Arca Reaça

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A lei da alternância está presente nos fatos da história

Trazemos hoje para o Arca Reaça um trecho bem curto do excelente livro “Filosofia da Crise”, de Mário Ferreira dos Santos. O texto é uma brilhante análise da história vista de uma forma mais ampla e com uma  surpreendente atualidade para o nosso cenário político e também (quem dera!) filosófico e cultural: há um cansaço e exaustão das práticas petistas e começam a surgir cada vez mais influentes contestações ao amplo predomínio comunista e revolucionário no meio intelectual nacional.

O trecho e a  nota do autor estão presentes no capítulo “As fases cráticas na História” (o “crática” usado no título do capítulo é derivado de “cratos”, poder em grego como dito pelo autor). Se servem para melhor observar a queda já citada anteriormente, devem também ser lidos com atenção por muitos que se ludibriam com sucesso relativo de algumas visões doutrinárias que encontram eco numericamente relevante na internet mas, vistas no cenário real da luta pelo poder e que obviamente se dá na vida prática, ainda estão engatinhando para quererem já dar grandes saltos.

A lei da alternância está presente nos fatos da história.

Dá-se o absolutismo naquele momento em que a força natural de uma doutrina ou de uma forma crática vacila, e o emprego dos meios, para dar-lhe coesão, facilita o ingresso de representantes menos categorizados. Se observarmos os nossos dias, veremos a riqueza de exemplos que eles nos oferecem. Toda forma crática, que se apresenta para orientar a sociedade, em seu início, é ela encabeçada por verdadeiros idealistas, que atuam em toda a sua pureza formal. Com o decorrer do tempo, há sempre um marchar para as formas inferiores, e daí surgirem as frases que constantemente se repetem: “Não é essa a forma que eu sonhara”.

E tal se dá, porque a posse do poder é acompanhada de certos benefícios que atiçam a ambição de muitos, que o olham mais como fim do que como meio, e aspiram ao poder para usufruí-los. A política, que é uma técnica de harmonizar os interesses individuais com os sociais, passa, nesses momentos, a ser uma técnica de conquista do poder e de conservação do mesmo. E, nesse instante, os meios substituem os fins, e a marcha para a decadência é inevitável. Por isso, há sempre uma crise histórica, porque há sempre separação entre os que governam e os que são governados, e a luta pelo poder é um constante agravamento da crise.

 *O processo cíclico de uma estrutura ideológica ou de uma tensão cultural, apresenta, sempre, em suas fases (…)os seguintes representantes: de início, os idealistas, juvenis, entusiastas propugnadores, a seguir, os pioneiros, que realizam as primeiras obras, os heróis, os cavaleiros andantes da idéias. Seguem-se depois os realizadores práticos, que correspondem ao período clássico e, finalmente, os absolutistas, que surgem quando a coerência intrínseca do ciclo histórico enfraqueceu e é substituída por uma coesão imposta, por uma universalização coativa, período de absolutismo, de cesarismo, que marca o fim do processo evolutivo, e a inevitável decadência.

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

A situação do futebol

O “Arca Reaça” mergulha fundo hoje para resgatar um artigo de 1945 tratando da “invasão do soccer” nos EUA. Em tempos de Guerra Mundial, obviamente ela se daria através das Forças Armadas.

O artigo abaixo foi traduzido da edição de junho de 1945 da Yank Magazine, revista publicada pelo exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Nele o articulista Tom Shehan, enviado especial junto às tropas americanas, fala de como o futebol se popularizava entre os jovens que iam servir ao país em terras distantes e descobriam este esporte contagiante praticado em quase todo o mundo.

De lá para cá não foram poucas as vezes em que, nos EUA, teve-se a impressão de que o esporte finalmente iria pegar. A última tentativa teve como marco a chegada do jogador Beckham para a nova liga e parece ser realmente a definitiva. Some-se a isso o bom desempenho dos EUA na atual Copa do Mundo e tudo leva a crer que o sonho de Erno Schwarcz, entrevistado na reportagem, finalmente se concretizará.

A situação do futebol 

“Yank – The Army Weekly”, junho de 1945.

De volta a 1942, quando o exército dos Estados Unidos começou a enviar soldados em grandes números ao Reino Unido, muitos dos nossos mais notáveis e conhecidos especialistas em esportes olharam para o futuro e se precipitaram ao prever que a exposição à influência britânica poderia mudar a atual geração de jovens tornando-os um bando de irreversíveis fãs de futebol.

Para ver como o futebol nos últimos 3 anos tem sido capaz de substituir baseball e futebol americano em nossas preferências, nós conversamos com Erno Schwarcz, o proeminente húngaro-americano que é o atual gerente do time New York Americans. Schwarcz ocupa a mesma posição no futebol dos EUA que Henry Kaiser na indústria naval americana ou Thom McAn na indústria de calçados. Ele está numa boa posição para falar da popularidade do futebol no exército pois tem contato regularmente com 150 jogadores de futebol e fãs que estão agora vestindo “uniformes GI”.

Schwarcz admitiu francamente e com certa relutância que o futebol ainda tem um grande caminho a percorrer antes de alcançar o baseball, futebol americano ou mesmo o golfe nas páginas de esportes.

Foto de Erno Schwarcz na edição de junho de 1945 da "Yank, the Army Weekly"

Foto de Erno Schwarcz na edição de junho de 1945 da “Yank, the Army Weekly”

“O futebol nunca se tornará um grande esporte por aqui até que ele tenha melhores campos e mais publicidade”, disse Schwarcz. “E ele não conseguirá isso até ter um melhor gerenciamento com menos personalismos políticos e menos egoísmo. O desenvolvimento do futebol nos EUA tem sido contido porque muito dos seus divulgadores têm colocado o lucro em seus próprios bolsos em vez de investir no crescimento do esporte”.

“Não pense que o esporte não pode crescer. Uma vez que tenhamos atrações de fato e jogos em locais como o Yankee Stadium ou o “Polo Grounds” nós teremos grandes públicos. Não tanto quanto os 100 mil que vão aos estádios ingleses, lógico. Mas nós podemos ter em torno de 25 mil o que não é pouco se você considerar que realmente não há tanta gente por aqui que goste de futebol. O que eu sei é que o maior público presente em um jogo de futebol por aqui foi de 45 mil presentes ao jogo entre Hakoahs – famoso time de Viena – quando fizeram sua estréia  no Polo Grounds em Nova Iorque em 1917.”

Schwarcz, que jogou para os Kahoahs durante uma turnê pela Europa, Ásia Menor e África em 1924, acredita, no entanto, que o potencial do futebol nos EUA foi impulsionado pela guerra.

“Pelas cartas que recebo”, disse, “muitos dos nossos soldados que nunca teriam visto um jogo de futebol se tivessem ficado por aqui estão agora jogando-o regularmente no estrangeiro.

“Apesar de tudo, é um dos poucos jogos que você vê sendo jogado em quase todos os países do mundo. As regras são as mesmas em qualquer lugar. Você não precisa aprender a língua para jogá-lo. Eu acho que isto pode ser usado para estreitar as relações entre as nações.”

Estreitar relações entre as nações? Mas a maioria dos jogos internacionais não terminam em confusão, com a multidão e os jogadores se juntando num vale tudo?

Schwarcz sacode os ombros, fala algo sobre a beleza da rivalidade que o futebol inspira e muda de assunto, voltando às cartas que recebe dos soldados do outro lado do Atlântico.

Ele tem conversado frequentemente, por exemplo, com o Sargento George Barr do Pacífico. Barr foi o capitão dos Brookhattans e uma seleção das estrelas dos EUA antes de se alistar. Na Austrália um tempo atrás, ele jogou em alguns times de futebol australianos. Ele explica que muitos “GIs” viam jogos de futebol na Austrália na ausência de algo melhor para fazer no final da tarde, e gostavam tanto do que viam que começaram eles mesmo a jogar nas áreas militares.

Ilustração da reportagem original - Yank, The Army Weekly, Jun/1945

Ilustração da reportagem original – Yank, The Army Weekly, Jun/1945

O Sargento Manuel Centanio, que jogava no Brooklyn Hispanos e no New York Americans tem percorrido o mundo muito mais do que qualquer outro correspondente de Schwarcz. Centanio, um garoto de Jersey, estava na invasão africana e tem prestado serviço e visto jogos na Sicília, Itália, Egito, Irã, Índia e China. No Cairo ele ajudou a organizar quatro times das tropas que jogaram uma série contra clubes egípcios. Ele escreve da China que seis times foram formados por lá para jogar entre si e contra times chineses. Alguns jogadores chineses jogam descalços.

Outro ex jogador, Sargento Archie Ballantine, diz que quando pulou com sua equipe de paraquedas na invasão do Sul da França ele viu um campo de futebol abaixo dele. Ele tentou aterrissar no campo para comprovar, mas o vento o carregou para outro lugar.

Schwarcz também ouviu de seis membros do Baltimore Americans and the Baltimore Soccer Club que se encontraram na mesma situação na Inglaterra e formaram um time que desafiou o famoso time do Departamento de Polícia de Londres. Apesar do peso da tradição do time, ou talvez por causa disso, os Bobbies castigaram os americanos, 3 a 1.

E lá também há o soldado de primeira classe, Johnny Boulos, outro ex-membro dos Brooklyn Hispanos, que estava jogando contra um time nativo indiano próximo à sua base quando teve seu calção arrancado. No Brooklyn isto poderia ter criado uma situação bastante constrangedora para para Johnny. Mas na Índia o nudismo em lugares públicos não é nada incomum. Eles nem se deram ao trabalho de parar o jogo por causa disso.

Leiam o artigo original nas páginas da Yank Magazine.

