Arca Reaça

@reaconaria

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Observatório da Imprensa I e II

O PT não leva a sério o PSDB. Tanto é assim, que o partido entendeu que quem vai extirpar o petismo do poder é a população. Agora, a luta é contra nós.
Há uma chance real de retirar Dilma Rousseff da presidência. Isso significa que o PT irá perder 70% dos cargos comissionados do governo, 1/3 dos ministérios e sabe-se lá quantos “esquemas” dentro do poder.
Eles não vão embora sem deixar um rastro de destruição de quem os contesta.
Recentemente, o site alimentador de desinformação do petismo voltou a atualizar e o governo comunicou que irá iniciar uma campanha publicitária que custará uma fortuna para nos informar que está sem dinheiro…
Nós seguiremos combatendo o petismo. Hoje, resgatamos dois textos antológicos de Diogo Mainardi sobre o lulismo na imprensa.

Os nomes citados na coluna reclamaram proclamando isenção. O tempo passou e Mainardi continua na imprensa combatendo o governo. Eles? Foram pro governo, claro.

Diogo Mainardi

Diogo Mainardi

Observatório da Imprensa (7/Dez/2005)

“Os lulistas reclamam da imprensa. Não entendo o motivo. Lula já teria sido deposto se jornais, revistas e redes de televisão não estivessem tomados por seus partidários.

Eu acompanho todo o noticiário político. Minha maior diversão é tentar adivinhar a que corrente do lulismo pertence cada jornalista. Não sou um grande especialista no assunto. Não frequento o ambiente jornalístico. Tenho apenas quatro ou cinco amigos no ramo. E nunca fui de esquerda. Não sei direito quem é quem dentro do PT. Esses pelegos me parecem todos iguais. Mas tenho um bom olho para reconhecer o jargão lulista. Não preciso de mais de uma frase, perdida no meio de um artigo, para identificar um governista infiltrado.

O Globo tem Tereza Cruvinel. É lulista do PC do B. Repete todos os dias que o mensalão ainda não foi provado. E que, de fato, José Dirceu não deveria ter sido cassado. Cruvinel aparelhou o jornal da mesma maneira que os lulistas aparelharam os órgãos públicos. Quando ela tira férias, seu cunhado, Ilimar Franco, assume sua coluna.

Kennedy Alencar foi assessor de imprensa do PT. Ele continua sendo assessor de imprensa do PT, só que agora de maneira não declarada, em suas matérias para a Folha de S.Paulo. Ele é o taquígrafo oficial de André Singer, secretário de Imprensa de Lula. Singer dita e Kennedy Alencar publica.

Franklin Martins é José Dirceu até a morte. Eliane Cantanhêde é da turma de Aloizio Mercadante. Luiz Garcia é lulista, sem dúvida nenhuma, mas não consigo identificar sua corrente. Vinicius Mota é do grupo de Marta Suplicy. Quem mais? Alberto Dines é seguidor de Dirceu, e só se cerca de seguidores de Dirceu. Alon Feuerwerker, do Correio Braziliense, é do partidão, e apóia quem o partidão mandar. Paulo Markun, da TV Cultura, tem simpatia por qualquer um que seja minimamente de esquerda. Paulo Henrique Amorim é lulista de linha bolivariana. Ricardo Noblat era lulista ligado a Dirceu, mas pulou fora no momento oportuno.

Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, é subordinado a Daniel Dantas. Quando Dantas está satisfeito com o governo, Attuch é governista. Quando Dantas está insatisfeito com o governo, Attuch vira oposicionista. Mino Carta, por outro lado, é subordinado a Carlos Jereissati. Tem a missão de atacar Dantas. E de defender a ala lulista representada por Luiz Gushiken.

Os jornalistas que não pertencem à área de Dirceu, Gushiken, Mercadante, Suplicy ou Rebelo em geral pertencem à área de Antonio Palocci. Nunca houve um político tão protegido pela imprensa quanto ele. Palocci tem defensores influentes em todos os veículos, sobretudo em O Estado de S. Paulo e Valor.

Nem mesmo VEJA escapa do tribunal macartista mainardiano. Os lulistas costumam definir a revista como tucana, mas eu desconfio que ela esteja cheia de lulistas. Não posso revelar seus nomes por puro corporativismo. E porque não quero perder aqueles quatro ou cinco amigos na profissão.”

OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA II (14/Dez/2005)

“Dedurei um punhado de jornalistas lulistas na coluna da semana passada. Um dos citados foi Alberto Dines. Ele respondeu o seguinte:

“O pitoresco caçador de bruxas (eu) tem horror às esquerdas. Mas já que pretende denunciar o comprometimento político dos jornalistas conviria que não perdesse de vista o avanço da Opus Dei na imprensa. Inclusive onde ele próprio atua.”

Mandei uma mensagem a Dines. Pedi-lhe uma lista com o nome de todos os jornalistas ligados à Opus Dei. Prometi publicá-la integralmente em minha coluna. Ele me aconselhou a ler seus artigos sobre o tema. Eu li. Num deles, Dines comete a ousadia de associar a Opus Dei ao símbolo da loja Daslu. Mas não cita o nome de nenhum jornalista.

Insatisfeito, mandei-lhe outra mensagem, reiterando o pedido de uma lista com nomes. Dines desapareceu. Ele é pago para pontificar a respeito da imprensa na televisão pública, na rádio pública, na internet, nas universidades. Ele acusa a imprensa de estar tomada por jornalistas da Opus Dei, mas não tem coragem de identificá-los. Eu apontei o nome de uns pelegos lulistas na imprensa, e fui considerado um espertalhão leviano em busca de reconhecimento.

É por isso que tenho “horror às esquerdas”. Porque elas mentem. Porque elas enganam. Todas elas. Do stalinismo quercista de Fernando Morais ao onguismo endinheirado de Gilberto Dimenstein, do comunismo de batina de Marcelo Beraba ao populismo futebolístico de Juca Kfouri, do desbunde teatral de Nelson de Sá ao lobismo piantellano de Mario Rosa. O lulismo roubou muito mais do que o collorismo.

Cláudio Humberto, assessor de imprensa de Collor, até hoje é perseguido por seus colegas.

Os jornalistas que se subordinaram a Lula devem receber o mesmo tratamento: André Singer, Ricardo Kotscho, Eugenio Bucci.

Dines se atribuiu o papel de autoridade em matéria de jornalismo, mas usa um critério rasteiro para julgar meu trabalho: o número de cartinhas que recebo semanalmente dos leitores. Como se eu fosse um galã de telenovela. Quando recebo muitas cartinhas, ele me acusa de sensacionalismo. Quando recebo poucas cartinhas, ele comemora, garantindo que minha carreira está acabada. O principal argumento de Dines é que, se eu continuar a falar mal de Lula, cairei no esquecimento. É um jeito malandro de me aconselhar a mudar de assunto. O recado intimidatório não vale só para mim, mas para todo o resto da imprensa. Dines quer demonstrar aos jornalistas que o público não agüenta mais seguir a cobertura do mensalão, ou da propina da Leão & Leão, ou do assassinato de Celso Daniel, ou do pagamento à Coteminas.

