Arca Reaça

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O Papa Francisco e o declínio do Ocidente, por Dennis Prager

Os comentários do Papa Francisco na última semana revelam a coisa mais importante que você precisa saber sobre o mundo moderno: A mais dinâmica religião dos últimos cem anos tem sido o esquerdismo. Nem cristianismo nem islã. Esquerdismo.

O esquerdismo mundial tomou conta das principais instituições educacionais, dos meios de comunicação, dos meios de entretenimento e influencia o cristianismo (ou o judaísmo) muito mais que a cristandade (ou o judaísmo).

No dia 26 de julho, dois muçulmanos cortaram a garganta de um padre católico francês, Jacques Hamel, de 86 anos, enquanto ele estava rezando a missa em sua igreja.

Cinco dias depois, em seu avião que retornava a Roma da Jornada Mundial da Juventude em Cracóvia, na Polônia, o Papa Francisco foi questionado sobre o padre francês e o islamismo por Antoine Marie Izoarde, um jornalista da i.Media, um serviço de notícias católico:

Izoarde: Os católicos estão chocados, não apenas na França, após o assassinato bárbaro do Padre Jacques Hamel – como você bem sabe – em sua igreja enquanto celebrava a Santa Missa. Quatro dias depois o senhor disse que todas as religiões buscam a paz. Mas este Santo padre de 86 anos foi claramente assassinado em nome do Islã. Então, Santo Padre, eu tenho duas questões rápidas: Por que o senhor,quando fala desses casos violentos, sempre fala de terroristas mas nunca do islã, nunca usa a palavra islã… E quais iniciativas concretas o senhor aconselha ou sugere para conter a violência islâmica? Obrigado, santidade.

Segundo o serviço de notícias católico, isso foi o que o Papa Francisco respondeu:

Não gosto de falar em violência islâmica porque todos os dias, quando eu folheio os jornais, eu vejo violência, aqui na Itália… esse aqui matou sua namorada, o outro foi assassinado por sua madrasta… e eles são católicos batizados! Há católicos violentos! Se eu falar em violência islâmica, eu tenho de falar da violência católica.

O Papa da Igreja Católica, perguntado sobre terrorismo islâmico e um padre degolado por um terrorista islâmico, responde que há também terrorismo católico – que  um homem que foi batizado e “assassinou sua namorada” é o equivalente moral e religioso de muçulmanos que se dedicam ao assassinato em massa em nome do islã.

Como alguém pode comparar:

  1. Uma pessoa que foi batizada católica quando criança – e pode não se identificar com o catolicismo quando adulto – com um adulto que afirma sua identidade religiosa?
  2. O assassinato de uma namorada – provavelmente um crime passional – com o assassinato ritual de um padre católico porque ele é um padre?
  3. Assassinatos individuais desconectados de qualquer ideologia com o assassinato em massa cometido em nome de uma ideologia?

Pope Francis Leads Stations of The CrossO Papa Francisco acrescentou: “O terrorismo está em todo lugar… O terrorismo cresce quando não há outras opções, eq quando o centro da economia global é o Deus do dinheiro e não a pessoa – homem ou mulher – ele já é o primeiro terrorismo. Você  já excluiu a maravilha da criação – homem e mulher – e colocou o dinheiro em seu lugar. Esse é o terrorismo básico contra toda humanidade. Pense nisso!

“O terrorismo cresce quando não há outras opções”?

A ideia de que o terrorismo é um ato desesperado que emerge da pobreza é amplamente aceito entre a esquerda. Mas é completamente falso. A maioria dos terroristas islâmicos vem das classes média e superiores. Num caso recente de terroristas de Bangladesh, como exemplo, quase todos os envolvidos eram de alguma das mais ricas famílias do país. E, como deveria ser conhecido por todos, a maioria dos sequestradores do 11 de Setembro vieram de famílias de classe média e classe média alta.

O terrorismo islâmico não tem a ver com economia; tem a ver com sua teologia.

“O terrorismo cresce… quando o centro da economia global é o Deus do dinheiro”?

A busca pelo dinheiro e o terror não têm nada a ver. O terrorismo cresce apenas quando alguma ideologia o prega. Essa sentença apenas fornece uma desculpa para o terrorismo islâmico ao culpar a “economia global” e o “Deus dinheiro” em vez dos terroristas e seu Deus da morte.

“O primeiro terrorismo (acontece) quando o centro da economia global é o Deus dinheiro”?

É péssimo quando o dinheiro se torna um deus, mas não há comparação entre o “deus dinheiro” e os horrores do terrorismo islâmico. As mulheres yazidis não estão sendo vítimas de estupro coletivo e queimadas vivas por causa da “economia global” e seu “deus dinheiro”

A única explicação para essas afirmações é que o Papa Francisco herdou sua teologia do catolicismo mas, diferente de seu antecessor, Papa Bento XVI, sua moral deriva do esquerdismo.

A combinação ocidental da moral judaico-cristã e do liberalismo político, com suas doutrinas de responsabilidade moral, absolutos morais, confrontar o mal e liberdades política e social, produziram as sociedades mais morais da história do mundo.

O papa da Igreja Católica deveria ser seu maior advogado. Mas por causa do esquerdismo, ele não é.

Tradução do artigo “Pope Francis and the Decline of the West”, publicado originalmente na National Review.

Leia também:

“Adeus, Homens de Deus”, de Michael S. Rose

“Nenhum genocídio deve ser esquecido”, de José Serra

Agora que o parlamento da Alemanha reconheceu oficialmente o massacre de armênios pelo império Otomano como genocídio (leiam aqui), trazemos aos leitores do Reaçonaria um artigo de José Serra, agora ministro das Relações Exteriores do governo de Michel Temer, tratando do mesmo tema. A política externa nos tempos de PT tinha como premissa não fazer qualquer tipo de crítica, mesmo diante de crimes contra a humanidade, a aliados “estratégicos”, sendo estratégico para o PT tudo que fosse contra os EUA ou o que se entende por civilização ocidental.

O artigo número 2 da Convenção de Viena sobre Genocídio, de dezembro de 1948, descreve o genocídio como atos com o objetivo de “destruir, parcial ou totalmente, um grupo étnico, racial, religioso ou nacional”. O Papa Francisco disse, no ano passado, que o massacre dos armênios foi o primeiro genocídio do século XX. Esperamos que em breve o Brasil prove que está sob nova posição diante do mundo aprovando como posição oficial do país o reconhecimento do extermínio como genocídio.

Nenhum genocídio deve ser esquecido

Folha de SP, 24 de abril de 2009

O DIA de hoje, 24 de abril, lembra a campanha de extermínio movida pelo governo turco contra a população armênia em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial.

Nesse dia começaram a ser executadas ordens expressas de extermínio. Em dezenas de cidades do Império Turco-Otomano, onde conviviam pacificamente famílias de diferentes etnias, toda a população armênia masculina foi reunida à força, executada e empilhada em vales e cursos d’água.

Famílias inteiras foram amarradas e jogadas vivas nos rios, com um de seus membros morto a tiros, levando todos os demais ao afogamento. Estima-se que pelo menos 1,5 milhão de armênios tenham sido assassinados.

