 anos
Por Reinaldo Azevedo

O PREGADOR: uma imagem de padre Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa

O PREGADOR: uma imagem de padre Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa

Caros internautas,

De vez em quando, é preciso voltar às fontes originais onde todos bebemos ou deveríamos beber. E convidar o leitor a partilhar de tais águas. Uma das minhas minas de raridades é padre Antônio Vieira (1608-1697), que se aprende no colégio ser o prosador do barroco brasileiro, tanto quanto o baiano Gregório de Matos foi o seu poeta. Embora nascido em Portugal, em terras pátrias, especialmente no Maranhão, proferiu boa parte dos sermões que o tornaram notável. Jesuíta, logo se indispôs com os rumos da colonização no país, marca constante de sua ordem religiosa, e, pois, com a Coroa portuguesa e com a cúpula da própria Igreja Católica, o que acabou por levá-lo ao tribunal da Inquisição.

Não há, entendo, nos 322 anos em que o Brasil permaneceu colônia de Portugal, figura mais complexa. Encarnava a um só tempo os valores do establishment monárquico-católico (e nem poderia ser diferente) e a sua viva contestação. Seus sermões, quase sempre justificadores da ordem — na sua aparência ao menos —, expõem o limiar de um pensamento humanista que, não raro, tem um caráter claramente subversivo. Era um padre. Seu horizonte, claro!, era o que entendia e o que os seus doutores teólogos entendiam ser o reino de Deus. Mas nunca faltaram em seu texto a paixão pelo homem e um agudo senso de justiça, conforme evidenciou, por exemplo, nos textos em que tratou da escravidão.

Seleciono, na seqüência, partes de um sermão de 1655, que ficou conhecido como o Sermão do Bom Ladrão (clique aqui para ler). Suspeito que sua leitura, ainda hoje, passados quase 350 anos, deixaria muita gente corada de raiva ou de vergonha nos salões de qualquer um dos Três Poderes da República. Ao lado, há uma imagem em que se pode clicar para ter acesso ao texto integral. A seleção que faço, verá o internauta, tem endereço certo: é mesmo o Brasil de 2004. Separo os trechos em blocos, antecedidos por um intertítulo e por um comentário meu, que segue em itálico. Leiam e depois me digam se o governo que aí está, mesmo este que prometeu novas auroras, resistiria ao padre franzino do século 17.

LADRÃO PEQUENO É PIRATA; LADRÃO GRANDE É ALEXANDRE MAGNO

No excerto que segue, Vieira já havia feito a distinção, que percorre todo o texto, entre “ladrões grandes” e “ladrões pequenos”. Neste trecho em particular, diz haver pouca diferença entre os “reinos” e covis de bandidos. A não ser pelo tamanho. E crava uma frase que entrou para história: ao cruzar com um pirata, Alexandre, o Grande, tentou admoestá-lo e censurá-lo por causa de suas más ações. E então lhe responde o outro: “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Vamos a Vieira ele mesmo:

“O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que, entre os tais reinos e as covas dos ladrões — a que o santo chama latrocínios — só há uma diferença. E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna? É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.”

LADRÕES GRANDES ENFORCAM OS PEQUENOS

Num dos melhores, mais claros e eloqüentes trechos do sermão, Vieira parece falar muito de perto ao país dos Carandirus e Benficas. E também evidencia a sem-cerimônia com que os ladrões oficiais, os ladrões incrustados no Estado e nos governos se encarregam de punir os ladrões menores. Numa espetacular seqüência de antíteses violentas, opõe a desigualdade de prejuízos causados à sociedade pelos ladrões pequenos e pelos ladrões poderosos. Em suma: o destino do responsável pelo pequeno furto é a forca; o do cônsul, que rouba uma cidade, é o triunfo. Vamos ver:

“Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão (…).O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno (…). Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: (…) Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.”

RESPONSÁVEL É QUEM NOMEOU

Até aqui, leitor, temos um Vieira falando como um moralista, trabalhando com categorias absolutas como honradez, decência, observância das leis divinas etc. No trecho que segue, de leitura nem tão fácil como os anteriores, vamos nos deparar com um exercício claro de inteligência política. Quando vemos hoje que as autoridades que nomearam os ladrões da Saúde, por exemplo, vão à TV para prometer justamente a moralização da coisa pública, devemos nos perguntar, sob os auspícios de Vieira: ué, mas não são elas próprias, as que escolheram aqueles homens de confiança, as responsáveis últimas pelos seus desmandos? Afinal, quem foi que mandou que concedesse tanto poder aos ladravazes? Santo Deus! Vieira sabia disso em 1655, e nós, muitos jornalistas inclusive, não consideramos tal realidade em 2004. Deixemos que Vieira fale:

“Declarado assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse e digo que levam consigo os reis ao inferno. Que eles fossem lá sós, e o diabo os levasse a eles, seja muito na má hora, pois assim o querem; mas que hajam de levar consigo os reis é uma dor que se não pode sofrer, e por isso nem calar. Mas se os reis tão fora estão de tomar o alheio, que antes eles são os roubados, e os mais roubados de todos, como levam ao inferno consigo estes maus ladrões a estes bons reis? Não por um só, senão por muitos modos, os quais parecem insensíveis e ocultos, e são muito claros e manifestos. O primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes com que roubam; o segundo, porque os reis os conservam neles; o terceiro, porque os reis os adiantam e promovem a outros maiores; e, finalmente, porque, sendo os reis obrigados, sob pena de salvação, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem.”

É PROIBIDO ALEGAR IGNORÂNCIA

Na seqüência, Vieira recorre a uma citação de Santo Tomás de Aquino e dá um passo ainda mais ousado. Seguindo o princípio de que aquele que rouba tem de devolver o produto de seu roubo e dado que isso pode não acontecer por iniciativa do próprio ladrão, o padre põe os poderosos em palpos de aranha: então que devolvam aqueles que responderam pelas escolhas. Imaginem se o princípio fosse aplicado no Ministério da Saúde… Vamos a Vieira:

“E quem diz isto já se sabe que há de ser Santo Tomás. Faz questão Santo Tomás, se a pessoa que não furtou, nem recebeu ou possui coisa alguma do furto, pode ter obrigação de o restituir. E não só resolve que sim, mas, para maior expressão do que vou dizendo, põe o exemplo nos reis. Vai o texto: Tenetur ille restituere, qui non obstat, cum obstare teneatur. Sicut principes, qui tenentur custodire justitiam in terra, si per eorum defectum latrones increscant, ad restitutionem tenentur, quia redditus, quos habent, sunt quasi stipendia ad hoc instituta, ut justitiam conservent in terra: Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça. — É tão natural e tão clara esta teologia, que até Agamenão, rei gentio, a conheceu, quando disse: “Qui non vetat peccare, cum possit, jubet” [Quem, podendo, não impede o pecado, ordena-o].”