O hip hop da Petrobras – Diogo Mainardi

Este artigo de Diogo Mainardi em 2009, quando houve um esboço de início de investigações das falcatruas da Petrobras, mostra que as irregularidades e falcatruas da estatal não são apenas canalizadas para partidos e profissionais dos rolos políticos, mas também pra gente do meio (abram-se muitas aspas) artístico (fechem-se as aspas).

O hip hop da Petrobras

18/07/2009

O hip hop da Petrobras é de MV Bill. Ele canta: “Sou rapper bem! Sou aliado dos manos”. Eu pergunto: quais manos? Algumas semanas atrás, a CPI da Petrobras recebeu uma planilha contendo os contratos assinados pelo departamento de marketing da empresa. Os contratos cobriam só um ano: 2008. E cobriam só uma área da empresa: a área de abastecimento, que até abril deste ano era chefiada pelo petista baiano Geovane de Morais, nomeado por outro petista baiano, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli.

Uma das empresas incluídas na planilha encaminhada à CPI despertou meu interesse: R.A. Brandão Produções Artísticas. Em 2008, ela ganhou mais de 4,5 milhões de reais da Petrobras, em 53 contratos. Ela fez de tudo: de cartilha sobre o meio ambiente (98 000 reais) até bufê em obras de terraplanagem (21 000); de dicionário de personalidades da história do Brasil (146 000) até “design ecológico em produtos sociais” (150 000).

MV Bill, o “aliado dos manos”, surgiu nesse momento. Em 2007, ele publicou Falcão: Mulheres e o Tráfico, editado pela Objetiva. O livro é assinado também por Celso Athayde, seu empresário e seu parceiro numa ONG: a Central Única das Favelas – Cufa. A particularidade do livro é a seguinte: seus direitos autorais, em vez de pertencerem a MV Bill e a Celso Athayde, pertencem à fornecedora da Petrobras, a R.A. Brandão Produções Artísticas.

Perguntei a Roberto Feith, da Objetiva, o que MV Bill tinha a ver com a empresa contratada pela Petrobras. Ele se negou a responder. Uma repórter de VEJA fez a mesma pergunta à assessoria de MV Bill, que atribuiu a Celso Athayde a responsabilidade integral pelo projeto do livro. Celso Athayde, por sua vez, ao ser indagado desligou o telefone. Como canta MV Bill, em Como Sobreviver na Favela: “A terceira ordem é boca fechada, que não entra mosca e também não entra bala”.

A R.A. Brandão Produções Artísticas está registrada em nome de Raphael de Almeida Brandão. Ele tem 27 anos. O capital da empresa, segundo a Junta Comercial, é de 5 000 reais. Como uma empresa dessas, de fundo de quintal, conseguiu ganhar 4,5 milhões de reais da Petrobras é uma pergunta que tem de ser respondida pela CPI. Trata-se de uma empresa de fachada? Ela é controlada por MV Bill e Celso Athayde? Ela realmente recebeu pelos direitos autorais de Falcão: Mulheres e o Tráfico ou limitou-se a fornecer notas frias aos seus autores? Nesse caso, ela forneceu notas frias aos “manos” da Petrobras?

Mas há um fato ainda mais escabroso. A R.A. Brandão Produções Artísticas está sediada na casa de Raphael de Almeida Brandão. No mesmo local está sediada também uma segunda empresa: a Guanumbi Promoções. De acordo com os documentos da CPI, a Guanumbi Promoções recebeu – epa! – 3,7 milhões de reais da Petrobras. Somando as duas empresas, portanto, foram mais de 8,2 milhões de reais, em 102 contratos. Na maioria das vezes, elas emitiram notas para os mesmos eventos, com as mesmas datas. Foi assim no caso de uma festa em Mossoró, no Rio Grande do Norte, de um evento de Fórmula Indy, em Indianápolis, e de um agenciamento do Hotel Blue Tree, para a Fórmula 1, em que uma empresa faturou 159 000 reais e a outra faturou
146 000 reais.

MV Bill sabe como sobreviver na favela. Ele sabe melhor ainda como sobreviver na Petrobras.

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Artigo originalmente em: http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/na-revista/o-hip-hop-da-petrobras/

A mensagem de Viktor Frankl

No dia 26 de Março de 1905 nascia Viktor Frankl. Sua vida e obra são belas demais para serem resumidas em uma introdução de artigo, razão pela qual ela será trocada por um simples convite a que conheçam o quanto antes.

Por esta data, trazemos um artigo de Olavo de Carvalho publicado originalmente na revista Bravo! em 1997, pouco após a morte do psiquiatra:

A mensagem de Viktor Frankl

Olavo de Carvalho

No dia 2 de setembro [de 1997] morreu, aos 92 anos, um dos homens realmente grandes deste século. Acabo de escrever isto e já tenho uma dúvida: não sei se o médico judeu austríaco Viktor Frankl pertenceu mesmo a este século. Pois ele só viveu para devolver aos homens o que o século XX lhes havia tomado – e não poderia fazê-lo se não fosse, numa época em que todos se orgulham de ser “homens do seu tempo”, alguém muito maior do que o século.

Viktor Emil Frankl, nascido em Viena em 26 de março de 1905, foi grande nas três dimensões em que se pode medir um homem por outro homem: a inteligência, a coragem, o amor ao próximo. Mas foi maior ainda naquela dimensão que só Deus pode medir: na fidelidade ao sentido da existência, à missão do ser humano sobre a Terra.

Homem de ciência, neurologista e psiquiatra, não foi o estudo que lhe revelou esse sentido. Foi a temível experiência do campo de concentração. Milhões passaram por essa experiência, mas Frankl não emergiu dela carregado de rancor e amargura. Saiu do inferno de Theresienstadt levando consigo a mais bela mensagem de esperança que a ciência da alma deu aos homens deste século.

O que possibilitou esse milagre singular foi a confluência oportuna de uma decisão pessoal e dos fatos em torno. A decisão pessoal: Frankl entrou no campo firmemente determinado a conservar a integridade da sua alma, a não deixar que seu espírito fosse abatido pelos carrascos do seu corpo. Os fatos em torno: Frankl observou que, de todos os prisioneiros, os que melhor conservavam o autodomínio e a sanidade eram aqueles que tinham um forte senso de dever, de missão, de obrigação. A obrigação podia ser para com uma fé religiosa: o prisioneiro crente, com os olhos voltados para o julgamento divino, passava por cima das misérias do momento. Podia ser para com uma causa política, social, cultural: as humilhações e tormentos tornavam-se etapas no caminho da vitória. Podia ser, sobretudo, para com um ser humano individual, objeto de amor e cuidados: os que tinham parentes fora do campo eram mantidos vivos pela esperança do reencontro. Qualquer que fosse a missão a ser cumprida, ela transfigurava a situação, infundindo um sentido ao nonsense do presente. Esse senso de dever era a manifestação concreta do amor – o amor pelo qual um homem se liberta da sua prisão externa e interna, indo em direção àquilo que o torna maior que ele mesmo.

O sentido da vida, concluiu Frankl, era o segredo da força de alguns homens, enquanto outros, privados de uma razão para suportar o sofrimento exterior, eram acossados desde dentro por um tirano ainda mais pérfido que Hitler – o sentimento de viver uma futilidade absurda.

Frankl tinha três razões para viver: sua fé, sua vocação e a esperança de reencontrar a esposa. Ali onde tantos perderam tudo, Frankl reconquistou não somente a vida, mas algo maior que a vida. Após a libertação, reencontrou também a esposa e a profissão, como diretor do Hospital Policlínico de Viena.

Assim ele registra, no seu livro Man’s Search for Meaning, uma das experiências interiores que o levaram à descoberta do sentido da vida:

“Um pensamento me traspassou: pela primeira vez em minha vida enxerguei a verdade tal como fora cantada por tantos poetas, proclamada como verdade derradeira por tantos pensadores. A verdade de que o amor é o derradeiro e mais alto objetivo a que o homem pode aspirar. Então captei o sentido do maior segredo que a poesia humana e o pensamento humano têm a transmitir: a salvação do homem é através do amor e no amor. Compreendi como um homem a quem nada foi deixado neste mundo pode ainda conhecer a bem-aventurança, ainda que seja apenas por um breve momento, na contemplação da sua bem-amada. Numa condição de profunda desolação, quando um homem não pode mais se expressar em ação positiva, quando sua única realização pode consistir em suportar seus sofrimentos da maneira correta – de uma maneira honrada -, em tal condição o homem pode, através da contemplação amorosa da imagem que ele traz de sua bem-amada, encontrar a plenitude. Pela primeira vez em minha vida, eu era capaz de compreender as palavras: ‘Os anjos estão imersos na perpétua contemplação de uma glória infinita’.”

Viktor Frankl (26/03/1905 -  02/09/1997)

Viktor Frankl (26/03/1905 – 02/09/1997)

Frankl transformou essa descoberta num conceito científico: o de doenças noogênicas. Noogênico quer dizer “proveniente do espírito”. Além das causas somáticas e psíquicas do sofrimento humano, era preciso reconhecer um sofrimento de origem propriamente espiritual, nascido da experiência do absurdo, da perda do sentido da vida: “O homem, dizia ele, pode suportar tudo, menos a falta de sentido.”

Das reflexões de Frankl sobre a experiência do absurdo nasceu um dos mais impressionantes sistemas de terapia criados no século dos psicólogos: a logoterapia, ou terapia do discurso – um conjunto de esquemas lógicos usados para desmontar os subterfúgios com que a mente doentia procura eludir a questão decisiva: a busca do sentido.

