Arca Reaça

@reaconaria

Os gêmeos terríveis, por Winston Churchill

Setembro de 1939, revista COLLIER'S. Leiam uma introdução neste post.

Churchill, novamente Lorde da Marinha no Gabinete de Guerra Britânico, enviou este artigo para a revista Collier poucas horas antes do início da Guerra. Desconfiado desde o início da política de apaziguamento, ele não perdeu a chance de alertar o mundo do desastre que se avizinha. Aqui estão suas opiniões, dadas com eloquência, sobre o pacto entre Hitler e Stálin

O senhor Chamberlain descreveu o anúncio do pacto Nazista-Soviético como bombástico. Foi certamente um evento marcante e que lançou raios sinistros mas reveladores em muitas direções. Foi com grande dificuldade e pressionado pelo perigo que o partido Conservador na Inglaterra chegou a tolerar a idéia de negociar ou mesmo se aliar com a besta fera do bolchevismo mas, quando afinal o governo britânico acreditou que seria uma opção inteligente tentar levar a Rússia a uma frente de não-agressão, os elementos dominantes na Inglaterra obedientemente engoliram a dose.

O “comportamento” russo, pra usar uma palavra neutra, não era bombástico para as forças conservadoras na Inglaterra ou na França. Pela primeira vez em muitos anos eles podiam gritar, alegremente, “Eu avisei!… “O que vocês esperavam”, perguntavam exultantes, “quando tentaram persuadir um crocodilo, que não fosse uma mordida destruidora?”

Mas novamente, algumas vozes da direita no Reino Unido, França e nos EUA – já que essas reações afetam todos os países – ficaram genuinamente desapontados pois o querido Herr Hitler havia traído a causa anti-Comunista ou anti-Bolchevique. Leitores de meus artigos na Collier se lembrarão que sempre apontei as muitas semelhanças entre o Bolchevismo e o Nazismo. Comparei ambos aos pólos Norte e Sul: se você acordar em uma manhã em qualquer um deles, não saberia em qual está. Podem haver alguns poucos ursos polares em um e pinguins no outro, só que eles só apareceriam gradualmente el, quanto ao resto,  haveria neve, gelo e as terríveis rajadas de vento.

Mas esses dois credos de ódio, as duas formas de tirania, ambas idiotologias marcham juntas na destruição dos direitos das pessoas comuns e exaltando um ídolo que, guardado por sacerdotes armados com metralhadoras, decide a concepção do estado. Ambos estão prontos para destruir toda a história e tradição que repousa sob a marcha da humanidade.

Ambos ansiavam repudiar a revelação cristão, ambos exaltaram a corrosão dos padrões da sociedade. Ainda assim eles eram inimigos entre si; Se apresentavam como os dois supremos antagonistas sob os quais todas as pessoas razoáveis e decentes no mundo deveriam se organizar.

Há quão pouco tempo temos ouvido que o futuro seria uma luta entre o comunismo e nazismo! Cada um, estávamos seguros, teria que se decidir se ele ou ela – porque mulheres têm algo a ver com isso – apoiariam a revolução de Karl Marx ou a reconstrução da sociedade por Adolf Hitler.

Agora esses lados opostos estão se abraçando. Reconheceram a grande lista de afinidades perdidas; a suástica com a foice e o martelo caminham lado a lado. A União Soviética se juntou ao Pacto Anticomintern. A Alemanha nazista mimou os comunistas.

Quanto maior a visão que temos desse surpreendente evento, mais devemos avaliá-lo como extremamente vantajoso para a humanidade. Ele conseguiu, com um simples chacoalhão, despir o comunismo russo e o anti-comunismo nazista de suas credenciais, de seus meios de apelo à mente e espírito humanos. Em lugar de duas poderosas e, para certos tipos de pensamento, cativantes filosofias (se é que podemos usar esta palavra) nós tivemos dois conjuntos de gângues rivais juntando forças em uma empreitada, agrupando sua sorte e tentando disparar com tudo que conseguirem pilhar como os G-Men(1) da civilização.

Eu nunca considerei o movimento nazista, com Thor, Odin and Wodin incluídos, como algo além de exploração, sob a agonia da derrota, feita por um pequeno grupo de homens maus. Entre a dócil população alemã, a idéia de ficar contra os horrores da revolução comunista ganhou uma abrangente e sincera aceitação. Os pastores podem se desviar mas o rebanho fica perplexo e perturbado. Eles levantaram suas cabeças e gritaram na noite fria.

Mas o conceito comunista russo representava uma escola de pensamento muito mais profundamente enraizada . Milhões de homens espalhados por muitos países têm a doutrina do comunismo como seus princípios para a vida. Ainda que sejam almas pervertidas, distorcidas, doentias e diminutas, ao menos eles têm uma motivação. Grandes forças em todas as nações se levantam contra a desigualdade de riquezas materiais e as velhas regras de respeito pela propriedade privada pelas quais, por milhares de anos, a raça humana tem, lentamente e aos tropeços, se afastado do barbarismo.

Duas estradas para o mesmo destino

Outros elementos duros e auto-afirmativos declararam que apenas pelo Socialismo Nacional ou Nazismo se poderia atingir esta meta. Essa deveria ser então a batalha da nova geração. Agora eles estão todos misturados em uma névoa de desesperança e excitação, e esse é o momento em que aqueles que se apegaram firmemente aos princípios da democracia livre, dos governos representativos e parlamentar; que sustentam os direitos do indivíduo contra o estado; que respeitam a continuidade da história e valorizam a variedade e originalidade na evolução humana; que lutam por uma família honrada e fiel, pelas relações sociais, pela boa fé e moral tanto na vida privada quanto pública, são deixados em posse exclusiva do campo intelectual

Agora sabemos que para seus líderes o comunismo é apenas um truque pelo qual grandes massas de pessoas pobres são reduzidos a uma forma de servidão, e que o nazismo é o reverso do mesmo truque pelo qual outro grande número pode ser reduzido à mesma condição melancólica. Os dez mandamentos ficam de fora. Os princípios dos direitos individuais contra a autoridade arbitrária ficam de fora, os processos de coleta dos desejos e opiniões dos cidadãos comuns e trabalhadores através de eleições livres, liberdade de expressão e instituições parlamentares; fica de fora toda a mensagem do povo que fala inglês pelo mundo. Essas falsas filosofias têm se difamado e atacado em uma fusão ridícula: Stálin-Hitler, Hitler-Stálin, às avessas e de cabeça para baixo.

É demais para os aspectos ideológicos esta meia-volta. Será um alívio para as nações livres ver seus antagonistas, campeões de formas opostas de tirania, assim neutralizadas, expostas e privadas de todas as credenciais nos domínios teóricos.

Mas as consequências na esfera da ação também precisam de muita atenção. Os governos francês e britânico estavam prontos para se aliarem com a União Soviética para conter a violência da Alemanha nazista. Estavam prontos porque cada um deve enfrentar os perigos e dificuldades da vida com um espírito prático.

Tenho sido questionado muitas vezes sobre quem é pior, o comunismo ou o nazismo. Respondo que qualquer um que esteja próximo de dominar qualquer país a qualquer momento. Ainda que os russos vistam uma máscara comunista, um grande número deles é composto por pessoas boas, decentes, carregando uma carga pesada e ansiosos por fazerem o melhor que podem para si mesmos, suas famílias, seus vizinhos e seu país. Todos devem ser muito cuidadosos na distinção entre a imagem apresentada pela panelinha dominante em qualquer país e as pessoas de boa índole, generosas, pobres e confusos seres humanos que ficam desamparados sob controle deles.

A massa de pessoas oprimidas pelo trabalho pesado e absorvidas pelos prazeres limitados e servidão da vida diária têm quase o mesmo sentimento em relação a políticos em todos os lugares, mas se não forem educados por um bom tempo sobre os firmes princípios da liberdade, lei e justiça, e ensinados a trabalhar por esses objetivos, são então presas fáceis para diversos tipos de obsessões monstruosas e desumanas. Também entre essas massas surgem o amor ao país, o orgulho da raça, a esperança por dias melhores e, quando tudo foi dito e feito, essa força nacionalista e de interesse nacional se torna mais forte, mais persistente, mais profunda e mais enraizada que qualquer uniforme ideológico que o governo tenha ordenado os cidadãos a vestir.

Pode durar muito tempo a controversa questão sobre a possibilidade de um acordo entre as democracias ocidentais e o sistema russo-stalinista. Muitos pensam que se no início, logo após a captura de Praga ou, melhor ainda, antes, os governos francês e britânico tivessem se dirigido aos soviéticos com espírito cordial, o grande peso da Rússia como contrapeso poderia ter sido direcionado contra os nazistas.

Nenhuma pessoa bem informada poderia esperar que os exércitos russos lutassem a batalha da civilização ocidental. Lá existiam grandes exércitos contados em milhões. Eles aparentavam se erguer como um fator nos assuntos europeus. Comunistas em todos os países e em todos os partidos da esquerda e centro-esquerda viam essas massas russas armadas como um meio de intimidar Hitler, e todos esperavam que ele seriam um meio de prevenir a guerra, mas os especialistas militares sempre tinham dúvidas se no caso de uma guerra, essa pesada massa russa poderia se mover.

A Polônia não queria os russos

Havia um entendimenro generalizado de que eles (os russos) não conseguiriam se mover muito além de seu país. Eles tinham que defender suas fronteiras. Eles certamente seriam formidáveis nos recuos de sua vasta terra, mas nenhum especialista francês ou britânico imaginou que eles agiriam ofensivamente contra as tropas regulares alemãs. Todos os seus melhores generais haviam sido assassinados. Tukatchevsky(2), o hábil marechal, foi assassinado por Stálin tentando fazer dois anos antes o que Stálin fez agora. Seu corpo descansa ardendo no túmulo mas sua alma marcha agora no coração de seu executor.

Os poloneses, que estavam tão próximos dos russos quanto dos alemães e estavam vital e mortalmente interessados na conclusão, eram os mais determinados em não permitir tropas russas em seu território. Qualquer coisa, pensavam eles, seria melhor que isso. Se foi uma decisão sábia, não sabemos. Foi o ponto exato em que as conversas militares cessaram. Os generais russos conversando com as missões militar, naval e aérea da França e do Reino Unido, disseram que se quisessem resistir à ameaça alemã efetivamente eles deveriam avançar e bloquear as duas linhas de avanço alemão na Rússia que ficam nos dois lados da ampla barreira formada pelos pântanos de Pripiat.

Dum ponto de vista puramente técnico, esses eram propósitos razoáveis, mas os poloneses não queriam tropas russas, como expliquei na Casa dos Comuns (3). O que eles queriam não era mais tropas russas mas sim mais munições e suprimentos russos. A Polônia não sofria da falta de soldados corajosos e leais. Ela possuía mais do que podia equipar e manter em campo de batalha. Qual seria o benefício de bloquear as ferrovias polonesas vindas da Rússia com equipamentos das divisões russas quando esses mesmos suprimentos poderiam ter sido encaminhados diretamente às linhas polonesas que enfrentavam a invasão alemã?

Neste caso, para todos os efeitos, houve uma diferença natural de opinião, mas foi ela a causa do colapso ou havia uma  má-fé dos soviéticos guiando todos os seus passos? Isso certamente cai mal para os russos. É claro que uma pessoa pode trapacear e vencer, ainda que a longa experiência da humanidade seja a de que a honestidade é a melhor política. Mas foi certamente uma situação que nenhuma sociedade humana justificaria quando a comissão militar anglo-francesa discutia ações contra a Alemanha dia após dia com ministros e generais russos enquanto ao mesmo tempo esses mesmos ministros e o mesmo alto comando negociavam um pacto com a Alemanha, hostil aos britânicos, à França e mais perigoso ainda, à Polônia.

Há uma máxima muito parecida entre comunistas e nazistas de que nenhuma fé pode ser mantida em países ou pessoas fora de suas crenças particulares. Hitler deixou isso bem claro em seu Mein Kampf (Minha Luta), mas também por suas ações, que uma promessa ou um pacto só tem validade enquanto servir à sua conveniência. E na raiz das doutrinas comunistas há a de que não apenas nenhuma fé precisa existir mas de que nenhuma fé possa ser mantida entre não-comunistas.

É portanto muito difícil lidar com esses nobres pois são poderosos, armados e vivem em grandes números no mundo em que habitamos. É necessário ter uma permanente tentativa de estabelecer relações; encontrar uma linguagem no qual, seja em paz ou em guerra, negociações possam ser mantidas em todo o golfo. Mas precisamos ter plena certeza que no longo prazo, a fidelidade e estrita observância dos acordos sejam honrados como meio de sobrevivência e vitória e que o contrário apenas leva a uma convulsão bárbara e miserável.