ATÉ DEUS PAGOU O PATO

E Vieira segue adiante, num procedimento típico, que irritava muitos de seus contemporâneos, especialmente os adversários dentro da própria Igreja. Vai buscar num exemplo bíblico a comprovação da tese, que certamente sabe ser espinhosa. No trecho que segue, trata Adão mais como um “ladrão” do que como um pecador de catecismo. E diz que Deus — que era, afinal, o responsável pela criatura — pagou, sim, pela transgressão praticada pelo outro. Logo, que os governantes sejam os responsáveis pelos homens que nomearam. Pois é: hoje em dia, ministros preferem ir à TV para desobrigar-se da responsabilidade por aqueles que nomearam.

“E se nesta obrigação de restituir incorrem os príncipes pelos furtos que cometem os ladrões casuais e involuntários, que será pelos que eles mesmos, e por própria eleição, armaram de jurisdições e poderes, com que roubam os mesmos povos? A tenção dos príncipes não é nem pode ser essa; mas basta que esses oficiais, ou de Guerra, ou de Fazenda, ou de Justiça, que cometem os roubos, sejam eleições e feituras suas, para que os príncipes hajam de pagar o que eles fizeram. Ponhamos o exemplo da culpa, onde a não pode haver. Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepta somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher — que muitas vezes são as terceiras — aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão. E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. (…) Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei.”

O PODEROSO TEM DE DAR O EXEMPLO

E lamento dizer que Vieira não deixa nem mesmo espaço para a desculpa esfarrapada de que, afinal, procurou-se fazer o melhor, de que o governante se cercou de todos os cuidados. Ou, para ficar com a máxima de Márcio Thomaz Bastos, de que os ladrões eram puros até entrarem em contato com a máquina corrupta. O nosso Vieira deixa claro que nem mesmo Deus tinha o direito de dizer algo como “fiz tudo o que estava ao meu alcance”. Assim, parece, se o governo Lula quer saber quem é o responsável pela lambança da Saúde, a resposta é muito simples: ele próprio, o ministro escolhido, que, por sua vez, escolheu os assessores. Vieira — e o Deus conforme o lê o padre — não permite a essa gente outra saída. Ao sermão, em que o jesuíta começa por indagar Deus:

“Pois, Senhor meu, que culpa teve vossa divina Majestade no furto de Adão? — Nenhuma culpa tive, nem a tivera, ainda que não fora Deus, porque na eleição daquele homem, e no ofício que lhe dei, em tudo procedi com a circunspecção, prudência e providência com que o devera e deve fazer o príncipe mais atento a suas obrigações, mais considerado e mais justo. Primeiramente, quando o fiz, não foi com império despótico, como as outras criaturas, senão com maduro conselho, e por consulta de pessoas não humanas, senão divinas (…) As partes e qualidades que concorriam no eleito eram as mais adequadas ao ofício que se podiam desejar nem imaginar, porque era o mais sábio de todos os homens, justo sem vício, reto sem injustiça, e senhor de todas suas paixões, as quais tinha sujeitas e obedientes à razão. Só lhe faltava a experiência, nem houve concurso de outros sujeitos na sua eleição, mas ambas estas coisas não as podia então haver, porque era o primeiro homem, e o único. — Pois, se a vossa eleição, Senhor, foi tão justa e tão justificada, que bastava ser vossa para o ser, por que haveis vós de pagar o furto que ele fez, sendo toda a culpa sua? — Porque quero dar este exemplo e documento aos príncipes, e porque não convém que fique no mundo tão má e perniciosa conseqüência, como seria, se os príncipes se persuadissem em algum caso que não eram obrigados a pagar e satisfazer o que seus ministros roubassem.”

MÉRITO E NEPOTISMO

O trecho a seguir é daqueles que justificam certos exageros de que se tomam, às vezes, os admiradores de Vieira. Parece ter dons premonitórios. Ele conhecia o funcionamento das cortes, mas, abaixo, parece descrever a rotina, por exemplo, de um partido político. Para o padre, está posto, quem responde pelo erro do subordinado é aquele que o nomeou. Mas, claro!, o que nomeia sempre poderá alegar que não sabe o que fará o escolhido no futuro. Deixemos que fale o autor. E veremos que ele, na verdade, o que cobra é critério na escolha. Se não se pode saber o que fará o homem, é perfeitamente possível saber o que ele faz. Vieira abomina todas as escolhas dos reis que não sejam aquelas do mérito. Quem for servir ao Estado por qualquer outra razão, diz o jesuíta, começa como ladrão encoberto e termina como ladrão descoberto.

“Mas estou vendo que com este mesmo exemplo de Deus se desculpam ou podem desculpar os reis, porque, se a Deus lhe sucedeu tão mal com Adão, conhecendo muito bem Deus o que ele havia de ser, que muito é que suceda o mesmo aos reis, com os homens que elegem para os ofícios, se eles não sabem nem podem saber o que depois farão? A desculpa é aparente, mas tão falsa como mal fundada, porque Deus não faz eleição dos homens pelo que sabe que hão de ser, senão pelo que de presente são. Bem sabia Cristo que Judas havia de ser ladrão; mas quando o elegeu para o ofício em que o foi, não só não era ladrão, mas muito digno de se lhe fiar o cuidado de guardar e distribuir as esmolas dos pobres. Elejam assim os reis as pessoas, e provejam assim os ofícios, e Deus os desobrigará nesta parte da restituição. Porém as eleições e provimentos que se usam não se fazem assim. Querem saber os reis se os que provêem nos ofícios são ladrões ou não? Observem a regra de Cristo: Qui non intral per ostium, jur est et latro [O que não entra pela porta, esse é ladrão e roubador]. A porta por onde legitimamente se entra ao ofício é só o merecimento. E todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão, senão ladrão e ladrão: Fur est latro. E por que é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação. E quem negocia não há mister outra prova: já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto, que essa é, como diz S. Jerônimo, a diferença de fur e latro.”

UM PRIMOR DE RETÓRICA

O destaque do trecho abaixo vai mesmo em função da retórica. Nele, Vieira nem renova os argumentos, mas apenas procede a um jogo de palavras com categorias da linguagem que dão conta de sua genialidade e do epíteto que lhe colou o poeta Fernando Pessoa: “imperador da língua portuguesa”. Reparem como ele trata do verbo “roubar” nos vários tempos e modos e consegue tornar lapidar a sua argumentação. O “lá” que aparece na primeira linha do trecho é o “poder”:

“Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.”