Pelo menos em um caso, homens foram concentrados em uma caverna e asfixiados com o gás carbônico produzido por imensas fogueiras. Mulheres e crianças foram deportadas de todo o império para os arredores de Alepo, na Síria (que integrava o Império Otomano), e reunidas em campos de concentração.

Parte da deportação se fez em trens de carga destinados ao transporte de gado. Nas centenas de quilômetros percorridos pela população feminina, a maioria a pé, grande parte das deportadas morreu de inanição ou de doença e as demais foram executadas.

As razões invocadas para o massacre -uma vez que a política de extermínio é até hoje negada- foram principalmente a alegada traição dos armênios, que teriam colaborado com o exército russo no início da guerra, a necessidade de limpeza racial para converter a Turquia, então multirracial, em uma nação uniformemente turca, e o fato de os armênios serem geralmente mais educados e mais ricos do que o restante da população.

Os assassinatos foram em grande número, houve deportações em massa, para dificultar a identificação dos perseguidos e limitar sua capacidade de reação ou de contar com ajuda externa. Recorreu-se à asfixia por gases, à inculpação das vítimas e, mais importante ainda, à denegação sistemática e à pressão e intimidação contra os que tentaram reconstituir os acontecimentos históricos. Nisso tudo o genocídio dos armênios foi exemplar.

Os fatos foram amplamente registrados, na época, pela imprensa americana e europeia, com destaque aos jornais britânicos. Documentos diplomáticos de diversos países relatam os massacres sistemáticos da população armênia masculina e a deportação em massa das mulheres com tudo o que isso implicava de estupros e mortes por doença e inanição, sem excluir o massacre final.

Líderes daquele tempo referiram-se ao extermínio -como Winston Churchill, em seu livro “The Aftermath”- e ninguém menos do que o controverso Kemal Ataturk, que viria a ser considerado o pai do moderno Estado turco, reconheceu em 1920 a existência do massacre, considerando-o “um ato vergonhoso”.

Não obstante suas diferenças relevantes, não há dúvida de que o extermínio dos armênios foi precursor no século 20 do genocídio judaico. O próprio Hitler, que concebeu e executou o Holocausto dos judeus, teria feito a comparação com a política nazista de deportação e extermínio em massa de poloneses: “Afinal, quem ainda fala sobre os armênios?”.

Mas ainda se fala, sim. Há relatos detalhados das atrocidades, um volume impressionante de resultados de pesquisas arqueológicas e, principalmente, depoimentos de vítimas que escaparam dos massacres.
Uma versão romantizada, mas não menos realista do massacre e das deportações iniciadas em 24 de abril, é o extraordinário filme dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, “La Masseria delle Allodele” (“A Casa das Cotovias”). Com sua conhecida sensibilidade e sofisticação de narrativa, os Taviani mostram o terrível emaranhado de sentimentos que uma situação de extermínio provoca dentro de uma família e de uma comunidade, com suas renúncias e cobiças, seus pequenos heroísmos e traições, e sua dor sem medida, que tanto desumanizam algozes e vítimas.

A noção de crime contra a humanidade pressupõe a ideia de negar às vítimas de uma campanha deliberada de extinção a própria condição de seres humanos, com seu direito inerente à existência. Esse é, aliás, o passo mais extremado de uma atitude que começa com o preconceito, estende-se à discriminação e culmina com o racismo. De fato, todos os processos conhecidos de extermínio em massa têm como pressuposto a superioridade de um credo ou de uma raça e a consequente inferioridade de outra.

GenocidioArmenios

Aqueles que, em pleno século 21, insistem em ressuscitar o conceito de raça e em criar legislações baseadas na premissa de que elas merecem tratamento diferenciado pelo Estado devem ser contidos em suas ações e pretensões, sob pena de incitarem, em algum momento do futuro, processos odiosos que não podem ser aceitos pela humanidade.

Por isso, nenhum genocídio deve ser esquecido, todos devem ser lembrados, seus responsáveis execrados, suas causas e motivações sempre pesquisadas e analisadas, suas brutalidades reconstituídas, suas vítimas homenageadas. Nunca esquecer para que não volte a acontecer.

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

A Superstição da Escola, por G. K. Chesterton

Trazemos hoje para o Arca Reaça um dos mais famosos e fundamentais ensaios de G.K. Chesterton, presente em todas as seleções de seus melhores textos curtos. Trata-se do “The Supersition of School”. Aqui, Chesterton critica o pensamento corrente de que o ensino é salvador, criador de homens melhores. E, como é comum em sua obra, elogia os homens normais, de reações normais, de senso comum.

O ensaio foi traduzido por Antônio Emílio Angueth de Araújo, colaborador do site “Chesterton Brasil“.

A Superstição da Escola

É um erro supor que o avanço dos anos traga opiniões retrógradas. Em outras palavras, não é verdade que o aumento dos anos implique no aumento do reacionarismo. Algumas das dificuldades dos tempos recentes são devidas ao otimismo dos velhos revolucionários. Magníficos homens de idade como o revolucionário russo Peter Kropotkin, o poeta Walt Whitman e William Morris foram para o túmulo esperando a Utopia, ainda que não esperassem o Paraíso. Mas a falsidade, como tantas falsidades, é uma versão falsa de uma meia verdade. A verdade, ou meia verdade, não é que os homens devam aprender com a experiência a serem reacionários; mas que eles devam aprender com a experiência a esperarem reações. E quando digo reações, quero dizer reações; devo desculpar-me, na cultura atual, por usar a palavra em seu sentido correto.

Se um menino dispara uma arma, seja numa raposa, num proprietário de terras ou no soberano reinante, ele será repreendido segundo o valor relativo desses objetos. Mas se ele dispara uma arma pela primeira vez, é provável que ele não espere o coice da arma, que ele não espere o forte golpe que ela pode dar-lhe. Ele pode passar a vida atirando nesses e em objetos similares; mas ficará cada vez menos surpreso com coice; isto é, pela reação. Ele pode até dissuadir sua pequena irmã de seis anos de atirar com rifles pesados, usados para matar elefantes; e, assim, dará a impressão de que está se tornando um reacionário. O mesmo princípio se aplica no disparo das grandes armas da revolução. Não é o ideal do homem que muda; não é sua Utopia que se altera; o cínico que diz, “Você esquecerá todo o brilho da lua do idealismo quando envelhecer”, diz o exato oposto da verdade. As dúvidas que chegam com a idade não são sobre o ideal, mas sobre o real. E uma das coisas que é inegavelmente real é a reação; isto é, a probabilidade prática de alguma reversão de direção, e de nosso sucesso parcial em fazer o oposto do pretendido. O que a experiência realmente nos ensina é: que há algo na estrutura e no mecanismo da espécie humana, pelo qual o resultado da ação sobre ela é sempre inesperada, e quase sempre mais complicada do que antecipamos.

