Arca Reaça

@reaconaria

A Margarida

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

amargarida_andersen2-2Escuta a minha história !
Lá no campo, à beira da estrada, há um chalèzinho de veraneio; e sabes que na frente do chalé fica o jardinzinho, cheio de flores, fechado por uma cerquinha de sarrafos brancos, não é? Pois em um montículo de terra, fora da cerquinha, no meio da grama verde e fresca, nasceu uma margarida. O sol espalhava seus raios quentes e brilhantes por igual sôbre as grandes e esplêndidas flores do jardim e sôbre a margarida, e por isso ela cresceu ràpidamente; e foi assim que uma manhã estava completamente desabrochada, com suas delicadas pétalas alvas e lustrosas, que cercavam o pequenino sol amarelo do centro.

Nunca a florzinha se lembrou de que ninguém a via, assim escondida no meio da relva; vivia contente. Voltava-se para o sol que a aquecia, olhava para êle. e ouvia o rouxinol que cantava no ar.

A margarida sentia-se tão feliz como se fôsse um dia de grande festa, e contudo era apenas segunda-feira. Tôdas as crianças estavam na escola; e enquanto lá estavam, sentadas nos bancos, aprendendo as lições, a florzinha, na sua haste verde, aprendia com o sol ardente e com tudo o que a rodeava, como Deus é bom.
Entretanto o pequenino rouxinol exprimia clara e lindamente tudo o que ela sentia em silêncio! E a flor olhava para cima com uma espécie de respeito para o feliz passarinho, que podia voar e cantar. Não se entristecia de não poder fazer o mesmo, porque pensava:
– Posso ver e ouvir; o sol brilha e me aquece, e o vento me beija. Oh! Sou abençoada com tamanha riqueza!

Lá dentro do jardim cercado erguiam-se algumas flores grandes e de haste rígida; e quanto menos fragrantes, mais orgulhosas eram! As peônias enchiam-se de vento, para ver se ficavam maiores do que as rosas. As tulipas ostentavam as côres mais alegres de tôdas; e, como sabiam disso, erguiam-se direitas como velas, vara serem bem vistas de todos. Nem sequer sabiam da existência da florzinha que vivia fora do cercado, e que olhava sempre para elas, dizendo consigo:

– Como são lindas! E ricas! Sim, aquêle nobre passarinho certamente vai descer para vê-las. Como sou feliz por viver tão perto delas e poder ver tanta beleza !

Justamente nesse momento ouviu um ruído que vinha do alto.

E o rouxinol voou para o chão; contudo não procurou as peônias e tulipas; não, êle voou para a humilde margaridinha da grama, que até se assustou, de alegria. Não sabia o que havia de pensar daquilo, tão surpreendida.

O passarinho ia saltando em roda e cantando:

—Oh! Que relva macia! E que linda florzinha, com o coração de ouro e tôda vestida de prata!

Porque o centro amarelo da margarida parecia mesmo de ouro, e as pequeninas pétalas que o cercavam brilhavam como alva prata.

E que feliz era ela! Ninguém pode imaginar como era feliz. O passarinho beijou-a com o bico, cantou para ela, e depois tornou a subir para o céu azul. E passou-se um quarto de hora inteirinho, antes que a flor se recobrasse. Meio vexada, e ainda cheia de felicidade, olhou para as outras flores, as do jardim; certamente tinham visto a honra e a felicidade que lhe tinham sido conferidas, e deviam saber como se sentia feliz. Mas as tulipas esticavam-se, com o dôbro da rigidez anterior, e tinham as faces vermelhas de raiva. Quanto às broncas peônias, era bom, na verdade, que não pudessem falar, porque senão a pequenina margarida não havia de ouvir coisas muito agradáveis. Bem via a pobre florzinha que estavam tôdas de mau humor e isso muito a afligiu.

Logo depois entrou no jardim uma menina, trazendo uma faca brilhante e aguçada; foi para as tulipas e cortou-as, uma por uma.

—Ai! Que coisa horrível!— suspirou a margarida; agora para elas está tudo acabado!

A menina foi embora, levando as tulipas. E a margarida ficou muito alegre de ter nascido na grama, fora do cercado, e de ser uma florzinha desprezada! Sentia-se realmente grata por isso; e quando o sol se escondeu poente, dobrou as pétalas e adormeceu, e sonhou tôda a noite com o sol e com o lindo passarinho.

No outro dia, quando a nossa pequenina flor, fresca e cheia de alegria, tornou a abrir suas brancas pétalas para o sol brilhante e o claro ar azulado, ouviu a voz do passarinho; mas seu canto era triste. E o pobre rouxinol tinha razão para estar triste: fôra apanhado em um laço e pôsto em uma gaiola perto da janela aberta. Êle cantava, cantava as alegrias do vôo livre e ilimitado; cantava a beleza do trigo novo nos campos e o prazer de alçar-se no espaço sem fim. O pobre passarinho era certamente muito infeliz — prisioneiro naquela gaiolinha estreita!

Bem quisera — e com que vontade! — a pequenina margarida ajudá-lo, mas que podia ela fazer? Não o sabia, não: mas esqueceu imediatamente como tudo era lindo ao redor dela, como o sol brilhava, e esqueceu-se até da alvura e beleza de suas pétalas. Ela só pensava agora no passarinho prisioneiro, ao qual não podia auxiliar de modo algum.

Saíram do jardim dois meninozinhos; um trazia na mão uma faca, aquela com que a menina tinha cortado as tulipas. Foram direito à pequenina margarida, que não podia imaginar o que pretendiam fazer. E um dêles disse :

— Aqui podemos cortar um lindo torrão para o rouxinol.

E começou a cortar fundo ao redor da margarida, deixando-a no centro do torrão.

— Arranca a flor — disse o outro.