NOVO APELO

Caros leitores, há muito mais no texto original. Resta insistir que selecionem o texto e o guardem em um arquivo para ler mais tarde se agora falta o tempo necessário. Vieira foi um grande homem sobretudo porque não foi óbvio nem se deixou envolver pela versão influente, pelo poder influente, pela falsa evidência.

Islã é paz

6 dias após os atentados às Torres Gêmeas, no dia 17 de setembro de 2001, George W. Bush foi ao Centro Islâmico de Washington mandar uma mensagem de tolerância, paz e respeito aos muçulmanos dos Estados Unidos, que sofriam hostilidade dos americanos nas ruas revoltados com os atentados. Uma atitude corajosa e conciliadora que acabou por ser esquecida mas deve ser lembrada para evitar generalizações que, no fim das contas, só servem para dar impressão de maior poder aos que buscam na deturpação de uma Fé o combustível de seus crimes.

É esse discurso que trazemos hoje ao “Arca Reaça“:

Obrigado a todos vocês por sua hospitalidade. Acabamos de ter um amplo debate sobre esse problema. Como as boas pessoas aqui comigo, o povo americano ficou estarrecido e indignado com os ataques da última terça-feira (11/09). E assim também ficaram os muçulmanos ao redor do mundo. Americanos, amigos e cidadãos muçulmanos, cidadãos contribuintes, e povos muçulmanos ficaram estarrecidos e não podiam acreditar no que víamos nas nossas televisões.

Esses atos de violência contra inocentes violam os princípios fundamentais da fé islâmica. E é importante para meus companheiros americanos entenderem isso.

A tradução para inglês não é tão eloquente quanto o original em árabe, mas me permitam citar do Corão mesmo: “No longo termo, o mal no extremo será o fim daqueles que fazem o mal. Para aqueles que rejeitam os sinais de Allah e os levam ao ridículo”.

A face do terror não é a verdadeira face do Islã. O Islã não é isso. O Islã é paz. Esses terroristas não representam a paz. Eles representam o mal e a guerra.

Quando pensamos no Islã, pensamos numa fé que traz conforto a um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Bilhões de pessoas encontram conforto e consolo e paz. E isso que os torna irmãos e irmãs de todas as raças – de todas as raças.

Os Estados Unidos têm milhões de muçulmanos entre seus cidadãos, e muçulmanos dão uma incrível e valorosa contribuição para nosso país. Muçulmanos são doutores, advogados, professores de direito, membros do exército, empreendedores, comerciantes, mães e pais. E eles devem ser tratados com respeito. Em nosso ódio e emoção, nossos companheiros americanos precisam tratar uns aos outros com respeito.

Mulheres que cobrem suas cabeças nesse país precisam se sentir seguras saindo de suas casas. Mães que usam véus não devem se sentir intimidadas nos Estados Unidos. Isso não é a América que eu conheço. Essa não é a América que eu valorizo.

Eu tenho ouvido que algumas temem sair; algumas não querem ir às compras com suas famílias; algumas não querem seguir suas rotinas diárias pois, vestindo um véu, temem ser intimidadas. Isso não deveria e não vai continuar nos Estados Unidos.

Aqueles que acham que podem intimidar nossos cidadãos para extravasar seu ódio não representam o melhor da América, eles representam o pior da humanidade, e deveriam se envergonhar desse tipo de comportamento.

Esse é um grande país. É um grande país porque compartilhamos os mesmos valores de respeito e dignidade e valor humano. E me sinto honrado em conversar com líderes que sentem o mesmo que eu sinto. Eles estão indignados, eles estão tristes. Eles amam os Estados Unidos da mesma forma que eu amo.

Eu quero agradecer todos vocês por me darem essa chance de vir aqui. E que Deus os abençoe a todos.

Bush_IslamicCenter

Transcrição original em http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2001/09/20010917-11.html.

No New York Times e na CNN, matérias recentes que relembram esse importante gesto.

Abaixo, o vídeo do discurso de George W. Bush

O assunto proibido

Em 2004, fazia grande sucesso na internet brasileira o coletivo de blogs “Wunderblogs”. Revelador de grandes talentos, o coletivo trazia textos agradáveis e muito bem escritos.

Dentre os Wunderblogs havia Alexandre Soares Silva, que ainda hoje possui um dos melhores textos da Internet brasileira, mas agora em outro endereço. O texto que destacamos hoje aqui na “Arca Reaça” é um em que o @LordAss trata de outra figura muito famosa na Internet brasileira, Olavo de Carvalho. Falaremos mais dessa outra “figura” em outros posts ainda essa semana, mas por enquanto, leiam o texto de Alexandre.

O Assunto Proibido

Um amigo meu uma vez disse que sempre ouvimos falar da perseguição que os grandes homens sofrem – todo aquele ódio e zombaria – mas que isso era algo muito distante e difícil de imaginar, até o momento em que percebemos que é isso que estamos vendo acontecer com Olavo de Carvalho.

Esse amigo também me avisou para não escrever sobre o assunto, ou eu entraria para sempre na listinha negra dos imbecis. Falar em Olavo de Carvalho é para sempre ter que ficar se justificando, dizer que lê mas é limpinho, nunca teve aula com ele, não conhece, não quer conhecer. Falar nele é para sempre ser considerado por essa gente não como alguém que ocasionalmente lê e gosta do que ele escreve, como poderia acontecer com alguém que lê Bergson ou Maritain, mas como alguém que faz parte de uma espécie de seita.

E é verdade que existe esse risco. Mas é bom estar na lista negra de imbecis: as consequências costumam ser superestimadas e a sensação é reconfortante. E me deu vontade de falar no assunto, so there we go.

Neste momento consigo ouvir os gemidos de pessoas irritadas com a atribuição de grandeza a Olavo de Carvalho. Bom, a quantidade de ódio dirigido contra ele é uma prova de grandeza – se ele precisasse de outra além de “O Jardim das Aflições”, that is (incidentalmente, é preciso ser muito estúpido para ler esse livro e continuar desprezando o autor).

Outra prova – mais significativa, porque a anterior poderia provar até a grandeza de Noam Chomsky – é a baixa qualidade das pessoas que o odeiam. São as pessoas mais repulsivas do mundo, que têm nomes como Edu Mokoka e Thais Vakinha. Por favor! Gente cheia de raiva*, que deixa comentários obscenos em blogs de qualquer um que julguem ser um aluno dele (quase sempre erradamente), e que se apresentam no Orkut com fotos em que aparecem com canetas piloto enfiadas no nariz (vermelhas; eu vi) e usando bonés com pequenas hélices em cima (I kid you not). Com essas fotos, se metem em debates sobre racismo ou fascismo; ah, é lindo.