Esses são os empecilhos da sociologia; e um deles está relacionado com a Educação. Se você me pergunta se penso que a população, especialmente a sua parte pobre, deve ser reconhecida como composta de cidadãos que podem governar o estado, respondo, com uma voz de trovão, “Sim”. Se você me pergunta se penso que eles devam ter educação, no sentido de uma cultura ampla e uma familiaridade com os clássicos da história, respondo novamente, “Sim”. Mas há, na consecução desse propósito, um tipo de empecilho ou coice que só pode ser descoberto pela experiência e não aparece impresso em papel, como acontece com o coice de uma arma. Mesmo assim, ele é, neste momento crucial, uma parte precipuamente prática de política prática; e, apesar de estar sendo um problema há bastante tempo, ele tem sido, sob condições recentes, um pouco mais enfatizado (se me permitem colorir essas páginas serenas e imparciais com uma sugestão política) de forma a trazer para o front, tantos socialistas altamente respeitáveis e tantas autoridades sindicais tão amplamente respeitadas.

O empecilho é este: que os educados pensam excessivamente em educação. Devo adicionar que os meio-educados consideram a educação como o ideal supremo. Esse não é um fato que apareça na superfície do ideal ou plano social; é o tipo de coisa que só pode ser descoberto pela experiência. Quando disse que desejava que o sentimento popular encontrasse expressão política, falei sobre o sentimento popular, real e autóctone que pode ser encontrado nos meios de transporte de terceira classe, nas festas folclóricas, nas festas nos feriados; e especialmente, claro (para o mais rígido investigador social da verdade), nos bares. Pensei, e ainda penso, que essas pessoas estão certas num vasto número de coisas em que os líderes populares estão errados. O empecilho é que quando uma dessas pessoas começa a “aprimorar-se”, este é exatamente o momento em que começo a duvidar se aquilo é um aprimoramento. Esse indivíduo parece coletar com impressionante velocidade um número de superstições, das quais a mais cega e ignorante pode ser chamada de Superstição da Escola. Ele considera a Escola, não como uma instituição social normal, como o Lar, a Igreja, o Estado; mas como um tipo inteiramente supernormal e milagroso de fábrica moral, em que são fabricados, por mágica, os homens e as mulheres perfeitas. A essa idolatria da Escola ele está pronto a sacrificar o Lar, a História e a Humanidade, com todos seus instintos e possibilidades, imediatamente. A esse ídolo ele fará qualquer sacrifício, especialmente sacrifício humano. E no fundo da mente, especialmente da mente dos melhores homens desse tipo, há quase sempre uma de duas variantes da mesma concepção concentrada: ou “Se não fosse a Escola, eu não teria sido o grande homem que sou agora”, ou “Se eu tivesse freqüentado a Escola, eu seria maior ainda do que sou agora”. Que ninguém diga que estou zombando de pessoas que não tiveram educação; não zombo de sua “deseducação”, mas de sua educação. Que ninguém tome isso como um desprezo pelos meio-educados; desgosto da metade educada. Mas desgosto deles, não porque desgosto da educação, mas porque, dada a filosofia moderna ou a ausência dela, a educação está sendo voltada contra si própria, destruindo o próprio sentido de variedade e proporção que é o objeto da educação.

Ninguém que adora a educação aproveitou o máximo dela; ninguém que sacrifica tudo pela educação é sequer educado. Não preciso mencionar aqui os muitos exemplos recentes dessa monomania, que rapidamente se torna uma perseguição louca, como a absurda perseguição das pessoas que vivem em barcos. O que está errado é o desprezo de um princípio; e o princípio é que sem um gentil desprezo pela educação, nenhuma educação de um gentil-homem está completa.

Uso uma frase casual, casualmente; pois não me preocupo com o gentil-homem, mas com o cidadão. Contudo, há uma meia-verdade histórica no caso da aristocracia; que é, às vezes, um pouco mais fácil para o aristocrata ter esse último toque de cultura, que é uma superioridade em relação à cultura. Contudo, a verdade sobre a qual falo não tem nada a ver com qualquer cultura ou classe especial. Ela já pertenceu a um grande número de camponeses, especialmente quando eram poetas; é isso que dá um tipo de distinção natural a Robert Burns e aos poetas camponeses da Escócia. O poder que a produz mais eficazmente que qualquer linhagem de sangue ou raça é a religião; pois religião pode ser definida como aquilo que coloca em primeiro lugar as coisas primeiras. Robert Burns era justificadamente impaciente com a religião que herdou do calvinismo escocês; mas ele devia algo a essa herança. Sua consideração instintiva dos homens como homens veio de seus ancestrais que se preocupavam ainda mais com a religião do que com a educação. No momento que os homens se preocupam mais com a educação que com a religião, eles começam a se preocupar mais com a ambição do que com a educação. Não é mais um mundo em que as almas são todas iguais perante os céus, mas um mundo em que a mente de cada um é direcionada a atingir vantagens desiguais sobre os outros. Começa a ser pura vaidade ser educado, seja auto-educado ou educado pelo estado. A educação deve ser uma lanterna dada a um homem para explorar tudo, mas muito especialmente as coisas mais distantes dele. A educação tende a ser um holofote que está centrado em si mesmo. Alguns aprimoramentos podem ser feitos, colocando holofotes igualmente luminosos e talvez vulgares nas outras pessoas. Mas a cura final é desligar as luzes da ribalta e deixá-lo perceber as estrelas.

Este artigo está também disponível neste link.

O homem não é só o produto de condições econômicas

O Papa Emérito da Igreja Católica, Joseph Ratzinger, que adotou o nome papal Bento XVI, é um dos maiores teólogos da história. Seus discursos, livros e encíclicas são ótimos objetos de estudo e mergulho espiritual e estão muito à frente da melhor produção intelectual contemporânea. O que segue abaixo é um trecho da Spe Salvi, segunda Carta Encíclica produzida por Bento XVI e divulgada em 30 de novembro de 2007. Neste trecho, Bento XVI trata de um momento de crise espiritual provocada pelas novas formas de fé (razão, liberdade, técnica, conhecimento científico) e explica porque o marxismo é o grande equívoco emergido deste período.

SPE SALVI – Parágrafos 20 e 21

O século XIX não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana e continuou a considerar razão e liberdade como as estrelas-guia a seguir no caminho da esperança. Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado « proletariado industrial », cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de modo impressionante por Frederico Engels, em 1845. Ao leitor, devia resultar claro que isto não pode continuar; é necessária uma mudança. Mas a mudança haveria de abalar e derrubar toda a estrutura da sociedade burguesa. Depois da revolução burguesa de 1789, tinha chegado a hora para uma nova revolução: a proletária. O progresso não podia limitar-se a avançar de forma linear e com pequenos passos. Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo passo grande e, como supunha, definitivo da história rumo à salvação, rumo àquilo que Kant tinha qualificado como o « reino de Deus ». Tendo-se diluída a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade de aquém. A crítica do céu transforma-se na crítica da terra, a crítica da teologia na crítica da política. O progresso rumo ao melhor, rumo ao mundo definitivamente bom, já não vem simplesmente da ciência, mas da política – de uma política pensada cientificamente, que sabe reconhecer a estrutura da história e da sociedade, indicando assim a estrada da revolução, da mudança de todas as coisas. Com pontual precisão, embora de forma unilateralmente parcial, Marx descreveu a situação do seu tempo e ilustrou, com grande capacidade analítica, as vias para a revolução. E não só teoricamente, pois com o partido comunista, nascido do manifesto comunista de 1848, também a iniciou concretamente. A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.

Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exactidão o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse, como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições; o homem e o mundo haveriam finalmente de ver claro em si próprios. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo recto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lenin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermédia da ditadura do proletariado como de uma necessidade que, porém, num segundo momento ela mesma se demonstraria caduca. Esta « fase intermédia » conhecemo-la muito bem e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora. Marx não falhou só ao deixar de idealizar os ordenamentos necessários para o mundo novo; com efeito, já não deveria haver mais necessidade deles. O facto de não dizer nada sobre isso é lógica consequência da sua perspectiva. O seu erro situa-se numa profundidade maior. Ele esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de facto, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições económicas favoráveis.

Leiam a Encíclica completa no site oficial do Vaticano: http://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi.html

Revisado por Maíra Adorno @mairamadorno

O Estado Covarde

Afundado em uma crise econômica que empobrece a população e num surto de doenças transmitidas por mosquitos, o país acaba se esquecendo de sua maior desgraça: a criminalidade desenfreada. Manter a ordem e ter uma justiça funcional deveria ser a primeira preocupação dos governantes, mas no Brasil, combater marginais é coisa quase proibida. Para tratar dessa grave distorção, trazemos hoje ao Arca Reaça um artigo de 2006 de Olavo de Carvalho que deveria ser lido e absorvido por todos aqueles que se pretendem líderes políticos:

O ESTADO COVARDE

Uma coisa espantosa no Brasil de hoje é a candura, a inocência pueril ou mongolóide com que, num país onde ocorrem 50 mil homicídios por ano, as pessoas se acomodam à violência como uma fatalidade inevitável , dizendo de si para si que aquilo que não tem remédio remediado está, e saem buscando soluções para outros problemas em volta.

Digo cinqüenta mil porque é a estatística oficial da ONU. Segundo o repórter espanhol Luís Mir são 150 mil. Mas, se fossem cinqüenta mil, já seria o equivalente a três guerras do Iraque por ano, em tempo de paz.

Quem pode fazer a economia render, ampliar o mercado de empregos, aumentar a produção de bens, melhorar a distribuição, numa sociedade onde ninguém tem o mínimo de segurança física para saber se vai voltar vivo do trabalho? Quem pode pensar em educação, saúde, habitação, vestuário, se está sob ameaça de morte 24 horas por dia?

Isso é tudo ilusão, besteira, desconversa. Sem segurança não há progresso, educação, saúde, nem coisa nenhuma. Todo mundo sabe disto e faz de conta que não sabe. Faz de conta porque tem medo de enfrentar o problema fundamental, e então sai brincando de resolver os problemas periféricos só para dar “a si mesmo ou à platéia” a impressão de que está fazendo alguma coisa.

A taxa anual de homicídios no Brasil significa, pura e simplesmente, que não há ordem pública, não há lei nem direito, não há Estado, não há administração, há apenas um esquema estatal de dar emprego para vagabundos, sanguessugas, farsantes. O Estado brasileiro é uma instituição de auto-ajuda dos incapazes. E você, brasileiro, paga. Paga a pantomima toda. Paga para o sr. Gilberto Gil fazer de conta que é culto, paga para o sr. Nelson Jobim fazer de conta que é honesto, até para o sr. Lula da Silva fazer de conta que preside alguma coisa.

O Brasil, na verdade, só tem dois problemas: a insegurança geral e a inépcia da classe dirigente. O primeiro não deixa ninguém viver e o segundo anestesia a galera para que não ligue e trate de pensar em outra coisa.

Desaparecidos esses dois problemas, a sociedade encontraria sozinha as soluções dos demais, sem precisar da ajuda de governo nenhum. A sociedade pode perfeitamente criar e distribuir riqueza, dar educação às crianças, encontrar meios de que todos tenham uma renda decente, moradia, saúde, assistência na velhice.

O que a sociedade não pode é garantir a ordem pública pela força das armas e educar os governantes para que governem. Isso tem de vir do Estado. Mas o Estado, justamente para não ter de fazer o que lhe compete, prefere se meter em todo o mais. É o Estado educador, o Estado médico, o Estado assistente social, o Estado onissapiente. Só não é o Estado-Estado. Só não é o que tem de ser.

É o Estado que tem cada vez mais poder sobre os cidadãos e menos poder contra os inimigos do cidadão. É o Estado santarrão, pomposo, grandiloqüente e covarde.

Este artigo está originalmente disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/060221dce.htm

Dia Internacional da Memória do Holocausto – Discurso de Bento XVI

O dia de hoje é aquele em que o mundo inteiro se lembra da tragédia do Holocausto.

O nazismo, todos sabemos, foi aquela mistura macabra de teorias científicas criminosas (eugenia e racismo) com movimentos políticos (socialismo e nacionalismo) levadas adiante pelas mais modernas técnicas industriais e militares da época. Lembrar o Holocausto é uma penitência que a humanidade deve pagar por ter permitido tamanha atrocidade.

Em memória a isto, trazemos hoje para o Arca Reaça um discurso de Bento XVI, o papa alemão, em visita ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Bento XVI trata da grande questão teológica que se fez novamente relevante num mundo já naquela época cada vez mais materialista e secularizado: Como pôde Deus permitir tamanho mal?

DISCURSO DO SANTO PADRE  DURANTE A VISITA AO CAMPO  DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ-BIRKENAU

Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.

Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse: “Venho hoje aqui… Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.

Como Papa, não podia deixar de vir aqui”. O Papa João Paulo II veio aqui como filho daquele povo que, ao lado do povo judeu, teve que sofrer mais neste lugar e, em geral, durante a guerra: “Foram seis milhões de Polacos, que perderam a vida durante a segunda guerra mundial: um quinto da nação”, recordou então o Papa. Aqui, ele elevou a solene admoestação ao respeito dos direitos do homem e das nações, que antes dele tinham elevado diante do mundo os seus Predecessores João XXIII e Paulo VI, e acrescentou: “Pronuncia estas palavras […] o filho da nação que na sua história remota e mais recente sofreu numerosas angústias infligidas por outros. E não o diz para acusar, mas para recordar. Fala em nome de todas as nações, cujos direitos são violados e esquecidos…”.

O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui. A 7 de Junho de 1979 estive aqui como Arcebispo de Munique-Frisinga entre os numerosos Bispos que acompanhavam o Papa, que o escutavam e rezavam com ele. Em 1980 voltei mais uma vez a este lugar de horror com uma delegação de Bispos alemães, abalado por causa do mal e reconhecido pelo facto de que acima das trevas tinha surgido a estrela da reconciliação. Ainda é esta a finalidade pela qual me encontro hoje aqui: para implorar a graça da reconciliação antes de tudo de Deus, o único que pode abrir e purificar os nossos corações; depois, dos homens que sofreram; e por fim, a graça da reconciliação para todos os que, neste momento da nossa história, sofrem de maneira nova sob o poder do ódio e sob a violência fomentada pelo ódio.

Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: “… Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas… por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!” (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.

Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo. Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n’Ele. Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus. 

O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.

Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: “estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro”, verificam-se de modo terrível.

No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre. Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte. Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom. Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado como lebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.

Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão: libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Stálin e da ideologia comunista. Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro. Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele. Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: “Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes” (cf. Dn 3, 17s).

Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda: “Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar”.