A margaridinha estremeceu de mêdo, porque sabia que se fôsse arrancada morreria, e desejava tanto viver, pois que ia ser posta dentro da gaiola do rouxinol!

— Não, deixa-a aí! — disse o primeiro. — É tão bonita !

E assim foi: deixaram-na ali, e foi posta dentro da gaiola.

Mas o pobre passarinho lamentava a perda da liberdade, batendo as asas contra os arames da gaiola; e a florzinha não podia falar — não podia dizer uma só palavra de confôrto, como tanto desejava . . . E assim se passou tôda a manhã.

— Não há água aqui! — gemia o rouxinol cativo ; foram embora e esqueceram-se de mim; nem uma só gôta de água para beber! Tenho a garganta sêca e ardente! Tenho fogo e gêlo dentro do corpo! E não posso respirar! Ai! Vou morrer! Tenho de deixar. o calor do sol, as frescas árvores verdes, tôdas as lindas coisas que Deus criou!

Meteu o bico na relva fresca, para se refrescar um pouco . . . e então avistou a margarida; cumprimentou-a, beijou-a com o biquinho e disse-lhe:

– Tu também, tu também, pobre florzinha, vais murchar e secar aqui! Cada talinho, cada folhinha de relva, há de ser para mim como uma árvore verde, e cada uma de tuas pétalas brancas, como uma flor perfumada! Mas ah! Tu me avivas ainda mais a recordação do
que perdi!

Se eu pudesse consolá-lo! -— pensava a margarida.
Contudo não podia mover uma pétala . . . mas o passarinho notou a sua dedicação e, ainda que tivesse despedacado as folhinhas de relva, na angústia da sêde, não tocou na flor.

Chegou a hora do crepúsculo, mas ninguém trouxe para o pobre passarinho uma gôta d’água; êle distendia as lindas asas, batendo-as convulsivamente; seu canto era um gemido lamentoso; a cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coraçãozinho despedaçou-se de sêde e de angústia. Agora a flor não podia, como fizera na véspera, fechar as pétalas para dormir: triste e aflita, pendeu para o chão.

Os meninos só apareceram na manhã seguinte; e quando acharam o passarinho morto, choraram muitas lágrimas. Cavaram um pequenino túmulo, que adornaram de pétalas de flores; meteram o cadáver em uma caixinha vermelha, muito linda — e foi um entêrro principesco, o entêrro do pobre passarinho!

Enquanto êle ainda vivia e cantava, esqueceram-no – deixaram-no padecer na sua gaiola — e agora, que estava morto, cobriam-no de enfeites e de lágrimas.

Mas o torrão de terra com a margarida, êsse foi atirado à estrada: ninguém se lembrou daquela que mais lamentara a sorte do pobre rouxinol e que tanto desejara consolá-lo.amargarida_andersen-2

A menina dos fósforos

Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich – Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

Era véspera de Ano Bom. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía ràpidamente, uma criança, uma menina, descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. É certo que estava calcada, quando saiu de casa; mas as chinelas eram muito grandes, pois que a mãe as usara, e escaparam-lhe dos pèzinhos gelados, quando atravessava correndo uma rua, para fugir de dois carros que vinham a tôda a brida. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo e declarando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos, quando os tivesse. Continuou, pois, a menina a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos, e tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera uma esmola nem um só vintém.
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e o desânimo -— a estátua viva da miséria.

Os flocos de neve caíam, pesados, sôbre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro; vagava na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera do Ano Bom -— isso sim, não o esquecia ela.

Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém; era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, lá fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por êle entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham vedado as enormes frestas.

Tinha as mãozinhas tão geladas . . . estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos, sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ricto!… Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!

Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela, quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita, aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanêtas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e . . . crac! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via agora a parede escura e fria.

Riscou outro. Onde batia a sua luz, a parede tornava-se transparente como a gaze, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa, e sôbre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre tôda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo soalho direito à menina, que estava com tanta fome, e . . .

Mas que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria, na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente, viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Oh! Era muito maior, e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos brilhavam milhares de velinhas; e estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços, diante de tantos esplendores, e então, então . . . apagou-se o fósforo. Tôdas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrêlas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.

— Morreu alguém — disse a criança.

Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que estava morta, lhe dizia sempre que quando uma estrêla desce, é que uma alma subiu para o céu. Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó que lhe apareceu, a sua boa vovó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.

— Vovó! — gritou a pobre menina. — Leva-me contigo . . . Já sei que quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como se sumiram a estufa quente, e o rico pato assado, e a linda árvore de Natal!

E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E êles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão alta, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe . . . longe da terra, para um lugar lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sêde, nem dor, nem mêdo, porque elas estavam agora com Deus.

A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de beatitude. Morta. Morta de frio, na última noite do ano velho.
A luz do Ano Bom iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mão cheia de fósforos queimados.

— Sem dúvida ela quis aquecer-se — diziam.

Mas . . . ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem em que halo tinha entrado com a avó nas glórias do Ano Novo !

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“A menina dos fósforos”, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich

 

Marcelo Netto, Marcelo Netto

Com a prisão de Antônio Palloci, resgatamos uma coluna de Diogo Mainardi publicada na revista Veja em 2006 em que ele revela como a imprensa se aliou ao PT para destruir o caseiro Francenildo.

Marcelo Netto, Marcelo Netto

Marcelo Netto. O nome dele é Marcelo Netto. Repetindo: Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto.