Uma acusação ainda pior do que essa é que são pessoas que não tem repugnância de repetir clichês como “ele procura comunistas debaixo da cama” – hahaha, debaixo da cama – ou “o auto-intitulado filósofo” – ah, subitamente valorizamos tanto um diploma, não?

São, também, pessoas obcecadas. Quem odeia Olavo de Carvalho passa a ficar obcecado com ele de um jeito como talvez nenhum de seus alunos fique; não há olavete tão olavete quanto um anti-olavete. Se me mostram um blog que mencione Olavo de Carvalho pelo menos uma vez a cada dois posts, sei que é alguém de esquerda: eles vêem, para reverter o clichê sobre comunistas, Olavo de Carvalho debaixo da cama.

Quanto a mim, li menos Olavo de Carvalho do que gostaria, porque não tenho muita paciência para livros de filosofia; durmo no meio. Do que li, gostei bastante de mais da metade. Não vou dizer que não concordo com tudo o que ele diz, porque esse tipo de ressalva – “gosto de ler X, mas não concordo com tudo o que ele escreve” – só é feita quando queremos deixar claro que, como todas as criaturas bacaninhas e bem-pensantes, também achamos muito repugnantes algumas das opiniões de X. Bom, não é assim que me sinto com Olavo de Carvalho; quando discordo dele, não faço questão de deixar claro que discordo dele para ficar bem com idiotas e provar que sou humano e bacaninha.

Só sinto por duas coisas. Uma, o tom: preferia que Olavo de Carvalho respirasse fundo, se acalmasse. Há muito ódio contra ele, e ele responde com ódio; o que é normal, eu faria o mesmo; mas é cansativo. Ler um texto sereno de Olavo de Carvalho seria uma variação agradável (e ainda no mesmo assunto de tom, também preferiria que ele trocasse o sarcasmo pela ironia com mais frequência. Seu humor é violento e tem o alvo certo, mas é raramente engraçado).

E a segunda coisa: acho que ninguém agüenta mais ler textos sobre o Foro de São Paulo. Eu não agüento. Talvez tudo isso seja verdade, mas chega. Há um limite para textos sobre o Foro de São Paulo que uma pessoa pode ler na vida. Comunistas, que são chatos quando estão parados, são igualmente chatos quando estão conspirando; e denunciá-los acaba sendo quase tão chato quanto. O que eu queria dizer é que um homem pode perceber que uma casa está pegando fogo, e entrar na casa para avisar do perigo; mas pode acontecer que ele avise do perigo de jeito tão insistente e chato que as pessoas prefiram continuar sentadas no sofá lendo jornal e vendo tevê, enquanto o fogo esturrica seus cabelos e seus cachorrinhos. Sim, sim.

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* Ah, eu sei que posso parecer ocasionalmente agressivo, mas por favor: não sou eu que visito blogs de gente de esquerda, ou de ateus, para xingá-los nas caixas de comentários; e nem faço insinuações sobre homossexualidade e coprofagia contra admiradores de Chomsky e Michael Moore. Percebam a diferença, se não haviam percebido antes.

 Não percam também o que Olavo de Carvalho escreveu após ler esse artigo.

Quando William Bonner respondeu a um colunista da Carta Capital

Em 2005 tivemos uma rara oportunidade de ver o apresentador do Jornal Nacional escrevendo algo público. A história, em resumo, foi: William Bonner chamava professores e estudantes universitários para verem de perto como era feito o mais importante telejornal brasileiro. Bem intencionado, Bonner queria provavelmente mostrar aos estudantes como é a vida profissional prática, a complexidade e responsabilidade envolvidas.

O que Bonner não dimensionou era a possibilidade de haver no meio, como há, dezenas de professores e ideólogos rancorosos. Mais ainda, gente burra! Após um dia inteiro de aprendizado, um dos presentes saiu a gritar como absurda a analogia adotada por Bonner para explicar como são preparadas as notícias no Jornal Nacional. Um colunista da Carta Capital atacou atabalhoadamente Bonner e a Globo. Jornalistinhas de muitos outros blogs e órgãos de imprensa tentaram também criar um clima de malhação pública… A resposta de William Bonner foi uma aula não só de jornalismo como também de como demonstrar menosprezo e botar em seu devido lugar os mal-intencionados. É a resposta de Bonner nosso material resgatado hoje na “Arca Reaça“:

No dia 23 de novembro, recebemos, no JN, a visita de professores universitários. Eles assistiram a uma reunião matinal, em que se esboça uma previsão da edição daquele dia. E me ouviram fazer algumas considerações sobre nosso trabalho.
Em palestras que ministro a estudantes que nos visitam todas as semanas, faço o mesmo.

Nestas ocasiões, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de que falo.

Mas o professor Laurindo tem uma visão diferente de Homer. Em vez do trabalhador (numa usina nuclear), o acadêmico o vê como um preguiçoso. Em vez do chefe de família, o professor Laurindo o vê como um comedor de biscoitos. Esta imagem não é a que tenho – não é a disponível, num texto bem-humorado, no site oficial da série Os Simpsons, que faz graça do personagem, mas registra que Homer é “um marido devotado e que, apesar de poucas fraquezas, ama a sua família e é capaz de tudo para provar isso, mesmo que isso signifique se fazer passar por tolo”.

Não sei para quantos professores e estudantes citei Homer, ou Lineu, como exemplo. Mas jamais tive informação de que alguém guardasse imagem tão preconceituosa, tão negativa do personagem do desenho.

Como profissional, como defensor da nossa imensa responsabilidade social, sinto-me profundamente envergonhado de me ver na obrigação de explicar isso. Como trabalhador, pai de família protetor, meio Lineu, meio Homer, reconheço humildemente meu fracasso no desafio de ser claro e objetivo para todos os meus interlocutores daquela manhã.

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P.S.: O povo, como sempre, não entrou na onda dos subjornalistas e aprovou a analogia de William Bonner.

O MST e a questão social

Um artigo do imortal Miguel Reale em 27 de abril de 2000 tratado do MST e suas intenções revolucionárias, cuja luta por terras é apenas um eufemismo:

O MST e a Questão Socialmiguel-reale-01

O que disciplina toda a vida jurídica é a existência de limites à ação individual e coletiva, de tal modo que jamais sejam ultrapassados os horizontes da legalidade. Note-se que me refiro aos horizontes, e não aos limites da legalidade, uma vez que as normas jurídicas estão sujeitas a processos interpretativos que as atualizam, levando em conta a superveniência de novos fatos e valores, de conformidade com o que venho expondo na teoria tridimensional do direito, reconhecendo que o sentido ou o significado das leis se altera à medida que sobrevêm novas circunstâncias factuais ou ocorre a incidência de novas exigências axiológicas.