Graças a Deus, com a purificação da memória, à qual nos estimula este lugar de horror, crescem à sua volta numerosas iniciativas que desejam pôr um limite ao mal e dar força ao bem. Há pouco pude abençoar o Centro para o Diálogo e a Oração. Nas imediatas proximidades tem lugar a vida escondida das irmãs carmelitas, que estão particularmente unidas ao mistério da cruz de Cristo e nos recordam a fé dos cristãos, que afirma que o próprio Deus desceu ao inferno do sofrimento e sofre juntamente connosco. Em Oswiecim existe o Centro de São Maximiliano e o Centro Internacional de Formação sobre Auschwitz e sobre o Holocausto. Depois, há a Casa Internacional para os Encontros da Juventude. Numa das Antigas Casas de Oração existe o Centro Hebraico. Por fim está a constituir-se a Academia para os Direitos do Homem. Assim podemos esperar que do lugar do horror nasça e cresça uma reflexão construtiva e que recordar ajude a resistir ao mal e a fazer triunfar o amor.

A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um “vale escuro”. Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade: “O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança… habitarei na casa do Senhor para todo o sempre” (Sl 23, 1-4.6).

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Do mito à ideologia, por Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 29 de Março de 2001

A falta de santos, de místicos, de filósofos, num país de dimensões continentais e 500 anos de existência, já basta para fazer dele uma anomalia espiritual assustadora, provavelmente sem similar na História universal.

Porém mais anormal ainda é que ninguém se preocupe com isso, que todos creiam dever constituir primeiro a sociedade ideal, com 200 milhões de cidadãos satisfeitos e rechonchudos, para depois, só depois, tratar de adquirir alguma consistência no plano do espírito. Esta pretensão insensata é talvez a maior manifestação de desprezo coletivo à “única coisa necessária” que já se observou na espécie humana.

Não há, no repertório das possibilidades históricas conhecidas, exemplo de sociedade que lograsse encher todos os estômagos para só depois alimentar os corações e cérebros. Os povos mais primitivos, as comunidades mais rudimentares já mostravam saber que algum tipo de conhecimento metafísico precedia no tempo e na ordem hierárquica dos fatores a organização material da sociedade – pois a sociedade é feita por homens, e a organização da alma humana precede a possibilidade mesma da ação racional na sociedade.

A expressão “mito fundador” anda hoje nas bocas dos nossos acadêmicos, mas é evidente que eles não têm a menor idéia do que seja isso. Imaginam que se trate de uma enorme ilusão coletiva inventada por espertalhões da classe dominante para colocar os homens a seu serviço – uma imensa cenoura de burro a orientar o trajeto da carroça histórica. Santo Deus! Acham que mito fundador é ideologia.

O conceito de mito fundador vem de Schelling. Um mito fundador não é uma ideologia. Ideologia é um discurso que não compreende a realidade, mas motiva os homens a substituir uma realidade que compreenderam mal por outra da qual não vão compreender nada. Inspirados pela ideologia do socialismo, os seguidores de Lenin substituíram a sociedade tzarista, da qual tinham uma compreensão falseada, pela monstruosidade incompreensível que foi a sociedade soviética. Inspirados nos falsos diagnósticos sociais de Hitler, os nazistas desmantelaram uma república que não compreendiam e puseram no lugar dela um pesadelo ininteligível. Guiados por pessoas que acham que mito fundador é ideologia, um povo que não compreende a raiz de seus males se prepara, neste país, para produzir males infinitamente maiores que, se vierem a se consumar, talvez já não possam ser compreendidos por nenhuma inteligência humana.

Ideologia é isso: um discurso que, partindo de uma falsa visão do presente, atrai os homens para a construção de um futuro que, depois de pronto, é feio demais para que suportem reconhecer nele a obra de suas mãos. Por isso os desiludidos de ideologias criminosas raramente se apresentam como aquilo que são: cúmplices fracassados de um crime sem recompensa. Apresentam-se como vítimas traídas pelo destino. Falseiam o passado como falsearam o futuro.

Um autêntico mito fundador, ao contrário, é uma verdade inicial compactada que, no desenrolar da História, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização. Um mito fundador não é um “produto cultural”, pela simples razão de que ele, e só ele, é a semente de toda cultura possível.

Um mito fundador constitui-se, em geral, da narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional. Assim, por exemplo, Northrop Frye demonstrou que todos os esquemas narrativos conhecidos na grande literatura ocidental são variações de enredos bíblicos.

Ora, os esquemas narrativos da literatura superior são os padrões de autocompreensão imaginativa de uma civilização. E os padrões de autocompreensão imaginativa são, por sua vez, os esquemas de ação possíveis.

A Bíblia, mito fundador da civilização ocidental, está no fundo de toda a nossa compreensão de nós mesmos e de todas as nossas possibilidades de ação.

Fora disso, não há senão ideologia, erro, loucura. A desorientação radical da sociedade brasileira vem da ligação tênue, cada vez mais distante, cada vez mais evanescente, que nossa história tem com as raízes bíblicas da civilização do Ocidente. Tanto perdemos a compreensão do nosso mito fundador que chegamos a querer substituí-lo por mitos tribais, indígenas ou africanos, belos e sugestivos o quanto sejam, mas ineptos a dar forma a uma civilização vasta e complexa. Mas hoje descemos abaixo dos mitos tribais, que, limitados o quanto fossem, tinham a sua verdade. Já não queremos nem mesmo construir o Brasil em cima de verdades parciais. Queremos a mentira total. Queremos uma ideologia.

Fonte

A Igreja do Diabo, de Machado de Assis

A IGREJA DO DIABO

 Capítulo I

De uma idéia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

 — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

 Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

 Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

— Que me queres tu? perguntou este.

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

 — Explica-te.

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros…

 — Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação… Boa idéia, não vos parece?

 — Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.

 — Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência… Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

— Vai.

 — Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

 — Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.

 O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:

— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura…

 — Velho retórico! murmurou o Senhor.

 — Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida… Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda… Vou a negócios mais altos…

 Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?

 — Já vos disse que não.

— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

 — Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

— Negas esta morte?

 — Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los…

— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens… Mas, vai! vai!

Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III

 A boa nova aos homens

 Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

 — Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo…

Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.

Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu…” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.

As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.

Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

 E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

 Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV

Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.

Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.

A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meterse na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.

 Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fonte

Ruy Barbosa: “O Brasil não é isso” e “O que é o Brasil?”

Hoje trazemos ao Arca Reaça um dos muitos tesouros do site “Pensadores Brasileiros” que corre o risco de se perder nos arquivos da internet. São trechos do discurso de Rui Barbosa em 20 de março de 1919. Quase 100 anos depois, o Brasil ainda não tem uma identidade digna e sofre dos mesmos problemas, que se variaram foi apenas na intensidade ou nas “evoluções” de gravidade:

O BRASIL NÃO É ISSO

Será isto, realmente, o que nós somos? Não seria o povo brasileiro mais do que esse espécimen do caboclo mal desasnado*, que não se sabe ter de pé, nem mesmo se senta, conjunto de todos os estigmas de calaçaria e da estupidez, cujo voto se compre com um rolete de fumo, uma andaina de sarjão e uma vez d’aguardente? Não valerá realmente mais o povo brasileiro do que os conventilhos de advogados administrativos, as quadrilhas de corretores políticos e vendilhões parlamentares, por cujas mãos corre, barateada, a representação da sua soberania? Deverão, com efeito, as outras nações, a cujo grande conselho comparecemos, medir o nosso valor pelo dessa troça de escaladores do poder, que o julgam ter conquistado, com a submissão de todos, porque, em um lance de roleta viciada, empalmaram a sorte e varreram a mesa?