Claro que é mentira. Claro que é uma manobra desonesta para abafar a crise. O que o público não aguenta mais é o próprio Lula. Os leitores não estão enjoados do noticiário político – estão enojados. Pouco tempo atrás, um artigo de um fanfarrão como eu podia bastar para eles. Já não basta mais. Eles querem os lulistas no tribunal. Eles querem os lulistas na cadeia.”

A nova classe: a burguesia do Estado

Artigo escrito por Roberto Campos em 1997 apontava o quanto nossa estrutura fiscal e nossas estatais eram propícias à transferência de renda de todos os cidadãos para uma meia dúzia de escolhidos políticos. E Roberto Campos nem poderia imaginar que, sob o PT, toda esta engenharia seria usada sem vergonha alguma para comprar políticos e partidos em nome da manutenção do poder.

A nova classe: a burguesia do Estado

Roberto Campos, 15/6/97

“A Petrossauro nasceu como uma agressão à lógica econômica, pois monopolizamos o risco; tornou-se um insulto ao contribuinte, pelo mesquinho retorno dos investimentos do Tesouro.”
Do “Diário de um Diplomata”

O Brasil descobriu uma nova forma de capitalismo. É o “capitalismo de transferência”. Uma forma de capitalismo selvagem em que o Tesouro e seus contribuintes são explorados por uma nova classe – a burguesia do Estado.

Lentamente, não mais que lentamente, a população começa a perceber que as chamadas “empresas públicas” já foram privatizadas em favor do funcionalismo. O Tesouro entra como investidor passivo, que não defende o patrimônio do povo. Um estudo do BNDES, que inclui 14 das estatais mais rentáveis, ilustra esse “capitalismo de transferência”.

Se desagregarmos desse grupo as quatro pérolas da coroa, supostamente estratégicas e rentáveis – CVRD, Eletrossauro, Petrossauro e Telessauro -, verificaremos que o dinheiro dos contribuintes nelas aplicado rende anualmente um décimo da caderneta de poupança!

Se os dinossauros estatais não têm capacidade de remunerar minimamente os investimentos do Tesouro, como explicar que seus fundos de pensão sejam grandes capitalistas, compradores de empresas nos leilões de privatização?

A explicação está nessa peculiar invenção brasileira – o “capitalismo de transferência”. As empresas não trabalham para seu principal acionista, o Tesouro. Trabalham para seus funcionários – a burguesia estatal.

No ano passado, o governo injetou R$ 8 bilhões para evitar a falência do Banco do Brasil, enquanto o patrimônio da Previ passava de R$ 14 bilhões para R$ 18 bilhões!

O último balanço da Petrossauro, de 1996, revela a dimensão do “escândalo” (para usar o jargão das CPIs do Congresso). O lucro líquido consolidado foi de R$ 664,3 milhões. O dividendo do Tesouro será de R$ 97,9 milhões, pagos em três prestações. A rentabilidade sobre o patrimônio líquido do Tesouro foi de 0,8%.

A empresa, aliás, nunca foi fanática no pagamento de dividendos. Os relativos ao exercício de 1995 só foram pagos em fevereiro de 1997, sob ameaça de inscrição na dívida ativa…

O tratamento espoliativo dado pela Petrossauro ao capital público contrasta singularmente com o tratamento dado aos acionistas pelas grandes empresas mundiais de petróleo que não gozam de monopólio e pagam taxas de exploração e Imposto de Renda (que o dinossauro só começou a pagar em 1986), além de royalties dois ou três vezes mais altos.

Em 1996, os dividendos recebidos pelos acionistas sobre o patrimônio foram de 8% (nos casos da Amoco, Mobil, Shell e Texaco), 9% (nos casos da Chevron e Esso) e 10% (no caso da Atlantic) – rentabilidade entre oito e dez vezes superior à do Tesouro. Mesmo a YPF argentina, recentemente privatizada com grande sucesso, pagou aos acionistas 5% sobre o patrimônio líquido em 1995 e 4% em 1996, ou seja, cerca de cinco vezes os dividendos petrossaurinos!

O magro retorno do Tesouro não é devido apenas à voraz apropriação de recursos pela burguesia do Estado, mas à baixa produtividade.

Medido em termos de barril/dia por empregado, o índice da Petrosauro é 21, o da Petroleos Venezuelanos, 42, e o da Aramco, no Oriente Médio, 146.

Poder-se-ia arguir que a geologia nesses países é mais favorável. Mas, mesmo tomando o conjunto das operações de produção, refino e distribuição, verifica-se que, no caso das grandes multinacionais – Shell, Mobil, Exxon, BP e Texaco -, a receita por funcionário variou, no ano de 1995, entre US$ 1,493 milhão na Shell e US$ 1,086 milhão na Texaco, baixando para US$ 904 mil na YPF argentina, hoje assaz eficiente. Esse índice, no caso da Petrossauro, foi de US$ 568 mil!

Se o Tesouro, que representa mais de 160 milhões de pessoas, é maltratado, o mesmo não acontece com os 43,5 mil funcionários da empresa. Enquanto o Tesouro receberá dividendos de R$ 97,9 milhões, as contribuições à Petros montarão a R$ 539 milhões, ou seja, quase seis vezes mais!

Esquisitamente, essa contribuição assistencial é imputada “ao custeio das atividades industriais de pesquisa, prospecção, perfuração e outras”, atividades certamente estranhas a um fundo previdenciário.

Apesar da generosidade das contribuições, estima-se que a Petros tenha uma enorme insuficiência de cobertura – oriunda de aposentadorias precoces e de benefícios muito superiores ao dos funcionários da administração direta -, brecha que terá de ser coberta em sua maior parte pela patrocinadora.

O governo FHC, agora empenhado em sanear o setor público, pensar estar abrindo um armário com esqueletos. Descobrirá, nas estatais, um cemitério!

Argumentam os “estatólatras” que, conquanto não receba dividendos, o Tesouro lucrará com a valorização patrimonial das estatais. Mas esse é precisamente o melhor argumento em favor das privatizações. Carente de recursos e rolando a sua dívida a cerca de 16% ao ano, enquanto recebe dividendos inferiores a 1% ao ano, a coisa minimamente racional para o Tesouro é realizar o valor patrimonial pela privatização, empregando os recursos no cancelamento da dívida interna.

FHC exagerou nos erros. Quer proibir por lei a privatização da empresa, amarrando a mão de futuros governantes; quer privar os acionistas privados do direito de conversão de suas ações preferenciais em ordinárias, caso não recebam dividendos em três anos consecutivos. E outorgou ilegalmente à Petrossauro a concessão do gasoduto Brasil-Bolívia, sem licitação, como se o monopólio não tivesse sido abolido pela emenda constitucional nº 9, de 9 de novembro de 95.

Essa ilegalidade é tão mais irritante quanto a Petrossauro efetivamente sabotou o projeto do gasoduto por mais de 30 anos e, mesmo agora, complica sua execução, ao procurar estendê-lo de São Paulo a Porto Alegre, quando se sabe que gaúchos e paranaenses preferem importar gás diretamente da Argentina, sem intermediação da estatal.

A falta de visão estratégica do dinossauro em matéria de gás natural é ilustrada pelo fato de que ele até hoje representa apenas 2% de nossa matriz energética!