Não obstante, porém, a mutabilidade hermenêutica das regras de direito, há sempre um horizonte de legalidade, o qual deve sempre ser respeitado, sob pena não somente de serem atingidos os valores da justiça e da eqüidade, mas também ser posto em risco o destino da democracia. Fixados esses princípios, quaisquer que sejam os fins visados pela atividade de grupos sociais, é indispensável que sejam preservados os direitos fundamentais, sobretudo quando a Constituição os declara, pondo a tônica no seu caráter essencial. Tais direitos são os proclamados logo no artigo 1º da Carta Magna, como, por exemplo, os pertinentes aos “valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”, ou, então, no artigo 5º, XXII e XXIII, que garantem o direito de propriedade e, ao mesmo tempo, exigem que esta atenda à sua função social.

Ora, o Movimento dos Sem-Terra (MST), a pretexto de acelerar a reforma agrária, que estaria sendo menosprezada pelo governo federal, começou ocupando terras improdutivas, invocando a função social da propriedade, mas, prevalecendo-se da inércia das autoridades públicas, logo passou a ocupar terras com manifesto índice de produtividade. O desrespeito à lei veio se processando de maneira crescente e cada vez mais violenta, até culminar na ocupação de repartições federais, em desafio jamais visto na história da República. Foi só então que o Palácio do Planalto acordou, não somente ameaçando recorrer à Lei de Segurança Nacional, por estar em jogo a causa democrática, mas também efetuando a prisão dos invasores. Foi pronto o recuo do MST, não aguardando ordens judiciais para devolver os prédios ocupados. Tudo, porém, se limitou a uma farsa, continuando o desrespeito ao direito fundamental de propriedade, com atos de evidente desafio aos órgãos estatais.

Nada legitima a violação dos direitos fundamentais, por mais que se vise a resolver o mal maior de nosso tempo que é a exclusão social, o afastamento trágico dos indivíduos do acesso ao bem comum que se confunde com a justiça concreta. É que, excluídas as razões do direito, com o desprezo dos mandamentos legais, está aberto o caminho para um novo totalitarismo e o naufrágio da democracia. Não se pode, pois, afirmar que, estando em jogo a invocada questão social, o Estado estaria impedido do uso da força pública para a preservação da legalidade. Os imperativos da segurança social prevalecem sobre o alegado plano de assegurar, mediante atos de violência organizada, a conquista da terra indispensável ao sustento da família, pois, numa sociedade civilizada, nenhum objetivo, por mais alto que seja, pode justificar o emprego da força bruta. Como, no Brasil, a responsabilidade pela manutenção da ordem pública está confiada aos Estados federados, o recurso à violência por parte de movimentos como o MST exige, de imediato, a intervenção das organizações policiais, inclusive a militar. Não é essa missão ou tarefa do Exército, cujas existência e finalidade são a preservação da segurança nacional e a independência do território. Assim sendo, quando um governador estadual se omite, sob a alegação de não ser a questão social um caso de polícia, está faltando a um de seus deveres primordiais, que é assegurar a paz pública.

O outro lado do problema consiste na atribuição ao governo federal do poder-dever de resolver a questão social, graças a medidas políticas e financeiras capazes de garantir a todos o uso da terra como condição de sobrevivência. Ante aspirações dessa natureza, é à União que cabe tomar as providências indispensáveis, as quais não se resumem à posse da terra, mas, exigem uma série de medidas indispensáveis à sua fecundação, graças ao amparo real dado aos novos posseiros. Como se vê, as razões sociais invocadas pelo MST, devido aos processos violentos por ele empregados, com ofensa manifesta às garantias institucionais outorgadas aos proprietários, legitimam, de um lado, a intervenção da Polícia Militar e, de outro, tornam ainda mais urgente a reforma agrária, que não se reduz, porém, a uma política de assentamentos para garantir uma economia de mera sobrevivência familiar. Quando a questão em apreço não é posta nesses termos, reforçam-se as pretensões do MST, alimentando seu poder subversivo, do qual não faz segredo algum, consoante o disse um de seus líderes mais extremados, proclamando que o problema não se situa mais entre o MST e os fazendeiros, mas entre ele e o Estado, a seu ver, pretensamente democrático.

Somente os ingênuos não reconhecem que estamos perante um conflito ideológico e que, sob a capa da defesa dos direitos de agricultores desabonados, o que na realidade se pretende é a conquista dos poderes do Estado para a implantação de um regime coletivista, sob o mando de seus ousados líderes. Foi, pois, com renovada esperança que li ter a União resolvido destinar R$ 7,8 bilhões ao assentamento de famílias de pequenos agricultores, dotando-as dos indispensáveis recursos para o efetivo cultivo da terra, acelerando, outrossim, as medidas de ordem tecnológica e financeira sem as quais não há reforma agrária. Dizem as autoridades federais que jamais houve tantos assentamentos familiares quanto os já promovidos pelo atual governo, não havendo motivo para contestar essa assertiva. Todavia o já feito ainda não basta para esvaziar o MST de sua bandeira de campanha, não se podendo crer que seus chefes efetivamente se disponham a fazer acordos sinceros, visando a soluções pacíficas.

Miguel Reale, jurista, filósofo, foi membro da Academia Brasileira de Letras e reitor da USP

Texto originalmente em “Pensadores Brasileiros

O Caseiro, o Poder e a Covardia

É distante e já esquecido o mais enojante caso de abuso de poder público da História do Brasil. Em 2006, para punir um pobre e honesto trabalhador que ousou ir à imprensa contar a verdade sobre políticos desqualificados, desonestos e desequilibrados, a estrutura estatal subordinada ao Ministério da Fazenda pôs-se a jogar na lama a reputação e vida de um simples caseiro. Pior ainda: Com a ajuda de simpatizantes que trabalhavam na imprensa.

Nesse país surreal mas ainda assim previsível, os destinos dos envolvidos foram: Palocci,sem dúvidas o mais desqualificado e baixo Ministro da Fazenda da História do país,  voltou a ser Ministro no Governo Dilma mas em outra pasta (estaria lá até hoje não fossem as descobertas de outras “malfeitorias”); Jornalistas diretamente envolvidos nos ataques ao caseiro ganharam diretorias estatais e cargos no Governo Federal. Já o caseiro… Quem ligaria prum sujeito chamado Francenildo? Como disse o Lula à época, como dar importância a um “simples caseiro”.