Não. Não se engane o estrangeiro. Não nos enganemos nós mesmos. Não! O Brasil não é isso. Não! O Brasil não é o sócio de clube, de jogo e de pândega dos vivedores, que se apoderaram da sua fortuna, e o querem tratar como a libertinagem trata as companheiras momentâneas da sua luxúria. Não! O Brasil não é esse ajuntamento coletício de criaturas taradas, sobre que possa correr, sem a menor impressão, o sopro das aspirações, que nesta hora agitam a humanidade toda. Não! O Brasil não é essa nacionalidade fria, deliqüescente, cadaverizada, que receba na testa, sem estremecer, o carimbo de uma camarilha, como a messalina recebe no braço a tatuagem do amante, ou o calceta, no dorso, a flor-de-lis do verdugo. Não! O Brasil não aceita a cova, que lhe estão cavando os cavadores do Tesouro, a cova onde o acabariam de roer até aos ossos os tatus-canastras da politicalha. Nada, nada disso é o Brasil.

O QUE É O BRASIL

O Brasil não é isso. É isto. O Brasil, senhores, sois vós. O Brasil é esta assembléia. O Brasil é este comício imenso de almas livres. Não são os comensais do erário. Não são as ratazanas do Tesoiro. Não são os mercadores do Parlamento. Não são as sanguessugas da riqueza pública. Não são os falsificadores de eleições. Não são os compradores de jornais. Não são os corruptores do sistema republicano. Não são os oligarcas estaduais. Não são os ministros de tarraxa. Não são os presidentes de palha. Não são os publicistas de aluguel .Não são os estadistas de impostura. Não são os diplomatas de marca estrangeira. São as células ativas da vida nacional. É a multidão que não adula, não teme, não corre, não recua, não deserta, não se vende. Não é a massa inconsciente, que oscila da servidão à desordem, mas a coesão orgânica das unidades pensantes, o oceano das consciências, a mole das vagas humanas, onde a Providência acumula reservas inesgotáveis de calor, de força e de luz para a renovação das nossas energias. É o povo, em um desses movimentos seus, em que se descobre toda a sua majestade.

RuyBarbosa

Diplomata, escritor, político e jornalista, Ruy Barbosa é uma das figuras fundamentais da história brasileira. Trecho de seu verbete na Wikipédia:

Um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, foi um dos organizadores da República e coautor da constituição da Primeira República juntamente com Prudente de Morais. Ruy Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Primeiro Ministro da Fazenda do regime instaurado em novembro de 1889, sua breve e discutida gestão foi marcada pela crise do encilhamento sob a proposição de reformas modernizadoras da economia. Destacou-se, também, como jornalista e advogado.

Foi deputadosenadorministro. Em duas ocasiões, foi candidato à Presidência da República. Empreendeu a Campanha Civilista contra o candidato militar Hermes da Fonseca. Notável orador e estudioso da língua portuguesa, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sendo presidente entre 1908 e 1919.

Como delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (1907), notabilizou-se pela defesa do princípio da igualdade dos estados. Sua atuação nessa conferência lhe rendeu o apelido de “O Águia de Haia“. Teve papel decisivo na entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial. Já no final de sua vida, foi indicado para ser juiz da Corte Internacional de Haia, um cargo de enorme prestígio, que recusou.

* Desasnado = Que se desasnou, que deixou de ser asno

“Não existe delinquente juvenil”, Robert A. Heinlein

Um diálogo primoroso do livro “Tropas Estelares” é o nosso destaque de hoje no Arca Reaça. Enviado pelo leitor Alexandre Oswald, ajuda a botar em termos corretos o debate sobre a violência no país e a participação de menores de idade nesta crise, especialmente no que diz respeito à série de arrastões no Rio de Janeiro e litoral paulista.

Percebi que estava me lembrando de uma discussão em nossa classe de História e Filosofia da Moral. O Sr. Dubois estava falando sobre as desordens que precederam a queda da república da América do Norte, no século XX. De acordo com ele, houve uma época logo antes de eles entrarem pelo ralo em que crimes como os de Dillinger eram tão comuns como brigas de cachorros. O Terror não tinha sido apenas na América do Norte – a Rússia, as Ilhas Britânicas e outras partes do mundo também o tinham. Mas alcançou o pico na América do Norte logo antes de as coisas ruírem.
— Pessoas cumpridoras da lei, — Dubois tinha nos contado, — raramente ousavam ir a um parque público à noite. Fazer isso era se arriscar a ser atacado por alcatéias de crianças, armadas com correntes, facas, armas feitas em casa, porretes… se arriscar a no mínimo ser ferido, quase certamente roubado, provavelmente aleijado pelo resto da vida – ou até mesmo morto. Isso continuou por anos, até a guerra entre a Aliança Russo-Anglo-Americana e a Hegemonia Chinesa. Assassinato, vício em drogas, furto, assalto e vandalismo eram coisas comuns. E os parques não eram os únicos lugares – essas coisas também aconteciam nas ruas, à luz do dia, nos pátios das escolas, até mesmo dentro dos prédios escolares. Mas os parques eram tão notoriamente inseguros que gente honesta ficava longe deles após o escurecer.

Tinha tentado imaginar essas coisas acontecendo em nossas escolas. Simplesmente não podia. Nem em nossos parques. Um parque era um lugar para diversão, não pra ser ferido. E ser assassinado em um… — Sr. Dubois, eles não tinham polícia? Ou tribunais?
— Tinham muito mais polícia do que nós. E mais tribunais. Todos com trabalho em excesso.
— Acho que não entendo. — Se um garoto em nossa cidade tivesse feito metade daquilo… bem, ele e o pai teriam sido açoitados lado a lado. Mas essas coisas simplesmente não aconteciam.
O Sr. Dubois então me intimou: — Defina um “delinqüente juvenil”.
— Ãh, um daqueles garotos – aqueles que batiam nas pessoas.
— Errado.
— Ãhn? Mas o livro diz…
— Minhas desculpas. O seu livro texto diz isso. Mas chamar um rabo de perna não faz com que o nome sirva. “Delinqüente juvenil” é uma contradição em termos, uma que dá uma pista para o problema deles e a sua falha em resolvê-lo. Você já criou um cachorrinho?
— Sim, senhor.
— Você o treinou para não fazer as suas necessidades dentro de casa?
— Bem… sim, senhor. Após algum tempo. — Foi a minha lerdeza nisso que fez com que a mãe decidisse que cães deviam ficar fora de casa.
— Ah, sim. Quando seu cachorrinho fazia besteira, você ficava zangado?
— Que? Oras, ele não sabia o que fazia, estava apenas sendo um cachorrinho.
— O que você fazia?
— Oras, eu dava um bronca, esfregava o nariz dele na sujeira e dava uns tapinhas.
— Certamente ele não podia entender as suas palavras?
— Não, mas podia perceber que eu estava chateado com ele!
— Mas você acabou de dizer que não estava zangado. O Sr. Dubois tinha um jeito de confundir as pessoas que nos deixava furiosos. — Não, mas eu tinha de fazer ele pensar que eu estava. Ele tinha de aprender, não é?
— Concordo. Mas, tendo tornado claro a ele que você desaprovava o que ele fez, como pode ser tão cruel a ponto de também bater nele. Você disse que o pobre bicho não sabia que estava fazendo algo de errado. Mesmo assim você fez ele sofrer dor. Justifique-se! Ou você é um sádico?