Mas o sentido não teria o menor poder curativo se fosse apenas uma esperança inventada. A mente não poderia encontrar dentro de si a solução de seus males, pela simples razão de que o seu mal consiste em estar fechada dentro de si, sem abertura para o que lhe é superior. Em vez de criar um sentido, a mente tem de submeter-se a ele, uma vez encontrado. O sentido não tem de ser moldado pela mente, mas a mente pelo sentido. O sentido da vida, enfatiza Frankl, é uma realidade ontológica, não uma criação cultural. Frankl não dá nenhuma prova filosófica desta afirmativa, mas o caminho mesmo da cura logoterapêutica fornece a cada paciente uma evidência inequívoca da objetividade do sentido da sua vida. O sentido da vida simplesmente existe: trata-se apenas de encontrá-lo.

Universal no seu valor, individual no seu conteúdo, o sentido da vida é encontrado mediante uma tenaz investigação na qual o paciente, com a ajuda do terapeuta, busca uma resposta à seguinte pergunta: Que é que eu devo fazer e que não pode ser feito por ninguém, absolutamente ninguém exceto eu mesmo? O dever imanente a cada vida surge então como uma imposição da estrutura mesma da existência humana. Nenhum homem inventa o sentido da sua vida: cada um é, por assim dizer, cercado e encurralado pelo sentido da própria vida. Este demarca e fixa num ponto determinado do espaço e do tempo o centro da sua realidade pessoal, de cuja visão emerge, límpido e inexorável, mas só visível desde dentro, o dever a cumprir.

Em vez de dissolver a individualidade humana nos seus elementos, mediante análises tediosas que arriscam perder-se em detalhes irrelevantes, a logoterapia busca consolidar e fixar o paciente, de imediato, no ponto central do seu ser, que é, e não por coincidência, também o ponto mais alto. Eis aí por que é inútil buscar provas teóricas do sentido da vida: ele não é uma máxima uniforme, válida para todos – é a obrigação imanente que cada um tem de transcender-se. Discutir o sentido da vida sem realizá-lo seria negá-lo; e, uma vez que começamos a realizá-lo, já não é preciso discuti-lo, porque ele se impõe com uma evidência que até a mente mais cínica se envergonharia de negar.

A logoterapia tem uma imponente folha de sucessos clínicos. Porém mais significativa do que suas aplicações médicas talvez seja a função que ela desempenhou e desempenha – a missão que ela cumpre – no panorama da cultura moderna. Num século que tudo fez para deprimir o valor da consciência humana, para reduzi-la a um epifenômeno de causas sociais, biológicas, lingüisticas, etc., Frankl nadou na contracorrente e ninguém conseguiu detê-lo. Ninguém: nem os guardas do campo nem as hostes inumeráveis de seus antípodas intelectuais – os inimigos da consciência. Frankl apostou no sentido da vida e na força cognoscitiva da mente individual. Apostou nos dois azarões do páreo filosófico do século XX, desprezados por psicanalistas, marxistas, pragmatistas, semióticos, estruturalistas, desconstrucionistas – por todo o pomposo cortejo de cegos que guiam outros cegos para o abismo. Apostou e venceu. A teoria da logoterapia resistiu bravamente a todas as objeções, sua prática se impôs em inúmeros países como o único tratamento admissível para os casos numerosos em que a alma humana não é oprimida por fantasias infantis mas pela realidade da vida. Por isto mesmo a crítica cultural de Frankl, parte integrante de uma obra onde o médico e o pensador não se separam um momento sequer, tem um alcance mais profundo do que todas as suas concorrentes. Desde seu posto de observação privilegiado, ele pôde enxergar o que nenhum intelectual deste século quis ver: a aliança secreta entre a cultura materialista, progressista, democrática, cientificista, e a barbárie nazista. Aliança, sim: seria apenas uma coincidência que o século mais empenhado em negar nas teorias a autonomia e o valor da consciência também fosse o mais empenhado em criar mecanismos para dirigi-la, oprimi-la e aniquilá-la na prática? Dirigindo-se a um público universitário norte-americano, Viktor Frankl pronunciou estas palavras onde a lucidez se alia a uma coragem intelectual fora do comum:

“Não foram apenas alguns ministérios de Berlim que inventaram as câmaras de gás de Maidanek, Auschwitz, Treblinka: elas foram preparadas nos escritórios e salas de aula de cientistas e filósofos niilistas, entre os quais se contavam e contam alguns pensadores anglo-saxônicos laureados com o Prêmio Nobel. É que, se a vida humana não passa do insignificante produto acidental de umas moléculas de proteína, pouco importa que um psicopata seja eliminado como inútil e que ao psicopata se acrescentem mais uns quantos povos inferiores: tudo isto não é senão raciocínio lógico e conseqüente.” (Sêde de Sentido, trad. Henrique Elfes, São Paulo, Quadrante, 1989, p. 45.)

Com declarações desse tipo, ele pegava pela goela os orgulhosos intelectuais denunciadores da barbárie e lhes devolvia seu discurso de acusação, desmascarando a futilidade suicida de teorias que não assumem a responsabilidade de suas conseqüências históricas. Pois o mal do mundo não vem só de baixo, das causas econômicas, políticas e militares que a aliança acadêmica do pedantismo com o simplismo consagrou como explicações de tudo. Vem de cima, vem do espírito humano que aceita ou rejeita o sentido da vida e assim determina, às vezes com trágica inconseqüencia, o destino das gerações futuras.

Frankl era judeu, como foram judeus alguns dos criadores daquelas doutrinas materialistas e desumanizantes que prepararam, involuntariamente, o caminho para Auschwitz e Treblinka. Se ele pôde ver o que eles não viram, foi porque permaneceu fiel à liberdade interior que é a velha mensagem do Sentido em busca do homem: “SE ME ACEITAS, Israel, Eu sou o Teu Deus.”

(Publicado na revista Bravo! de novembro de 1997, e reproduzido em “O Imbecil Coletivo II”)

 

Artigo disponível no site de Olavo de Carvalho: http://www.olavodecarvalho.org/semana/199711bravo.html

Lula e o xaveco do coronel Chávez

Resgatamos hoje no “Arca Reaça” um artigo feito por um jornalista que, mesmo diante do radicalismo esquerdista do Brasil de hoje, raramente seria tido por reaça ou direitista. Ainda assim, mesmo para ele, e em 1999, já estava muito clara a essência autoritária do chavismo. O chavismo sempre foi golpismo institucional, busca por restrições às liberdades individuais, violência e coação estatal, perseguição à imprensa, encabrestamento político e nacionalismo tosco.

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Ressalte-se que o jornalista é benevolente ao negar a conversão de Lula ao chavismo. E não porque Lula tenha de fato se convertido ao chavismo, mas pelo fato do chavismo já estar associado ao lulo-petismo anos antes, via Foro de SP. Não havia porque se converter ao que já lhe era similar e se estava de acordo. E desde então a associação e troca de favores entre Lula e Chávez só aumentou, com o agravante da chegada de Lula ao poder ter levado o Brasil a tornar-se cúmplice de muitas irresponsabilidades chavistas.

Eis o artigo:

Lula e o xaveco do coronel Chávez

Numa entrevista ao jornal argentino “La Nación”, Luiz Inácio Lula da Silva disse que considera “fantástico” o que o coronel Hugo Chávez está fazendo na Venezuela. A notícia da conversão de Lula ao chavismo, uma modalidade do xaveco golpista latino-americano, é curta. Falta-lhe a elaboração necessária para se compreender direito o que ele viu de fantástico na Venezuela.

Com as informações disponíveis, seria injusto dizer que Lula aderiu ao golpismo de Chávez, mas já há dados suficientes para suspeitar de que um pedaço da esquerda brasileira está namorando o golpismo eleitoral.

Levado à Presidência da República por maioria de votos, o coronel Chávez conseguiu fazer pela via legal o que não conseguira em 1992, pelo caminho do golpe militar. Empossado, convocou eleições gerais para a formação de uma Constituinte. Venceu-as e hoje dispõe dos poderes que o Senado romano dava aos ditadores. Esmagou o Congresso, encurralou o Judiciário e desestruturou o Executivo. Governa a Venezuela como quer e já disse que pretende governá-la por seis anos e mais seis.

Pelo lado da solucionática, o coronel Chávez mobilizou as Forças Armadas, levou ex-guerrilheiros para o governo e entregou o Ministério das Relações Exteriores à veneranda figura de José Vicente Rangel, o candidato da esquerda em três eleições presidenciais. Lançou brigadas de atendimento às populações carentes, defenestrou corruptos e começou a administrar o país com um grau inédito de decisão e audácia.

Pelo lado da problemática, o coronel Chávez deu um golpe. Usou a vitória eleitoral para destruir as instituições. O que caracteriza um golpe não é apenas a maneira como se obtém o poder, mas o que se faz com as instituições depois que se chega ao palácio. Dois exemplos, opostos:

1) em 1974, os militares portugueses deram um golpe, acabaram com quase 50 anos de ditadura salazarista e, depois de uma confusão danada, restabeleceram as instituições democráticas;
2) o presidente peruano Alberto Fujimori, eleito pelo povo, golpeou as instituições e obteve na reeleição, pelo voto, a legitimação do golpismo.

O golpe do coronel Chávez ainda está fresco e, como os bebês, é bonitinho. Encana larápios, desmoraliza senadores, socorre os pobres e ergue altares patrióticos. Ainda é um baby-golpe, mas já lhe permitiu eleger a mulher para a Constituinte e colocar um irmão num governo estadual. Antes de proclamar a nova ordem, o coronel já se dissociara, nos foros internacionais, das moções que condenavam as violações de direitos humanos em Cuba, na China e no Irã.

O coronel Chávez vai ficar por aí por bastante tempo. É o caso de economizar a paciência alheia, voltando ao problema do namoro da esquerda brasileira com o xaveco. Esse é atroz.