É desta época o artigo de hoje da “ArcaReaça”, do blog já não mais atualizado chamado “Livre Pensamento“, de autoria de Luiz Simi (tem twitter, mas parece usá-lo pouco), que já teve outro post resgatado aqui no Arca Reaça. Leiam então:

Contar a verdade: Crime inaceitável na República petista

Contar a verdade: Crime imperdoável na República petista

O caseiro, o poder e a covardia

O pecado mortal de todos os esquerdistas de 1933 em diante consiste em pretender ser antifacistas sem ser antitotalitários.” – George Orwell

Quem é Francenildo dos Santos Costa? Até alguns dias atrás, nunca tinha ouvido falar dele. Ele é mais um na multidão: migrante do Nordeste, com pouca educação formal e que trabalha duro para sobreviver. Não conheço Francenildo, mas conheço muitos como ele. Francenildo não é um, é legião. A legião de Francenildos espalhada pelos quatro cantos do país é uma das faces verdadeiras, sem retoques, do Brasil.

Mas se Francenildo é mais um entre milhões, porque todo mundo conhece Francenildo e não, por exemplo, seu Loredo, o afável zelador do prédio onde moro? A diferença é que Francenildo tinha como patrão o segundo homem mais poderoso da República, e decidiu revelar, em um ato de suprema coragem, o que seu empregador fazia e para que a mansão de que cuidava era usada. Francenildo, um brasileiro qualquer, revelou (mais) um porão sujo e obscuro do regime lulista. Fez o país saber que muitas são as formas com que esse governo compra consciências, votos, e apoios, não apenas moeda sonante; já nos ensinava Cícero, em seu brilhante diálogo Saber Envelhecer, que “a volúpia corrompe o julgamento, perturba a razão, turva os olhos do espírito”. Não é surpresa que ela seja usada, desde tempos imemoriais, por governantes corruptos e sequiosos de poder para enfraquecer inimigos e domesticar aliados. Não é surpresa que ela seja usada agora.

Também não é surpresa que a primeira reação do governo seja transformar a testemunha em réu. Ao arrepio não apenas da lei, mas do mais básico entendimento do papel do governo no Estado de Direito, os asseclas do lulismo violam ilegalmente o sigilo bancário do brasileiro Francenildo. Conspurcam sua honra e seu nome. Para os arautos de futuros sombrios disfarçados de utopias gloriosas, os direitos de Francenildo não valem nada perto da preservação do regime e sua missão redentora. Pouco importa para eles que um governo que viola os direitos de um cidadão em nome de interesses particulares trai a essência mesma do mandado que lhe foi dado pelo povo, que é defender as liberdades de cada um e de todos os Francenildos. Mostram, mais uma vez, que para eles os fins justificam os meios, e violar a Constituição e jogar o Estado de Direito na lama são meios perfeitamente aceitáveis.

Que fique clara pois a mensagem dos detentores do poder: se Francenildo é um entre milhões, e pode ser tratado dessa maneira, qualquer um pode ser tratado da mesma maneira. Os direitos individuais só valem enquanto não ameaçam os interesses do poder. Ninguém tem direitos além dos que o governo conceder. Pressionado, o governo Lula mostra que a truculência e o autoritarismo são parte da sua natureza. Está inaugurado o regime de exceção.

E diante disso a intelectualidade esquerdista, que se gaba de ter lutado em nome da democracia e contra a ditadura, fica calada. Parece que, para certa esquerda, a violação dos direitos individuais só é condenável quando feita por seus adversários. Pergunto-me se as Marilenas Chauís da vida estariam em silêncio se Francenildo fosse um militante do Partido dos Trabalhadores e o governo de plantão, de algum dos seus opositores.

Leiam mais sobre o que foi feito contra Francenildo nessa longa e excelente matéria de João Moreira Salles para a Revisat Piauí.

Milícias do pensamento

Antonio Gramsci, teórico comunista

Antonio Gramsci, teórico comunista

Por Kátia Abreu*

MILÍCIAS DO PENSAMENTO 

O filósofo italiano Antonio Gramsci ensinava que o teatro de operações da revolução comunista não era o campo de batalha, mas o ambiente cultural, a trincheira do pensamento.

Enquanto Lênin pregava o ataque direto ao Estado, Gramsci sustentava que o novo homem, anunciado por Marx, emergiria não do terror revolucionário, mas da transformação das mentes.

Para tanto, impunha-se a infiltração e o domínio pelo partido dos meios de comunicação –jornais, cinema, teatro, editoras etc.– e a quebra gradual dos valores cristãos (que ele preferia chamar de burgueses), por meio do que chamava de guerra psicológica.

Segundo ele, é preciso uma reforma intelectual e moral, que leve à superação do senso comum, para a construção de outro consenso monitorado pelo partido.

A relativização desses valores resultaria, numa primeira etapa, numa sociedade mais fraca, destituída de parâmetros morais, mais propícia a absorver os valores do socialismo.

Desnecessário dizer que essa revolução está em pleno curso no Brasil –e não é de hoje.

Entre os consensos construídos, está o de que o produtor rural é um usurpador social, que deve ser permanentemente molestado.

Disso resultou o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), organização sem personalidade jurídica (insuscetível de ser processada por seus atos criminosos), mas com existência concreta, munida de verbas do Estado por meio de ONGs e transgressora recorrente do direito de propriedade, cláusula pétrea constitucional.

Dentro da estratégia gramsciana, as milícias do pensamento valem-se de escaramuças, que consistem em lançar ao debate teses que sabem serão rejeitadas num primeiro momento.
Importa, porém, romper a aura de tabu e acostumar a sociedade a gradualmente absorver o que sempre rejeitou.

Exemplo disso foi o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH), de 2009.

Trata-se de um conjunto de transgressões democráticas, propondo censura à imprensa, legalização das invasões de propriedades (tirando do Judiciário o poder de arbitragem e incluindo o invasor como instância de mediação), proibição do uso de símbolos religiosos em locais públicos, revisão do currículo das academias militares etc.

Agora, o PNDH-3 que a sociedade rejeitou volta como um fantasma na redação dada por alguns deputados ao artigo 159 do novo Código de Processo Civil.

Constam no texto, entre outras pérolas, que, “nos casos de litígio coletivo pela posse ou propriedade de imóvel urbano ou rural, antes do exame do requerimento de concessão da medida liminar, o juiz deverá designar audiência de justificação prévia de conciliação entre as partes e seus representantes legais”.