Os jornais passaram a semana inteira tentando descobrir quem violou o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Está certo. Precisamos de uma resposta urgente. Os mandantes do crime – todos eles – devem ser exemplarmente punidos. Com demissão. Com cadeia. Com tomatadas e ovadas no cocuruto. É uma questão fundamental para o país. Pena que eu não seja a pessoa mais indicada para tratar de questões fundamentais. Pelo contrário. Meu negócio são as questões menores. E, no caso, há uma questão menor que, por dias e dias, os jornais preferiram escamotear: o nome de quem passou à imprensa o extrato bancário do caseiro. Em todas as reportagens publicadas ao longo da semana, sua identidade foi cuidadosamente resguardada pelos jornalistas, sempre com a mesma fórmula. “Quem deu publicidade aos dados bancários do caseiro foi um assessor de Palocci.” Ou: “Na quinta-feira, os dados teriam sido encaminhados a um assessor especial do ministro”. Ou: “Na sexta-feira, um assessor do Ministério da Fazenda já difundia a suspeita de que o caseiro poderia ter recebido dinheiro para acusar Palocci”. Ou: “Naquela mesma noite, cópias do extrato do caseiro circularam junto aos assessores do ministro”. Ou: “Uma fonte mantida no anonimato passou a dois jornalistas de Época o extrato de sua conta bancária”. 

Quem difundiu o extrato bancário do caseiro foi o assessor de imprensa de Palocci, Marcelo Netto. Desde a semana passada, todos os jornalistas sabiam disso. Mas nenhum se animou a denunciá-lo. Marcelo Netto é jornalista. E jornalistas não denunciam jornalistas. Exatamente da mesma maneira que deputados não cassam deputados. O escandaloso acobertamento do nome de Marcelo Netto, porém, foi muito mais do que um simples ato de canalhice ou de coleguismo – foi prejudicial ao próprio trabalho da imprensa. Marcelo Netto tem de ser investigado a fundo. Ele pode explicar a origem dos dados sigilosos sobre o caseiro. Ele pode explicar quando Lula foi informado sobre o caso, se antes ou depois de ser veiculado pela imprensa. Ele pode explicar, por fim, o caminho que o extrato bancário tomou a partir do momento em que foi parar em suas mãos. Um dos filhos de Marcelo Netto, Matheus Leitão, é repórter da Época. O chefe da sucursal da revista em Brasília, Gustavo Krieger, mandou-o correr atrás do material sobre o caseiro. Ele correu. E a Época o publicou. O episódio é ilustrativo dos esquemas de aliciamento, apadrinhamento e cumplicidade do petismo. Um protege o outro. Um defende o outro. Um conluia com o outro. Um contrabandeia mercadoria ilícita para o outro. Toda essa história surgiu porque o caseiro Francenildo Costa não sabia quem era seu pai. O jornalista Matheus Leitão sabe perfeitamente quem é o seu. É Marcelo Netto. Repetindo: Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto, Marcelo Netto.

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O ex-assessor de Palocci, Marcelo Netto

Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

O Papa Francisco e o declínio do Ocidente, por Dennis Prager

Os comentários do Papa Francisco na última semana revelam a coisa mais importante que você precisa saber sobre o mundo moderno: A mais dinâmica religião dos últimos cem anos tem sido o esquerdismo. Nem cristianismo nem islã. Esquerdismo.

O esquerdismo mundial tomou conta das principais instituições educacionais, dos meios de comunicação, dos meios de entretenimento e influencia o cristianismo (ou o judaísmo) muito mais que a cristandade (ou o judaísmo).

No dia 26 de julho, dois muçulmanos cortaram a garganta de um padre católico francês, Jacques Hamel, de 86 anos, enquanto ele estava rezando a missa em sua igreja.

Cinco dias depois, em seu avião que retornava a Roma da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, na Polônia, o Papa Francisco foi questionado sobre o padre francês e o islamismo por Antoine Marie Izoarde, um jornalista da i.Media, um serviço de notícias católico:

Izoarde: Os católicos estão chocados, não apenas na França, após o assassinato bárbaro do Padre Jacques Hamel – como você bem sabe – em sua igreja enquanto celebrava a Santa Missa. Quatro dias depois o senhor disse que todas as religiões buscam a paz. Mas este Santo padre de 86 anos foi claramente assassinado em nome do Islã. Então, Santo Padre, eu tenho duas questões rápidas: Por que o senhor,quando fala desses casos violentos, sempre fala de terroristas mas nunca do islã, nunca usa a palavra islã… E quais iniciativas concretas o senhor aconselha ou sugere para conter a violência islâmica? Obrigado, santidade.

Segundo o serviço de notícias católico, isso foi o que o Papa Francisco respondeu:

Não gosto de falar em violência islâmica porque todos os dias, quando eu folheio os jornais, eu vejo violência, aqui na Itália… esse aqui matou sua namorada, o outro foi assassinado por sua madrasta… e eles são católicos batizados! Há católicos violentos! Se eu falar em violência islâmica, eu tenho de falar da violência católica.

O Papa da Igreja Católica, perguntado sobre terrorismo islâmico e um padre degolado por um terrorista islâmico, responde que há também terrorismo católico – que  um homem que foi batizado e “assassinou sua namorada” é o equivalente moral e religioso de muçulmanos que se dedicam ao assassinato em massa em nome do islã.

Como alguém pode comparar:

  1. Uma pessoa que foi batizada católica quando criança – e pode não se identificar com o catolicismo quando adulto – com um adulto que afirma sua identidade religiosa?
  2. O assassinato de uma namorada – provavelmente um crime passional – com o assassinato ritual de um padre católico porque ele é um padre?
  3. Assassinatos individuais desconectados de qualquer ideologia com o assassinato em massa cometido em nome de uma ideologia?

Pope Francis Leads Stations of The CrossO Papa Francisco acrescentou: “O terrorismo está em todo lugar… O terrorismo cresce quando não há outras opções, eq quando o centro da economia global é o Deus do dinheiro e não a pessoa – homem ou mulher – ele já é o primeiro terrorismo. Você  já excluiu a maravilha da criação – homem e mulher – e colocou o dinheiro em seu lugar. Esse é o terrorismo básico contra toda humanidade. Pense nisso!

“O terrorismo cresce quando não há outras opções”?