Devemos ver essa verdade ilustrada nos próximos anos. Tenho lidado com as profundas reações, para qual nenhum homem consegue ver o fim, produzidas pelo acordo Hitler-Stalin sobre os sinceros comunistas e anti-comunistas por todo o mundo. Eles estão privados de qualquer liderança e assunto. Foram deixados apenas com seus apetites, oportunismo e, não nos esqueçamos, armamentos.

Estranhamento japonês

Mas o efeito da reviravolta desesperada de Herr Hitler já está surpreendentemente marcado nos países que tentaram se identificar com a crença nazista. É válido traçar essas repercussões nos vários países relevantes, quaisquer que sejam suas posições sobre o tratamento soviético à Grã Bretanha e, sobretudo, à França, com quem eles assinaram um acordo.

Não pode haver dúvida de que o tratamento dado por Hitler ao Japão atinge os mais altos níveis de cinismo e traição. Nesse caso ele é o requerente. Ele persuadiu o Japão a se juntar a um bloco Anti-Internacional Socialista e os militares de lá estavam ansiosos por transformar esse compromisso numa aliança definitiva pelo qual os nazistas estavam pressionando. Todo o processo de convencimento do Japão estava sendo realizado de forma sedutora. Agora os japoneses vêem  subitamente a Alemanha trabalhando em harmonia com o grande poder dos exércitos siberianos, que apontam ameaçadoramente ao Japão pelo norte.

Do ponto de vista britânico, podemos esperar sem sombra de dúvidas um alívio de nossas dificuldades no extremo oriente. Os militares japoneses, tendo sido insultados e traídos pelo seu parceiro europeu, devem começar a se lembrar da Grã Bretanha e dos EUA, de quem nunca receberam qualquer coisa em sua ascenção e modernização, exceto ajuda e boas intenções.

Se eles estranham hoje ao mundo que fala inglês, é apenas porque investiram numa política de agressão e conquista na China. Eles devem desistir de sua cruel e ambiciosa política, pela qual o sucesso é em hipótese alguma certo, e encontrar o caminho de volta à sanidade e segurança.

Eu nunca considerei o fascismo italiano como no mesmo nível que o nazismo, e todos foram atingidos pela grande deterioração na posição da Itália após a violenta expansão alemã no norte. Esse não é o momento para profecias que podem ser falsificadas no mesmo momento em que são impressas, mas ninguém pode duvidar que toda a base ideológica da associação entre Berlim e Roma foi destruída, e nenhum sentimento ou interesse junta esses eixos de poder.

Hitler e Stálin, aliados e causadores da II Guerra Mundial – Clique para ampliar

Como a Democracia saiu vencedora

Vamos então avaliar toda a cena e tentar aferir as consequências do acordo Nazi-soviético no sentido político.

Não há necessidade de frustração no campo das relações externas. As democracias ocidentais ganharam um alívio no extremo oriente e há possibilidades de outro no Mediterrâneo. Hitler não iria contra as convicções de sua vida se ele não tivesse sido forçado a açÕes desesperadas. O fato de que ele desejava apertar essas mãos que ele havia desprezado e estigmatizado, a ruptura nos princípios sobre os quais suas concepções políticas se firmaram, provam quanto mortais são suas necessidades e desejos. O fato da União Soviética recuar da cena européia dessa maneira e nesta conjuntura foi a causa de liberação de todas essas calamidades mundiais que ninguém consegue medir agora. Mas entre as profundas reações que seguiram dessa estranha e abrupta mudança nenhuma é mais importante do que a clara luz jogada sobre a causa da liberdade, agora desafiada como nunca antes.

Tudo que os arquitetos da Constituição Americana levaram além do oceano e encarnaram na estrutura do novo mundo está envolvido, mas além dessas grandes idéias e sistemas de governo livre e da força do cidadão individual eleva-se em gigante esplendor e simplicidade a questão moral. Ela pode ser julgada em qualquer homem com sua própria consciência. O caminho pelo qual a raça humana tem seguido foi muitas vezes obscuro e cheio de obstáculos, mas os faróis da honestidade, justiça, misericórdia e boa fé nunca arderam com tanta intensidade. Seguindo-os, certamente conseguiremos seguir nosso caminho adiante para as terras altas em que teremos espaço para todos e onde os homens de todos os lugares serão úteis para todos os outros.

Nós nessa velha ilha não tememos que os poderes absolutos confiados ao governo do rei sejam exacerbados. Eles não serão explorados poor nenhum partido ou interesse de classe. Eles serão devotados apenas a serviço da grande causa e olhamos o futuro confiantes para o dia em que nossos direitos e liberdades, dos quais abrimos mão voluntariamente, serão reestabelecidos à nação britânica e quando estiver ao nosso alcance compartilhá-lo com outras raças e povos para quem essas bênçãos são desconhecidas.

(1) Sucesso de bilheteria nos anos 1930, “G-MEN” era um filme que apresentava um agente do governo combatendo bandidos. O sucesso do filme fez nascer a gíria G-Man, que designaria agentes do governo. Leiam sobre o filme no IMDB

(2) Leiam mais sobre Mikhail Tukhachevsky na Wikipédia.

Olavo de Carvalho: Guerras Culturais

Trecho do artigo “A autoridade moral da mentira”, publicado pelo Diário do Comércio em janeiro de 2006. Aqui, Olavo de Carvalho explica resumidamente os esquemas de poder que alimentam as guerras culturais e como as pessoas se negam a perceber como são usadas:

Guerras culturais

“O segredo é da natureza mesma do poder”, dizia René Guénon. Quem ignore essa regra hoje em dia está condenado a servir de instrumento cego e dócil para a realização de planos políticos de enorme envergadura que lhe permanecem totalmente invisíveis e inacessíveis. Isso é particularmente verdadeiro no caso das chamadas “guerras culturais”, cujos movimentos, sutis e de longuíssimo prazo, escapam à percepção não só das massas como da quase totalidade das elites políticas, econômicas e militares. Todos sofrem o seu impacto e são profundamente alterados no curso do processo, inclusive nas suas reações mais íntimas e pessoais, mas geralmente atribuem esse efeito à espontaneidade do processo histórico ou a uma fatalidade inerente à natureza das coisas, sem ter a menor idéia de que até mesmo essa reação foi calculada e produzida de antemão por planejadores estratégicos.

A idéia de ter sido usado inconscientemente por outro mais esperto é tão humilhante que cada um instintivamente a rejeita indignado, sem notar que a recusa de enxergar os fios que o movem o torna ainda mais facilmente manejável. O medo de ser ridicularizado como crédulo é um poderoso estimulante da ingenuidade política, e na guerra cultural a exploração desse medo se tornou um dos procedimentos retóricos mais disseminados, erguendo uma muralha de preconceitos e reflexos condicionados contra a percepção de realidades que de outro modo seriam óbvias e patentes.

Uma longa tradição de lendas urbanas em torno de “teorias da conspiração” também ajudou a sedimentar essa reação. A guerra cultural não é, evidentemente, uma “conspiração”, mas a sutileza das suas operações, raiando a invisibilidade, faz com que a impressão confusa suscitada pelo conceito em quem ouça falar dele pela primeira vez seja exatamente essa, produzindo quase infalivelmente aquele tipo de resposta que mereceria o nome de suspicácia ingênua, ou incredulidade caipira.

Outra dificuldade é que as armas usadas na guerra cultural são, por definição, uma propriedade quase monopolística da classe dos intelectuais e estudiosos, escapando não só à compreensão como aos interesses do cidadão comum, mesmo de elite, não envolvido em complexos estudos de história literária e cultural, filosofia, lingüística, semiologia, arte retórica, psicologia e até mesmo sociologia da arte. Em todo o Congresso Nacional, na direção das grandes empresas e nos comandos militares não se encontrará meia dúzia de portadores dos conhecimentos requeridos para a compreensão do conceito, quanto mais para a percepção concreta das operações de guerra cultural. Sobretudo em países do Terceiro Mundo, a formação das elites governantes é maciçamente concentrada em estudos de economia, administração, direito, ciência política e diplomacia. Para esses indivíduos, as letras e artes são, na melhor das hipóteses, um adorno elegante, um complemento lúdico às atividades “peso-pesado” da política, da vida militar e da economia. Suas incursões de fim de semana em teatros e concertos podem alimentar conversas interessantes, mas jamais lhe darão aquela visão abrangente do universo cultural sem a qual a idéia mesma de uma ação organizada e controlada sobre o conjunto da cultura de um país (ou mais ainda de vários) seria impensável. De fato, para essas pessoas, ela é impensável. A cultura lhes aparece como o florescimento autônomo e incontrolável de “tendências”, de impulsos criativos, de inspirações multitudinárias que expressam o “senso comum”, o fundo de opiniões e sentimentos compartilhados por todos, a visão espontânea e “natural” da realidade. Que, para o estrategista da guerra cultural, o “senso comum” seja um produto social como qualquer outro, sujeito a ser moldado e alterado pela ação organizada de uma elite militante; que sentimentos e reações que para o cidadão comum constituem a expressão personalíssima da sua liberdade interior sejam para o planejador social apenas cópias mecânicas de moldes coletivos que ele mesmo fabricou; que a direção de conjunto das transformações culturais não seja a expressão dos desejos espontâneos da comunidade mas o efeito calculado de planos concebidos por uma elite intelectual desconhecida da maioria da população – tudo isso lhe parece ao mesmo tempo um insulto à sua liberdade de consciência e um atentado contra a ordem do mundo tal como ele a concebe. Mas essa reação está em profundo descompasso com o tempo histórico. A característica essencial da nossa época é justamente a transformação cultural planejada, e quem não seja capaz de percebê-la estará privado da possibilidade de lhe oferecer uma reação consciente: por mais dinheiro que tenha no bolso ou por mais alto cargo que ocupe na hierarquia política, jurídica ou militar, estará reduzido à condição de “massa de manobra” no sentido mais desprezível do termo. O sonho dos iluministas do século XVIII – uma sociedade inteira à mercê dos planos da elite “esclarecida” – tornou-se realizável dois séculos depois graças a três fatores: a expansão do ensino universitário, criando uma massa de intelectuais sem funções definidas na sociedade e prontos para ser arregimentados em tarefas militantes; o progresso dos meios de comunicação, que permite atingir populações inteiras a partir de uns poucos centros emissores; e a enorme concentração de riquezas nas mãos de alguns grupos oligárquicos imbuídos de ambições messiânicas. Explicarei mais sobre isso nos próximos artigos.

As Ilusões Perdidas e a imoralidade jornalística

Honoré de Balzac é um dos nomes mais celebrados da literatura na história. Sua riquíssima produção, com mais de 90 títulos, será sempre objeto de estudos e admiração. Em sua “Comédia Humana”, conjunto de obras em que os personagens surgem, são citados ou viram protagonistas em diferentes títulos, ele tentou retratar cada detalhe minucioso da sociedade de seu tempo, sem poupar a ninguém. O cenário não poderia ser mais rico por se passar na França que se erguia após os grandes eventos sucessivos que foram a Revolução Francesa e a passagem de Napoleão Bonaparte.

Dentre todas as obras, “As Ilusões Perdidas” merece um destaque especial por, muito provavelmente, conter situações vividas pelo próprio Balzac em sua trajetória e por ser uma crítica severa ao submundo jornalístico. Neste romance acompanhamos a história de Luciano “de Rubempré”, um jovem ambicioso com bom talento literário que sai de sua pequena cidade no interior, onde era amado por sua irmã e tinha uma vida normal e bons relacionamentos (com um amigo tipógrafo, profissão exercida pelo próprio Balzac), com a obsessão de triunfar na alta sociedade de Paris. Chegando lá, Luciano começa a tomar conhecimento das particularidades do mundo literário e de sua relação promíscua com os meios jornalísticos. E é no universo jornalístico que ele consegue glória e desgraça, riqueza e miséria em pouquíssimo tempo.

O que está reproduzido abaixo é um dos momentos mais marcantes da história, quando Luciano toma uma lição de como publicar algo que ele não concorda, elogiando o que abomina. Porém, para entender melhor esta lição de imoralidade que parece ser seguida à risca nos meios jornalísticas do Brasil atual, optei por trazer um ponto anterior da história em que um “livreiro” prepara Luciano para este mundo, avisando-o sobre os riscos e vícios.