O golpismo não é prerrogativa da direita nacional. A esquerda tem, a qualquer hora, um naco golpista. Se acaba golpeada, o problema está na sua inépcia como golpista, não numa eventual ingenuidade democrática. A revolta de 1935 foi uma tentativa de golpe militar. Em 1945, o Partido Comunista flertava com o golpe continuísta de Getúlio Vargas. Em 1964, toda a esquerda (e não só os comunistas) apoiava um eventual golpe de João Goulart.

Finalmente, o pessoal que estava naquilo que se denomina “luta armada” contra a ditadura militar não assaltava bancos e sequestrava diplomatas apenas para acabar com a ditadura, mas também para implantar um regime comunista, sem qualquer concessão eleitoral à choldra de quem supunha ser a vanguarda.

Foi de tanto apanhar que essa esquerda converteu-se à democracia. (A direita converteu-se depois de ter quebrado o país, se é que se converteu.) O xaveco venezuelano cai como uma luva para os golpistas do novo milênio. Ao contrário do peruano Fujimori, Chávez teve os seus poderes ampliados por delegação popular. Isso não faz diferença alguma.

Fernando Collor de Mello, nos 30 dias de euforia de seu plano econômico, poderia ter ido buscar num plebiscito os poderes que desejasse. No seu primeiro ano de mandato, FFH poderia ter tentado um golpe semelhante. Jamais aceitou proposições destinadas a encurralar o Congresso. Pode-se ter dos dois a opinião que se queira, mas ninguém lhes pode negar o respeito às instituições democráticas.

A sedução que Chávez começa a exercer sobre a esquerda é até atraente. Forma-se uma coligação, elege-se um candidato e, como o coronel, ele usa a vitória eleitoral como alavanca para um golpe desestruturador das instituições. Que instituições? Uma Câmara na qual se deu assento a um coronel que cortava seus inimigos em pedaços (com motosserra). Um Judiciário que não conseguiu rever as contas do juiz Laulau. Um Executivo que vendeu o patrimônio da Viúva à privataria e gastou o dinheiro pagando juros aos gatos gordos da banca internacional.

Basta imaginar quantos votos terá um candidato capaz de anunciar que convocará uma reunião com todos os comandantes das privatizações e os ex-diretores do Banco Central que hoje trabalham para a banca. Reunida a turma, jogará querosene, acenderá um fósforo e irá distribuir remédios na periferia.

O caminho golpista não serve à esquerda por duas razões. Primeiro, porque os golpes não funcionam. Acabam em embustes, ladroagens e irracionalismos. Às vezes podem até ser populares.

Ninguém se incomodou quando o marechal Costa e Silva baixou o Ato Institucional nº 5 e afogou o país na ditadura. Teve até uma certa popularidade. Junto com a suspensão do habeas corpus, mandou para a cadeia meia dúzia de banqueiros (de bicho). Obrigou todos os restaurantes do país a colocarem em seus cardápios um prato feito que se chamava Sunabão e custava algo como R$ 3. Como ninguém comia habeas corpus, pensou-se que comeria Sunabão, mas ele durou menos de seis meses, enquanto o AI-5 duraria dez anos.

Em 1977, o general Ernesto Geisel baixou o Pacote de Abril. Destinava-se a preservar o controle dos governos estaduais e a maioria do governo no Congresso, bem como a lhe dar margem de manobra para revogar, mais tarde, o AI-5. Dourou a pílula estendendo as férias dos trabalhadores brasileiros para 30 dias. Depois do pacote sua popularidade subiu.

Lula acha “fantástico” o xaveco venezuelano. Tudo bem. Há um provérbio da malandragem napolitana que diz o seguinte:
– Seja honesto, nem que seja por esperteza.

Seria o caso de dizer aos enamorados de Chávez:
– Sejam democratas, nem que seja por esperteza, porque isso que o coronel está fazendo na Venezuela é tudo o que a direita brasileira gostaria de fingir que vai fazer no Brasil.

Artigo originalmente em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc18089911.htm.

Natal

No “Arca Reaça” de hoje um texto inspirado de Olavo de Carvalho publicado em 2001 sobre o Natal:

Natal 2001

Todo mundo sabe que os dias que antecedem o Natal são os mais angustiantes do ano. Todas as cobiças, todas as frustrações, todas as neuroses familiares, todos os rancores que o ritual do trabalho diário encobria, vêm à tona nessa ocasião, excitados pela corrida às compras, pelo saldo em vermelho, pela disputa de prioridade nas visitas dadas e recebidas, por mil e uma solicitações inatendíveis que nos mostram, mais que qualquer dificuldade rotineira, o que há de intrinsecamente constrangedor e decepcionante na vida humana.

Movidos pelo automatismo dos lugares-comuns, muitos são os que, nesses dias, enfatizam o contraste entre a agitação mundana e um idealizado “espírito de Natal” que, imaginam, deve ter prevalecido em épocas mais doces ou há de prevalecer na sociedade perfeita que sonham criar à sua própria imagem e semelhança.

No entanto, nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.

É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida.

Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda de um abrigo inexistente.

Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar matá-Lo.

Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo – de um mundo que não voltará à existência depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é, mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.

O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um atestado de garantia contra a danação eterna.

Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e confirmá-la.

Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas um divertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom. Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos miúdos do grande dom divino que esperamos.

Mas a incerteza nem por isso se dissipa.

Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus recém-nascido.

Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas, reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.

Pintura de 1840, “Crianças esperando a ceia de Natal”, de Ferdinand Theodor Hildebrandt

A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo chão?

Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará.

Texto originalmente em http://www.olavodecarvalho.org/textos/natal2001.htm.

Papa Bento XVI no Parlamento Alemão

Em Setembro de 2011 o então Papa Bento XVI compareceu ao Parlamento alemão para discursar aos políticos. O que foi dito ali é, seguramente, um dos mais belos tratados político-filosóficos recentes recitados em uma casa legislativa.

Palácio Reichstag de Berlim
Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011 

Ilustre Senhor Presidente Federal!
Senhor Presidente do 
Bundestag!
Senhora Chanceler Federal!
Senhor Presidente do 
Bundesrat!
Senhoras e Senhores Deputados!

Constitui para mim uma honra e uma alegria falar diante desta Câmara Alta, diante do Parlamento da minha Pátria alemã, que se reúne aqui em representação do povo, eleita democraticamente para trabalhar pelo bem da República Federal da Alemanha. Quero agradecer ao Senhor Presidente do Bundestag o convite que me fez para pronunciar este discurso, e também as amáveis palavras de boas-vindas e de apreço com que me acolheu. Neste momento, dirijo-me a vós, prezados Senhores e Senhoras, certamente também como concidadão que se sente ligado por toda a vida às suas origens e acompanha solidariamente as vicissitudes da Pátria alemã. Mas o convite para pronunciar este discurso foi-me dirigido a mim como Papa, como Bispo de Roma, que carrega a responsabilidade suprema da Igreja Católica. Deste modo, vós reconheceis o papel que compete à Santa Sé como parceira no seio da Comunidade dos Povos e dos Estados. Na base desta minha responsabilidade internacional, quero propor-vos algumas considerações sobre os fundamentos do Estado liberal de direito.

Seja-me permitido começar as minhas reflexões sobre os fundamentos do direito com uma pequena narrativa tirada da Sagrada Escritura. Conta-se, no Primeiro Livro dos Reis, que Deus concedeu ao jovem rei Salomão fazer um pedido por ocasião da sua entronização. Que irá pedir o jovem soberano neste momento tão importante: sucesso, riqueza, uma vida longa, a eliminação dos inimigos? Não pede nada disso; mas sim: «Concede ao teu servo um coração dócil, para saber administrar a justiça ao teu povo e discernir o bem do mal» (1 Re 3, 9). Com esta narração, a Bíblia quer indicar-nos o que deve, em última análise, ser importante para um político. O seu critério último e a motivação para o seu trabalho como político não devem ser o sucesso e menos ainda o lucro material. A política deve ser um compromisso em prol da justiça e, assim, criar as condições de fundo para a paz. Naturalmente um político procurará o sucesso, sem o qual não poderia jamais ter a possibilidade de uma acção política efectiva; mas o sucesso há-de estar subordinado ao critério da justiça, à vontade de actuar o direito e à inteligência do direito. É que o sucesso pode tornar-se também um aliciamento, abrindo assim a estrada à falsificação do direito, à destruição da justiça. «Se se põe de parte o direito, em que se distingue então o Estado de uma grande banda de salteadores?» – sentenciou uma vez Santo Agostinho (De civitate Dei IV, 4, 1). Nós, alemães, sabemos pela nossa experiência que estas palavras não são um fútil espantalho. Experimentámos a separação entre o poder e o direito, o poder colocar-se contra o direito, o seu espezinhar o direito, de tal modo que o Estado se tornara o instrumento para a destruição do direito: tornara-se uma banda de salteadores muito bem organizada, que podia ameaçar o mundo inteiro e impeli-lo até à beira do precipício. Servir o direito e combater o domínio da injustiça é e permanece a tarefa fundamental do político. Num momento histórico em que o homem adquiriu um poder até agora impensável, esta tarefa torna-se particularmente urgente. O homem é capaz de destruir o mundo. Pode manipular-se a si mesmo. Pode, por assim dizer, criar seres humanos e excluir outros seres humanos de serem homens. Como reconhecemos o que é justo? Como podemos distinguir entre o bem e o mal, entre o verdadeiro direito e o direito apenas aparente? O pedido de Salomão permanece a questão decisiva perante a qual se encontram também hoje o homem político e a política.