A ideia de que o terrorismo é um ato desesperado que emerge da pobreza é amplamente aceito entre a esquerda. Mas é completamente falso. A maioria dos terroristas islâmicos vem das classes média e superiores. Num caso recente de terroristas de Bangladesh, como exemplo, quase todos os envolvidos eram de alguma das mais ricas famílias do país. E, como deveria ser conhecido por todos, a maioria dos sequestradores do 11 de Setembro vieram de famílias de classe média e classe média alta.

O terrorismo islâmico não tem a ver com economia; tem a ver com sua teologia.

“O terrorismo cresce… quando o centro da economia global é o Deus do dinheiro”?

A busca pelo dinheiro e o terror não têm nada a ver. O terrorismo cresce apenas quando alguma ideologia o prega. Essa sentença apenas fornece uma desculpa para o terrorismo islâmico ao culpar a “economia global” e o “Deus dinheiro” em vez dos terroristas e seu Deus da morte.

“O primeiro terrorismo (acontece) quando o centro da economia global é o Deus dinheiro”?

É péssimo quando o dinheiro se torna um deus, mas não há comparação entre o “deus dinheiro” e os horrores do terrorismo islâmico. As mulheres yazidis não estão sendo vítimas de estupro coletivo e queimadas vivas por causa da “economia global” e seu “deus dinheiro”

A única explicação para essas afirmações é que o Papa Francisco herdou sua teologia do catolicismo mas, diferente de seu antecessor, Papa Bento XVI, sua moral deriva do esquerdismo.

A combinação ocidental da moral judaico-cristã e do liberalismo político, com suas doutrinas de responsabilidade moral, absolutos morais, confrontar o mal e liberdades política e social, produziram as sociedades mais morais da história do mundo.

O papa da Igreja Católica deveria ser seu maior advogado. Mas por causa do esquerdismo, ele não é.

Tradução do artigo “Pope Francis and the Decline of the West”, publicado originalmente na National Review.

Leia também:

“Adeus, Homens de Deus”, de Michael S. Rose

“Nenhum genocídio deve ser esquecido”, de José Serra

Agora que o parlamento da Alemanha reconheceu oficialmente o massacre de armênios pelo império Otomano como genocídio (leiam aqui), trazemos aos leitores do Reaçonaria um artigo de José Serra, agora ministro das Relações Exteriores do governo de Michel Temer, tratando do mesmo tema. A política externa nos tempos de PT tinha como premissa não fazer qualquer tipo de crítica, mesmo diante de crimes contra a humanidade, a aliados “estratégicos”, sendo estratégico para o PT tudo que fosse contra os EUA ou o que se entende por civilização ocidental.

O artigo número 2 da Convenção de Viena sobre Genocídio, de dezembro de 1948, descreve o genocídio como atos com o objetivo de “destruir, parcial ou totalmente, um grupo étnico, racial, religioso ou nacional”. O Papa Francisco disse, no ano passado, que o massacre dos armênios foi o primeiro genocídio do século XX. Esperamos que em breve o Brasil prove que está sob nova posição diante do mundo aprovando como posição oficial do país o reconhecimento do extermínio como genocídio.

Nenhum genocídio deve ser esquecido

Folha de SP, 24 de abril de 2009

O DIA de hoje, 24 de abril, lembra a campanha de extermínio movida pelo governo turco contra a população armênia em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

Nesse dia começaram a ser executadas ordens expressas de extermínio. Em dezenas de cidades do Império Turco-Otomano, onde conviviam pacificamente famílias de diferentes etnias, toda a população armênia masculina foi reunida à força, executada e empilhada em vales e cursos d’água.

Famílias inteiras foram amarradas e jogadas vivas nos rios, com um de seus membros morto a tiros, levando todos os demais ao afogamento. Estima-se que pelo menos 1,5 milhão de armênios tenham sido assassinados.

Pelo menos em um caso, homens foram concentrados em uma caverna e asfixiados com o gás carbônico produzido por imensas fogueiras. Mulheres e crianças foram deportadas de todo o império para os arredores de Alepo, na Síria (que integrava o Império Otomano), e reunidas em campos de concentração.

Parte da deportação se fez em trens de carga destinados ao transporte de gado. Nas centenas de quilômetros percorridos pela população feminina, a maioria a pé, grande parte das deportadas morreu de inanição ou de doença e as demais foram executadas.

As razões invocadas para o massacre -uma vez que a política de extermínio é até hoje negada- foram principalmente a alegada traição dos armênios, que teriam colaborado com o exército russo no início da guerra, a necessidade de limpeza racial para converter a Turquia, então multirracial, em uma nação uniformemente turca, e o fato de os armênios serem geralmente mais educados e mais ricos do que o restante da população.

Os assassinatos foram em grande número, houve deportações em massa, para dificultar a identificação dos perseguidos e limitar sua capacidade de reação ou de contar com ajuda externa. Recorreu-se à asfixia por gases, à inculpação das vítimas e, mais importante ainda, à denegação sistemática e à pressão e intimidação contra os que tentaram reconstituir os acontecimentos históricos. Nisso tudo o genocídio dos armênios foi exemplar.

Os fatos foram amplamente registrados, na época, pela imprensa americana e europeia, com destaque aos jornais britânicos. Documentos diplomáticos de diversos países relatam os massacres sistemáticos da população armênia masculina e a deportação em massa das mulheres com tudo o que isso implicava de estupros e mortes por doença e inanição, sem excluir o massacre final.

Líderes daquele tempo referiram-se ao extermínio -como Winston Churchill, em seu livro “The Aftermath”- e ninguém menos do que o controverso Kemal Ataturk, que viria a ser considerado o pai do moderno Estado turco, reconheceu em 1920 a existência do massacre, considerando-o “um ato vergonhoso”.