Na época eu não sabia o que era um sádico – mas sabia sobre cachorrinhos. — Sr. Dubois, você tem de fazer assim! Você dá uma bronca nele pra que ele saiba que fez algo errado, você esfrega o nariz dele naquilo pra que ele saiba do que você está falando, você dá uns tapas nele pra que ele não faça isso de novo – e tem de fazer isso na hora! Não ajuda nada castigar ele mais tarde; vai apenas confundi-lo. Mesmo assim, ele não vai aprender com uma lição, então você o vigia e o pega de novo e bate mais forte. Bem rápido ele aprende. Mas é uma perda de tempo apenas dar uma bronca nele. — Então acrescentei: — Aposto que o senhor nunca criou cachorrinhos.
— Muitos. Estou criando um dachshund agora – pelos seus métodos. Vamos voltar àqueles criminosos juvenis. Os piores de todos eram em média ligeiramente mais jovens do que vocês aqui nesta classe… E geralmente começavam na carreira do crime bem mais jovens. Não nos esqueçamos daquele cachorrinho. Aquelas crianças eram pegas muitas vezes; a polícia prendia montes delas todos os dias. Elas levavam broncas? Sim, em geral severas. Os seus narizes eram esfregados no que haviam feito? Raramente. Órgãos de imprensa e do governo em geral mantinham os nomes delas em segredo – em muitos lugares isso era exigido por lei para criminosos de menos de dezoito anos. Elas apanhavam? De jeito nenhum! Muitas não tinham apanhado nem mesmo quando eram pequenas; havia uma crença generalizada de que bater nas crianças, ou dar-lhes qualquer punição que envolvesse dor, causava um dano psíquico permanente.
(Cheguei à conclusão de que o meu pai nunca tinha ouvido falar daquela teoria.)
— Punição corporal nas escolas era proibida por lei, — ele continuou. — Açoitamentos eram legais como sentença de um tribunal apenas em uma pequena província, o Delaware, e mesmo lá apenas para uns poucos crimes e raramente era invocado; era considerado como uma ” punição cruel e incomum”.
Dubois estava pensando em voz alta: — Não compreendo essas objeções a punição “cruel e incomum”. Apesar de que um juiz deva ser benevolente em seus propósitos, suas sentenças devem fazer com que o criminoso sofra, senão não há punição – e a dor é o mecanismo básico construído dentro de nós, que nos protege, avisando-nos quando algo ameaça a nossa sobrevivência. Por que iria a sociedade se recusar a usar um tal mecanismo de sobrevivência tão altamente aperfeiçoado. No entanto, aquele período estava recheado de absurdos pseudopsicológicos.

— Quanto a “incomum”, uma punição deve ser incomum ou não serve de nada. — Então ele apontou o coto para outro garoto. — O que aconteceria se um cachorrinho fosse espancado toda hora?
— Ãh… provavelmente ficaria louco!
— Provavelmente. Certamente não ensinaria a ele coisa alguma. Quando tempo faz desde a última vez que o diretor desta escola teve de chicotear um aluno?
— Ãh, não tenho certeza. Uns dois anos. Foi o garoto que roubou…
— Não importa. Tempo suficiente. Isso quer dizer que é uma punição incomum o bastante para ser significante, para desencorajar, para ensinar. De volta àqueles jovens criminosos -Eles provavelmente não apanharam quando pequenos; certamente não foram açoitados por seus crimes. A seqüência usual era: por um primeiro delito, um aviso – uma reprimenda, geralmente sem julgamento. Após vários delitos uma sentença de confinamento mas com a sentença suspensa e o jovem colocado em um período de experiência. Um garoto podia ser preso e condenado várias vezes antes que fosse punido – e então isso seria apenas com confinamento, junto de outros como ele, de quem aprenderia hábitos ainda mais criminosos. Se se mantivesse afastado de maiores problemas enquanto confinado, podia em geral até mesmo evitar a maior parte daquela punição suave e ser colocado em experiência – “liberdade condicional” no jargão da época.