Os benefícios da privatização podem ser surpreendentemente rápidos, como demonstra o caso argentino.

Um dos sofrimentos do governo Alfonsín eram os “apagóns” da eletricidade em Buenos Aires. Privatizada a eletricidade no governo Menem, a Argentina passará a vender energia ao Brasil. A YPF apenas precariamente atendia o abastecimento interno. Privatizada, tornou-se grande exportadora de petróleo para o Brasil.

Conquanto o modelo adotado de duopólio regional seja discutível, a telefonia argentina, anteriormente primitiva em relação à Telebrás, avançou celeremente após a privatização. Hoje, tem índices melhores que os nossos, sob qualquer aspecto: universalização dos serviços, grau de digitalização, custo e facilidade de acesso e confiabilidade das ligações. As tarifas subiram, mas a tarifa mais alta é aquela do telefone brasileiro inexistente ou das ligações inconfiáveis.

A lentidão de nossas reformas, assim como das privatizações, afeta negativamente a credibilidade externa do país.

Apesar de nossa maior potencialidade em termos de mercado e recursos naturais, temos um “investment rating” no mercado internacional inferior ao do Chile e da Argentina.

Infelizmente, os financiadores e investidores externos não se impressionam com a mitologia do ufanismo caboclo. Nem entendem a displicência do Tesouro face ao “capitalismo de transferência”…

Originalmente em http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/~pensadoresbrasileiros/RobertoCampos/a_nova_classe_a_burguesia_do_estado.htm.
Leiam mais artigos de Roberto Campos em http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/~pensadoresbrasileiros/RobertoCampos/index.html

A chegada a Auschwitz

A estação ferroviária de Auschwitz

A primeira fase se caracteriza pelo que se poderia chamar de choque de recepção. É preciso lembrar que o efeito de choque psicológico pode preceder à recepção formal, dependendo das circunstâncias. Este foi o caso, por exemplo, naquele transporte no qual eu mesmo cheguei a Auschwitz. Imagine-se a situação: o transporte de 1500 pessoas está a caminho há alguns dias e noites. Em cada vagão do trem se estiram 80 pessoas sobre a sua bagagem (seus últimos haveres). As mochilas, bolsas, etc. empilhadas impedem quase toda visão pelas janelas, deixando livre apenas um último vão na parte superior. Lá fora se divisa o primeiro clarão da aurora. Todos achávamos que o transporte se dirigia para alguma fábrica de armamento onde nos usariam para trabalhos forçados. Aparentemente o trem pára em algum lugar no meio da linha; ninguém sabe ao certo se ainda estamos na Silésia ou já na Polônia. O apito estridente da locomotiva causa arrepios, ecoando como um grito de socorro ante o pressentimento daquela massa de gente personificada pela máquina e por esta conduzida rumo a uma grande desgraça. O trem começa a manobrar frente a uma grande estação. De repente, do amontoado de gente esperando ansiosamente no vagão, surge um grito: “Olha a tabuleta: Auschwitz!” Naquele momento não houve coração que não se abalasse. Todos sabiam o que significava Auschwitz. Esse nome suscitava imagens confusas, mas horripilantes de câmaras de gás, fornos crematórios e execuções em massa. O trem avança lentamente, como que hesitando, como se quisesse dar aos poucos a má notícia a sua desgraçada carga humana: “Auschwitz”. Agora a visão já está melhor: a aurora já permite ver a silhueta de um campo de concentração de colossais dimensões, estendendo-se por quilômetros à esquerda e à direita dos trilhos. Múltiplas cercas de arame farpado sem fim, torres de vigia, refletores e longas colunas de figuras humanas aos farrapos, cinzentas no alvorecer, que avançam exaustas pelas ruas desoladas do campo de concentração – sem que ninguém saiba para onde. Aqui e ali se ouve um apito de comando – e ninguém sabe para quê. Em alguns de nós, o terror fica estampado no rosto. Eu pensava estar vendo certo número de cadafalsos dos quais pendiam pessoas enforcadas. O horror tomava conta de mim, e isto era bom: segundo a segundo e passo a passo precisávamos nos defrontar com o horror.

Finalmente chegamos à estação de desembarque. Lá fora, nenhuma movimentação, ainda. De repente, brados de comando daquele jeito peculiar – estridente e rude – que de agora em diante ouviríamos sempre de novo em todos os campos de concentração, cujo som é semelhante ao último berro de um homem assassinado, com uma diferença: o som também é rouco e fanhoso, como se saísse da garganta de um homem que tem que gritar constantemente assim porque está sendo constantemente assassinado …

Abrem-se violentamente as portas do vagão e ele é invadido por um pequeno bando de prisioneiros trajando a roupa típica de reclusos, cabeça raspada, porém muito bem alimentados. Falam todas as línguas européias possíveis e irradiam todos uma jovialidade que neste momento e situação só pode mesmo ser grotesca: Como a pessoa que está prestes a se afogar e se agarra a uma palha, assim o meu arraigado otimismo, que desde então sempre me acomete justamente nas piores situações, se agarra a esse fato: nem é tão má a aparência dessa gente, eles estão visivelmente bem humorados e até rindo; quem diz que não chegarei também à situação relativamente boa e feliz desses prisioneiros? A psiquiatria conhece o quadro clínico da assim chamada ilusão de indulto: a pessoa condenada à morte, precisamente na hora de sua execução, começa a acreditar que ainda receberá o indulto justamente naquele último instante. Assim nós nos agarrávamos a esperanças e acreditávamos até o último instante que não seria nem poderia ser tão ruim. “Olha só o rosto rechonchudo e rosado desses prisioneiros!” Nem de longe sonhávamos que se tratava de uma “elite”, um grupo de prisioneiros escolhido para receber os transportes dos milhares que, anos a fio, entravam diariamente pela estação de Auschwitz, isto é, para tomar conta de sua bagagem juntamente com os valores nela ocultos: utensílios difíceis de conseguir naquela época e jóias contrabandeadas. Auschwitz naquele tempo era, sem dúvida,um centro singular na Europa da última fase da guerra: a quantidade de ouro, prata, platina e brilhantes que ali se encontrava, não só nos gigantescos depósitos, mas ainda em mãos do pessoal da SS bem como do grupo de prisioneiros que nos recebia, certamente não tinha paralelo. Certa vez, éramos 1100 prisioneiros num único barracão (destinado a abrigar no máximo 200), esperando pelo transporte para campos menores, sentados, acocorados ou de pé, no chão de terra, passando frio e com fome. Não havia lugar para todos se sentarem, menos ainda para se deitarem. Num período de quatro dias recebemos uma única vez uma lasca de pão (de 150 gramas). Naquela ocasião presenciei, por exemplo, uma conversa em que o encarregado do barracão negociava um prendedor de gravata, de platina, encravado de brilhantes, com um prisioneiro daquele grupo de elite. O grosso desses objetos, entretanto, acabava sendo trocado por aguardente que desse para divertir-se uma noite. Só sei de uma coisa: esses prisioneiros de muitos anos precisavam de álcool. Quem vai censurar uma pessoa que se entorpece em semelhante situação interior e exterior? Para não falar dos prisioneiros postos a trabalhar nas câmaras de gás e no crematório, e que sabiam perfeitamente que, passando o seu turno, seriam substituídos por outro grupo, e que seguiriam eles mesmos um dia o caminho daquelas vítimas cujos carrascos eram forçados a ser agora. Esse grupo recebia álcool praticamente à vontade até do pessoal da SS.