Grande parte da matéria que se deve regular juridicamente, pode ter por critério suficiente o da maioria. Mas é evidente que, nas questões fundamentais do direito em que está em jogo a dignidade do homem e da humanidade, o princípio maioritário não basta: no processo de formação do direito, cada pessoa que tem responsabilidade deve ela mesma procurar os critérios da própria orientação. No século III, o grande teólogo Orígenes justificou assim a resistência dos cristãos a certos ordenamentos jurídicos em vigor: «Se alguém se encontrasse no povo de Scizia que tem leis irreligiosas e fosse obrigado a viver no meio deles, (…) estes agiriam, sem dúvida, de modo muito razoável se, em nome da lei da verdade que precisamente no povo da Scizia é ilegalidade, formassem juntamente com outros, que tenham a mesma opinião, associações mesmo contra o ordenamento em vigor» [Contra Celsum GCS Orig. 428 (Koetschau); cf. A. Fürst, «Monotheismus und Monarchie. Zum Zusammenhang von Heil und Herrschaft in der Antike», inTheol.Phil. 81 (2006) 321-338; a citação está na página 336; cf. também J. Ratzinger, Die Einheit der Nationem, Eine Vision der Kirchenväter (Salzburg-München 1971) 60].

Com base nesta convicção, os combatentes da resistência agiram contra o regime nazista e contra outros regimes totalitários, prestando assim um serviço ao direito e à humanidade inteira. Para estas pessoas era evidente de modo incontestável que, na realidade, o direito vigente era injustiça. Mas, nas decisões de um político democrático, a pergunta sobre o que corresponda agora à lei da verdade, o que seja verdadeiramente justo e possa tornar-se lei não é igualmente evidente. Hoje, de facto, não é de per si evidente aquilo que seja justo e possa tornar-se direito vigente relativamente às questões antropológicas fundamentais. À questão de saber como se possa reconhecer aquilo que verdadeiramente é justo e, deste modo, servir a justiça na legislação, nunca foi fácil encontrar resposta e hoje, na abundância dos nossos conhecimentos e das nossas capacidades, uma tal questão tornou-se ainda muito mais difícil.

Como se reconhece o que é justo? Na história, os ordenamentos jurídicos foram quase sempre religiosamente motivados: com base numa referência à Divindade, decide-se aquilo que é justo entre os homens. Ao contrário doutras grandes religiões, o cristianismo nunca impôs ao Estado e à sociedade um direito revelado, nunca impôs um ordenamento jurídico derivado duma revelação. Mas apelou para a natureza e a razão como verdadeiras fontes do direito; apelou para a harmonia entre razão objectiva e subjectiva, mas uma harmonia que pressupõe serem as duas esferas fundadas na Razão criadora de Deus. Deste modo, os teólogos cristãos associaram-se a um movimento filosófico e jurídico que estava formado já desde o século II (a.C.). De facto, na primeira metade do século II pré-cristão, deu-se um encontro entre o direito natural social, desenvolvido pelos filósofos estóicos, e autorizados mestres do direito romano [cf. W. Waldstein,Ins Herz geschrieben. Das Naturrecht als Fundament einer menschlichen Gesellschaft(Augsburg 2010) 11ss; 31-61]. Neste contacto nasceu a cultura jurídica ocidental, que foi, e é ainda agora, de importância decisiva para a cultura jurídica da humanidade. Desta ligação pré-cristã entre direito e filosofia parte o caminho que leva, através da Idade Média cristã, ao desenvolvimento jurídico do Iluminismo até à Declaração dos Direitos Humanos e depois à nossa Lei Fundamental alemã, pela qual o nosso povo reconheceu, em 1949, «os direitos invioláveis e inalienáveis do homem como fundamento de toda a comunidade humana, da paz e da justiça no mundo».

Papa Bento XVI no Parlamento Alemão

Papa Bento XVI no Parlamento Alemão

Foi decisivo para o desenvolvimento do direito e o progresso da humanidade que os teólogos cristãos tivessem tomado posição contra o direito religioso, requerido pela fé nas divindades, e se tivessem colocado da parte da filosofia, reconhecendo como fonte jurídica válida para todos a razão e a natureza na sua correlação. Esta opção realizara-a já São Paulo, quando afirma na Carta aos Romanos: «Quando os gentios que não têm a Lei [a Torah de Israel], por natureza agem segundo a Lei, eles (…) são lei para si próprios. Esses mostram que o que a Lei manda praticar está escrito nos seus corações, como resulta do testemunho da sua consciência» (Rm 2, 14-15). Aqui aparecem os dois conceitos fundamentais de natureza e de consciência, sendo aqui a «consciência» o mesmo que o «coração dócil» de Salomão,  a razão aberta à linguagem do ser. Deste modo se até à época do Iluminismo, da Declaração dos Direitos Humanos depois da II Guerra Mundial e até à formação da nossa Lei Fundamental, a questão acerca dos fundamentos da legislação parecia esclarecida, no último meio século verificou-se uma dramática mudança da situação. Hoje considera-se a ideia do direito natural uma doutrina católica bastante singular, sobre a qual não valeria a pena discutir fora do âmbito católico, de tal modo que quase se tem vergonha mesmo só de mencionar o termo. Queria brevemente indicar como se veio a criar esta situação. Antes de mais nada é fundamental a tese segundo a qual haveria entre o ser e o dever ser um abismo intransponível: do ser não poderia derivar um dever, porque se trataria de dois âmbitos absolutamente diversos. A base de tal opinião é a concepção positivista, quase geralmente adoptada hoje, de natureza. Se se considera a natureza – no dizer de Hans Kelsen – «um agregado de dados objectivos, unidos uns aos outros como causas e efeitos», então realmente dela não pode derivar qualquer indicação que seja de algum modo de carácter ético (Waldstein, op. cit., 15-21). Uma concepção positivista de natureza, que compreende a natureza de modo puramente funcional, tal como a conhecem as ciências naturais, não pode criar qualquer ponte para a ética e o direito, mas suscitar de novo respostas apenas funcionais. Entretanto o mesmo vale para a razão numa visão positivista, que é considerada por muitos como a única visão científica. Segundo ela, o que não é verificável ou falsificável  não entra no âmbito da razão em sentido estrito. Por isso, a ética e a religião devem ser atribuídas ao âmbito subjectivo, caindo fora do âmbito da razão no sentido estrito do termo. Onde vigora o domínio exclusivo da razão positivista – e tal é, em grande parte, o caso da nossa consciência pública –, as fontes clássicas de conhecimento da ética e do direito são postas fora de jogo. Esta é uma situação dramática que interessa a todos e sobre a qual é necessário um debate público; convidar urgentemente para ele é uma intenção essencial deste discurso.

O conceito positivista de natureza e de razão, a visão positivista do mundo é, no seu conjunto, uma parcela grandiosa do conhecimento humano e da capacidade humana, à qual não devemos de modo algum renunciar. Mas ela mesma no seu conjunto não é uma cultura que corresponda e seja suficiente ao ser humano em toda a sua amplitude. Onde a razão positivista se considera como a única cultura suficiente, relegando todas as outras realidades culturais para o estado de subculturas, aquela diminui o homem, antes, ameaça a sua humanidade. Digo isto pensando precisamente na Europa, onde vastos ambientes procuram reconhecer apenas o positivismo como cultura comum e como fundamento comum para a formação do direito, reduzindo todas as outras convicções e os outros valores da nossa cultura ao estado de uma subcultura. Assim coloca-se a Europa, face às outras culturas do mundo, numa condição de falta de cultura e suscitam-se, ao mesmo tempo, correntes extremistas e radicais. A razão positivista, que se apresenta de modo exclusivista e não é capaz de perceber algo para além do que é funcional, assemelha-se aos edifícios de cimento armado sem janelas, nos quais nos damos o clima e a luz por nós mesmos e já não queremos receber estes dois elementos do amplo mundo de Deus. E no entanto não podemos iludir-nos, pois em tal mundo autoconstruído bebemos em segredo e igualmente nos “recursos” de Deus, que transformamos em produtos nossos. É preciso tornar a abrir as janelas, devemos olhar de novo a vastidão do mundo, o céu e a terra e aprender a usar tudo isto de modo justo.

Mas, como fazê-lo? Como encontramos a entrada justa na vastidão, no conjunto? Como pode a razão reencontrar a sua grandeza sem escorregar no irracional? Como pode a natureza aparecer novamente na sua verdadeira profundidade, nas suas exigências e com as suas indicações? Chamo à memória um processo da história política recente, esperando não ser mal entendido nem suscitar demasiadas polémicas unilaterais. Diria que o aparecimento do movimento ecológico na política alemã a partir dos Anos Setenta, apesar de não ter talvez aberto janelas, todavia foi, e continua a ser, um grito que anela por ar fresco, um grito que não se pode ignorar nem acantonar, porque se vislumbra nele muita irracionalidade. Pessoas jovens deram-se conta de que, nas nossas relações com a natureza, há algo que não está bem; que a matéria não é apenas uma material para nossa feitura, mas a própria terra traz em si a sua dignidade e devemos seguir as suas indicações. É claro que aqui não faço propaganda por um determinado partido político; nada me seria mais alheio do que isso. Quando na nossa relação com a realidade há qualquer coisa que não funciona, então devemos todos reflectir seriamente sobre o conjunto e todos somos reenviados à questão acerca dos fundamentos da nossa própria cultura. Seja-me permitido deter-me um momento mais neste ponto. A importância da ecologia é agora indiscutível. Devemos ouvir a linguagem da natureza e responder-lhe coerentemente. Mas quero insistir num ponto que – a meu ver –, hoje como ontem, é descurado: existe também uma ecologia do homem. Também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe apetece. O homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando respeita a natureza e a escuta e quando se aceita a si mesmo por aquilo que é e que não se criou por si mesmo. Assim mesmo, e só assim, é que se realiza a verdadeira liberdade humana.