É uma leitura muito agradável e que, embora longa para a reprodução em um blog, vale a pena. Divirtam-se então:

PRIMEIRA PARTE: Luciano encontra um livreiro, que explica os vícios a que ele poderá se expor quando entrar em contato com o mundo jornalístico:

— Meu caro — disse gravemente Estêvão Lousteau, olhando para a biqueira das botas que Luciano trouxera de Angoulême e que ainda usava para acabar com elas — aconselho-o  a enegrecer as botas com sua tinta de escrever a fim de poupar graxa, a fazer palitos de suas penas para ter a aparência de haver jantado, quando passear, ao sair do Flicoteaux, pela linda alameda deste jardim, à procura de um banco qualquer. Torne-se segundo escrevente de oficial de justiça. se tem ânimo para isso, caixeiro se tem chumbo nos rins, ou soldado se gosta da música militar. O senhor tem capacidade para três poetas, mas antes de conseguir aparecer, terá seis vezes tempo para morrer de fome, se conta com o produto de suas poesias para viver. Ora, suas intenções, a julgar por suas palavras cheias de inexperiência, são as de cunhar moedas com o tinteiro. Não julgo a sua poesia; ela é superior em muito a todas as poesias que atravancam as prateleiras das livrarias. Esses elegantes “rouxinóis”, vendidos um pouco mais caro que os outros por causa do papel velino, vêm quase todos pousar às margens do Sena, onde o senhor poderá estudar seus cantos, se quiser um dia fazer uma instrutiva peregrinação pelos cais de Paris, desde a estante do pai Jerônimo, na ponte de Nossa Senhora, até a ponte Royal. Lá encontrará todos os Ensaios poéticos, Inspirações, Elevações, Hinos, Cantos, Baladas, Odes, enfim, todas as ninhadas descascadas nos últimos sete anos pelas musas, cobertas de poeira, salpicadas de lama pelos carros, violadas por todos os passantes que desejam ver a vinheta do título. O senhor não conhece pessoa alguma, não tem entrada em nenhum jornal, suas Margaridas ficarão castamente fechadas como as conserva aí; jamais desabrocharão ao sol da publicidade no prado das grandes margens, esmaltado pelos florões prodigalizados pelo ilustre Dauriat, o livreiro das celebridades, o rei das Galerias de Madeira.  Meu pobre filho, também eu cheguei como você com o coração cheio de ilusões, impelido pelo amor da Arte, arrastado para a glória por invencíveis impulsos. E encontrei as dificuldades da profissão, as dificuldades das livrarias e o positivo da miséria. Minha exaltação, hoje abafada. minha primeira efervescência, escondiam-me o mecanismo do mundo. Foi preciso vê-lo, chocar-me com todas as suas engrenagens, ir de encontro aos seus eixos, engraxar-me nos óleos, ouvir o rangido das correntes e dos volantes. Como eu, irá saber que, sob todas as coisas belas com que sonhamos, agitam-se criaturas, paixões e necessidades. Será fatalmente arrastado a tomar parte em lutas horríveis, de obra contra obra, homem contra homem, partido contra partido, nas quais  a gente precisa bater-se sistematicamente para não ser abandonada pelos seus. Esses combates ignóbeis desencantam a alma, depravam o coração e fatigam em pura perda, porque os nossos esforços hão de servir muitas vezes para fazer coroar um homem a quem odiamos, um talento de segunda classe, apresentado, a pesar nosso, como um génio. A vida literária tem também seus bastidores. Os êxitos roubados ou merecidos, eis o que a platéia aplaude. Os meios, sempre repugnantes, os comparsas degradantes, a claque e os encarregados da maquinaria, eis o que os cenários escondem. O senhor está ainda entre os espectadores. É tempo ainda, desista antes de pôr o pé sobre o primeiro degrau do trono disputado por tantas ambições, e não se desonre como eu, para poder viver. (Uma lágrima molhou os olhos de Estêvão Lousteau.) Sabe como é que eu vivo? — continuou com um acento de raiva. — Algum dinheiro que minha família me pôde dar foi logo malbaratado. Encontrava-me sem recursos depois de ter visto aceita uma peça no Théàtre-Français. No Théàtre-Français, a proteção de um príncipe ou de um primeiro gentil-homem da câmara real não é o suficiente para que se consiga abrir caminho: os artistas não cedem senão àqueles que ameaçam seu amor-próprio. Se o senhor tiver o poder de fazer com que digam que o jovem galã sofre de asma; que a jovem primeira dama esconde uma fistula onde quer que seja, que a soubrette tem mau hábito, será representado no dia seguinte. Não sei se daqui a dois anos eu, que lhe falo. estarei em condições de obter semelhante poder: são precisos muitos amigos. Onde, como e por que meio ganhar meu pão? É pergunta que me tenho feito muitas vezes ao sentir as ferroadas da fome. Depois de variadas tentativas, após haver escrito um romance anónimo comprado por duzentos francos pelo Doguereau, que com ele também não ganhou grande coisa, ficou provado que somente o jornalismo me poderia dar o que comer. Mas como entrar nessas barracas de feira? Não lhe contarei minhas diligências e minhas solicitações inúteis, nem seis meses passados a trabalhar como extra-numerário, a ouvir dizer que eu afugentava os assinantes, quando, pelo contrário, os atraía. Passemos por alto sobre esses vexames. Faço uma revista agora nos teatros do bulevar. quase de graça, para o jornal de Finot, esse gorducho que almoça ainda duas ou três vezes por mês no café Voltaire (mas onde você não vai!). Finot é o redator-chefe. Para viver, vendo as entradas que os diretores desses teatros me dão para recompensar minha “boa vontade” na crítica e os livros que as livrarias me mandam e dos quais devo falar. Enfim, eu trafico, depois que Finot se satisfaz, com os tributos “em espécie” mandados pelos industriais, a favor dos quais ou contra os quais ele me permite escrever alguns artigos. A Água carminativa, a Pasta das sultanas, o Óleo cerebral, a Mistura brasileira, pagam vinte ou trinta francos por um artigo engraçado. Sou forçado a ladrar atrás do livreiro que fornece poucos exemplares ao jornal; na direção ficam dois que Finot vende, e é preciso que haja outros dois para eu vender. O livreiro avaro de exemplares é desancado ainda que publique uma obra-prima. É ignóbil, mas vivo dessa profissão, eu, como centenas de outros. E não pense que o mundo político é mais belo que esse oficio literário: tudo em ambos é corrução. Os homens, neles, ou são corruptores ou corrompidos. Quando se trata de um empreendimento mais importante de livraria, o livreiro me paga, com medo de ser atacado. Assim, meus lucros estão sempre de acordo com os prospetos. Quando os prospetos surgem em erupções miliares, o dinheiro entra a rodo no meu bolso, e posso então regalar os meus amigos. Quando não há negócios de livraria, vou jantar no Flicoteaux. As artistas pagam também os elogios, mas as mais hábeis pagam as críticas; é que, mais que tudo, temem o silêncio. Desse modo é que uma crítica, feita para ser alhures contestada, vale mais e é mais bem paga do que um seco elogio, esquecido no dia seguinte. A polémica, meu caro, é o pedestal das celebridades. Nesse trabalho de espadachim das idéias e das reputações industriais, literárias e dramáticas, ganho cinqüenta escudos por mês, posso vender um romance por quinhentos francos, e começo a ser considerado um homem temível. Quando, em vez de viver em casa de Florina, à custa de um droguista que se dá ares de milord, estiver alojado em “minha” casa e trabalhando no grande jornal em que hei de manter um rodapé, nesse dia, meu caro, Florina se tornará uma grande artista. Quanto a mim, não sei o que poderei vir a ser então: ministro ou homem honesto, tudo é possível. (Levantou a cabeça humilhada, mergulhou na folhagem um olhar de desespero acusador, terrível.) E tenho uma bela tragédia aceita! E tenho em meus papéis um poema que há de morrer! E eu era bom e tinha o coração puro! Tenho por amante uma atriz do Panorama-Dramatique, eu, que sonhava belos amores entre as mais distintas mulheres, da alta roda! Enfim, por causa de um exemplar recusado ao meu jornal pelo livreiro, digo mal de um livro que em Verdade acho belo!

Luciano, comovido até às lágrimas, apertou a mão de Estêvão.

— Fora do mundo literário — disse o jornalista levantando-se e se dirigindo para a grande alameda do Observatório, por onde os dois poetas caminharam como para dar mais ar aos pulmões – não há uma só pessoa que conheça a horrível odisséia pela qual se chega ao que é preciso chamar, segundo o talento, a voga, a moda, a reputação, o renome, a celebridade, o favor do público; diferentes degraus que levam à glória e que não a substituem nunca. Esse fenómeno moral, tão brilhante, compõe-se de mil incidentes que variam com tal rapidez, que não há exemplos de dois homens que houvessem triunfado por caminhos iguais. Canalis e Nathan são dois fatos dissemelhantes que não se repetirão jamais. De Arthez, que se esfalfa a trabalhar, tornar-se-á célebre por um outro qualquer acaso. Essa tão desejada reputação é, quase sempre, uma prostituta coroada. Sim. para as baixas obras da literatura, ela representa a pobre moça que se enregela pelas esquinas; para a literatura de segunda classe, é a manteúda que sai dos lugares suspeitos do jornalismo e a quem eu sirvo de rufião; para a literatura vitoriosa, é a brilhante cortesã insolente que possui bens, paga contribuições no Estado, recebe os grandes senhores, a quem trata e maltrata, tem sua libré, sua carruagem, e pode fazer esperar os credores ávidos ! Ai daqueles para quem ela é, como para mim outrora e hoje para o senhor, um anjo de asas matizadas, revestido de alva túnica, trazendo numa das mãos uma palma verde e na outra uma espada flamejante, partilhando a um tempo da abstração mitológica que vive no fundo de um poço e da pobre menina virtuosa exilada num arrabalde, que se enriquece unicamente pelas claridades da virtude e em conseqüência de uma nobre coragem, e que voa para os céus com o caráter imaculado, quando não morre enlameada, bolinada, violada, esquecida, no carro dos pobres. Os homens de cérebro cintados de bronze, corações ainda quentes sob as camadas de neve da experiência, são raros nesta terra que aí vê a nossos pés! — continuou ele, mostrando a grande cidade que fumegava ao cair do dia.

Uma visão do Cenáculo passou rapidamente diante dos olhos de Luciano e o deixou comovido, mas foi arrastado por Lousteau, que continuava sua espantosa lamentação.

— São raros e esparsos nesta cuba em fermentação. Raros como os verdadeiros amantes no mundo amoroso, raros como as fortunas honestas no mundo das finanças, raros como um homem puro no jornalismo. A experiência do primeiro que me disse isto que lhe estou dizendo perdeu-se, como a minha será sem dúvida inútil para o senhor. Idêntico ardor precipita todos os anos, da província para cá, número igual, para não dizer crescente, de ambições imberbes que se lançam, cabeça erguida e coração altivo, no assalto da Moda, essa espécie de Princesa Tourandocte dos Mil e Um Dias, para quem cada qual deseja ser o Príncipe Calaf! Mas nenhum consegue decifrar o enigma. Tombam todos na fossa da desgraça, na lama do jornal, nos charcos das livrarias. Respigam, esses mendigos, artigos biográficos, crónicas e “fatos de Paris” nos jornais, ou livros encomendados por lógicos negociantes de papel impresso, que preferem a asneira vendida em quinze dias à obra-prima que leva tempo para ser colocada. Lagartas esmagadas antes de se tornarem borboletas vivem de vergonhas e de infâmias, prontos a morder ou a gabar um talento nascente, por ordem de um paxá do Constitutionnel, da Quotidienne, dos Débats, a um sinal dos livreiros, a pedido de um camarada invejoso, ou, muitas vezes, por um jantar.

— Hei de triunfar !

— Bem! — respondeu o jornalista — mais um cristão que desce à arena para se entregar às feras. Meu caro, esta noite há uma representação no Panorama-Dramatique, só começa às oito horas: são seis. Vá pôr a sua melhor roupa, torne-se enfim apresentável. Venha buscar-me. Moro na rua de La Harpe, nos altos do café Servel, no quarto andar. Passaremos primeiro pela casa de Dauriat. O senhor persiste, não é verdade? Pois bem, far-lhe-ei conhecer esta noite um dos reis da livraria e alguns jornalistas. Depois do espetáculo, cearemos na casa de minha amante com alguns amigos, porque nosso jantar não pode ser contado como uma refeição. Ali há de encontrar Finot, o redator-chefe e proprietário do meu jornal. Conhece o dito de Minette, do Vaudeville:  — O tempo é um grande bacalhau? Pois bem, para nós, o acaso é também um grande bacalhau, é preciso tentá-lo.

— Jamais hei de esquecer este dia — falou Luciano.

— Venha munido de seu manuscrito e esteja bem trajado, menos por causa de Florina que do livreiro.

A bonomia de camarada, que sucedeu ao grito violento do poeta ao pintar a guerra literária, tocou Luciano tão vivamente como o havia comovido outrora, no mesmo local, a palavra grave e religiosa de Arthez.