Esta incrível seqüência de acontecimentos podia continuar por anos enquanto os seus crimes aumentavam em freqüência e perversidade, sem qualquer conseqüência a não ser raros chatos-mas-confortáveis confinamentos. Então subitamente, em geral pela lei em seu aniversário de dezoito anos, este assim chamado “delinqüente juvenil” se torna um criminoso adulto – e algumas vezes em apenas semanas ou meses acaba numa cela do corredor da morte esperando a execução por assassinato. Você! Tinha me escolhido de novo. — Suponha que apenas desse broncas em seu cachorrinho, nunca o punisse, deixasse ele fazer coisas erradas em casa… e de vez em quando o trancasse numa casinha mas logo o deixasse voltar pra dentro de casa com uma advertência pra não fazer aquelas coisas de novo. Então um dia você nota que ele é um cachorro crescido e ainda não está ensinado a fazer sujeira no lugar certo – depois do que você saca uma arma e o mata. Comente, por favor?
— Oras… esse é o jeito mais maluco de criar um cachorro que eu já ouvi falar!
— Concordo. Ou uma criança. De quem seria a culpa?
— Ãh… oras, minha, eu acho.
— Concordo de novo. Mas tenho certeza.
— Mas Sr. Dubois, — uma garota falou num impulso, — por quê? Por que eles não batiam nas crianças pequenas quando elas precisavam e não usavam uma boa dose de couro em qualquer um dos mais velhos que merecesse – o tipo de lição que nunca esqueceriam! Falo daqueles que faziam coisas realmente más. Por que não?
— Eu não sei, — ele respondeu seriamente, — exceto que o método testado pelo tempo de insular virtude social e respeito pela lei nas mentes dos jovens não atraía uma classe pré-científica e pseudoprofissional que chamava a si mesma de “trabalhadores sociais” ou algumas vezes “psicólogos infantis”. Aparentemente isso era simples demais para eles, já que qualquer um podia fazer, usando apenas a paciência e firmeza necessárias para treinar um cachorrinho. Algumas vezes me perguntei se eles tinham nutrido um velado interesse na desordem – mas isso é improvável; adultos quase sempre agem pelos “mais altos motivos” conscientes, não importa qual seja o seu comportamento.
— Mas – meu Deus! — a garota respondeu. — Eu não gostava de apanhar mais do qualquer criança gosta, mas quando precisei disso, mamãe me deu. A única vez em que fui castigada na escola apanhei de novo quando cheguei em casa – e isso foi anos e anos atrás. Não espero nunca ser arrastada pra frente de um juiz e sentenciada a ser açoitada; você se comporta e essas coisas não acontecem. Não vejo nada de errado com nosso sistema; é muito melhor do que não ser capaz de ir pra rua por medo de morrer – oras, aquilo é horrível!
— Concordo. Minha jovem, o erro trágico que aquelas pessoas bem intencionadas cometeram, quando contrastado com o que elas pensavam estar fazendo, é muito profundo. Eles não tinham uma teoria científica da moral. Tinham uma teoria da moral e tentavam viver por ela (eu não devia ter zombado de seus motivos), mas a teoria deles estava errada – metade era uma miragem, a outra metade era charlatanismo racionalizado. Quanto mais empenhados eram, mais perdidos ficavam. Veja, eles assumiam que o homem tinha um instinto moral.
— Senhor? Eu pensei… Mas ele tem! Eu tenho.
— Não, minha querida, você tem uma consciência cultivada, uma consciência muito cuidadosamente treinada. O homem não tem instinto moral. Ele não nasce com um senso de moral. Você não nasceu com ele, eu não nasci com ele – e um cachorrinho não o tem. Nós adquirimos um senso moral, quando o fazemos, através de treinamento, experiência e trabalho duro mental. Aqueles desafortunados criminosos juvenis nasceram sem qualquer senso moral, da mesma forma que você ou eu, e não tiveram chance de adquiri-lo; suas experiências não o permitiram. O que é “senso moral? É uma elaboração do instinto de sobrevivência. O instinto de sobrevivência é a própria natureza humana, e cada aspecto de nossas personalidades deriva dele. Qualquer coisa que entre em conflito com o instinto de sobrevivência faz com que cedo ou tarde o indivíduo seja eliminado e assim deixa de aparecer em gerações futuras. Essa verdade é matematicamente demonstrável e verificável em todo lug
ar; é o único imperativo eterno controlando tudo o que fazemos.
— Mas o instinto para sobreviver, — ele tinha continuado, — pode ser cultivado em motivações mais sutis e muito mais complexas do que a necessidade cega e bruta do indivíduo permanecer vivo. Minha jovem, o que você erroneamente chamou de seu “instinto moral” foi a instilação em você pelos mais velhos da verdade de que a sobrevivência pode ter imperativos mais fortes do que a sobrevivência pessoal. Sobrevivência de sua família por exemplo. De suas crianças, quando as tiver. De sua nação, se você se esforçar para chegar tão alto na escala. E por aí em diante. Uma teoria da moral cientificamente verificável deve estar assentada no instinto do indivíduo para sobreviver – e em nenhum outro lugar! – e deve descrever corretamente a hierarquia da sobrevivência, apontar as motivações em cada nível, e resolver todos os conflitos.
— Temos uma tal teoria agora; podemos resolver qualquer problema moral, em qualquer nível. Auto-interesse, amor da família, dever para com a nação, responsabilidade para com a raça humana – estamos até mesmo desenvolvendo uma ética exata para relações extra-humanas. Mas todos os problemas morais podem ser exemplificados por uma citação errônea: “Nenhum homem tem amor tão grande quanto o de uma gata que morre para defender seus gatinhos”. Uma vez que você entenda o problema com que se defrontou aquela gata e como ela o resolveu, você estará pronta para examinar a si mesma e descobrir o quão alto na escada da moral é capaz de subir.
— Esses criminosos juvenis chegaram a um baixo nível. Nascidos apenas com o instinto de sobrevivência, a mais alta moralidade a que chegaram foi uma fraca lealdade a um grupo de seus iguais, uma gangue de rua. Mas os fazedores-do-bem tentaram “apelar para suas boas naturezas”, tentaram “chegar a eles”, tentaram “acender o senso de moral deles”. Disparatei Eles não tinham “boas naturezas”; a experiência lhes ensinou que o que estavam fazendo era o jeito de se sobreviver. O cachorrinho nunca apanhou; sendo assim o que ele fazia com prazer e sucesso devia ser “moral”.
— A base de toda moralidade é o dever, um conceito que tem a mesma relação com o grupo que o auto-interesse tem com o indivíduo. Ninguém pregou dever para essas crianças de um modo que elas pudessem entender – ou seja, batendo nelas. Mas a sociedade em que estavam contou a elas inúmeras vezes sobre seus “direitos”.
— Os resultados deviam ter sido previsíveis, pois um ser humano não tem qualquer tipo de direitos naturais.
O Sr. Dubois tinha parado. Alguém mordeu a isca. — Senhor? E a “vida, liberdade e busca da felicidade”?
— Ah, sim, os “direitos inalienáveis”. Todo ano alguém cita aquela magnífica poesia. Vida? Que “direito” à vida tem um homem que está se afogando no Pacífico? O oceano não vai dar atenção aos seus gritos. Que “direito” à vida tem um homem que precisa morrer de modo a salvar suas crianças? Se ele escolhe salvar a sua própria vida, ele faz isso por uma questão de “direitos”? Se dois homens estão morrendo de fome e a única alternativa é o canibalismo, o direito de qual homem é “inalienável”? E é isso um “direito”? Quanto à liberdade, os heróis que assinaram aquele grande documento comprometeram-se a pagar pela liberdade com suas vidas. A liberdade nunca é inalienável; ela deve ser reconquistada constantemente com o sangue dos patriotas ou sempre desaparece. De todos os assim chamados direitos humanos naturais que tenham alguma vez sido inventados, a liberdade é o menos provável de ser barato e nunca é grátis.
— O terceiro “direito”? – a “busca da felicidade”? Sem dúvida que é inalienável, mas não é um direito; é apenas uma condição universal que tiranos não podem eliminar ou patriotas restaurar. Me atire numa masmorra, me queime numa fogueira, me coroe rei dos reis, eu posso “buscar a felicidade” enquanto meu cérebro viver – mas nem deuses, nem santos, homens sábios ou drogas sutis podem assegurar que a alcançarei.

O Sr. Dubois então se virou para mim. — Disse a você que “delinqüente juvenil” é uma contradição em termos. “Delinqüente” significa “o que falhou em cumprir o dever”. Mas dever é uma virtude adulta – sem dúvida um jovem se torna um adulto quando, e apenas quando, adquire conhecimento dos deveres e se dedica a eles com a mesma intensidade do amor-próprio com que nasceu. Nunca houve, não pode haver, um “delinqüente juvenil”. Mas para cada criminoso juvenil há sempre um ou mais adultos delinqüentes – pessoas de idade madura que ou não conhecem seu dever, ou que, conhecendo-o, falharam em cumpri-lo.
— E esse foi o ponto fraco que destruiu o que foi em vários aspectos uma cultura admirável. Os desordeiros mirins que vagavam pelas ruas eram sintomas de uma doença maior; seus cidadãos (todos eles eram considerados como tais) glorificavam a tal mitologia dos “direitos”… e perderam de vista os deveres. Nenhuma nação, assim constituída, pode perdurar.

Pensei sobre como o Coronel Dubois teria classificado Dillinger. Seria ele um criminoso juvenil que merecia pena, mesmo que você tivesse de se livrar dele? Ou seria um delinqüente adulto que não merecia mais do que desprezo?
Eu não sabia, jamais saberia. A única coisa que eu estava certo é de que ele nunca mais mataria uma garotinha.
Aquilo era o bastante para mim. Fui dormir.”

TropasEstelares

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