A primeira seleção

Eu e praticamente todos os integrantes do nosso transporte estávamos, portanto, tomados por essa ilusão de indulto que acredita que tudo ainda pode sair bem. Pois ainda não tínhamos condições de entender a razão daquilo que ali se desenrolava; somente à noite é que iríamos entender. Mandaram-nos deixar toda a bagagem num vagão, desembarcar e formar uma fila de homens e outra de mulheres, para então desfilar perante um oficial superior da SS. Curiosamente, tive coragem de levar comigo minha sacola, escondida da melhor maneira possível debaixo da capa. Vejo, então, que a minha coluna se dirige, homem por homem, em direção ao oficial da SS. Fico calculando: se ele perceber o peso da sacola que me puxa para o lado haverá no mínimo uma bofetada que me fará voar na lama; isto eu já conhecia de outra ocasião … Mais por instinto, quanto mais me aproximo daquele homem, deixo meu corpo cada vez mais ereto, para que ele não perceba que estou carregando um peso. Ei-lo agora à minha frente: alto, esbelto, elegante, num uniforme perfeito e reluzente – uma pessoa bem trajada e cuidada, muito distante das nossas tristes figuras de rosto sonolento e aparência decaída. Ele se sente muito à vontade. Apóia o cotovelo direito na mão esquerda, e com a mão direita erguida executa um leve aceno com o indicador, ora para a direita, ora para a esquerda. Nenhum de nós tinha a menor idéia do significado sinistro daquele pequeno gesto com o dedo – ora para a esquerda, ora para a direita, com freqüência muito maior para a direita. Chega a minha vez. Alguém me sussurrou que para a direita (olhando da nossa direção) ia-se para o trabalho; para a esquerda, para um campo de doentes e incapacitados para o trabalho. Simplesmente deixo os fatos acontecerem. É a primeira vez que faço isso. Mas tomarei esta atitude muitas vezes de agora em diante. Minha sacola me puxa para a esquerda, mas me aprumo e fico ereto. O homem da SS me olha criticamente. Parece hesitar, põe as duas mãos nos meus ombros; faço um esforço para assumir uma postura do tipo militar. Fico firme e ereto: lentamente, ele faz girar os meus ombros – e lá me vou para a direita.

À noite ficamos sabendo o significado desse jogo com o dedo indicador: era a primeira seleção! A primeira decisão sobre ser ou não ser. Para a imensa maioria do nosso transporte, cerca de 90%, foi a sentença de morte. Ela foi levada a cabo em poucas horas. Quem era mandado para a esquerda marchava diretamente da rampa da estação para um dos prédios do crematório, onde – segundo me contaram pessoas que ali trabalhavam – havia letreiros em diversas línguas européias que caracterizavam o prédio como casa de banhos. Então todos os participantes do transporte mandados para a esquerda recebiam um pedaço de sabão marca “Rif”. Sobre o que se desenrolava dali em diante posso calar-me, depois que relatos mais autênticos já o tornaram conhecido. Nós, a minoria do transporte, ficamos sabendo naquela mesma noite. Perguntei a companheiros que já estavam há mais tempo no campo de concentração onde poderia ter ido parar meu colega e amigo P. – “Ele foi mandado para o outro lado?” – “Sim”, respondi. – “Então podes vê-lo ali”, disseram. “Onde?” Uma mão aponta para uma chaminé distante algumas centenas de metros, da qual sobe assustadora e alta labareda pelo imenso e cinzento céu polonês, para se extinguir em tenebrosa nuvem de fumaça. “O que há ali?” – “Ali o teu amigo está voando para o céu”, é a resposta grosseira. Continuo sem entender; mas logo começo a compreender, assim que me “iniciam” no assunto.

Tudo isto já contei por antecipação. Sob o ponto de vista psicológico, ainda tínhamos um caminho muito longo a percorrer, desde o alvorecer na estação até adormecermos pela primeira vez no campo de concentração. Nossa coluna foi obrigada correr desde a estação, escoltada por um pelotão da guarda SS com o fuzil engatilhado, passando pelos corredores de arame farpado carregado de alta tensão, até o banho de desinfecção – para nós, eleitos na primeira seleção, ao menos um banho real. Mais uma vez era alimentada a nossa ilusão de indulto: a SS até parecia muito afável! Mas logo percebemos que eram agradáveis conosco enquanto viam relógios em nossos pulsos, para, em tom muito cordial, nos persuadir a entregá-los, já que de qualquer forma teríamos que entregar tudo que ainda tínhamos conosco. Cada um de nós pensava consigo mesmo: perdido por perdido, se essa pessoa relativamente amigável receber o relógio em caráter particular – por que não? Quem sabe, um dia poderá prestar-me algum favor.

auschwitzPrimeira e segunda parte do Capítulo 2 do livro “Em Busca de Sentido”, de Viktor Frankl, publicado no Brasil pela Editora Vozes.

Trecho resgatado hoje devido ao Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.

Para uma antropologia filosófica

Reproduzimos nesta última edição do Arca Reaça de 2014 um dos melhores artigos de Olavo de Carvalho. É de julho de 2003 e foi publicado originalmente no jornal “O Globo”.

Para uma antropologia filosófica

A condição humana mais geral e permanente, a estrutura fixa por trás de toda variação local e histórica, pode-se resumir em seis interrogações básicas, articuladas em três eixos de polaridades, cujas tentativas de resposta, estas sim temporais e variáveis, dão as coordenadas da orientação do homem na existência.

O primeiro eixo é “origem-fim”. Ninguém jamais soube onde e quando o conjunto da realidade começou nem como ou quando vai terminar. Pode-se arriscar uma teoria da eternidade do mundo, um mito cosmogônico ou a imagem do “big bang”, uma teologia da criação ou um atomismo materialista, cada qual com sua respectiva explicação do fim. Nenhuma delas jamais obteve aceitação universal. O que não se pode é ignorar a questão, pois dela depende o nosso senso de orientação no tempo, a possibilidade de conceber projetos e dar forma narrativa às nossas experiências.

O segundo eixo é “natureza-sociedade”. Todo homem vive entre dois campos da realidade, um anterior e independente da ação humana, o outro criado por ela. A diferença e a articulação desses campos aparecem no contraste entre o geometrismo da taba circular e o matagal informe, na oposição de Lévi-Strauss entre o cru e o cozido, no instinto de buscar a proteção do grupo contra os animais e as intempéries ou, inversamente, no sonho rousseauniano de encontrar na natureza um abrigo contra os males do convívio social. A natureza pode aparecer como um pesadelo temível ou como seio materno acolhedor. A sociedade pode ser lar ou prisão, fraternidade ou guerra. Pode-se fazer da natureza uma espécie de ordem social, como na antiga cosmobiologia, ou naturalizar a sociedade, como na antropologia evolucionista. Mas essas tentativas só revelam a impossibilidade, seja de explicar um dos termos pelo seu contrário, seja de articulá-los numa equação definitiva, seja de compreender um deles sem referência ao outro.