Animado pela perspectiva de uma luta imediata entre ele e os homens, o inexperiente rapaz não calculava, absolutamente, a realidade dos sofrimentos morais que o jornalismo lhe pressagiava. Não se sabia colocado entre dois caminhos diferentes, entre dois sistemas representados pelo Cenáculo e pelo jornalismo, dos quais um era longo, honrado, seguro; o outro semeado de escolhos e perigoso, cheio de charcos lamacentos onde sua consciência teria de se conspurcar. Seu caráter levava-o a escolher o caminho mais curto e aparentemente mais agradável, a empregar os meios decisivos e rápidos. Não via, naquele momento, nenhuma diferença entre a nobre amizade de de Arthez e a fácil camaradagem de Lousteau. Aquele espírito inconstante percebeu no jornal uma arma ao seu alcance, sentiu-se bastante hábil para a manejar e desejou tomá-la. Deslumbrado pelos oferecimentos de seu novo amigo, cuja mão tocou a sua com uma negligência que lhe pareceu graciosa, poderia acaso adivinhar que no exército da imprensa todos precisam de amigos, como os generais precisam de soldados? Lousteau, vendo-o resoluto, aliciava-o na esperança de o prender a si. O jornalista estava em seu primeiro amigo, como Luciano em seu primeiro protetor: um queria passar a cabo de esquadra, o outro queria ser soldado.

***

SEGUNDA PARTE: Luciano ganha reputação entre grupo de jornalistas e escritores imorais após fazer uma crítica devastadora ao mais recente livro de um escritor de boa reputação na época, Nathan. E então se encontra com o grupo de jornalistas, onde ouve uma lição de como elogiar e criticar uma obra e seu autor sem sentir nada do que está escrevendo:

— Queres mesmo — perguntou Lousteau — fazer de Nathan um inimigo? Nathan é jornalista, tem amigos, ele te pregaria uma boa peça na tua primeira publicação. Não tens O Archeiro de Carlos IX para vender? Vimos Nathan esta manhã, está desesperado; mas, vais escrever um artigo em que lhe borrifarás elogios pela cara.

— Como! depois do meu artigo contra seu livro, vocês querem. . . — perguntou Luciano.
Emílio Blondet, Heitor Merlin, Estêvão Lousteau, Feliciano Vernou, todos, enfim, interromperam Luciano com um acesso de riso.

— Tu o convidaste para cear aqui depois de amanhã ! — lembrou-lhe Blondet.

— Teu artigo — disse Lousteau — não foi assinado. Feliciano, que não é novato como tu, não esqueceu de pôr-lhe ao pé um C, com o qual poderás, de agora em diante, assinar teus artigos em seu jornal, que é Esquerda pura. Todos nós somos da oposição. Feliciano teve a delicadeza de não comprometer tuas futuras opiniões. Na loja de Heitor, cujo jornal é do Centro-direita, poderás assinar com um L. Fica-se anônimo no ataque, mas assina-se, e muito bem, o elogio.

— As assinaturas não me inquietam — disse Luciano — , mas não vejo o que se possa dizer a favor do livro.

— Pensavas então aquilo que escreveste? — perguntou Heitor a Luciano.

— Sim.

— Ah! meu pequeno — atalhou Blondet —, eu te julgava mais forte ! Não, palavra de honra olhando tua fronte, eu te dotava de uma onipotência semelhante à dos grandes espíritos, todos eles assaz poderosamente constituídos a fim de serem capazes de considerar todas as coisas sob o seu duplo aspecto. Em literatura, meu pequeno, todas as idéias têm direito e avesso; ninguém pode arcar com a resposabilidade de dizer qual o avesso. Tudo é bilateral no domínio do pensamento. As idéias são binárias. Jano é o mito da crítica e o símbolo do talento. Triangular não há senão Deus! O que eleva Moliêre e Corneille acima dos outros não é a faculdade de fazer Alceste dizer sim e Filinto, Otávio e Cila não? Rousseau, na Nova Heloísa, escreveu uma carta a favor e outra contra o duelo; ousarias assumir a sua verdadeira opinião? Quem de nós poderia pronunciar-se e Aquiles? Qual é o herói de Homero? Qual foi a intenção de Richardson? A crítica deve contemplar as obras sob todos os seus aspectos. Nós somos, enfim, uns grandes enredadores.

— Você liga então importância às coisas que escreve? — perguntou-lhe Vernou com ar de zombaria. — Mas nós somos negociantes de frases e vivemos de nosso comércio. Quando você quiser fazer uma grande e bela obra, um livro, enfim, poderá colocar nele os seus pensamentos sua alma, amá-lo, defendê-lo; mas artigos, lidos hoje e amanhã esquecidos, esses não valem a meus olhos senão aquilo que por eles nos pagam. Se você dá tanta importância a tais bobagens, fará então o sinal da cruz e invocará o Espírito Santo para escrever um prospeto?

Pareciam todos assombrados de encontrar em Luciano tais escrúpulos, e acabaram de rasgar-lhe a toga pretexta para vestir-lhe a túnica viril dos jornalistas.

— Sabes com que palavras Nathan se consolou depois de haver lido o teu artigo? perguntou Lousteau.

— Como poderia saber?

— Nathan bradou: “Os pequenos artigos passam, as grandes obras permanecem!” Esse homem virá cear aqui, dentro de dois dias, e deverá prosternar-se a teus pés, beijar tuas esporas e te dizer que és um grande homem.

— Seria engraçado — admitiu Luciano.

— Engraçado? — continuou Blondet. — É necessário.

— Meus amigos, bem que o desejaria — concedeu Luciano, já um pouco embriagado -; mas como fazer?

— Bem — respondeu Lousteau —, escreve para o jornal de Merlin três belas colunas onde te refutes a ti mesmo. Depois de haver gozado o furor de Nathan, acabamos de lhe dizer que dentro em pouco ele nos haveria de agradecer pela polémica cerrada, com a ajuda da qual iríamos fazer seu livro ser vendido em oito dias. Neste momento és, a seus olhos, um espião, um canalha, um tolo; depois de amanhã serás um grande homem, um cabeça forte, um varão de Plutarco! Nathan te abraçará, considerando-te o seu melhor amigo. Dauriat veio ver-te e tens três notas de mil francos; a peça foi pregada. Faltam-te agora a estima e a amizade de Nathan. Somente o livreiro deve ser apanhado. Só devemos imolar e perseguir os nossos inimigos. Se se tratasse de um homem que tivesse conquistado nome sem o nosso auxílio, de um talento incômodo que fosse necessário anular, não faríamos semelhante réplica; mas Nathan é um dos nossos amigos, Blondet o fez atacar no Mercure para dar-se o prazer de responder no Débats. Desse modo, a primeira edição do livro se esgotou!

— Meus amigos, palavra de homem honesto, sou incapaz de escrever duas palavras de elogio a esse livro…

— Terás mais cem francos — disse Merlin —, assim Nathan já te haverá rendido dez luíses, sem contar um artigo que poderás escrever para o semanário de Finot e que te será pago a cem francos por Dauriat e cem francos pela revista. Total: vinte luíses!

— Mas que hei de dizer? -— perguntou Luciano.

— Escuta aqui, de que modo podes te arranjar, meu filho — respondeu Blondet concentrando-se. — Dirás: A inveja, que persegue todas as belas obras como o verme aos bons frutos, tentou morder este livro. Para conseguir encontrar-lhe defeitos, a crítica foi obrigada a inventar teorias com o propósito de distinguir duas literaturas: a que se entrega às idéias e a que recorre às imagens. Aí chegado, meu pequeno, dirás que a última perfeição da arte literária é exprimir a idéia pela imagem. Procurando provar que a imagem é toda a poesia, lamentarás ser tão pouca a poesia que a nossa língua comporta. Falarás nas censuras que nos são feitas pelos estrangeiros sobre o positivismo do nosso estilo e louvarás Canalis e Nathan pelos serviços que prestam à França poetizando a sua língua. Combate tua argumentação precedente, fazendo ver que evoluímos do século XVIII para cá. Inventa o Progresso! (uma admirável mistificação destinada aos burgueses). Nossa jovem literatura procede por quadros em que se concentram todos os gêneros: — a comédia e o drama, descrições, caracteres, diálogos, ligados pelos laços brilhantes de um enredo interessante. O romance, que requer sentimento, estilo e imagens, é a maior das criações modernas. Sucede à comédia, que, entre os costumes modernos, não é mais possível com suas velhas leis. Ele entrelaça o fato e a idéia num enredo que exige o espírito de La Bruyêre e sua moral incisiva, os caracteres tratados como os entendia Moliêre, os grandes recursos cénicos de Shakespeare, e a pintura dos mais delicados matizes da paixão — único tesouro que nos legaram os nossos predecessores. Por isso, é o romance muito superior à discussão fria e matemática, à seca análise do século XVIII. O romance, dirás tu, sentenciosamente, é uma epopéia divertida. Cita Corina, apoia-te na Sra. de Stael. O século XVIII pôs em equação todos os assuntos; o século XIX, encarregado de tirar as conclusões. optou pelas realidades, porém realidades que vivem e andam; ele põe, enfim, em jogo a paixão, elemento desconhecido de Voltaire. Tirada contra Voltaire. Quanto a Rousseau, não fez senão vestir raciocínios e sistemas. Júlia e Clara são enteléquias, não têm carne nem ossos. Podes insistir nesse tema e dizer que devemos à paz, aos Bourbons, uma literatura moça e original, pois estarás escrevendo para um jornal do Centro-direita. Zomba dos fazedores de sistemas. Podes enfim bradar num belo movimento: Quantos erros aí estão, quantas ilusões, no artigo do nosso confrade! E para quê? Para depreciar uma bela obra, para enganar o público e chegar a esta conclusão: Um livro que se vende; não se vende. Proh pudor! Brada Proh pudor! essa honesta’ exclamação servirá para animar o leitor. Anuncia, finalmente, a decadência da crítica.
Conclusão: existe uma única literatura, a dos livros interessantes. Nathan segue por uma estrada nova; compreendeu a sua época e corresponde às suas necessidades. A necessidade da nossa época é o drama. O drama é a aspiração de um século no qual a política é uma tragicomédia perpétua. Não vimos nós em vinte anos, perguntarás, os quatro dramas da Revolução, do Diretório, do Império e da Restauração? Desse ponto em diante descambarás pelo ditirambo do elogio. e a segunda edição voará. Ouve de que maneira! Sábado próximo encherás uma página do nosso semanário e assinarás DE RUBEMPRÉ com todas as letras. Nesse último artigo, dirás: É próprio das belas obras levantar amplas discussões. Nesta semana, tal jornal disse tal coisa do livro de Nathan, e tal outro deu-lhe uma vigorosa resposta. Criticarás a ambos os críticos — C. e L. -; dirás, de passagem, duas palavras polidas a meu respeito, a propósito do primeiro artigo que escrevi no Débats, e terminarás afirmando que o livro de Nathan é o mais belo da época. É como se nada dissesses, porque isso se diz de todos os livros. Terás ganho quatrocentos francos nesta semana, além do prazer de haver escrito a verdade nalgum lugar. As pessoas sensatas hão de dar razão a C. ou a L. ou a Rubempré, ou, talvez, a todos os três! A mitologia, que é uma das maiores invenções humanas, colocou a Verdade no fundo de um poço; para a tirar não são precisos baldes? Terás fornecido três em vez de um, ao público. Aí está, meu filho. Vamos !

Luciano estava aturdido. Blondet beijou-o nas duas faces, dizendo:

— Vou para a minha loja.  Cada qual foi para a sua loja. Para aqueles homens fortes, o jornal não passava de uma loja. Todos deveriam tornar a encontrar-se à noite nas Galerias de Madeira onde Luciano iria assinar o contrato com Dauriat. Florina e Lousteau, Luciano e Corália, Blondet e Finot jantavam no Palais-Royal, onde du Bruel banqueteava o diretor do Panorama-Dramatique.

— Eles têm razão! — exclamou Luciano, quando ficou a sós com Corália. — Os homens devem ser instrumentos nas mãos dos seres fortes. Quatrocentos francos por três artigos! Doguereau mos daria depois de muito regatear, por um livro que me custou dois anos de trabalho.

— Faze crítica depois — disse Corália – diverte-te! Não serei esta noite andaluza? Amanhã não me transformarei em cigana e no dia seguinte, em homem? Faze como eu, dá-lhes caretas pelo seu dinheiro, e vivamos felizes!