Não obstante suas diferenças relevantes, não há dúvida de que o extermínio dos armênios foi precursor no século 20 do genocídio judaico. O próprio Hitler, que concebeu e executou o Holocausto dos judeus, teria feito a comparação com a política nazista de deportação e extermínio em massa de poloneses: “Afinal, quem ainda fala sobre os armênios?”.

Mas ainda se fala, sim. Há relatos detalhados das atrocidades, um volume impressionante de resultados de pesquisas arqueológicas e, principalmente, depoimentos de vítimas que escaparam dos massacres.
Uma versão romantizada, mas não menos realista do massacre e das deportações iniciadas em 24 de abril, é o extraordinário filme dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, “La Masseria delle Allodele” (“A Casa das Cotovias”). Com sua conhecida sensibilidade e sofisticação de narrativa, os Taviani mostram o terrível emaranhado de sentimentos que uma situação de extermínio provoca dentro de uma família e de uma comunidade, com suas renúncias e cobiças, seus pequenos heroísmos e traições, e sua dor sem medida, que tanto desumanizam algozes e vítimas.

A noção de crime contra a humanidade pressupõe a ideia de negar às vítimas de uma campanha deliberada de extinção a própria condição de seres humanos, com seu direito inerente à existência. Esse é, aliás, o passo mais extremado de uma atitude que começa com o preconceito, estende-se à discriminação e culmina com o racismo. De fato, todos os processos conhecidos de extermínio em massa têm como pressuposto a superioridade de um credo ou de uma raça e a consequente inferioridade de outra.

GenocidioArmenios

Aqueles que, em pleno século 21, insistem em ressuscitar o conceito de raça e em criar legislações baseadas na premissa de que elas merecem tratamento diferenciado pelo Estado devem ser contidos em suas ações e pretensões, sob pena de incitarem, em algum momento do futuro, processos odiosos que não podem ser aceitos pela humanidade.

Por isso, nenhum genocídio deve ser esquecido, todos devem ser lembrados, seus responsáveis execrados, suas causas e motivações sempre pesquisadas e analisadas, suas brutalidades reconstituídas, suas vítimas homenageadas. Nunca esquecer para que não volte a acontecer.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A Superstição da Escola, por G. K. Chesterton

Trazemos hoje para o Arca Reaça um dos mais famosos e fundamentais ensaios de G.K. Chesterton, presente em todas as seleções de seus melhores textos curtos. Trata-se do “The Supersition of School”. Aqui, Chesterton critica o pensamento corrente de que o ensino é salvador, criador de homens melhores. E, como é comum em sua obra, elogia os homens normais, de reações normais, de senso comum.

O ensaio foi traduzido por Antônio Emílio Angueth de Araújo, colaborador do site “Chesterton Brasil“.

A Superstição da Escola

É um erro supor que o avanço dos anos traga opiniões retrógradas. Em outras palavras, não é verdade que o aumento dos anos implique no aumento do reacionarismo. Algumas das dificuldades dos tempos recentes são devidas ao otimismo dos velhos revolucionários. Magníficos homens de idade como o revolucionário russo Peter Kropotkin, o poeta Walt Whitman e William Morris foram para o túmulo esperando a Utopia, ainda que não esperassem o Paraíso. Mas a falsidade, como tantas falsidades, é uma versão falsa de uma meia verdade. A verdade, ou meia verdade, não é que os homens devam aprender com a experiência a serem reacionários; mas que eles devam aprender com a experiência a esperarem reações. E quando digo reações, quero dizer reações; devo desculpar-me, na cultura atual, por usar a palavra em seu sentido correto.

Se um menino dispara uma arma, seja numa raposa, num proprietário de terras ou no soberano reinante, ele será repreendido segundo o valor relativo desses objetos. Mas se ele dispara uma arma pela primeira vez, é provável que ele não espere o coice da arma, que ele não espere o forte golpe que ela pode dar-lhe. Ele pode passar a vida atirando nesses e em objetos similares; mas ficará cada vez menos surpreso com coice; isto é, pela reação. Ele pode até dissuadir sua pequena irmã de seis anos de atirar com rifles pesados, usados para matar elefantes; e, assim, dará a impressão de que está se tornando um reacionário. O mesmo princípio se aplica no disparo das grandes armas da revolução. Não é o ideal do homem que muda; não é sua Utopia que se altera; o cínico que diz, “Você esquecerá todo o brilho da lua do idealismo quando envelhecer”, diz o exato oposto da verdade. As dúvidas que chegam com a idade não são sobre o ideal, mas sobre o real. E uma das coisas que é inegavelmente real é a reação; isto é, a probabilidade prática de alguma reversão de direção, e de nosso sucesso parcial em fazer o oposto do pretendido. O que a experiência realmente nos ensina é: que há algo na estrutura e no mecanismo da espécie humana, pelo qual o resultado da ação sobre ela é sempre inesperada, e quase sempre mais complicada do que antecipamos.

Esses são os empecilhos da sociologia; e um deles está relacionado com a Educação. Se você me pergunta se penso que a população, especialmente a sua parte pobre, deve ser reconhecida como composta de cidadãos que podem governar o estado, respondo, com uma voz de trovão, “Sim”. Se você me pergunta se penso que eles devam ter educação, no sentido de uma cultura ampla e uma familiaridade com os clássicos da história, respondo novamente, “Sim”. Mas há, na consecução desse propósito, um tipo de empecilho ou coice que só pode ser descoberto pela experiência e não aparece impresso em papel, como acontece com o coice de uma arma. Mesmo assim, ele é, neste momento crucial, uma parte precipuamente prática de política prática; e, apesar de estar sendo um problema há bastante tempo, ele tem sido, sob condições recentes, um pouco mais enfatizado (se me permitem colorir essas páginas serenas e imparciais com uma sugestão política) de forma a trazer para o front, tantos socialistas altamente respeitáveis e tantas autoridades sindicais tão amplamente respeitadas.