O terceiro eixo é “imanência-transcendência”. Cada ser humano sabe que ele próprio existe, que tem um “mundo” interior de experiências, recordações, desejos, temores. Mas sabe também que esse poço é sem fundo, que ninguém pode compreender-se ou ignorar-se totalmente, que cada alma encontra dentro de si algo de estranho e atemorizante, que cada um se conhece e se desconhece quase tanto quanto aos demais. Buscamos na nossa intimidade o abrigo contra a maldade alheia, assim como buscamos no outro, no amigo, na esposa, a proteção contra nossos fantasmas interiores. Cada um de nós é próximo e estranho a si mesmo. Por outro lado, para além de tudo o que se pode conhecer da realidade, para além de toda experiência alcançável, cada homem e cada cultura pressente um fator “x”, que, desde acima ou desde o fundo do fluxo dos acontecimentos, faz com que as coisas sejam o que são e não de outro modo. “Por que existe o ser e não antes o nada?”: assim formulava Schelling a interrogação suprema. Podemos tentar respondê-la pela concepção de um absoluto metafísico, de uma divindade ordenadora ou de uma fantástica auto-regulação de coincidências. Podemos até expulsá-la da discussão pública, deixando-a à mercê do arbítrio privado, com a abjeta covardia intelectual do agnosticismo moderno. Mas mesmo então sabemos que não escapamos dela. Entre a imanência e a transcendência, várias articulações são possíveis, mas nenhuma satisfatória. Podemos conceber o transcendente à imagem do nosso ser íntimo, como divindade bondosa que nos compreende e nos ama — mas isso fará ressaltar ainda mais o que a vida tem de estranheza fria e hostilidade demoníaca. Podemos imaginá-lo com os traços impessoais e mecânicos de uma fórmula matemática — mas isso não nos impedirá de amaldiçoar ou bendizer o destino, subentendendo nele uma intencionalidade humana quando nos oprime ou nos reconforta.

Cada um dos pólos é uma interrogação, um misto de ignorância e conhecimento, um foco de tensões espirituais. Cada um articula-se com seu oposto, num mútuo esclarecimento — ou multiplicação — de tensões. E no ponto de interseção dos três eixos, como no das três direções do espaço, fixado na estrutura da realidade como Cristo na cruz, está o ser humano.

Crenças, cosmovisões, doutrinas, diferem sobretudo pela hierarquia que estabelecem entre os seis fatores por meio de assimilações e reduções. Muitas culturas arcaicas privilegiavam o fator “origem”, explicando sociedade e natureza por um mito cosmogônico, ignorando a transcendência e a imanência. A escolástica medieval remeteu-se à transcendência, sonhando poder deduzir dela uma ordem intelectual completa e definitiva. A modernidade absorveu tudo na oposição natureza-sociedade, esperando não menos utopicamente reduzir os mistérios da transcendência e da imanência, da origem e do fim, a questões de partículas subatômicas, código genético e análise lingüística. Preparou assim o advento das ideologias totalitárias que fizeram da sociedade a razão última da origem e do fim, colocando entre parênteses a natureza, sufocando a imanência e vedando o acesso à transcendência. Cada um desses arranjos, mesmo o mais limitador, é legítimo e funcional a título provisório, como experimento de sondagem numa certa direção que os interesses de um momento enfatizaram. Torna-se alienante e opressivo quando se cristaliza numa proibição de olhar para além da articulação admitida. Só a abertura da alma para a simultaneidade dos seis pólos, com suas luzes e trevas, dá acesso à experiência realista da condição humana e, portanto, à possibilidade da sabedoria. Todas as explicações que, para enfatizar uma articulação em particular, negam ou suprimem a estrutura do conjunto, são falsas ou estéreis.

Filosofias como o marxismo, o positivismo, o pragmatismo, a escola analítica, o nietzscheanismo, o freudismo, o desconstrucionismo, — todas aquelas, enfim, que ocupam o espaço inteiro do ensino acadêmico neste país — são doenças espirituais, obsessões que nos encerram hipnoticamente no fascínio de uma resposta ao mesmo tempo que apagam o quadro de referências que dá sentido à pergunta.

Olavo-de-Carvalho

Fonte: http://www.olavodecarvalho.org/semana/030719globo.htm.

Leia também “A pergunta ausente“, complemento a este artigo.

A descoberta da democracia: Um pouco sobre Tocqueville

Nascido em 29 de julho de 1805, o aristocrata Alexis de Tocqueville previu as conseqüências políticas e sociais do fim das hierarquias e da instauração da igualdade e é cada vez mais reconhecido como um dos principais teóricos capazes de explicar a história e a sociedade contemporânea

O CONSERVADOR VISIONÁRIO

Por Otavio Frias Filho

“Ao repassar em meu espírito a história dos últimos 60 anos, sorrio amargamente percebendo as ilusões existentes no final de cada um dos períodos dessa longa revolução, as teorias que as nutriam, as fantasias eruditas dos historiadores, tantos sistemas engenhosos e falsos com a ajuda dos quais tentou-se explicar um presente que mal se via e prever um futuro que não se enxergava em absoluto.”
Tocqueville, em “Lembranças de 1848”

Alexis de Tocqueville

Alexis de Tocqueville

Alexis de Tocqueville é um pensador de idéias simples, claras e constantes. Elas já parecem prontas na sua obra de juventude, “A Democracia na América” (1835-1840), e se repetem no outro clássico que ele legou à ciência política, “O Antigo Regime e a Revolução” (1856), publicado três anos antes da morte do autor. Apesar de seu olho clínico para o detalhe sociológico, da habilidade de seu pensamento para abrigar matizes e cultivar paradoxos, apesar de sua forma ainda literária de expressão, o que prevalece nele é a paixão pelas grandes sínteses. Quaisquer que sejam as árvores, Tocqueville sempre deduz a mesma floresta.

Que floresta é essa? Ela é uma síntese da própria vida do escritor, o ponto de encontro para o qual convergem não só o político derrotado e o historiador já quase cientista social, mas o conservador visionário, o republicano moderado e o aristocrata anglófilo que ele sempre foi.

Tocqueville, cujo bisavô foi guilhotinado pela Revolução Francesa, proveio de um mundo que a modernidade havia desbaratado. É esse ponto de vista retrógrado que lhe permite o recuo necessário para criticar a democracia de massas então nascente. Dessa posição contra-ofensiva nascem as inversões que caracterizam sua filosofia da história.

Ela postula, como axioma, que sob a superfície acidentada dos grandes feitos, das legislações e de tudo o que há de aparente e formal na história, correm rios subterrâneos impelidos por forças invisíveis, mas inarredáveis. Tais forças residem no que ele chama, seguindo a fórmula de Montesquieu, de “costumes”, algo que se poderia traduzir como a experiência prática, material e privada das sucessivas gerações. O vetor dos “costumes”, conforme se desenvolvem os meios técnicos e se propaga a conhecimento, é sempre na direção de mais igualdade entre as classes e os indivíduos.