Luciano, seduzido pelo paradoxo, fez com que seu espírito montasse essa caprichosa mula, filha de Pégaso e da burra de Balaão. Pós-se a galopar pelos campos do pensamento. durante o passeio pelo Bosque, e descobriu belezas originais na tese de Blondet. Jantou como costumam jantar as criaturas felizes. Assinou em casa de Dauriat um contrato mediante o qual lhe cedia a plena propriedade do manuscrito das Margaridas, sem ver nisso qualquer inconveniente. Foi em seguida dar uma volta até ao jornal, onde rabiscou duas colunas, e voltou para a rua de Vendóme. No dia seguinte pela manhã sentiu que as idéias da véspera haviam germinado em seu cérebro, como acontece com todas as inteligências cheias de seiva cujas faculdades tenham sido pouco usadas. Sentiu prazer em meditar o novo artigo e atirou-se a ele com ardor. Sob sua pena surgiram as belezas que a contradição faz nascer. Foi espirituoso e zombeteiro, abalançou-se mesmo a novas considerações sobre o sentimento e a imagem na literatura. Engenhoso e fino, encontrou, para fazer o elogio de Nathan, suas primeiras impressões da leitura do livro no gabinete literário no pátio do Comércio. De contundente e áspero crítico, de satírico, tornou-se poeta nas frases finais que se balançaram majestosamente como um incensório carregado de perfumes se balança frente ao altar.

— Cem francos, Coralia ! — lembrou ele. mostrando as oito tiras de papel escritas, enquanto ela se vestia.

Na boa disposição em que estava. escreveu logo em duas penadas o terrível artigo, prometido a Blondet, contra Chátelet e a Sra. de Bargeton. Gozou naquela manhã um dos mais vivos prazeres íntimos do jornalista: o de aguçar um epigrama, polir-lhe a lâmina fria que há de ter por bainha o coração da vítima, deixando o cabo esculpido para os leitores. O público admira o trabalho artístico do punhal, não compreende a malícia, ignora que o aço da frase espirituosa, corrompido pela vingança, mergulha num amor-próprio alvejado com requinte, ferido por mil golpes. Este horrível prazer, sombrio e solitário, degustado sem testemunhas, é como um duelo com um ausente, ferido a distância com a haste de uma pena, como se o jornalista possuísse o poder fantástico concedido aos desejos daqueles que, nos contos árabes, possuem talismãs. O epigrama é a inteligência do ódio, do ódio que é herdeiro de todas as más paixões do homem, tal como o amor concentra todas as suas boas qualidades. Aliás, não há um só homem que não se julgue inteligente quando se vinga, pela mesma razão por que não há um só a quem o amor não proporcione gozos.

Apesar da facilidade, da vulgaridade dessa espécie de espírito na França, ele é sempre bem acolhido. O artigo de Luciano deveria elevar, e elevou, ao auge a reputação de malícia e de maldade do jornal. Penetrou até o âmago de dois corações, feriu profundamente a Sra. de Bargeton, sua ex-Laura, e o Barão Chátelet, seu rival.

Perdoai, senhor; êles não fazem o que sabem…

O texto trazido hoje para a “Arca Reaça” foi retirado de um livro excelente, que creio não haver muitos a lhe fazer par em nossa literatura em termos de humor e originalidade. Escrito pelo obscuro e pouco conhecido Aristides Ávila, o livro “A Teoria da Distância” recebeu o “Primeiro Prêmio da Academia Brasileira de Letras” em 1937. A versão transcrita está na 2a edição do livro publicada pelo Clube do Livro em 1950. No Twitter, me foi indicada uma resenha publicada no Jornal do Brasil em 1938, cujo link pode ser visto neste diálogo. A história contada no livro traz as desventuras, descobertas e transformações do protagonista cujo acaso levou a morar na família dos Acaiabas no bairro do Jabaquara do início do século XX.

A grafia original foi mantida. Divirtam-se então com este trecho:

CAPÍTULO SEIS

Perdoai, senhor; êles não fazem o que sabem…

Entreabriu-se a porta devagar, e penetraram no aposento, primeiro, o nariz, depois os bigodes e por fim o resto do Sr. Veríssimo Acaiaba. Ninguém. Quarto vazio, cama desfeita, livros e papéis sôbre a mesa, denunciando trabalho em andamento, cinzeiro cheio de pontas de cigarro, uma janela mal fechada, por onde vazava uma luz mortiça para o interior levemente perfumado a dentifrício e água de colônia.

Veríssimo abriu de todo a janela e avistou Juventina ao pé do poço.

— Ó Juventina!

— Senhor? … – atendeu ela, aproximando-se, depois de procurar, com a vista, de onde vinha o chamado.

— Que é feito do Doutor?

— Saiu, seu Veríssimo.

— Mas volta?

— Sim, senhor. Saiu, dizendo que voltaria à hora da onça beber água.

— Que quer dizer com isso?

— Não sei… Creio que êle quis dizer que volta para o almôço.

— Heim?! Que atrevimento é êsse?! Proíbo-lhe essas liberdades! Está ouvindo?

— Desculpe, seu Veríssimo. Foi êle que disse…

— Basta!

E correu a cortina, volvendo para dentro do quarto, que farejou minuciosamente. Dirigiu-se à secretária e examinou tudo com irreprimível curiosidade. Sôbre a pasta, debaixo de um berço de mata-borrão, havia três sobrecartas iguais. Apanhou-as e viu que se destinavam às redações do “Jornal de Hoje”, d'”O Aparte” e d'”A Alavanca”.

Achou aquilo um tanto estranho: três cartas para três jornais a um tempo!… E uma idéia fúnebre atravessou-lhe a mente. Suicídio? É exato que, em casos tais, há sempre cartas para a família e para a Polícia… E chegou a rebuscar os livros e papéis esparsos, a ver se lá estavam outras sobrecartas. Seria pouco provável uma loucura dessas, mas… ultimamente, depois que voltou do serviço militar, o rapaz dera para ter procedimentos incompreensíveis… Na véspera, saíra-se sem almoço, regressando sob um aguaceiro terrificante, a escorrer, como um velho beiral; o dia todo fechado no quarto; e à noite, a falar sòzinho… a menos que fôsse com Juventina… E sabe Deus se não há alguma coisa com esta Juventina! E o tenebroso pensamento desviou-lhe o verdadeiro intuito que ali o trouxera.

Afinal, voltou o dorso das sobrecartas e, vendo que não tinham sido coladas, cedeu à tentação de inteirar-se do conteúdo de cada uma. A primeira que abriu era endereçada ao “Jornal de Hoje”, e continha duas compridas laudas de papel de imprensa, das que se usam nas redações para originais, numa caligrafia bem legível e desembaraçada. E leu a epígrafe: “A queda do café”.
— Ah! bom!… – pensou êle. – É um artigo. O Doutor agora é jornalista… Ainda bem!… Depois de ter sido filósofo e soldado… já é progresso… – E leu todo o artigo.

A QUEDA DO CAFÉ

Veiculados tendenciosamente por elementos que se empenham no descrédito da nação, circularam ontem, com certa insistência, boatos quase derrotistas em tôrno da notícia telegráfica de Nova York, referente à baixa de alguns pontos na cotação do café brasileiro.

Podemos asseverar que o fato não está em proporção com o alarme aqui alimentado. Antes, o acontecimento era previsível, dada a orientação imprimida pelas autoridades, no sentido de firmar nosso comércio e consolidar o valor de nossa riqueza exportável, libertando-as dos efeitos de uma alta forçada.

Desde alguns anos, uma valorização fictícia conservava um preço elevado, graças ao qual, – não há como negar, – um grande surto de progresso nos bafejou, levando o conforto ao “hinterland”, e incitando a aplicação de capitais em obras que são hoje o índice de uma civilização que nos orgulha.

Mas é preciso reconhecer que ela situação se mantinha à custa da retenção da maior parte das safras. Retinha-se o produto, dificultava-se a saída, de sorte que o pequeno volume exportado ia encontrar nos mercados consumidores uma procura tão acima da oferta, que as vendas proporcionavam lucros exorbitantes.

As consequências, porém, não se fizeram esperar.

Internamente, o que se verificou foi um aumento da retenção, que autorizava o prognóstico de que em breve se acumulariam safras equivalentes ao consumo total e mundial de dez anos. Enquanto isso, continuava-se a plantar, na certeza de que a maior parte da colheita se destinava a ser sonegada, para que se mantivesse o preço alto.

Externamente, os efeitos ainda foram mais perniciosos. Incentivados pelo preço elevadíssimo do produto, outros países, que não estavam, e não estão em condições de competir conosco, entregaram-se à cultura da preciosa rubiácea, e lograram penetrar nos mercados americanos e europeus. O Brasil, protegendo o produto, oferecia margem a que os concorrentes apurassem a qualidade, mediante um trato caríssimo e uma seleção rigorosa.

À medida que ia lendo, Veríssimo acompanhava as frases com um movimento de cabeça, denotando aprovação irrestrita.

— Realmente!… O Brasil devia ter previsto semelhante calamidade! Outros países fazendo concorrência ao nosso café! Concorrência estimulada por nós mesmos! com idéia fixa de alta! É intuitivo!…

E avizinhou-se mais da janela, para continuar a leitura.

Perdurasse tal obstinação, fatalmente seríamos deslocados pela concorrência, de todos os mercados.

Impunha-se, portanto, uma enérgica medida, de que só um govêrno esclarecido é capaz.

Derrubados os diques obstrutores da livre exportação, todo o produto das últimas safras iria inevitàvelmente constituir nos mercados importadores uma oferta muito maio do que a procura.

Ora, a lei da oferta e da procura é uma lei imutável e universal.

A baixa não podia, pois, deixar de ser previsível, como previsíveis também são os benefícios que dela derivam. Processar-se-á natural e espontâneo reajustamento, e será então afastada a concorrência de outros países, que, nos limites do justo valor do produto, não poderão suportar os encargos de uma cultura desfavorecida pela própria natureza.

Devido à sábia orientação que ora ocasiona tão inconsistente alarma, nossa exportação crescerá, e daqui a poucos exercícios financeiros, a balança comercial acusará em nosso favor um saldo considerável.

— Sim, senhor! Não está nada mau… O rapaz tem jeito para isto.. É intuitivo: quanto maior a retenção, tanto menos se exporta; quanto menor a exportação, mais alto o prêço, mas também mais vasta a concorrência… É… o rapaz tem bossa… Bem dizia o Dr. de Pina que alguma utilidade sempre se tira da filosofia. Aprendeu a raciocinar. É capaz de vir a ser ministro…

Tranquilizado pela surprêsa agradável que lhe dera a leitura, Veríssimo encorajou-se, abriu uma sobrecarta, de onde retirou igualmente duas laudas manuscritas, e leu:

NORTEANDO PARA O SUL

“Está de pêsames o governo. Aliás, era de esperar. Guindada ao poder por eventual maioria, uma facção política empobrecida do tino administrativo não iria desmentir-se, traçando um programa que não fôsse positivamente errado e desastroso.

— Ué! Mudou de opinião? – pensou êle, interrompendo. Já meio desapontado, retomou a sobrecarta, releu o enderêço da redação d'”O Aparte”, e pôs-se a confrontar o que acabara de ler com o início do primeiro artigo. Em seguida, para certificar-se e dar integral atenção ao segundo, sentou-se à beira da cama do Doutor. E prosseguiu:

Depois de amontoar safras e safras de café penosamente cultivadas para o triste fim de serem destruídas pelo fogo, entendeu o gôverno de decretar a livre exportação, mandando assim saturar os mercados por muitos e muitos anos.

Não é sem motivo que os meios financeiros e especializados na política do café se encontram desde ontem inquietos com os mais negros presságios, em vista do telegrama de Nova York anunciando uma baixa brusca de trinta pontos na cotação de nossa quase única riqueza. Para os situacionistas, tratar-se-á de uma febrícula de 40 graus… Mas há de causar desorientação nos mercados consumidores o fato de poder hoje ser vendido, por prêço vil e em grande escala, um produto que até há pouco se distribuía escassamente por preço de objeto de luxo.

Os acidentes econômicos e financeiros que a infeliz medida governamental pode acarretar são assustadores. Decrescendo nossa exportação, não haverá meio de solver as obrigações externas sem o socôrro dos empréstimos, o que significa elevar o nível de vida interna: quando esta se tornar asfixiante, não houver exportação, e os empréstimos não puderem ser amortizados, o último recurso há de ser o da inflação que depreciará cada vez mais nosso dinheiro.

E até onde iremos?

Se era mistér diminuir nosso “stock” e, ao mesmo tempo, amparar o volume da exportação, por que não se deliberou diminuir progressivamente o malsinado “stock”, empregando-o, não em fogueiras, mas numa inteligente propaganda do produto, especialmente nos mercados ainda não conquistados? E paralelamente, por que não se intensificou uma campanha educativa e experimental, a fim de apurar e selecionar a produção?

Melhorado e “standardizado” o tipo exportável, duplicado o consumo em todo o mundo, por fôrça de uma propaganda patriótica, ficariam eliminados os perigos da concorrência de outros países. Poderíamos então, plantar mais alguns bilhões de cafeeiros, pois garantida e regularizada estaria uma exportação de muito maior vulto…

Aí, a restauração completa de nossa economia. É claro como a água, ou antes, seria claro como a água, se não turvasse a paixão política...”