O empecilho é este: que os educados pensam excessivamente em educação. Devo adicionar que os meio-educados consideram a educação como o ideal supremo. Esse não é um fato que apareça na superfície do ideal ou plano social; é o tipo de coisa que só pode ser descoberto pela experiência. Quando disse que desejava que o sentimento popular encontrasse expressão política, falei sobre o sentimento popular, real e autóctone que pode ser encontrado nos meios de transporte de terceira classe, nas festas folclóricas, nas festas nos feriados; e especialmente, claro (para o mais rígido investigador social da verdade), nos bares. Pensei, e ainda penso, que essas pessoas estão certas num vasto número de coisas em que os líderes populares estão errados. O empecilho é que quando uma dessas pessoas começa a “aprimorar-se”, este é exatamente o momento em que começo a duvidar se aquilo é um aprimoramento. Esse indivíduo parece coletar com impressionante velocidade um número de superstições, das quais a mais cega e ignorante pode ser chamada de Superstição da Escola. Ele considera a Escola, não como uma instituição social normal, como o Lar, a Igreja, o Estado; mas como um tipo inteiramente supernormal e milagroso de fábrica moral, em que são fabricados, por mágica, os homens e as mulheres perfeitas. A essa idolatria da Escola ele está pronto a sacrificar o Lar, a História e a Humanidade, com todos seus instintos e possibilidades, imediatamente. A esse ídolo ele fará qualquer sacrifício, especialmente sacrifício humano. E no fundo da mente, especialmente da mente dos melhores homens desse tipo, há quase sempre uma de duas variantes da mesma concepção concentrada: ou “Se não fosse a Escola, eu não teria sido o grande homem que sou agora”, ou “Se eu tivesse freqüentado a Escola, eu seria maior ainda do que sou agora”. Que ninguém diga que estou zombando de pessoas que não tiveram educação; não zombo de sua “deseducação”, mas de sua educação. Que ninguém tome isso como um desprezo pelos meio-educados; desgosto da metade educada. Mas desgosto deles, não porque desgosto da educação, mas porque, dada a filosofia moderna ou a ausência dela, a educação está sendo voltada contra si própria, destruindo o próprio sentido de variedade e proporção que é o objeto da educação.

Ninguém que adora a educação aproveitou o máximo dela; ninguém que sacrifica tudo pela educação é sequer educado. Não preciso mencionar aqui os muitos exemplos recentes dessa monomania, que rapidamente se torna uma perseguição louca, como a absurda perseguição das pessoas que vivem em barcos. O que está errado é o desprezo de um princípio; e o princípio é que sem um gentil desprezo pela educação, nenhuma educação de um gentil-homem está completa.

Uso uma frase casual, casualmente; pois não me preocupo com o gentil-homem, mas com o cidadão. Contudo, há uma meia-verdade histórica no caso da aristocracia; que é, às vezes, um pouco mais fácil para o aristocrata ter esse último toque de cultura, que é uma superioridade em relação à cultura. Contudo, a verdade sobre a qual falo não tem nada a ver com qualquer cultura ou classe especial. Ela já pertenceu a um grande número de camponeses, especialmente quando eram poetas; é isso que dá um tipo de distinção natural a Robert Burns e aos poetas camponeses da Escócia. O poder que a produz mais eficazmente que qualquer linhagem de sangue ou raça é a religião; pois religião pode ser definida como aquilo que coloca em primeiro lugar as coisas primeiras. Robert Burns era justificadamente impaciente com a religião que herdou do calvinismo escocês; mas ele devia algo a essa herança. Sua consideração instintiva dos homens como homens veio de seus ancestrais que se preocupavam ainda mais com a religião do que com a educação. No momento que os homens se preocupam mais com a educação que com a religião, eles começam a se preocupar mais com a ambição do que com a educação. Não é mais um mundo em que as almas são todas iguais perante os céus, mas um mundo em que a mente de cada um é direcionada a atingir vantagens desiguais sobre os outros. Começa a ser pura vaidade ser educado, seja auto-educado ou educado pelo estado. A educação deve ser uma lanterna dada a um homem para explorar tudo, mas muito especialmente as coisas mais distantes dele. A educação tende a ser um holofote que está centrado em si mesmo. Alguns aprimoramentos podem ser feitos, colocando holofotes igualmente luminosos e talvez vulgares nas outras pessoas. Mas a cura final é desligar as luzes da ribalta e deixá-lo perceber as estrelas.

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O homem não é só o produto de condições econômicas

O Papa Emérito da Igreja Católica, Joseph Ratzinger, que adotou o nome papal Bento XVI, é um dos maiores teólogos da história. Seus discursos, livros e encíclicas são ótimos objetos de estudo e mergulho espiritual e estão muito à frente da melhor produção intelectual contemporânea. O que segue abaixo é um trecho da Spe Salvi, segunda Carta Encíclica produzida por Bento XVI e divulgada em 30 de novembro de 2007. Neste trecho, Bento XVI trata de um momento de crise espiritual provocada pelas novas formas de fé (razão, liberdade, técnica, conhecimento científico) e explica porque o marxismo é o grande equívoco emergido deste período.

SPE SALVI – Parágrafos 20 e 21

O século XIX não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperança. Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado « proletariado industrial », cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto não pode continuar; é necessária uma mudança. Mas a mudança haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus ». Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.

Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactidão o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta « fase intermédia » conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.