Tocqueville sustenta que nas sociedades tradicionais (que ele chama de “aristocráticas”), baseadas na propriedade da terra e numa hierarquia rígida, vigoram direitos e liberdades bem estabelecidos, embora desiguais. Esses interstícios de liberdade resultam de um jogo em que cada poder, mesmo o do rei, é limitado por “corpos secundários”: a nobreza, o clero, os tribunais, os burgos, as corporações de ofício, as autonomias provinciais -e a estrutura inteira está circunscrita pelo respeito à tradição. Formada ao longo dos séculos, a mais feliz dessas sociedades, a britânica, teria alcançado o equilíbrio exemplar entre liberdade e autoridade.

E, no entanto, o destino das sociedades é se tornarem democráticas e igualitárias. Nesse processo, os “corpos secundários” são debilitados e destruídos, cada indivíduo perde o vínculo que ligava seu destino aos demais e todos se convertem em átomos à mercê da autoridade, que se faz despótica em nome da missão de realizar a felicidade geral, missão que ela extorque à sociedade ao mesmo tempo em que esta se apressa em delegá-la. Sobre a terra arrasada da igualdade, um único poder se impõe: eis a tirania moderna.

Nosso autor reconhece que a democracia é um bem (um pouco a contragosto) que acarreta um grande mal (descrito em tons alarmantes). A única maneira de evitar a tirania moderna, já que as pressões pela igualdade não podem ser detidas, é organizar novos “corpos secundários”, aptos a moderar o apetite de todo governo pelo poder ilimitado. Foi a curiosidade de verificar se isso estava ocorrendo nos Estados Unidos que o levou, aos 26 anos, a pretexto de estudar o sistema penal daquela democracia florescente, à viagem de nove meses da qual resultou “A Democracia na América”.

A conclusão, bem a seu feitio, é de um pessimismo moderado. Em meio a suas famosas profecias -ele previu, em 1835, a marcha para o oeste, o extermínio das culturas nativas, a guerra civil em torno da escravatura e até um futuro em que russos e americanos controlariam cada hemisfério do planeta-, Tocqueville agita o perigo da “tirania da maioria” como a grande ameaça a pesar sobre os EUA e as democracias modernas em geral. Mas ressalta, na sociedade norte-americana, a presença de três aspectos capazes de afastar esse risco.

O primeiro é a tradição de autogoverno da comuna -uma espécie de democracia municipal- entranhada na América pré-revolucionária por transfusão do colonizador inglês. Na democracia comunitária, que se replica na autonomia dos Estados em face do poder federal, estaria o maior obstáculo ao despotismo. Um segundo aspecto também é legado da influência britânica: o costume da livre associação dos indivíduos, para fins coletivos e sem permissão da autoridade. O terceiro seria a liberdade de imprensa, prática estabelecida desde o final do século 17 na Inglaterra e já disseminada, numa efervescência de jornais turbulentos e aguerridos, nos Estados Unidos que Tocqueville conheceu.

A inversão francesa

O êxito tão notório dos Estados Unidos como sociedade, como modelo político-ideológico e como poder mundial faz da obra de juventude seu livro cada vez mais famoso. “O Antigo Regime e a Revolução”, obra amarga de um político liberal posto no ostracismo pela ditadura de Napoleão 3º, ficou um tanto eclipsado. O que é uma pena, pois nesse segundo estudo o autor analisa o advento da revolução e da democracia numa sociedade -a sua própria- em que os “costumes” não ofereciam leito apropriado. Onde, ao contrário, o caminho do despotismo já vinha sendo longamente preparado pela realeza.

O livro está montado numa inversão desconcertante, a de que não foi a Revolução Francesa que produziu a centralização do poder, mas a centralização que deu origem à revolução. Tocqueville enfatiza que a ordem feudal fora mantida nas aparências e ao mesmo tempo esvaziada entre os séculos 16 e 18, à medida que o rei enfeixava uma soma crescente de poderes.

Nobres e eclesiásticos continuavam a desfrutar de títulos, isenções tributárias e honrarias, mas a administração era exercida cada vez mais por um corpo de funcionários profissionais, que respondiam diretamente ao Conselho do Rei. Antigas liberdades, autonomia das províncias e das cidades, o poder dos juizados locais -as instâncias intermediárias, os tais “corpos secundários”- foram aniquilados. O governo central açambarcara as atribuições de tributar, recrutar milícias, manter a ordem pública, realizar obras, tabelar preços, confiscar terras e assim por diante.

A imagem que ele usa é a de um edifício novo e invisível que fora construído aos poucos por baixo do velho. Quando sobreveio a revolução, em 1789, tudo o que ela precisou fazer foi sacudir o edifício antigo, que se desmanchou em pó, revelando o verdadeiro aparelho governamental, cujo controle então é transferido das mãos de um monarca reformista para uma “assembléia irresponsável e soberana”, disposta a implantar o terror como política a ser executada em nome da razão, da liberdade e da igualdade.

Tocqueville incrimina os filósofos iluministas pelo desastre. Alijados de qualquer experiência administrativa pelo absolutismo monárquico, literatos ignorantes também no que se refere à história das sociedades e por isso mesmo adeptos de esquemas abstratos, geométricos, os iluministas se propuseram a reinventar a humanidade a partir do zero. Criaram uma concepção puramente racional que, aplicada à política, era obrigada a violar, um a um, seus próprios princípios: genocídio em vez de fraternidade, opressão em vez de liberdade etc.

Para ilustrar o quanto a mentalidade dos “filósofos” já se difundira, Tocqueville se compraz em citar a freqüência com que editos de Luís 16, bem anteriores à revolução, mencionavam a lei natural e os direitos do homem.

Nas revoluções, em que o senso comum vê a ruptura, Tocqueville distingue os veios ocultos de continuidade. Essa é uma das portas de acesso a sua atualidade. Muito do que ele diz sobre a Revolução Francesa (“que é sempre a mesma, pois ela continua”), pode ser transposto para as revoluções socialistas do século 20. A pretexto de outra miragem racionalista -a de implantar o paraíso social-, essas revoluções limitaram-se, mais modestamente, a produzir a centralização estatal capaz de implementar industrializações retardatárias a ferro e fogo. Tocqueville separa o que as revoluções dizem fazer do que elas fazem. E suas críticas a Voltaire, Rousseau e os demais iluministas podem ser voltadas sem retoque às gerações de intelectuais marxistas cuja arrogância fantasiosa ajudou a empurrar milhares, milhões de pessoas para uma morte violenta e fútil.

Quanto ao lado “americano”, muitos críticos da atual uniformidade de pensamento e da submissão dos agentes políticos ao “mercado” encontrarão eco de suas inquietudes na noção tocquevilliana segundo a qual, na sociedade democrática, os indivíduos estão “aprisionados na vida privada”, imersos na busca de “prazeres materiais” e submetidos à “tirania da maioria” -um brando despotismo instalado sobre as ruínas do espaço público. Além disso, entre os motivos para ler este clássico, é o caso de mencionar a qualidade expressiva do texto, pois Tocqueville foi um dos expoentes de uma época em que filósofos e cientistas sociais se julgavam na obrigação de escrever tão bem quanto romancistas -em vez de ser justamente o contrário.

Originalmente aqui.