Isso significa que, em vez da defesa natural da propriedade rural ou urbana, em caso de invasão, os invasores –com seus facões e foices, fazendo uso de cárcere privado de trabalhadores– deveriam ser previamente ouvidos e defendidos. Os criminosos, preliminarmente, colocariam suas exigências. Imagine se a moda pega e a proposta é estendida a roubo e homicídio.

A aberração não para aí. Diz o parágrafo 2º que, “sempre que necessário à efetivação da tutela jurisdicional, o juiz deverá fazer-se presente na área do conflito”.

Não basta, por exemplo, a polícia, que passaria, então, a ter um papel meramente secundário. O próprio juiz, nesses casos, deveria ser obrigado a deixar suas funções para comparecer pessoalmente para ouvir os invasores, os criminosos.

Mais adiante, no parágrafo 4º, outro absurdo: “O juiz requisitará aos órgãos da administração direta ou indireta da União, do Estado ou do Distrito Federal e do município informações fiscais, previdenciárias, ambientais, fundiárias e trabalhistas referentes ao imóvel”.

Parece evidente, salvo para crédulos e radicais, que tal forma de mediação visa nada menos do que inviabilizar, tornar nulo o instituto da reintegração de posse. E, junto com a anulação, desapareceria o direito de propriedade, ferido de morte.

Gramsci, no inferno, deve estar celebrando.”

*Kátia Abreu é psicóloga e senadora da República
Original aqui.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

Morte aos reacionários

A “ArcaReaça” é novamente aberta para trazermos de 1998 um artigo de Olavo de Carvalho escrito originalmente para sua então coluna no Jornal da Tarde. Já se vão 15 anos desse artigo, o Jornal da Tarde já não existe mas, não fosse o aviso, você poderia imaginar que o artigo foi escrito hoje mesmo:

Morte aos Reacionários

Durante algum tempo, acreditei que chamar os outros de “reacionários” era manifestação de um impulso catalogante primitivo, forma incipiente do pensamento categorial observada nas camadas inferiores da evolução biológica. A divisão do mundo em reacionários e progressistas assinalava, segundo essa hipótese, o dualismo invencível da percepção do mundo nos animais dotados de apenas dois neurônios, um contra e um a favor, notando-se às vezes a presença de um terceiro incumbido de paralisar, em caso de dúvida, toda atividade cerebral.

Hoje devo refutar minha própria teoria. Por elementar e grossa que seja, a ação catalogante já manifesta a capacidade de referência a um objeto externo. Ora, esta capacidade não pode estar presente em criaturas que ainda não transcenderam o narcisismo primevo das amebas e protozoários, cuja cosmovisão hermeticamente umbigocêntrica nada tem a manifestar senão expressões de seu próprio estado interno, resumindo-se portanto o seu repertório cognitivo em dois juízos, dos quais o primeiro afirma “que delícia!” e o segundo declara: “Ai, me dói!”

Na célebre classificação das três funções da linguagem por Karl Bühler, o mencionado ato de rotulação nada tem portanto a ver com a função denominativa – que descreve e cataloga objetos e estados do mundo –, mas apenas com a função expressiva, que manifesta o estado do sujeito falante e nada diz exceto sobre ele mesmo.

Força é convir, no entanto, que a terceira função enumerada por Bühler, a função apelativa, em que o emissor se utiliza da linguagem para agir sobre seus semelhantes, intimidando-os ou estimulando-os, não está de todo ausente no mencionado procedimento, e talvez até exerça, nele, o papel preponderante. Prova disto é que, quando um desses animais chama alguém de reacionário, o efeito que exerce sobre os ouvintes é infalível e automático, independentemente de o mencionado epíteto ser inadequado, quer ao seu objeto, quer à correta expressão do sentimento do emissor. Proferido por um membro da espécie “progressista” (nome científico: Homo adorabilis, normalmente traduzido por “pessoa maravilhosa”), o epíteto de reacionário às vezes nada diz sobre o objeto ou o sujeito, mas indica a alta probabilidade de que, no instante seguinte, a horda estimulada por semelhante apelo se precipitará sobre o objeto para fazê-lo em pedaços. A mensagem enfim convoca a tribo para uma operação de linchamento, e raramente o faz sem resposta. Ao longo das décadas, o grito de “Reacionário!”, proferido ante platéias sensíveis, tem exercido sobre elas um efeito magnetizante instantâneo, disparando a imediata ação corretiva que extirpará do reino dos vivos a criatura a quem ocorra a má sorte de ser assim designada.

Mas a ampla comprovação do poder mortífero desse expediente lingüístico, constituída de cem milhões de reacionários assassinados neste século, longe de sugerir aos usuários da expressão a conveniência de empregá-la com extrema moderação, ou mesmo de suprimi-la por completo do arsenal polêmico decente, só fez despertar o desejo de usá-la com mais freqüência ainda, e mesmo de estender o seu emprego, originariamente político, a todos os campos da atividade humana, acusando a presença de reacionários sob toda sorte de moitas artísticas, religiosas, científicas e filosóficas.

Na atual campanha pelo policiamento do vocabulário, que professa suprimir as palavras sujeitas a despertar ódio coletivo, a seleção dos termos proibidos deveria banir em primeiro lugar os de eficácia homicida mais comprovada, e, destes, nenhum supera a palavra “reacionário”: o total de vítimas nos grupos perseguidos por todos os outros motivos somados (raça, religião, sexo, etc.) não perfaz mais de um quinto do total de pessoas assassinadas sob a acusação de reacionarismo. No entanto, a própria campanha pela exclusão das palavras odientas se apresenta, orgulhosamente, como uma caça mundial aos reacionários. Mais uma vez, na gloriosa história da modernidade, o assassino veste a toga de juiz e aponta contra suas vítimas o dedo acusador.

Texto originalmente aqui.

Brasil – descrição física e política

O ArcaReaça volta hoje para deixar bem claro, de uma vez por todas, o que é o Brasil. Nunca o país foi tão bem descrito como nessa breve crônica de Millôr Fernandes.