Voltemos aos conceitos fundamentais de natureza e razão, donde partíramos. O grande teórico do positivismo jurídico, Kelsen, em 1965 – com a idade de 84 anos (consola-me o facto de ver que, aos 84 anos, ainda se é capaz de pensar algo de razoável) –, abandonou o dualismo entre ser e dever ser. Antes, ele tinha dito que as normas só podem derivar da vontade. Consequentemente – acrescenta ele – a natureza só poderia conter em si mesma normas, se uma vontade tivesse colocado nela estas normas. Mas isto – diz ele – pressuporia um Deus criador, cuja vontade se inseriu na natureza. «Discutir sobre a verdade desta fé é absolutamente vão» – observa ele a tal propósito (citado segundo Waldstein, op.cit., 19). Mas sê-lo-á verdadeiramente? – apetece-me perguntar. É verdadeiramente desprovido de sentido reflectir se a razão objectiva que se manifesta na natureza não pressuponha uma Razão criadora, um Creator Spiritus?

Aqui deveria vir em nossa ajuda o património cultural da Europa. Foi na base da convicção sobre a existência de um Deus criador que se desenvolveram a ideia dos direitos humanos, a ideia da igualdade de todos os homens perante a lei, o conhecimento da inviolabilidade da dignidade humana em cada pessoa e a consciência da responsabilidade dos homens pelo seu agir. Estes conhecimentos da razão constituem a nossa memória cultural. Ignorá-la ou considerá-la como mero passado seria uma amputação da nossa cultura no seu todo e privá-la-ia da sua integralidade. A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma. Este tríplice encontro forma a identidade íntima da Europa. Na consciência da responsabilidade do homem diante de Deus e no reconhecimento da dignidade inviolável do homem, de cada homem, este encontro fixou critérios do direito, cuja defesa é nossa tarefa neste momento histórico.

Ao jovem rei Salomão, na hora de assumir o poder, foi concedido formular um seu pedido. Que sucederia se nos fosse concedido a nós, legisladores de hoje, fazer um pedido? O que é que pediríamos? Penso que também hoje, em última análise, nada mais poderíamos desejar que um coração dócil, a capacidade de distinguir o bem do mal e, deste modo, estabelecer um direito verdadeiro, servir a justiça e a paz. Agradeço-vos pela vossa atenção!

fonte:http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2011/september/documents/hf_ben-xvi_spe_20110922_reichstag-berlin_po.html

Sermão do bom ladrão, de padre Antônio Vieira

Em 2004 ainda existia a revista “Primeira Leitura”, cujo editor era Reinaldo Azevedo. O site tratava com frequência de política, já a revista se dedicava mais a pensamento, resenhas, entrevistas e reflexões. Era um trabalho de altíssima qualidade e com colaboradores muito bons.

Quem acompanhou a revista ao longo do tempo pôde ver a “conversão” de Reinaldo Azevedo que, no início, se definia mais como social-democrata. O texto que trazemos ao “Arca Reaça” hoje é uma análise de Reinaldo publicada no site sobre um dos excelentes sermões do padre Antônio Vieira. O texto é longo e necessário:

Sermão do Bom Ladrão, de padre Antônio Vieira
Em dias em que autoridades vão à televisão para arrotar moralidade, embora sejam seus subordinados a meter a mão no dinheiro público, vale lembrar o que disse um jesuíta há 350 anos
Por Reinaldo Azevedo

O PREGADOR: uma imagem de padre Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa

O PREGADOR: uma imagem de padre Antônio Vieira, o imperador da língua portuguesa

Caros internautas,

De vez em quando, é preciso voltar às fontes originais onde todos bebemos ou deveríamos beber. E convidar o leitor a partilhar de tais águas. Uma das minhas minas de raridades é padre Antônio Vieira (1608-1697), que se aprende no colégio ser o prosador do barroco brasileiro, tanto quanto o baiano Gregório de Matos foi o seu poeta. Embora nascido em Portugal, em terras pátrias, especialmente no Maranhão, proferiu boa parte dos sermões que o tornaram notável. Jesuíta, logo se indispôs com os rumos da colonização no país, marca constante de sua ordem religiosa, e, pois, com a Coroa portuguesa e com a cúpula da própria Igreja Católica, o que acabou por levá-lo ao tribunal da Inquisição.

Não há, entendo, nos 322 anos em que o Brasil permaneceu colônia de Portugal, figura mais complexa. Encarnava a um só tempo os valores do establishment monárquico-católico (e nem poderia ser diferente) e a sua viva contestação. Seus sermões, quase sempre justificadores da ordem — na sua aparência ao menos —, expõem o limiar de um pensamento humanista que, não raro, tem um caráter claramente subversivo. Era um padre. Seu horizonte, claro!, era o que entendia e o que os seus doutores teólogos entendiam ser o reino de Deus. Mas nunca faltaram em seu texto a paixão pelo homem e um agudo senso de justiça, conforme evidenciou, por exemplo, nos textos em que tratou da escravidão.

Seleciono, na seqüência, partes de um sermão de 1655, que ficou conhecido como o Sermão do Bom Ladrão (clique aqui para ler). Suspeito que sua leitura, ainda hoje, passados quase 350 anos, deixaria muita gente corada de raiva ou de vergonha nos salões de qualquer um dos Três Poderes da República. Ao lado, há uma imagem em que se pode clicar para ter acesso ao texto integral. A seleção que faço, verá o internauta, tem endereço certo: é mesmo o Brasil de 2004. Separo os trechos em blocos, antecedidos por um intertítulo e por um comentário meu, que segue em itálico. Leiam e depois me digam se o governo que aí está, mesmo este que prometeu novas auroras, resistiria ao padre franzino do século 17.

LADRÃO PEQUENO É PIRATA; LADRÃO GRANDE É ALEXANDRE MAGNO

No excerto que segue, Vieira já havia feito a distinção, que percorre todo o texto, entre “ladrões grandes” e “ladrões pequenos”. Neste trecho em particular, diz haver pouca diferença entre os “reinos” e covis de bandidos. A não ser pelo tamanho. E crava uma frase que entrou para história: ao cruzar com um pirata, Alexandre, o Grande, tentou admoestá-lo e censurá-lo por causa de suas más ações. E então lhe responde o outro: “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”. Vamos a Vieira ele mesmo:

“O texto de Santo Agostinho fala geralmente de todos os reinos, em que são ordinárias semelhantes opressões e injustiças, e diz que, entre os tais reinos e as covas dos ladrões — a que o santo chama latrocínios — só há uma diferença. E qual é? Que os reinos são latrocínios, ou ladroeiras grandes, e os latrocínios, ou ladroeiras, são reinos pequenos: Sublata justitia, quid sunt regna, nisi magna latrocinia? Quia et latrocinia quid sunt, nisi parva regna? É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.”

LADRÕES GRANDES ENFORCAM OS PEQUENOS

Num dos melhores, mais claros e eloqüentes trechos do sermão, Vieira parece falar muito de perto ao país dos Carandirus e Benficas. E também evidencia a sem-cerimônia com que os ladrões oficiais, os ladrões incrustados no Estado e nos governos se encarregam de punir os ladrões menores. Numa espetacular seqüência de antíteses violentas, opõe a desigualdade de prejuízos causados à sociedade pelos ladrões pequenos e pelos ladrões poderosos. Em suma: o destino do responsável pelo pequeno furto é a forca; o do cônsul, que rouba uma cidade, é o triunfo. Vamos ver:

“Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão (…).O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno (…). Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes? De um, chamado Seronato, disse com discreta contraposição Sidônio Apolinar: (…) Seronato está sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar ele só.”

RESPONSÁVEL É QUEM NOMEOU

Até aqui, leitor, temos um Vieira falando como um moralista, trabalhando com categorias absolutas como honradez, decência, observância das leis divinas etc. No trecho que segue, de leitura nem tão fácil como os anteriores, vamos nos deparar com um exercício claro de inteligência política. Quando vemos hoje que as autoridades que nomearam os ladrões da Saúde, por exemplo, vão à TV para prometer justamente a moralização da coisa pública, devemos nos perguntar, sob os auspícios de Vieira: ué, mas não são elas próprias, as que escolheram aqueles homens de confiança, as responsáveis últimas pelos seus desmandos? Afinal, quem foi que mandou que concedesse tanto poder aos ladravazes? Santo Deus! Vieira sabia disso em 1655, e nós, muitos jornalistas inclusive, não consideramos tal realidade em 2004. Deixemos que Vieira fale:

“Declarado assim por palavras não minhas, senão de muito bons autores, quão honrados e autorizados sejam os ladrões de que falo, estes são os que disse e digo que levam consigo os reis ao inferno. Que eles fossem lá sós, e o diabo os levasse a eles, seja muito na má hora, pois assim o querem; mas que hajam de levar consigo os reis é uma dor que se não pode sofrer, e por isso nem calar. Mas se os reis tão fora estão de tomar o alheio, que antes eles são os roubados, e os mais roubados de todos, como levam ao inferno consigo estes maus ladrões a estes bons reis? Não por um só, senão por muitos modos, os quais parecem insensíveis e ocultos, e são muito claros e manifestos. O primeiro, porque os reis lhes dão os ofícios e poderes com que roubam; o segundo, porque os reis os conservam neles; o terceiro, porque os reis os adiantam e promovem a outros maiores; e, finalmente, porque, sendo os reis obrigados, sob pena de salvação, a restituir todos estes danos, nem na vida, nem na morte os restituem.”