Em sociedade de origens tão nitidamente personalistas…

Trecho do livro “Raízes do Brasil” em que Sérgio Buarque de Holanda trata das organizações entre trabalhadores do Brasil colonial:,

Em sociedade de origens tão nitidamente personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica entre os indivíduos, tenham sido quase sempre os mais decisivos. As agregações, as relações pessoais, embora por vezes precárias, e, de outro lado, as lutas entre facções, entre famílias, entre regionalismos, faziam dela um todo incoerente e amorfo. O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente energética do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente.

Parece adequar-se ainda hoje ao Brasil?

Sérgio Buarque de Holanda

Sérgio Buarque de Holanda

 

A lei da alternância está presente nos fatos da história

Trazemos hoje para o Arca Reaça um trecho bem curto do excelente livro “Filosofia da Crise”, de Mário Ferreira dos Santos. O texto é uma brilhante análise da história vista de uma forma mais ampla e com uma  surpreendente atualidade para o nosso cenário político e também (quem dera!) filosófico e cultural: há um cansaço e exaustão das práticas petistas e começam a surgir cada vez mais influentes contestações ao amplo predomínio comunista e revolucionário no meio intelectual nacional.

O trecho e a  nota do autor estão presentes no capítulo “As fases cráticas na História” (o “crática” usado no título do capítulo é derivado de “cratos”, poder em grego como dito pelo autor). Se servem para melhor observar a queda já citada anteriormente, devem também ser lidos com atenção por muitos que se ludibriam com sucesso relativo de algumas visões doutrinárias que encontram eco numericamente relevante na internet mas, vistas no cenário real da luta pelo poder e que obviamente se dá na vida prática, ainda estão engatinhando para quererem já dar grandes saltos.

A lei da alternância está presente nos fatos da história.

Dá-se o absolutismo naquele momento em que a força natural de uma doutrina ou de uma forma crática vacila, e o emprego dos meios, para dar-lhe coesão, facilita o ingresso de representantes menos categorizados. Se observarmos os nossos dias, veremos a riqueza de exemplos que eles nos oferecem. Toda forma crática, que se apresenta para orientar a sociedade, em seu início, é ela encabeçada por verdadeiros idealistas, que atuam em toda a sua pureza formal. Com o decorrer do tempo, há sempre um marchar para as formas inferiores, e daí surgirem as frases que constantemente se repetem: “Não é essa a forma que eu sonhara”.

E tal se dá, porque a posse do poder é acompanhada de certos benefícios que atiçam a ambição de muitos, que o olham mais como fim do que como meio, e aspiram ao poder para usufruí-los. A política, que é uma técnica de harmonizar os interesses individuais com os sociais, passa, nesses momentos, a ser uma técnica de conquista do poder e de conservação do mesmo. E, nesse instante, os meios substituem os fins, e a marcha para a decadência é inevitável. Por isso, há sempre uma crise histórica, porque há sempre separação entre os que governam e os que são governados, e a luta pelo poder é um constante agravamento da crise.

 *O processo cíclico de uma estrutura ideológica ou de uma tensão cultural, apresenta, sempre, em suas fases (…)os seguintes representantes: de início, os idealistas, juvenis, entusiastas propugnadores, a seguir, os pioneiros, que realizam as primeiras obras, os heróis, os cavaleiros andantes da idéias. Seguem-se depois os realizadores práticos, que correspondem ao período clássico e, finalmente, os absolutistas, que surgem quando a coerência intrínseca do ciclo histórico enfraqueceu e é substituída por uma coesão imposta, por uma universalização coativa, período de absolutismo, de cesarismo, que marca o fim do processo evolutivo, e a inevitável decadência.

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

Ilustração de Cido Gonçalves originalmente publicada na revista Dicta & Contradicta

A situação do futebol

O “Arca Reaça” mergulha fundo hoje para resgatar um artigo de 1945 tratando da “invasão do soccer” nos EUA. Em tempos de Guerra Mundial, obviamente ela se daria através das Forças Armadas.

O artigo abaixo foi traduzido da edição de junho de 1945 da Yank Magazine, revista publicada pelo exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Nele o articulista Tom Shehan, enviado especial junto às tropas americanas, fala de como o futebol se popularizava entre os jovens que iam servir ao país em terras distantes e descobriam este esporte contagiante praticado em quase todo o mundo.

De lá para cá não foram poucas as vezes em que, nos EUA, teve-se a impressão de que o esporte finalmente iria pegar. A última tentativa teve como marco a chegada do jogador Beckham para a nova liga e parece ser realmente a definitiva. Some-se a isso o bom desempenho dos EUA na atual Copa do Mundo e tudo leva a crer que o sonho de Erno Schwarcz, entrevistado na reportagem, finalmente se concretizará.

A situação do futebol 

“Yank – The Army Weekly”, junho de 1945.

De volta a 1942, quando o exército dos Estados Unidos começou a enviar soldados em grandes números ao Reino Unido, muitos dos nossos mais notáveis e conhecidos especialistas em esportes olharam para o futuro e se precipitaram ao prever que a exposição à influência britânica poderia mudar a atual geração de jovens tornando-os um bando de irreversíveis fãs de futebol.

Para ver como o futebol nos últimos 3 anos tem sido capaz de substituir baseball e futebol americano em nossas preferências, nós conversamos com Erno Schwarcz, o proeminente húngaro-americano que é o atual gerente do time New York Americans. Schwarcz ocupa a mesma posição no futebol dos EUA que Henry Kaiser na indústria naval americana ou Thom McAn na indústria de calçados. Ele está numa boa posição para falar da popularidade do futebol no exército pois tem contato regularmente com 150 jogadores de futebol e fãs que estão agora vestindo “uniformes GI”.

Schwarcz admitiu francamente e com certa relutância que o futebol ainda tem um grande caminho a percorrer antes de alcançar o baseball, futebol americano ou mesmo o golfe nas páginas de esportes.

Foto de Erno Schwarcz na edição de junho de 1945 da "Yank, the Army Weekly"

Foto de Erno Schwarcz na edição de junho de 1945 da “Yank, the Army Weekly”

“O futebol nunca se tornará um grande esporte por aqui até que ele tenha melhores campos e mais publicidade”, disse Schwarcz. “E ele não conseguirá isso até ter um melhor gerenciamento com menos personalismos políticos e menos egoísmo. O desenvolvimento do futebol nos EUA tem sido contido porque muito dos seus divulgadores têm colocado o lucro em seus próprios bolsos em vez de investir no crescimento do esporte”.

“Não pense que o esporte não pode crescer. Uma vez que tenhamos atrações de fato e jogos em locais como o Yankee Stadium ou o “Polo Grounds” nós teremos grandes públicos. Não tanto quanto os 100 mil que vão aos estádios ingleses, lógico. Mas nós podemos ter em torno de 25 mil o que não é pouco se você considerar que realmente não há tanta gente por aqui que goste de futebol. O que eu sei é que o maior público presente em um jogo de futebol por aqui foi de 45 mil presentes ao jogo entre Hakoahs – famoso time de Viena – quando fizeram sua estréia  no Polo Grounds em Nova Iorque em 1917.”

Schwarcz, que jogou para os Kahoahs durante uma turnê pela Europa, Ásia Menor e África em 1924, acredita, no entanto, que o potencial do futebol nos EUA foi impulsionado pela guerra.