Brasil – descrição física e política

O Brasil é um país maior do que os menores e menor do que os maiores. É um país grande porque, medida sua extensão, verifica-se que não é pequeno. Divide-se em três zonas climáticas absolutamente distintas: a primeira, a segunda e a terceira, sendo que a segunda fica entre a primeira e a terceira. As montanhas são consideravelmente mais altas que as planícies, estando sempre acima do nível do mar.millor_fernandes__0
Há muitas diferenças entre as várias regiões geográficas do país, mas a mais importante é a principal. Na agricultura faz-se exclusivamente o cultivo de produtos vegetais, enquanto a pecuária especializou-se na criação de gado. A população é toda baseada no elemento humano, sendo que as pessoas não nascidas no país são, sem exceção, estrangeiras. Na indústria fabricam-se produtos industriais, sobretudo iguais e semelhantes, sem deixar-se de lado os diferentes.
No campo da exploração dos minérios, o país tem uma posição só inferior aos que lhe estão acima, sendo, porém, muito maior produtor do que todos os países que não atingiram o seu nível. Pode-se dizer que, excetuando seus concorrentes, é o único produtor de minérios no mundo inteiro.
Tão privilegiada é hoje a situação do país, que os cientistas procuram apenas descobrir o que não está descoberto, deixando para a indústria tudo que já foi aprovado como industrializável, e para o comércio tudo o que é vendável. Na arte também não há ciência, reservando-se esta atividade exclusivamente para os artistas. Quanto aos escritores, são recrutados geralmente entre os intelectuais.
É, enfim, o país do futuro, sendo que este se aproxima a cada dia que passa.

Reino do Terror

Já vai longe na lembrança o tempo em que o Brasil ficou chocado com as ações terroristas e criminosas do PCC, facção muito poderosa nos presídios e favelas do Estado de São Paulo. Foram dias terríveis, de incerteza e pânico por todo o Estado. De lá para cá já se vão 7 anos, a facção continua a dar trabalho às forças públicas, embora tenha perdido o status de força soberana em seus domínios. O artigo abaixo é de um dos ótimos blogs liberais da época que foram descontinuados. Era escrito por Luiz Simi e o post original pode ser visto aqui.

Reino do Terror

No momento em que escrevo este texto São Paulo, cidade onde moro e onde vivi a maior parte da minha vida, está sob sítio do PCC. Mais chocante do que as imagens de ônibus incendiados, viaturas de polícia metralhadas, e as notícias de mais de oitenta mortos e rebeliões em dezenas de presídios, porém, é perceber que a imensa maioria das pessoas, e a quase totalidade da imprensa, não consegue entender a natureza e a gravidade do momento por que passamos.

A imprensa, incapaz de ir além do óbvio ululante, replica a mentira de que o PCC seria uma organização criminosa e que os ataques desferidos contra as forças de segurança paulistas seriam uma resposta à transferência de líderes da organização para presídios de segurança máxima. Comentaristas na TV discutem a falta de investimentos em segurança pública, a incompetência dos governos federal e estadual em cumprir com sua missão constitucional de defender a lei e combater o crime, e a imperiosa necessidade de impedir que os criminosos nos presídios utilizem telefones celulares para comunicar-se com seus comparsas fora das cadeias. E embora tudo isso tenha lá sua base na realidade, não passa de acessório. O tema central, a raiz do fenômeno assombroso que vemos, não é abordada ou comentada por ninguém. A cegueira é total.

A primeira coisa que precisa ser desmistificada é a própria natureza do PCC. Não se trata de uma organização criminosa; grupos criminosos têm como objetivo primordial obter lucro em atividades ilegais. Não é esse o objetivo central do PCC; se fosse, não estaria promovendo uma onda tão extensa e coordenada de atentados, que consome um volume expressivo de recursos, dinheiro e tempo para ser planejada e executada. Cada membro do PCC envolvido nessa operação é um membro a menos atuando nas atividades criminosas que geram receita, e a sua magnitude sugere que um vasto número de pessoas está envolvida. A onda de violência promovida pelo grupo não traz nenhum ganho financeiro, presente ou futuro, para o PCC. Se é assim, como podemos considerar essa organização apenas uma facção criminosa? Isso é minimizar de forma ingênua o poder e os objetivos do PCC. A atividade criminosa, para o PCC, é apenas um meio para um fim, não um fim em si mesmo. Esse fim, em verdade, é o que estamos testemunhando: implantar um reino de terror em São Paulo e no Brasil, e a debilidade dos governos municipal, estadual e federal oferece a oportunidade perfeita para isso. O PCC é, antes de mais nada, uma organização terrorista, e o crime é apenas o meio pelo qual ele financia suas atividades.

Se o objetivo do PCC é espalhar o terror, fica também evidente que existe uma agenda política. O terror é um instrumento daqueles que desejam o poder político, não financeiro; seu objetivo é sempre minar a confiança do público nas instituições e nas autoridades constituídas. E se o terror é o instrumento que o PCC usa para avançar sua agenda, ela é por definição política. Quando digo política, não me refiro necessariamente a um conteúdo ideológico, embora para mim as ligações entre o PCC e movimentos revolucionários de esquerda, como as FARCS colombianas (que também recorrem ao crime para financiarem suas atividades) sejam bastante claras (e desde a prisão de Fernandinho Beira-Mar evidências contundentes de uma conexão entre o crime organizado no Brasil e a guerrilha colombiana emergiram). Refiro-me, isso sim, a uma estratégia consistente, calculada e de longo prazo de erosão da autoridade do Estado e a construção de um centro de poder paralelo. O PCC não quer dinheiro, mas poder sobre a sociedade e domínio sobre as vidas dos cidadãos. Como esses dias de caos mostram, ele obteve sucesso.

É só uma questão de tempo para que a onda de violência reflua e tudo volte aparentemente ao normal; o governo de São Paulo declarará vitória sobre o crime e voltará à sua inatividade costumeira. O governo federal, depois de anos de incompetência crônica no trato do tema da segurança, não melhorará; nada acontecerá nesse front além das bravatas costumeiras e obviedades expostas como se fossem pérolas de inteligência. Os auto-denominados movimentos de defesa dos direitos humanos usarão a chance para tentar capitalizar politicamente com seu eterno discurso que procura tirar dos criminosos qualquer responsabilidade pelos atos que cometem e transformar os agentes da Lei em monstros. Mas enquanto a sociedade retoma sua rotina e os governos voltam aliviados ao seu confortável estado de inação, os subterrâneos do crime transformado em movimento político continuarão atuando e planejando, só que agora discreta e silenciosamente. O PCC ainda não tem os recursos necessários para sustentar uma longa onda de violência terrorista, e precisa de tempo para recompor suas reservas e recrutar mais tropas. Mas mais dia, menos dia, ele golpeará novamente, com mais força e disposição do que agora.pcc++psdb+2[1]

Conseguirá nossa combalida República, devorada por dentro pela corrupção e atacada pelos flacos por grupos políticos que não tem compromisso com a democracia ou com a Constituição, resistir a mais esse desafio à sua autoridade e legitimidade? Nestes dias de fúria, um passo importante no processo de colombianização do Brasil foi dado. Cabe a nós impedir que sigam-se outros. Mas enquanto as pessoas insistirem em não enxergar a real natureza e objetivos do PCC, não teremos chance de enfrentá-lo com sucesso.

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