É PROIBIDO ALEGAR IGNORÂNCIA

Na seqüência, Vieira recorre a uma citação de Santo Tomás de Aquino e dá um passo ainda mais ousado. Seguindo o princípio de que aquele que rouba tem de devolver o produto de seu roubo e dado que isso pode não acontecer por iniciativa do próprio ladrão, o padre põe os poderosos em palpos de aranha: então que devolvam aqueles que responderam pelas escolhas. Imaginem se o princípio fosse aplicado no Ministério da Saúde… Vamos a Vieira:

“E quem diz isto já se sabe que há de ser Santo Tomás. Faz questão Santo Tomás, se a pessoa que não furtou, nem recebeu ou possui coisa alguma do furto, pode ter obrigação de o restituir. E não só resolve que sim, mas, para maior expressão do que vou dizendo, põe o exemplo nos reis. Vai o texto: Tenetur ille restituere, qui non obstat, cum obstare teneatur. Sicut principes, qui tenentur custodire justitiam in terra, si per eorum defectum latrones increscant, ad restitutionem tenentur, quia redditus, quos habent, sunt quasi stipendia ad hoc instituta, ut justitiam conservent in terra: Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça. — É tão natural e tão clara esta teologia, que até Agamenão, rei gentio, a conheceu, quando disse: “Qui non vetat peccare, cum possit, jubet” [Quem, podendo, não impede o pecado, ordena-o].”

ATÉ DEUS PAGOU O PATO

E Vieira segue adiante, num procedimento típico, que irritava muitos de seus contemporâneos, especialmente os adversários dentro da própria Igreja. Vai buscar num exemplo bíblico a comprovação da tese, que certamente sabe ser espinhosa. No trecho que segue, trata Adão mais como um “ladrão” do que como um pecador de catecismo. E diz que Deus — que era, afinal, o responsável pela criatura — pagou, sim, pela transgressão praticada pelo outro. Logo, que os governantes sejam os responsáveis pelos homens que nomearam. Pois é: hoje em dia, ministros preferem ir à TV para desobrigar-se da responsabilidade por aqueles que nomearam.

“E se nesta obrigação de restituir incorrem os príncipes pelos furtos que cometem os ladrões casuais e involuntários, que será pelos que eles mesmos, e por própria eleição, armaram de jurisdições e poderes, com que roubam os mesmos povos? A tenção dos príncipes não é nem pode ser essa; mas basta que esses oficiais, ou de Guerra, ou de Fazenda, ou de Justiça, que cometem os roubos, sejam eleições e feituras suas, para que os príncipes hajam de pagar o que eles fizeram. Ponhamos o exemplo da culpa, onde a não pode haver. Pôs Deus a Adão no Paraíso, com jurisdição e poder sobre todos os viventes, e com senhorio absoluto de todas as coisas criadas, excepta somente uma árvore. Faltavam-lhe poucas letras a Adão para ladrão, e ao fruto para furto não lhe faltava nenhuma. Enfim, ele e sua mulher — que muitas vezes são as terceiras — aquela só coisa que havia no mundo que não fosse sua, essa roubaram. Já temos a Adão eleito, já o temos com ofício, já o temos ladrão. E quem foi o que pagou o furto? Caso sobre todos admirável! Pagou o furto quem elegeu e quem deu o ofício ao ladrão. Quem elegeu e quem deu o ofício a Adão foi Deus: e Deus foi o que pagou o furto tanto à sua custa, como sabemos. (…) Vistes o corpo humano de que me vesti, sendo Deus; vistes o muito que padeci, vistes o sangue que derramei, vistes a morte a que fui condenado, entre ladrões. Pois, então, e com tudo isso, pagava o que não furtei.”

O PODEROSO TEM DE DAR O EXEMPLO

E lamento dizer que Vieira não deixa nem mesmo espaço para a desculpa esfarrapada de que, afinal, procurou-se fazer o melhor, de que o governante se cercou de todos os cuidados. Ou, para ficar com a máxima de Márcio Thomaz Bastos, de que os ladrões eram puros até entrarem em contato com a máquina corrupta. O nosso Vieira deixa claro que nem mesmo Deus tinha o direito de dizer algo como “fiz tudo o que estava ao meu alcance”. Assim, parece, se o governo Lula quer saber quem é o responsável pela lambança da Saúde, a resposta é muito simples: ele próprio, o ministro escolhido, que, por sua vez, escolheu os assessores. Vieira — e o Deus conforme o lê o padre — não permite a essa gente outra saída. Ao sermão, em que o jesuíta começa por indagar Deus:

“Pois, Senhor meu, que culpa teve vossa divina Majestade no furto de Adão? — Nenhuma culpa tive, nem a tivera, ainda que não fora Deus, porque na eleição daquele homem, e no ofício que lhe dei, em tudo procedi com a circunspecção, prudência e providência com que o devera e deve fazer o príncipe mais atento a suas obrigações, mais considerado e mais justo. Primeiramente, quando o fiz, não foi com império despótico, como as outras criaturas, senão com maduro conselho, e por consulta de pessoas não humanas, senão divinas (…) As partes e qualidades que concorriam no eleito eram as mais adequadas ao ofício que se podiam desejar nem imaginar, porque era o mais sábio de todos os homens, justo sem vício, reto sem injustiça, e senhor de todas suas paixões, as quais tinha sujeitas e obedientes à razão. Só lhe faltava a experiência, nem houve concurso de outros sujeitos na sua eleição, mas ambas estas coisas não as podia então haver, porque era o primeiro homem, e o único. — Pois, se a vossa eleição, Senhor, foi tão justa e tão justificada, que bastava ser vossa para o ser, por que haveis vós de pagar o furto que ele fez, sendo toda a culpa sua? — Porque quero dar este exemplo e documento aos príncipes, e porque não convém que fique no mundo tão má e perniciosa conseqüência, como seria, se os príncipes se persuadissem em algum caso que não eram obrigados a pagar e satisfazer o que seus ministros roubassem.”

MÉRITO E NEPOTISMO

O trecho a seguir é daqueles que justificam certos exageros de que se tomam, às vezes, os admiradores de Vieira. Parece ter dons premonitórios. Ele conhecia o funcionamento das cortes, mas, abaixo, parece descrever a rotina, por exemplo, de um partido político. Para o padre, está posto, quem responde pelo erro do subordinado é aquele que o nomeou. Mas, claro!, o que nomeia sempre poderá alegar que não sabe o que fará o escolhido no futuro. Deixemos que fale o autor. E veremos que ele, na verdade, o que cobra é critério na escolha. Se não se pode saber o que fará o homem, é perfeitamente possível saber o que ele faz. Vieira abomina todas as escolhas dos reis que não sejam aquelas do mérito. Quem for servir ao Estado por qualquer outra razão, diz o jesuíta, começa como ladrão encoberto e termina como ladrão descoberto.

“Mas estou vendo que com este mesmo exemplo de Deus se desculpam ou podem desculpar os reis, porque, se a Deus lhe sucedeu tão mal com Adão, conhecendo muito bem Deus o que ele havia de ser, que muito é que suceda o mesmo aos reis, com os homens que elegem para os ofícios, se eles não sabem nem podem saber o que depois farão? A desculpa é aparente, mas tão falsa como mal fundada, porque Deus não faz eleição dos homens pelo que sabe que hão de ser, senão pelo que de presente são. Bem sabia Cristo que Judas havia de ser ladrão; mas quando o elegeu para o ofício em que o foi, não só não era ladrão, mas muito digno de se lhe fiar o cuidado de guardar e distribuir as esmolas dos pobres. Elejam assim os reis as pessoas, e provejam assim os ofícios, e Deus os desobrigará nesta parte da restituição. Porém as eleições e provimentos que se usam não se fazem assim. Querem saber os reis se os que provêem nos ofícios são ladrões ou não? Observem a regra de Cristo: Qui non intral per ostium, jur est et latro [O que não entra pela porta, esse é ladrão e roubador]. A porta por onde legitimamente se entra ao ofício é só o merecimento. E todo o que não entra pela porta, não só diz Cristo que é ladrão, senão ladrão e ladrão: Fur est latro. E por que é duas vezes ladrão? Uma vez porque furta o ofício, e outra vez porque há de furtar com ele. O que entra pela porta poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são. Uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia, outros pelo suborno, e todos pela negociação. E quem negocia não há mister outra prova: já se sabe que não vai a perder. Agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto, que essa é, como diz S. Jerônimo, a diferença de fur e latro.”

UM PRIMOR DE RETÓRICA

O destaque do trecho abaixo vai mesmo em função da retórica. Nele, Vieira nem renova os argumentos, mas apenas procede a um jogo de palavras com categorias da linguagem que dão conta de sua genialidade e do epíteto que lhe colou o poeta Fernando Pessoa: “imperador da língua portuguesa”. Reparem como ele trata do verbo “roubar” nos vários tempos e modos e consegue tornar lapidar a sua argumentação. O “lá” que aparece na primeira linha do trecho é o “poder”:

“Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo imperativo, porque, como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e, para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo optativo, porque desejam quanto lhes parece bem e, gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia, sem vontade, as fazem suas. Furtam pelo modo conjuntivo, porque ajuntam o seu pouco cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem quando menos meeiros na ganância. Furtam pelo modo potencial, porque, sem pretexto nem cerimônia, usam de potência. Furtam pelo modo permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo infinitivo, porque não tem o fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as pessoas, porque a primeira pessoa do verbo é a sua, as segundas os seus criados, e as terceiras quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do presente — que é o seu tempo — colhem quanto dá de si o triênio; e para incluírem no presente o pretérito e futuro, do pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões, e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do futuro empenham as rendas e antecipam os contratos, com que tudo o caído e não caído lhes vem a cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos, não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plus quam perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma, que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo verbo: a furtar para furtar. E quando eles têm conjugado assim toda a voz ativa, e as miseráveis províncias suportado toda a passiva, eles, como se tiveram feito grandes serviços, tornam carregados de despojos e ricos, e elas ficam roubadas e consumidas.”