— Sim senhor! Que pouca vergonha! Duas coisas, uma desdizendo a outra! E tem argumentos… tem lógica… O rapaz é inteligente… Mas, que pouca vergonha!

Intoxicado por autêntica indignação, ergueu-se, pegou a sobrecarta d'”A Alavanca”, abriu-a, extraiu duas laudas manuscritas, desdobrou-as, e leu, de pé, no centro do quarto, enquanto movia freneticamente os masseteres e retorcia os bigodes:

ASSIM FALOU NOVA YORK

Um despacho telegráfico de Nova York, alarmante e lacônico, trouxe às praças indígenas a nova não muito alviçareira de que, naquela formidável usina das valorizações artificiais, o café brasileiro sofreu uma depreciação de trinta pontos na última cotação.

Pânico.

A economia nacional por água abaixo! E que perspectiva para os lavradores!

Verdade é que poucos sabem o que quer dizer a descida de tantos ou tantos pontos, na Bôlsa de Nova York. Verdade, também, que menos ainda sabem porque é que Nova York dita leia ao comércio exportador dos outros países. Mas, na ignorância, ou no conhecimento das causas, não há quem não se curve às decisões de Nova York.

Fato consumado.

As colheitas não cobrem o custeio: os fazendeiros entregam as fazendas, e vão disputar os melhores empregos nas capitais; os colonos vão engrossar a massa dos “parados”.

E o país assiste à elevação do nível de vida, que busca remediar com “fundings” e emissão de papel-moeda.

Crise.

Os financistas ensaiam doutrinas sôbre o fenômeno; o govêrno continua nomeando comissões técnicas; tôda gente dá palpite e tem um plano eficaz de reequilíbrio e saneamento do meio circulante.

Mas o câmbio desce.

Em pratos limpos: o que produzimos com o trabalho de milhões de braços não é mais do que um instrumento para meia dúzia de cabeças arquitetarem, sem o mínimo trabalho, uma negociata suntuosa, em que surge o lucro sob a forma de dinheiro, que vem desempenhar uma verdadeira função de produto.

Inevitável.

O Brasil produz muito café, mas Nova York produz muito dinheiro.

Nova York baixou o café brasileiro. Mais tarde, forçará uma alta, e revenderá por prêço régio as safras que o Brasil lhe vendeu barato.

O êrro está em produzir sem nenhuma relação com as necessidades do consumo. Sistema anti-social de produzir, que dá lugar à especulação, da qual resulta a convergência da riqueza nas mãos dos que especulam, com sacrifício dos que produzem e desprêzo aos que consomem.

Haverá remédio?

Haveria: socializar a produção, abolir os entraves que o egoísmo humano postou entre o produtor e o consumidor – salários, transportes, intermediários, impostos, tarifa, altas e baixas.

Mas… é cêdo. Esperemos.

E enquanto esperamos, acomodemo-nos com as vontades de Nova York.

Baixou o café, mas ainda temos laranjas…

Ao terminar o terceiro artigo, Veríssimo estava a ponto de estourar como bomba de dinamite. Mas não estourou. Há espantos tão grandes, que sufocam todo comentário, estrangulam o mais singelo monossílabo. Não fêz mais circunvagar a vista pelo dormitório, espalhar sôbre a mesa as notas econômicas-políticas do Doutor em Ciências Incríveis e Absolutas, e contemplá-las, vacilante, como se, por obrigação inconsciente e indeclinável, devesse escolher uma, dentre as três. Afinal, recolocou-as nas sobrecartas, pousou sôbre elas o berço de mata-borrão, voltou-se para sair, e topou com Juventina, à porta, que no momento vinha entrando.

— Posso arrumar o quarto, seu Veríssimo?

— Pode!

— O senhor queria alguma coisa de seu Doutor?

— Quando êle chegar, diga-lhe que o procurei. Quero falar com êle imediatamente.

E saiu, batendo os pés, ao passo que Juventina permanecia indecisa, chupando a ponto do avental de xadrezinho.

* * *

— Seu Veríssimo esteve aqui no seu quarto, e disse que precisa falar já com o senhor.

— Aqui? A que hora?

— Logo que o senhor saiu. Ficou sòzinho aqui muito tempo.

— Fazendo o quê?

— Não sei, seu Doutor. Não pude ver.

— Êle foi à cidade?

— Não. Acho que está lá em cima, esperando.

E o Doutor saiu, assobiando, subiu a escada interna, atravessou a copa, a sala de jantar, o corredor, e entrou na sala de visitas, onde se enervava o Sr. Veríssimo, a andar de um lado para outro, tendo na mão direita um jornal enrolado em canudo, ao passo que retorcia o bigode com a esquerda.

— Bom dia, seu Veríssimo…

Êle não respondeu, nem olhou. Limitou-se a apontar com o jornal uma cadeira, na qual o Doutor foi sentar-se pachorrentamente, sem deixar de segui-lo naquele frenesi ambulatório, e sem arriscar uma pergunta, pois conhecia de sobra tal pressão de nervos. Mas pôs-se a imaginar:

— Êle vai interpelar-me sobre coisas de Juventina, e eu ficarei sabendo mais do que suponho. De duas, uma: ou êle é profundamente moralista, cuida que estou seduzindo a rapariga, e vai intimar-me a viver longe daqui, sob pena de mandá-la embora, ou então…

De súbito, porém, o Sr. Acaiaba parou em frente dêle, bateu estrondosamente na coxa com o jornal, e gritou:

— Afinal, que é que o senhor pensa do café?

— Que café, seu Veríssimo?

— Ora! Que café! Que café! Êsse cafe que sobe e desce! Essa história de Nova York?!

— Ah!…

— Isso mesmo! Que opinião é a sua?

— Nenhuma, seu Veríssimo…

— Nenhuma!? Tem três opiniões escritas, e alega não ter nenhuma?

— Aquelas opiniões não são minhas… São dos jornais…

— Entretanto, foi você que as escreveu!

— Fui eu, sim…

— Que pouca vergonha! Sim senhor!

— Mas que mal há nisso?

— Ainda pergunta?! Isso é não ter personalidade! É acender uma vela a Deus, outra para o Demônio, além de uma terceira, que eu não sei para quem você acende! Desbrio! Se não fôr má fé!

— Mas… escute, seu Veríssimo: se eu tivesse uma opinião própria, teria opinião para mim; e se devesse escrever, escreveria a minha opinião. Porém, como não preciso ter nenhuma, não me custa escrever as opiniões alheias…

— Que pouca vergonha! Que falta de probidade! E para que isso?

— É um trabalho, como qualquer outro, seu Veríssimo… O senhor vive a ralhar comigo, e dizer que eu não tenho ocupação… que só perdi tempo com filosofias e outras bugigangas… que tenho obrigação de produzir…

— E não é exato? – interrompeu o Sr. Acaiaba, cada vez mais exaltado. – Já não é tempo de acabar com essa malandragem?

— Sei… Por isso mesmo, estou trabalhando… Multiplico-me para recuperar o tempo perdido, e não me fazer pesado… Estou produzindo…

— A essa moxinifada é que você chama produzir?

— Creio que sim… com aquêles artigos, eu ganho tanto quanto o senhor na Estatística, durante um mês…

— Mais grave ainda! Por dinheiro!

— Nós todos nos movemos por dinheiro… É preciso pensar no dia de amanhã…

— Com essa falta de sinceridade?

— Não é necessário ser sincero… Eu não acredito nos artigos que escrevo, como o senhor nas suas estatísticas… Meios de vida…

— Cale-se! Nada de insinuações! Para mim, continua a ser indigno, ganhar dinheiro para confundir o público!

— Quanto a confundir o público, seu Veríssimo, o senhor não tem razão. Ninguém habitualmente lê três jornais de orientação tão diversa. Cada jornal tem seus leitores. Cada indivíduo lê seu jornal predileto; compra diariamente uma ração de idéias, com as quais está sempre de acordo. Não há o que reclamar… Ao contrário, se a gente não escrever, é que os leitores reclamam…

— O argumento é de quem perdeu muito tempo estudando filosofia. Está-se vendo… Mas tudo isso tem que acabar! Está ouvindo? Esta geração está podre! Que miséria! Tem que acabar! – E numa última explosão: – Retire-se!

E o Doutor retirou-se, efetivamente, sem dizer mais nada. Levava a cabeça, no entanto, cheia de pensamentos… Por certo, pensamentos que se prendiam a tôda gente, mais do que a êle mesmo, pois ia murmurando:

— Perdoai, Senhor; êles não fazem o que sabem…

Não deixem de ver o índice de autores citados, resenhados ou transcritos em nosso site: http://reaconaria.org/guia-de-autores/

“Esquerda e direita em tempos de burrice e de esperteza”

Reinaldo Azevedo se derrete em elogios a livro de Emir Saber. O artigo de 1995 tem os mesmos termos e manias de hoje, 22 anos depois:

Esquerda e direita em tempos de burrice e de esperteza

Em tempos de macarthismo circense -quando os “inteligentes” dos segundos cadernos se dedicam a reescrever a história com a purulência de seus tropos e fantasias-, um livro que não se limita a justificar o presente, mas a interrogá-lo, merece saudação. É o que faz Emir Sader em “O Anjo Torto – Esquerda (e Direita) no Brasil”, editado pela Brasiliense.

Seu melhor público será o secundarista ou universitário dos primeiros dias, interessado nas linhas gerais do pensamento de esquerda e de direita e na forma como o Brasil emprestou cor local a disputas que ditaram, em muitos momentos, os destinos de todos nós.

“O Anjo Torto” não tem grandes pretensões e se sustenta num truísmo: esquerda não é direita, e direita não é esquerda.

Ó tempos, ó costumes! Se um truísmo tem de ser demonstrado, o vencedor já não se contenta em fazer pender a espada sobre o vencido, mas pretende ainda erigir o monumento de sua vitória sobre os despojos do outro. Quer deixá-lo pobre de verdade.

“O Anjo Torto” segue a trilha de “Direita e Esquerda”, do italiano Norberto Bobbio, que observa: “Quem acredita que as desigualdades são um fatalismo, que é preciso aceitá-las (…) sempre esteve e estará à direita, assim como a esquerda nunca deixará de ser identificada nos que dizem que os homens são iguais, que é preciso levantar os que estão no chão”.

Sader reconstitui com brevidade e didatismo, mas sem facilitações, as encruzilhadas, vitórias e fracassos da esquerda. Os patrulheiros do antiesquerdismo “fashionable” podem ficar tranquilos. O autor não absolve a esquerda de seus erros. Mas escreve do ponto de vista de um homem que Bobbio definiria como esquerdista.

Burro, ao tentar responder a questão que perpassa o livro -o que é ser de esquerda hoje?-, responde: “Significa participar da reinvenção concreta de uma nova sociedade, baseada na justiça social e na solidariedade”.

Em vez de uma resposta, Sader nos apresenta o que parece ser uma sentença ética. De que justiça, então, nos falam os que pregam e promovem a desregulamentação da economia, a privatização de estatais, o corte nos gastos sociais? Não estão a promover a justiça social? Não o fazem para “defender os movimentos de libertação, as populações esfomeadas” de Bobbio? Não são, a seu modo, esquerdistas, só que inteligentes?

Responde Perry Anderson, professor da Universidade da Califórnia, que não são esquerdistas, desprezam a justiça social, acham o estado de bem-estar (“welfare state”) um excrescência, têm horror à social-democracia e defendem um programa -o neoliberal- cuja matriz não está fundada na eficiência, mas na ideologia.

As idéias de Anderson estão expostas no texto “Balanço do Neoliberalismo”, transcrição de uma conferência proferida no Rio, no ano passado, que integra o livro “Pós-Neoliberalismo”, do qual Sader é um dos organizadores.

“Anjo Torto” sintetiza o ideário neoliberal como o adversário de turno da esquerda. E eis um pecadilho de Sader: não releva a evidência de que o neoliberalismo tem fracassado na tentativa de revigorar o capitalismo.

Ao dar sua “aula” na Universidade Central da Venezuela, por ocasião do título de doutor “honoris causa” que recebeu daquela instituição, o presidente Fernando Henrique Cardoso resumiu 40 anos de pensamento autonomista na América Latina -dos cepalinos ao período pós-Teoria da Dependência- e enxergou uma eloquente lacuna: “Os ideais de justiça e igualdade prevaleciam sobre os da liberdade”.

Ora, exceção feita a Cuba, não há na América Latina histórico de liberdade de menos em cenário de justiça e igualdade demais. Ao contrário, o capitalismo autoritário elevou ao máximo as injustiças e desigualdades em ambiente de liberdade nenhuma.