Leiam a Encíclica completa no site oficial do Vaticano: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi.html

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

O Estado Covarde

Afundado em uma crise econômica que empobrece a população e num surto de doenças transmitidas por mosquitos, o país acaba se esquecendo de sua maior desgraça: a criminalidade desenfreada. Manter a ordem e ter uma justiça funcional deveria ser a primeira preocupação dos governantes, mas no Brasil, combater marginais é coisa quase proibida. Para tratar dessa grave distorção, trazemos hoje ao Arca Reaça um artigo de 2006 de Olavo de Carvalho que deveria ser lido e absorvido por todos aqueles que se pretendem líderes políticos:

O ESTADO COVARDE

Uma coisa espantosa no Brasil de hoje é a candura, a inocência pueril ou mongolóide com que, num país onde ocorrem 50 mil homicídios por ano, as pessoas se acomodam à violência como uma fatalidade inevitável , dizendo de si para si que aquilo que não tem remédio remediado está, e saem buscando soluções para outros problemas em volta.

Digo cinqüenta mil porque é a estatística oficial da ONU. Segundo o repórter espanhol Luís Mir são 150 mil. Mas, se fossem cinqüenta mil, já seria o equivalente a três guerras do Iraque por ano, em tempo de paz.

Quem pode fazer a economia render, ampliar o mercado de empregos, aumentar a produção de bens, melhorar a distribuição, numa sociedade onde ninguém tem o mínimo de segurança física para saber se vai voltar vivo do trabalho? Quem pode pensar em educação, saúde, habitação, vestuário, se está sob ameaça de morte 24 horas por dia?

Isso é tudo ilusão, besteira, desconversa. Sem segurança não há progresso, educação, saúde, nem coisa nenhuma. Todo mundo sabe disto e faz de conta que não sabe. Faz de conta porque tem medo de enfrentar o problema fundamental, e então sai brincando de resolver os problemas periféricos só para dar “a si mesmo ou à platéia” a impressão de que está fazendo alguma coisa.

A taxa anual de homicídios no Brasil significa, pura e simplesmente, que não há ordem pública, não há lei nem direito, não há Estado, não há administração, há apenas um esquema estatal de dar emprego para vagabundos, sanguessugas, farsantes. O Estado brasileiro é uma instituição de auto-ajuda dos incapazes. E você, brasileiro, paga. Paga a pantomima toda. Paga para o sr. Gilberto Gil fazer de conta que é culto, paga para o sr. Nelson Jobim fazer de conta que é honesto, até para o sr. Lula da Silva fazer de conta que preside alguma coisa.

O Brasil, na verdade, só tem dois problemas: a insegurança geral e a inépcia da classe dirigente. O primeiro não deixa ninguém viver e o segundo anestesia a galera para que não ligue e trate de pensar em outra coisa.

Desaparecidos esses dois problemas, a sociedade encontraria sozinha as soluções dos demais, sem precisar da ajuda de governo nenhum. A sociedade pode perfeitamente criar e distribuir riqueza, dar educação às crianças, encontrar meios de que todos tenham uma renda decente, moradia, saúde, assistência na velhice.

O que a sociedade não pode é garantir a ordem pública pela força das armas e educar os governantes para que governem. Isso tem de vir do Estado. Mas o Estado, justamente para não ter de fazer o que lhe compete, prefere se meter em todo o mais. É o Estado educador, o Estado médico, o Estado assistente social, o Estado onissapiente. Só não é o Estado-Estado. Só não é o que tem de ser.

É o Estado que tem cada vez mais poder sobre os cidadãos e menos poder contra os inimigos do cidadão. É o Estado santarrão, pomposo, grandiloqüente e covarde.

Este artigo está originalmente disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/060221dce.htm

Dia Internacional da Memória do Holocausto – Discurso de Bento XVI

O dia de hoje é aquele em que o mundo inteiro se lembra da tragédia do Holocausto.

O nazismo, todos sabemos, foi aquela mistura macabra de teorias científicas criminosas (eugenia e racismo) com movimentos políticos (socialismo e nacionalismo) levadas adiante pelas mais modernas técnicas industriais e militares da época. Lembrar o Holocausto é uma penitência que a humanidade deve pagar por ter permitido tamanha atrocidade.

Em memória a isto, trazemos hoje para o Arca Reaça um discurso de Bento XVI, o papa alemão, em visita ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Bento XVI trata da grande questão teológica que se fez novamente relevante num mundo já naquela época cada vez mais materialista e secularizado: Como pôde Deus permitir tamanho mal?

DISCURSO DO SANTO PADRE  DURANTE A VISITA AO CAMPO  DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ-BIRKENAU

Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.

Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse: “Venho hoje aqui… Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.

Como Papa, não podia deixar de vir aqui”. O Papa João Paulo II veio aqui como filho daquele povo que, ao lado do povo judeu, teve que sofrer mais neste lugar e, em geral, durante a guerra: “Foram seis milhões de Polacos, que perderam a vida durante a segunda guerra mundial: um quinto da nação”, recordou então o Papa. Aqui, ele elevou a solene admoestação ao respeito dos direitos do homem e das nações, que antes dele tinham elevado diante do mundo os seus Predecessores João XXIII e Paulo VI, e acrescentou: “Pronuncia estas palavras […] o filho da nação que na sua história remota e mais recente sofreu numerosas angústias infligidas por outros. E não o diz para acusar, mas para recordar. Fala em nome de todas as nações, cujos direitos são violados e esquecidos…”.

O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui. A 7 de Junho de 1979 estive aqui como Arcebispo de Munique-Frisinga entre os numerosos Bispos que acompanhavam o Papa, que o escutavam e rezavam com ele. Em 1980 voltei mais uma vez a este lugar de horror com uma delegação de Bispos alemães, abalado por causa do mal e reconhecido pelo facto de que acima das trevas tinha surgido a estrela da reconciliação. Ainda é esta a finalidade pela qual me encontro hoje aqui: para implorar a graça da reconciliação antes de tudo de Deus, o único que pode abrir e purificar os nossos corações; depois, dos homens que sofreram; e por fim, a graça da reconciliação para todos os que, neste momento da nossa história, sofrem de maneira nova sob o poder do ódio e sob a violência fomentada pelo ódio.

Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: “… Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas… por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!” (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.

Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo. Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n’Ele. Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus. 

O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.

Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: “estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro”, verificam-se de modo terrível.

No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre. Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte. Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom. Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado como lebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.

Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão: libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Stálin e da ideologia comunista. Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro. Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele. Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: “Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes” (cf. Dn 3, 17s).

Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda: “Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar”.

Graças a Deus, com a purificação da memória, à qual nos estimula este lugar de horror, crescem à sua volta numerosas iniciativas que desejam pôr um limite ao mal e dar força ao bem. Há pouco pude abençoar o Centro para o Diálogo e a Oração. Nas imediatas proximidades tem lugar a vida escondida das irmãs carmelitas, que estão particularmente unidas ao mistério da cruz de Cristo e nos recordam a fé dos cristãos, que afirma que o próprio Deus desceu ao inferno do sofrimento e sofre juntamente connosco. Em Oswiecim existe o Centro de São Maximiliano e o Centro Internacional de Formação sobre Auschwitz e sobre o Holocausto. Depois, há a Casa Internacional para os Encontros da Juventude. Numa das Antigas Casas de Oração existe o Centro Hebraico. Por fim está a constituir-se a Academia para os Direitos do Homem. Assim podemos esperar que do lugar do horror nasça e cresça uma reflexão construtiva e que recordar ajude a resistir ao mal e a fazer triunfar o amor.

A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um “vale escuro”. Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade: “O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança… habitarei na casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23, 1-4.6).

CampodeConcentracao_Dachau

Do mito à ideologia, por Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 29 de Março de 2001

A falta de santos, de místicos, de filósofos, num país de dimensões continentais e 500 anos de existência, já basta para fazer dele uma anomalia espiritual assustadora, provavelmente sem similar na História universal.

Porém mais anormal ainda é que ninguém se preocupe com isso, que todos creiam dever constituir primeiro a sociedade ideal, com 200 milhões de cidadãos satisfeitos e rechonchudos, para depois, só depois, tratar de adquirir alguma consistência no plano do espírito. Esta pretensão insensata é talvez a maior manifestação de desprezo coletivo à “única coisa necessária” que já se observou na espécie humana.

Não há, no repertório das possibilidades históricas conhecidas, exemplo de sociedade que lograsse encher todos os estômagos para só depois alimentar os corações e cérebros. Os povos mais primitivos, as comunidades mais rudimentares já mostravam saber que algum tipo de conhecimento metafísico precedia no tempo e na ordem hierárquica dos fatores a organização material da sociedade – pois a sociedade é feita por homens, e a organização da alma humana precede a possibilidade mesma da ação racional na sociedade.

A expressão “mito fundador” anda hoje nas bocas dos nossos acadêmicos, mas é evidente que eles não têm a menor idéia do que seja isso. Imaginam que se trate de uma enorme ilusão coletiva inventada por espertalhões da classe dominante para colocar os homens a seu serviço – uma imensa cenoura de burro a orientar o trajeto da carroça histórica. Santo Deus! Acham que mito fundador é ideologia.

O conceito de mito fundador vem de Schelling. Um mito fundador não é uma ideologia. Ideologia é um discurso que não compreende a realidade, mas motiva os homens a substituir uma realidade que compreenderam mal por outra da qual não vão compreender nada. Inspirados pela ideologia do socialismo, os seguidores de Lenin substituíram a sociedade tzarista, da qual tinham uma compreensão falseada, pela monstruosidade incompreensível que foi a sociedade soviética. Inspirados nos falsos diagnósticos sociais de Hitler, os nazistas desmantelaram uma república que não compreendiam e puseram no lugar dela um pesadelo ininteligível. Guiados por pessoas que acham que mito fundador é ideologia, um povo que não compreende a raiz de seus males se prepara, neste país, para produzir males infinitamente maiores que, se vierem a se consumar, talvez já não possam ser compreendidos por nenhuma inteligência humana.

Ideologia é isso: um discurso que, partindo de uma falsa visão do presente, atrai os homens para a construção de um futuro que, depois de pronto, é feio demais para que suportem reconhecer nele a obra de suas mãos. Por isso os desiludidos de ideologias criminosas raramente se apresentam como aquilo que são: cúmplices fracassados de um crime sem recompensa. Apresentam-se como vítimas traídas pelo destino. Falseiam o passado como falsearam o futuro.

Um autêntico mito fundador, ao contrário, é uma verdade inicial compactada que, no desenrolar da História, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização. Um mito fundador não é um “produto cultural”, pela simples razão de que ele, e só ele, é a semente de toda cultura possível.

Um mito fundador constitui-se, em geral, da narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional. Assim, por exemplo, Northrop Frye demonstrou que todos os esquemas narrativos conhecidos na grande literatura ocidental são variações de enredos bíblicos.

Ora, os esquemas narrativos da literatura superior são os padrões de autocompreensão imaginativa de uma civilização. E os padrões de autocompreensão imaginativa são, por sua vez, os esquemas de ação possíveis.

A Bíblia, mito fundador da civilização ocidental, está no fundo de toda a nossa compreensão de nós mesmos e de todas as nossas possibilidades de ação.

Fora disso, não há senão ideologia, erro, loucura. A desorientação radical da sociedade brasileira vem da ligação tênue, cada vez mais distante, cada vez mais evanescente, que nossa história tem com as raízes bíblicas da civilização do Ocidente. Tanto perdemos a compreensão do nosso mito fundador que chegamos a querer substituí-lo por mitos tribais, indígenas ou africanos, belos e sugestivos o quanto sejam, mas ineptos a dar forma a uma civilização vasta e complexa. Mas hoje descemos abaixo dos mitos tribais, que, limitados o quanto fossem, tinham a sua verdade. Já não queremos nem mesmo construir o Brasil em cima de verdades parciais. Queremos a mentira total. Queremos uma ideologia.

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