NOVO APELO

Caros leitores, há muito mais no texto original. Resta insistir que selecionem o texto e o guardem em um arquivo para ler mais tarde se agora falta o tempo necessário. Vieira foi um grande homem sobretudo porque não foi óbvio nem se deixou envolver pela versão influente, pelo poder influente, pela falsa evidência.

Islã é paz

6 dias após os atentados às Torres Gêmeas, no dia 17 de setembro de 2001, George W. Bush foi ao Centro Islâmico de Washington mandar uma mensagem de tolerância, paz e respeito aos muçulmanos dos Estados Unidos, que sofriam hostilidade dos americanos nas ruas revoltados com os atentados. Uma atitude corajosa e conciliadora que acabou por ser esquecida mas deve ser lembrada para evitar generalizações que, no fim das contas, só servem para dar impressão de maior poder aos que buscam na deturpação de uma Fé o combustível de seus crimes.

É esse discurso que trazemos hoje ao “Arca Reaça“:

Obrigado a todos vocês por sua hospitalidade. Acabamos de ter um amplo debate sobre esse problema. Como as boas pessoas aqui comigo, o povo americano ficou estarrecido e indignado com os ataques da última terça-feira (11/09). E assim também ficaram os muçulmanos ao redor do mundo. Americanos, amigos e cidadãos muçulmanos, cidadãos contribuintes, e povos muçulmanos ficaram estarrecidos e não podiam acreditar no que víamos nas nossas televisões.

Esses atos de violência contra inocentes violam os princípios fundamentais da fé islâmica. E é importante para meus companheiros americanos entenderem isso.

A tradução para inglês não é tão eloquente quanto o original em árabe, mas me permitam citar do Corão mesmo: “No longo termo, o mal no extremo será o fim daqueles que fazem o mal. Para aqueles que rejeitam os sinais de Allah e os levam ao ridículo”.

A face do terror não é a verdadeira face do Islã. O Islã não é isso. O Islã é paz. Esses terroristas não representam a paz. Eles representam o mal e a guerra.

Quando pensamos no Islã, pensamos numa fé que traz conforto a um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Bilhões de pessoas encontram conforto e consolo e paz. E isso que os torna irmãos e irmãs de todas as raças – de todas as raças.

Os Estados Unidos têm milhões de muçulmanos entre seus cidadãos, e muçulmanos dão uma incrível e valorosa contribuição para nosso país. Muçulmanos são doutores, advogados, professores de direito, membros do exército, empreendedores, comerciantes, mães e pais. E eles devem ser tratados com respeito. Em nosso ódio e emoção, nossos companheiros americanos precisam tratar uns aos outros com respeito.

Mulheres que cobrem suas cabeças nesse país precisam se sentir seguras saindo de suas casas. Mães que usam véus não devem se sentir intimidadas nos Estados Unidos. Isso não é a América que eu conheço. Essa não é a América que eu valorizo.

Eu tenho ouvido que algumas temem sair; algumas não querem ir às compras com suas famílias; algumas não querem seguir suas rotinas diárias pois, vestindo um véu, temem ser intimidadas. Isso não deveria e não vai continuar nos Estados Unidos.

Aqueles que acham que podem intimidar nossos cidadãos para extravasar seu ódio não representam o melhor da América, eles representam o pior da humanidade, e deveriam se envergonhar desse tipo de comportamento.

Esse é um grande país. É um grande país porque compartilhamos os mesmos valores de respeito e dignidade e valor humano. E me sinto honrado em conversar com líderes que sentem o mesmo que eu sinto. Eles estão indignados, eles estão tristes. Eles amam os Estados Unidos da mesma forma que eu amo.

Eu quero agradecer todos vocês por me darem essa chance de vir aqui. E que Deus os abençoe a todos.

Bush_IslamicCenter

Transcrição original em http://georgewbush-whitehouse.archives.gov/news/releases/2001/09/20010917-11.html.

No New York Times e na CNN, matérias recentes que relembram esse importante gesto.

Abaixo, o vídeo do discurso de George W. Bush

O assunto proibido

Em 2004, fazia grande sucesso na internet brasileira o coletivo de blogs “Wunderblogs”. Revelador de grandes talentos, o coletivo trazia textos agradáveis e muito bem escritos.

Dentre os Wunderblogs havia Alexandre Soares Silva, que ainda hoje possui um dos melhores textos da Internet brasileira, mas agora em outro endereço. O texto que destacamos hoje aqui na “Arca Reaça” é um em que o @LordAss trata de outra figura muito famosa na Internet brasileira, Olavo de Carvalho. Falaremos mais dessa outra “figura” em outros posts ainda essa semana, mas por enquanto, leiam o texto de Alexandre.

O Assunto Proibido

Um amigo meu uma vez disse que sempre ouvimos falar da perseguição que os grandes homens sofrem – todo aquele ódio e zombaria – mas que isso era algo muito distante e difícil de imaginar, até o momento em que percebemos que é isso que estamos vendo acontecer com Olavo de Carvalho.

Esse amigo também me avisou para não escrever sobre o assunto, ou eu entraria para sempre na listinha negra dos imbecis. Falar em Olavo de Carvalho é para sempre ter que ficar se justificando, dizer que lê mas é limpinho, nunca teve aula com ele, não conhece, não quer conhecer. Falar nele é para sempre ser considerado por essa gente não como alguém que ocasionalmente lê e gosta do que ele escreve, como poderia acontecer com alguém que lê Bergson ou Maritain, mas como alguém que faz parte de uma espécie de seita.

E é verdade que existe esse risco. Mas é bom estar na lista negra de imbecis: as consequências costumam ser superestimadas e a sensação é reconfortante. E me deu vontade de falar no assunto, so there we go.

Neste momento consigo ouvir os gemidos de pessoas irritadas com a atribuição de grandeza a Olavo de Carvalho. Bom, a quantidade de ódio dirigido contra ele é uma prova de grandeza – se ele precisasse de outra além de “O Jardim das Aflições”, that is (incidentalmente, é preciso ser muito estúpido para ler esse livro e continuar desprezando o autor).

Outra prova – mais significativa, porque a anterior poderia provar até a grandeza de Noam Chomsky – é a baixa qualidade das pessoas que o odeiam. São as pessoas mais repulsivas do mundo, que têm nomes como Edu Mokoka e Thais Vakinha. Por favor! Gente cheia de raiva*, que deixa comentários obscenos em blogs de qualquer um que julguem ser um aluno dele (quase sempre erradamente), e que se apresentam no Orkut com fotos em que aparecem com canetas piloto enfiadas no nariz (vermelhas; eu vi) e usando bonés com pequenas hélices em cima (I kid you not). Com essas fotos, se metem em debates sobre racismo ou fascismo; ah, é lindo.

Uma acusação ainda pior do que essa é que são pessoas que não tem repugnância de repetir clichês como “ele procura comunistas debaixo da cama” – hahaha, debaixo da cama – ou “o auto-intitulado filósofo” – ah, subitamente valorizamos tanto um diploma, não?

São, também, pessoas obcecadas. Quem odeia Olavo de Carvalho passa a ficar obcecado com ele de um jeito como talvez nenhum de seus alunos fique; não há olavete tão olavete quanto um anti-olavete. Se me mostram um blog que mencione Olavo de Carvalho pelo menos uma vez a cada dois posts, sei que é alguém de esquerda: eles vêem, para reverter o clichê sobre comunistas, Olavo de Carvalho debaixo da cama.

Quanto a mim, li menos Olavo de Carvalho do que gostaria, porque não tenho muita paciência para livros de filosofia; durmo no meio. Do que li, gostei bastante de mais da metade. Não vou dizer que não concordo com tudo o que ele diz, porque esse tipo de ressalva – “gosto de ler X, mas não concordo com tudo o que ele escreve” – só é feita quando queremos deixar claro que, como todas as criaturas bacaninhas e bem-pensantes, também achamos muito repugnantes algumas das opiniões de X. Bom, não é assim que me sinto com Olavo de Carvalho; quando discordo dele, não faço questão de deixar claro que discordo dele para ficar bem com idiotas e provar que sou humano e bacaninha.

Só sinto por duas coisas. Uma, o tom: preferia que Olavo de Carvalho respirasse fundo, se acalmasse. Há muito ódio contra ele, e ele responde com ódio; o que é normal, eu faria o mesmo; mas é cansativo. Ler um texto sereno de Olavo de Carvalho seria uma variação agradável (e ainda no mesmo assunto de tom, também preferiria que ele trocasse o sarcasmo pela ironia com mais frequência. Seu humor é violento e tem o alvo certo, mas é raramente engraçado).

E a segunda coisa: acho que ninguém agüenta mais ler textos sobre o Foro de São Paulo. Eu não agüento. Talvez tudo isso seja verdade, mas chega. Há um limite para textos sobre o Foro de São Paulo que uma pessoa pode ler na vida. Comunistas, que são chatos quando estão parados, são igualmente chatos quando estão conspirando; e denunciá-los acaba sendo quase tão chato quanto. O que eu queria dizer é que um homem pode perceber que uma casa está pegando fogo, e entrar na casa para avisar do perigo; mas pode acontecer que ele avise do perigo de jeito tão insistente e chato que as pessoas prefiram continuar sentadas no sofá lendo jornal e vendo tevê, enquanto o fogo esturrica seus cabelos e seus cachorrinhos. Sim, sim.

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* Ah, eu sei que posso parecer ocasionalmente agressivo, mas por favor: não sou eu que visito blogs de gente de esquerda, ou de ateus, para xingá-los nas caixas de comentários; e nem faço insinuações sobre homossexualidade e coprofagia contra admiradores de Chomsky e Michael Moore. Percebam a diferença, se não haviam percebido antes.

 Não percam também o que Olavo de Carvalho escreveu após ler esse artigo.

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