“Pelas cartas que recebo”, disse, “muitos dos nossos soldados que nunca teriam visto um jogo de futebol se tivessem ficado por aqui estão agora jogando-o regularmente no estrangeiro.

“Apesar de tudo, é um dos poucos jogos que você vê sendo jogado em quase todos os países do mundo. As regras são as mesmas em qualquer lugar. Você não precisa aprender a língua para jogá-lo. Eu acho que isto pode ser usado para estreitar as relações entre as nações.”

Estreitar relações entre as nações? Mas a maioria dos jogos internacionais não terminam em confusão, com a multidão e os jogadores se juntando num vale tudo?

Schwarcz sacode os ombros, fala algo sobre a beleza da rivalidade que o futebol inspira e muda de assunto, voltando às cartas que recebe dos soldados do outro lado do Atlântico.

Ele tem conversado frequentemente, por exemplo, com o Sargento George Barr do Pacífico. Barr foi o capitão dos Brookhattans e uma seleção das estrelas dos EUA antes de se alistar. Na Austrália um tempo atrás, ele jogou em alguns times de futebol australianos. Ele explica que muitos “GIs” viam jogos de futebol na Austrália na ausência de algo melhor para fazer no final da tarde, e gostavam tanto do que viam que começaram eles mesmo a jogar nas áreas militares.

Ilustração da reportagem original - Yank, The Army Weekly, Jun/1945

Ilustração da reportagem original – Yank, The Army Weekly, Jun/1945

O Sargento Manuel Centanio, que jogava no Brooklyn Hispanos e no New York Americans tem percorrido o mundo muito mais do que qualquer outro correspondente de Schwarcz. Centanio, um garoto de Jersey, estava na invasão africana e tem prestado serviço e visto jogos na Sicília, Itália, Egito, Irã, Índia e China. No Cairo ele ajudou a organizar quatro times das tropas que jogaram uma série contra clubes egípcios. Ele escreve da China que seis times foram formados por lá para jogar entre si e contra times chineses. Alguns jogadores chineses jogam descalços.

Outro ex jogador, Sargento Archie Ballantine, diz que quando pulou com sua equipe de paraquedas na invasão do Sul da França ele viu um campo de futebol abaixo dele. Ele tentou aterrissar no campo para comprovar, mas o vento o carregou para outro lugar.

Schwarcz também ouviu de seis membros do Baltimore Americans and the Baltimore Soccer Club que se encontraram na mesma situação na Inglaterra e formaram um time que desafiou o famoso time do Departamento de Polícia de Londres. Apesar do peso da tradição do time, ou talvez por causa disso, os Bobbies castigaram os americanos, 3 a 1.

E lá também há o soldado de primeira classe, Johnny Boulos, outro ex-membro dos Brooklyn Hispanos, que estava jogando contra um time nativo indiano próximo à sua base quando teve seu calção arrancado. No Brooklyn isto poderia ter criado uma situação bastante constrangedora para para Johnny. Mas na Índia o nudismo em lugares públicos não é nada incomum. Eles nem se deram ao trabalho de parar o jogo por causa disso.

Leiam o artigo original nas páginas da Yank Magazine.

O hip hop da Petrobras – Diogo Mainardi

Este artigo de Diogo Mainardi em 2009, quando houve um esboço de início de investigações das falcatruas da Petrobras, mostra que as irregularidades e falcatruas da estatal não são apenas canalizadas para partidos e profissionais dos rolos políticos, mas também pra gente do meio (abram-se muitas aspas) artístico (fechem-se as aspas).

O hip hop da Petrobras

18/07/2009

O hip hop da Petrobras é de MV Bill. Ele canta: “Sou rapper bem! Sou aliado dos manos”. Eu pergunto: quais manos? Algumas semanas atrás, a CPI da Petrobras recebeu uma planilha contendo os contratos assinados pelo departamento de marketing da empresa. Os contratos cobriam só um ano: 2008. E cobriam só uma área da empresa: a área de abastecimento, que até abril deste ano era chefiada pelo petista baiano Geovane de Morais, nomeado por outro petista baiano, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli.

Uma das empresas incluídas na planilha encaminhada à CPI despertou meu interesse: R.A. Brandão Produções Artísticas. Em 2008, ela ganhou mais de 4,5 milhões de reais da Petrobras, em 53 contratos. Ela fez de tudo: de cartilha sobre o meio ambiente (98 000 reais) até bufê em obras de terraplanagem (21 000); de dicionário de personalidades da história do Brasil (146 000) até “design ecológico em produtos sociais” (150 000).

MV Bill, o “aliado dos manos”, surgiu nesse momento. Em 2007, ele publicou Falcão: Mulheres e o Tráfico, editado pela Objetiva. O livro é assinado também por Celso Athayde, seu empresário e seu parceiro numa ONG: a Central Única das Favelas – Cufa. A particularidade do livro é a seguinte: seus direitos autorais, em vez de pertencerem a MV Bill e a Celso Athayde, pertencem à fornecedora da Petrobras, a R.A. Brandão Produções Artísticas.

Perguntei a Roberto Feith, da Objetiva, o que MV Bill tinha a ver com a empresa contratada pela Petrobras. Ele se negou a responder. Uma repórter de VEJA fez a mesma pergunta à assessoria de MV Bill, que atribuiu a Celso Athayde a responsabilidade integral pelo projeto do livro. Celso Athayde, por sua vez, ao ser indagado desligou o telefone. Como canta MV Bill, em Como Sobreviver na Favela: “A terceira ordem é boca fechada, que não entra mosca e também não entra bala”.

A R.A. Brandão Produções Artísticas está registrada em nome de Raphael de Almeida Brandão. Ele tem 27 anos. O capital da empresa, segundo a Junta Comercial, é de 5 000 reais. Como uma empresa dessas, de fundo de quintal, conseguiu ganhar 4,5 milhões de reais da Petrobras é uma pergunta que tem de ser respondida pela CPI. Trata-se de uma empresa de fachada? Ela é controlada por MV Bill e Celso Athayde? Ela realmente recebeu pelos direitos autorais de Falcão: Mulheres e o Tráfico ou limitou-se a fornecer notas frias aos seus autores? Nesse caso, ela forneceu notas frias aos “manos” da Petrobras?

Mas há um fato ainda mais escabroso. A R.A. Brandão Produções Artísticas está sediada na casa de Raphael de Almeida Brandão. No mesmo local está sediada também uma segunda empresa: a Guanumbi Promoções. De acordo com os documentos da CPI, a Guanumbi Promoções recebeu – epa! – 3,7 milhões de reais da Petrobras. Somando as duas empresas, portanto, foram mais de 8,2 milhões de reais, em 102 contratos. Na maioria das vezes, elas emitiram notas para os mesmos eventos, com as mesmas datas. Foi assim no caso de uma festa em Mossoró, no Rio Grande do Norte, de um evento de Fórmula Indy, em Indianápolis, e de um agenciamento do Hotel Blue Tree, para a Fórmula 1, em que uma empresa faturou 159 000 reais e a outra faturou
146 000 reais.

MV Bill sabe como sobreviver na favela. Ele sabe melhor ainda como sobreviver na Petrobras.

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Artigo originalmente em: http://veja.abril.com.br/blog/mainardi/na-revista/o-hip-hop-da-petrobras/

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