Não fosse FHC inteligente, estaríamos diante de um estupendo “lapsus linguae”. A liberdade como valor em si, ao qual se podem opor justiça e igualdade, não é uma “ratio” esquerdista. Quando menos, a esquerda inverte a fórmula, como lembra Bobbio: “Uma das conquistas mais claras (…) dos movimentos socialistas (…) é o reconhecimento dos direitos sociais ao lado dos da liberdade. Trata-se de novos direitos (…), consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem”.

Diz “O Anjo Torto”, seguindo essa trilha, que a esquerda “significa a transformação da democracia política numa democracia de conteúdo social”.

Sader escreveu um livro simples e necessário. Reafirma, em tempos em que esperteza política é vendida como inteligência e esta como categoria política, a lógica da diferença. Tímido, chamou seu livro de “O Anjo Torto”, um convite à fala àqueles que escolheram “ser gauche na vida”.

NOTA DO SITE: Obviamente, discordamos dos elogios de Reinaldo Azevedo a Emir Sader e Cuba.

A abolição do homem, por C. S. Lewis

C. S. Lewis

Trazemos ao ArcaReaça um trecho do livro ‘A abolição do homem’, de C. S. Lewis, publicado em 1943:

“Um pensamento ardeu na minha mente: por mais que ele dissesse e por mais que me lisonjeasse, vender-me-ia como escravo quando me tivesse em seu poder” Bunyan

“A conquista da Natureza pelo Homem” é uma expressão utilizada habitualmente para descrever o progresso das ciências aplicadas. “O Homem derrotou a Natureza”, disse alguém não faz muito tempo a um amigo meu. Em seu contexto, essas palavras tinham uma certa beleza trágica, pois o sujeito que as pronunciou estava morrendo de tuberculose. “Não importa”, prosseguiu, “sei que sou uma das baixas. É claro que existem baixas do lado dos vencedores e do lado dos perdedores. Mas isso não muda o fato de que o Homem está vencendo.” Escolhi essa história como ponto de partida com o intuito de deixar claro que não desejo menosprezar o que existe de benéfico no processo descrito como “a conquista humana”, e muito menos toda a verdadeira paixão e o sacrifício pessoal que a tornaram possível. Mas, dito isto, devo passar a um a análise um pouco mais atenta dessa concepção. Em que sentido o Homem possui um poder crescente sobre a Natureza?

Consideremos três exemplos típicos: o avião, o rádio e os anticoncepcionais. Numa comunidade civilizada, em tempos pacíficos, qualquer um que tenha dinheiro pode fazer uso dessas três coisas. Mas não se pode dizer estritamente que quem o faz está exercendo seu poder pessoal ou individual sobre a Natureza. Se eu pago para que alguém me leve a algum lugar, não se pode dizer que eu seja um homem que dispõe de poder.

Todas e cada uma das três coisas que mencionei podem ser negadas a alguns homens por outros homens — por aqueles que vendem, ou por aqueles que permitem que sejam vendidas, ou por aqueles que possuem os meios de produzi-las, ou por aqueles que as produzem. Aquilo que chamamos de poder do Homem é, na realidade, um poder que alguns homens possuem, e que por sua vez podem ou não delegar ao resto dos homens. Novamente, no que se refere ao poder do avião ou do rádio, o Homem é tanto o paciente ou o objeto como o possuidor de tal poder, uma vez que ele é o alvo tanto das bombas quanto da propaganda. E, quanto aos anticoncepcionais, existe paradoxalmente um sentido negativo no qual todas as possíveis gerações futuras são os pacientes ou objetos de um poder exercido por aqueles que já vivem. Pela contracepção enquanto tal, simplesmente lhes é negada a existência; pela contracepção usada como meio de reprodução seletiva, são obrigados a ser, sem que ninguém os consulte, o que uma geração, por suas próprias razões, vier a escolher. Sob esse ponto de vista, o que chamamos de poder do Homem sobre a Natureza se revela como um poder exercido por alguns homens sobre outros, com a Natureza como instrumento.

Trata-se, é claro, de um lugar-comum reclamar que os homens têm usado erroneamente e contra seus próprios congêneres o poder que a ciência lhes outorgou. Mas não é isso o que quero demonstrar aqui. Não me refiro a abusos ou degradações particulares que pudessem ser sanados por um aperfeiçoamento da virtude moral; estou tratando daquilo que sempre e essencialmente será aquilo que chamamos de “o poder do Homem sobre a Natureza”. Sem dúvida, esse quadro poderia ser alterado com a estatização das matérias-primas e das empresas e mediante o controle público da investigação científica. Mas, a menos que existisse um único Estado mundial, ainda teríamos a preponderância de algumas nações sobre outras. E mesmo essa única nação ou Estado mundial significaria (em geral) o poder das maiorias sobre as minorias e (em particular) o poder do governo sobre o povo. E todos os exercícios de poder a longo prazo, especialmente no que diz respeito à natalidade, significam o poder das gerações anteriores sobre as posteriores.

Essa última questão nem sempre é suficientemente enfatizada, pois os estudiosos de assuntos sociais ainda não aprenderam a imitar os físicos na consideração do tempo como uma dimensão. A fim de compreender plenamente o que de fato significa o poder do Homem sobre a Natureza e, portanto, o poder de alguns homens sobre outros, devemos considerar a raça humana no tempo, desde a data da sua aparição até a da sua extinção. Cada geração exerce um poder sobre os seus sucessores e cada uma, na medida em que modifica o meio ambiente que herda e na medida em que se rebela contra a tradição, limita o poder dos seus predecessores e resiste a ele. Isso modifica o quadro comumente apresentado de uma progressiva emancipação da tradição e de um crescente controle dos processos naturais como resultando em um contínuo crescimento do poder do homem. Na verdade, é evidente que, se alguma geração realmente alcançasse, mediante a educação científica e a eugenia, o poder de realizar em seus descendentes o que bem entendesse, qualquer homem que vivesse depois dessa geração seria objeto de tal poder. E seria mais fraco, e não mais forte, pois, embora tenhamos sido capazes de pôr engenhos maravilhosos em suas mãos, teremos prefixado a maneira como deve usá-los. E se, como é provável acontecer, a geração que tenha alcançado o poder máximo for também a geração mais emancipada da tradição, ela se verá comprometida a reduzir o poder dos seus predecessores tão drasticamente quanto o dos seus sucessores. Também temos de lembrar que, à parte isto, quanto mais recente é uma geração – e, por conseqüência, quão mais próxima está da extinção da espécie –, menor o poder que terá para avançar, uma vez que estarão reduzidos os objetos das suas ações. Por isso, não existe um poder conferido a toda a raça e que cresce substancialmente à medida que essa raça segue vivendo. Os últimos homens, longe de serem os herdeiros do poder, serão os que mais estarão sujeitos à mão mortal dos grandes planejadores e manipuladores, e serão os menos capazes de exercer algum poder sobre o futuro.”

Leia também:

Abusando das mentiras

Artigo publicado na Folha de São Paulo hoje, de autoria dos procuradores Carlos Fernando dos Santos Lima, Júlio Noronha e Roberson Pozzobon, membros da força-tarefa da Lava Jato:

Abusando das mentiras

Até quando interesses escusos abusarão da paciência do povo brasileiro? Por quanto tempo haverá tentativas de reduzir as relações espúrias entre políticos e empresários, colocadas a nu pela Lava Jato, a um compromisso sem consequências nefastas para nosso país?

Até quando zombarão de nós aqueles que afirmam que congressistas são apenas ‘despachantes de luxo’, intermediários de inofensivos interesses das empresas?

Nunca antes ficaram tão evidentes as causas e as consequências da corrupção endêmica que nos afeta. Mas já intuíamos isso. Como entender que um país tão rico tenha uma população tão pobre?

Sabíamos que a corrupção desviava recursos públicos apenas para aumentar lucros de empresas e pagar propina.

E que esse ‘acarajé’, esse suborno, chegava aos agentes públicos de diversas formas, desde o benefício indireto do uso de aviões, empregos para filhos e residências na praia até depósitos em contas no exterior, pagamentos em espécie e financiamento de caras campanhas eleitorais.

O câncer da corrupção corrói a própria democracia ao subverter as eleições. Dinheiro de corrupção irriga as campanhas políticas por meio de caixa um ou dois. Importa aqui a sua origem escusa. Proveniente de corrupção, esse valor não muda sua natureza pela aplicação posterior que lhe é dada. Mais que isso, tentar esconder sua gênese configura também o crime de lavagem de dinheiro.

E agora nem o temor da população impede mais as manobras. Políticos envolvidos no escândalo apresentam propostas para anistiar a prática ilícita e punir quem os investiga, processa e julga. Acham-se acima da lei só porque foram escolhidos para legislar. Não percebem que essa conspiração já é do conhecimento de todos.

Assim, apócrifos projetos de lei passeiam no Congresso com o objetivo de anistiar a corrupção, disfarçados como apenas uma anistia ao caixa dois. Afinal, por qual motivo os políticos deveriam temer ser acusados por esse tipo de crime?

Reportagem da rádio CBN de 2016 apontou que o TSE possui apenas uma única condenação criminal por caixa dois em sua história. Então, ainda que não anistiado de direito, há muito foi anistiado de fato.

Além desses projetos, outro tão nocivo já se encontra em tramitação acelerada no Senado. De autoria do senador Renan Calheiros, visa, sob a fachada de tratar do abuso de autoridade, apenas ameaçar aqueles que investigam, processam e julgam a corrupção.

Qual outro motivo para tanto açodamento, sem um debate amplo perante a sociedade? Por que não dão ouvidos à consulta pública feita pelo Senado em seu portal, em que 98% das respostas são contra o projeto como proposto?

Quem diz apoiar a anistia ao caixa dois deseja, na verdade, a anistia à corrupção, o fim das investigações da Lava Jato e a soltura dos condenados.

Mente, portanto, aquele que diz que o loteamento dos cargos públicos é o preço para governar o país, quando se sabe que dele resultam corrupção e falta de serviços públicos para a sociedade.

Torna-se um simples despachante a mando de criminosos aquele que defende interesses escusos na esperança de se manter na política. Por fim, abusa da autoridade aquele que a usa para criar leis com o objetivo tão somente de ameaçar procuradores e juízes.

Advogar essas ideias é desprezar a sociedade. Sabemos quem são e onde se encontram essas pessoas. Não ignoramos o que fizeram em noites passadas e que decisão tomaram.

São tempos difíceis, mas devemos, como povo, tomar os caminhos certos. O Brasil será, de fato, um país de trambiqueiros, condenado ao atraso e à pobreza, se perdoarmos a corrupção e deixarmos que intimidem as autoridades

Até quando interesses escusos abusarão da paciência do povo brasileiro? Por quanto tempo haverá tentativas de reduzir as relações espúrias entre políticos e empresários, colocadas a nu pela Lava Jato, a um compromisso sem consequências nefastas para nosso país?

Até quando zombarão de nós aqueles que afirmam que congressistas são apenas ‘despachantes de luxo’, intermediários de inofensivos interesses das empresas?

Nunca antes ficaram tão evidentes as causas e as consequências da corrupção endêmica que nos afeta. Mas já intuíamos isso. Como entender que um país tão rico tenha uma população tão pobre?

Sabíamos que a corrupção desviava recursos públicos apenas para aumentar lucros de empresas e pagar propina.

E que esse ‘acarajé’, esse suborno, chegava aos agentes públicos de diversas formas, desde o benefício indireto do uso de aviões, empregos para filhos e residências na praia até depósitos em contas no exterior, pagamentos em espécie e financiamento de caras campanhas eleitorais.

O câncer da corrupção corrói a própria democracia ao subverter as eleições. Dinheiro de corrupção irriga as campanhas políticas por meio de caixa um ou dois. Importa aqui a sua origem escusa. Proveniente de corrupção, esse valor não muda sua natureza pela aplicação posterior que lhe é dada. Mais que isso, tentar esconder sua gênese configura também o crime de lavagem de dinheiro.

E agora nem o temor da população impede mais as manobras. Políticos envolvidos no escândalo apresentam propostas para anistiar a prática ilícita e punir quem os investiga, processa e julga. Acham-se acima da lei só porque foram escolhidos para legislar. Não percebem que essa conspiração já é do conhecimento de todos.

Assim, apócrifos projetos de lei passeiam no Congresso com o objetivo de anistiar a corrupção, disfarçados como apenas uma anistia ao caixa dois. Afinal, por qual motivo os políticos deveriam temer ser acusados por esse tipo de crime?

Reportagem da rádio CBN de 2016 apontou que o TSE possui apenas uma única condenação criminal por caixa dois em sua história. Então, ainda que não anistiado de direito, há muito foi anistiado de fato.

Além desses projetos, outro tão nocivo já se encontra em tramitação acelerada no Senado. De autoria do senador Renan Calheiros, visa, sob a fachada de tratar do abuso de autoridade, apenas ameaçar aqueles que investigam, processam e julgam a corrupção.

Qual outro motivo para tanto açodamento, sem um debate amplo perante a sociedade? Por que não dão ouvidos à consulta pública feita pelo Senado em seu portal, em que 98% das respostas são contra o projeto como proposto?

Quem diz apoiar a anistia ao caixa dois deseja, na verdade, a anistia à corrupção, o fim das investigações da Lava Jato e a soltura dos condenados.

Mente, portanto, aquele que diz que o loteamento dos cargos públicos é o preço para governar o país, quando se sabe que dele resultam corrupção e falta de serviços públicos para a sociedade.

Torna-se um simples despachante a mando de criminosos aquele que defende interesses escusos na esperança de se manter na política. Por fim, abusa da autoridade aquele que a usa para criar leis com o objetivo tão somente de ameaçar procuradores e juízes.

Advogar essas ideias é desprezar a sociedade. Sabemos quem são e onde se encontram essas pessoas. Não ignoramos o que fizeram em noites passadas e que decisão tomaram.

São tempos difíceis, mas devemos, como povo, tomar os caminhos certos. O Brasil será, de fato, um país de trambiqueiros, condenado ao atraso e à pobreza, se perdoarmos a corrupção e deixarmos que intimidem as autoridades

A Lava Jato, a ‘direita xucra’ e a bandalheira

Artigo muito bom e, na medida do possível, suave de José Fucs contra aqueles que criticam quem incentiva a punição de políticos pela Lava Jato sem olhar para o partido de quem roubou.

De uns tempos para cá, intensificaram-se os ataques contra os cidadãos de bem que louvam a Lava Jato e procuram demonstrar a sua indignação com a política, os partidos e os políticos do País.
Agora, os ataques não vêm mais só do PT e de outros partidos e organizações de esquerda, que, desde o princípio, não poupam críticas à Lava Jato, sob o argumento de que ela está “criminalizando” a política e abrindo espaço para que um “salvador da Pátria”, sem ligação com política tradicional, possa vencer as eleições de 2018 e assumir o poder.

De repente, os petardos começaram a ser disparados também de trincheiras que estavam alinhadas às forças que levaram milhões de brasileiros às ruas, vestidos de verde-amarelo, para apoiar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, esbravejar contra a bandalheira generalizada e manifestar seu repúdio a tudo-isso-que-está-aí.
Subitamente, jornalistas que ganharam visibilidade vociferando contra o PT, cientistas políticos independentes, sem vínculos com a esquerda que domina a academia no País – sim, eles existem! – e outras vozes que bradavam pelo impeachment passaram a criticar o movimento em defesa da Lava Jato e de repulsa à política velhaca que prosperou no País.

As críticas se multiplicaram depois da convocação de mais uma manifestação para o próximo domingo, 26, por parte dos grupos que lideraram a luta pelo impedimento de Dilma, com o objetivo de apoiar a Lava Jato, o fim do foro privilegiado, as reformas estruturais e um Estado eficiente e desinchado.

Além de defenderem a ideia de que a Lava Jato opera fora dos limites legais, inspirada por uma espécie de messianismo, os críticos mais contundentes “de direita” dizem que a “criminalização” da política jogará o País nas trevas, ao favorecer a candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) nas eleições para a presidência da República, em 2018. Ou, então, que a repulsa pela política levará ao retorno da esquerda ao poder. Teme-se também que o movimento possa dar espaço para o “Fora Temer”, defendido pelo PT e pelas esquerdas de todos os tons, apesar de tal bandeira não estar na pauta dos grupos que lutaram pelo impeachment.
Em seus artigos e em seu programa de rádio, o jornalista Reinaldo Azevedo chegou a chamar de “direita xucra” os grupos que defendem a Lava Jato e pregam nas redes sociais contra a política e os políticos. Segundo ele, a demonização da política e dos políticos de forma geral levaria ao “rebaixamento da ordem democrática” e seria “um salto para trás, à esquerda ou à direita”.

De fato, não faltam exemplos históricos de regimes autoritários forjados a partir de um discurso de ódio à política e de aversão ao status quo, como diz Reinaldo Azevedo. O fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha são os casos mais emblemáticos, mas a lista é longa. Obviamente, isso deve ser motivo de preocupação permanente para todos os que acreditam nos valores da democracia Ocidental, alvo de ataques permanentes das esquerdas e dos obscurantistas de direita, na liberdade e no livre arbítrio.

Mas, apesar de algumas iniciativas isoladas de grupos pouco representativos, que defendem uma intervenção militar para acabar com a roubalheira dos políticos e a baderna social, não se tem notícia até o momento de que estejamos no limiar de um golpe fascista destinado a por um fim no regime democrático reinstalado no País em meados da década de 1980. Ao que se sabe, nem Bolsonaro apoia uma proposta do gênero.

Parece improvável também que estejamos diante do renascimento iminente do PT e de seus aliados de esquerda, nocauteados pelo impeachment e pelo envolvimento de suas principais lideranças no petrolão e em outros escândalos bilionários de corrupção, cuja escala jamais se viu na história desse País.

Talvez, a busca por lideranças desvinculadas da política tradicional abra espaço para o aparecimento de líderes populistas, num momento em que o Brasil precisa desesperadamente de gente séria, capaz de identificar os grandes problemas nacionais e de buscar as melhores soluções para resolvê-los, sem viés ideológico, e para recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento sustentável. Seria uma tragédia de custos incalculáveis que um líder populista assumisse o comando do País em 2018.

Ainda assim, como condenar os milhões de brasileiros que defendem uma faxina completa na política, diante da deterioração sem precedentes da moralidade e do assalto ao dinheiro público para beneficiar partidos e gatunos políticos, em troca de contratos espúrios e empréstimos polpudos a empreiteiras, grandes frigoríficos e empresas de outros ramos de atividade?

Será que o medo dos fantasmas de Bolsonaro, do retorno da esquerda ao poder e do populismo deveria levar os brasileiros indignados com a bandalheira, na qual está envolvida boa parte dos políticos do País, a se calar ou a fazer um recuo tático neste momento, para evitar eventuais contratempos no futuro?

Será que merecem ser achincalhados os brasileiros que se revoltam contra a política e os políticos que legislam em causa própria, para aumentar os próprios salários e benefícios ou para perpetuar o foro privilegiado, que lhes garante julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), onde os processos costumam ser deixados para as calendas?

Será que se deve humilhar em praça pública os brasileiros que se rebelam contra as tentativas do Congresso Nacional de promover uma anistia ao caixa 2 na calada da noite e uma reforma política que prevê o voto em lista fechada, para perpetuar no poder os políticos que controlam as máquinas partidárias?

Provavelmente, não. Ainda que a indignação popular esteja contaminada pela emoção, parece natural que haja um questionamento da política, dos partidos e dos políticos. No cenário surrealista que predomina na arena política, é perfeitamente compreensível que a indignação dos brasileiros de bem desemboque na busca por representantes sem ligação com tudo-isso-que está-aí.

É claro que há exceções, honrosas exceções, na política. Felizmente, há políticos que não fazem parte da banda podre que se incrustou nos partidos e dá o tom na política nacional. A população certamente saberá reconhecê-los, dando-lhes um voto de confiança nas urnas, quando chegar a hora. Mas a extensão do tumor que se desenvolveu no tecido político do País não deixa muito espaço para quimeras.

Na verdade, a ojeriza aos políticos tradicionais não é um fenômeno restrito ao Brasil. Em todo o planeta, uma onda antipolítica está em evolução, em face da incapacidade do sistema político tradicional atender aos anseios da maioria silenciosa que, nos últimos tempos decidiu sair do armário e fazer ouvir a sua voz, para o bem ou para o mal, “empoderada” pelas redes sociais. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – ele próprio um cacique da política tradicional – reconhece a força do fenômeno.

“No mundo todo, se está com um pé atrás em relação à política e aos políticos”, disse ele em entrevista para a série “A reconstrução do Brasil”, publicada pelo Estado para discutir os principais desafios do País depois do impeachment (leia as reportagens da série em http://www.estadao.com.br/tudo-sobre/a-reconstrucao-do-brasil). “Os políticos falam de uns temas e a sociedade de outros. Daí vem essa sensação de vazio, de falta de correspondência entre os anseios das pessoas e o comportamento dos políticos.”

Por tudo isso, mais do que demonizar os brasileiros que se levantam contra a corrupção e a políticagem praticada no País, seria mais apropriado, provavelmente, compreender melhor o que o que está por trás dessa indignação, da repulsa aos políticos tradicionais e à política, do desejo de renovação do sistema e da busca por novos líderes.

Afinal, trata-se, felizmente, de um contingente robusto de cidadãos, que representa uma reserva moral essencial para impor limites à bandalheira e para renovar a esperança de que o Brasil não é um caso perdido.

As noivas-crianças do Boko Haram, grupo terrorista islâmico

Tradução com pequenas adaptações* da excelente reportagem de Stephanie Sinclair, do New York Times:

Após conquistar Bama, a segunda maior cidade do estado nigeriano de Borno, um pequeno grupo de terroristas da organização islâmica Boko Haram forçaram a entrada na casa com telhado de palha da família de Hawa, exigindo a garota de 15 anos como noiva.

“Meus pais se recusaram a me deixar partir e casar,” Hawa me disse em novembro. “Então eles mataram meus pais na minha frente.”

Eles então se viraram para seu avô. “O que você tem a dizer?” perguntaram os terroristas. Ele hesitou mas aceitou, e eles então lhe deram alguns milhares de “naira nigeriana”, moeda local, como parte do pagamento pela noiva. Aproximadamente R$ 35. Os homens então levaram Hawa.

Haha, 17 anos, foi sequestrada pelo Boko Haram quando tinha 15 anos. Os terroristas mataram seus pais quando eles se recusaram a liberá-la para o grupo.

Após invadirem Bama, os terroristas do Boko Haram vieram à minha casa, um deles me viu e disse “Eu quero casar com você.” Eu disse Eu não vou casar com você. Meus pais não vão me dar para você. Então ele disse “O.K., isso é fácil. Vou matá-los e então você terá que decidir.” Nós nos casamos na floresta de Sambisa. Três meses depois, ele veio me dizer que queria atacar uma comunidade. Meu marido foi assassinado neste ataque. Eu estava grávida naquele momento”.
YAKAKA, 17

“Eu estava aterrorizada,” disse Hawa, lembrando daquela noite em setembro de 2014.

Além dela outras 20 garotas, a maioria amigas e companheiras de aula, foram levadas para um dos acampamentos do grupo no meio da floresta de Sambisa que possui mais de 500 quilômetros quadrados.

Maimuna, 16 anos, tem um bebê de 6 anos cujo pai é um terrorista do Boko Haram

Após o início de sua insurgência contra o governo da Nigéria em 2009, o Boko Haram já avançou de sua base na floresta com bombas, assassinatos e sequestros  como parte do esforço para derrubar o governo e criar um Estado Islâmico.

Sequestros como o de Hawa não são incomuns no norte da Nigéria, embora o mundo todo só tenha tomado conhecimento disso quando o grupo sequestrou 276 alunas de seu alojamento na cidade de Chibok, em 2014. Sob o mantra “Devolvam Nossas Garotas”, o caso explodiu nas redes sociais. Porém, devido às poucas notícias daquela região remota, o interesse do público desapareceu.

Quase três anos depois, está mais claro que os sequestros de Chibok foram apenas uma parte de uma tática terrível: casamentos com crianças como arma de guerra.

Hassana e Hussaina, gêmeas de 14 anos que foram sequestradas quando tinham 11 anos e foram mantidas reféns por 2 anos. Elas conseguiram fugir após ouvirem boatos de seus iminentes casamentos com os criminosos do Boko Haram

A situação era insuportável. Eles matavam pessoas na nossa presença para que tivéssemos medo. Infelizmente, tivemos que deixar alguns amigos para trás. Nós torcíamos para encontrar soldados e esperávamos não tomar tiros quando eles nos vissem. Tínhamos perdido a esperança de que seríamos resgatadas. Nós procuramos por comida durante os sete dias que levamos para chegar a Maiduguri.
HASSANA, 14

De acordo com a ONG “Internation Crisis Group”, a relativa facilidade com que o Boko Haram conseguiu realizar os sequestros de Chibok encorajou o grupo. Com uma frequência cada vez maior, tanto crianças cristãs e, mais recentemente, muçulmanas, passaram a ser sequestradas, enfraquecendo as comunidades que se opunham às táticas brutais do grupo. Para atrair jovens recrutas e motivar os combatentes, o Boko Haram usa essas noivas como prêmios para os terroristas. Assim que essas garotas atingem a puberdade, casamentos forçados geralmente torna essas crianças em mães contra suas vontades. Seus filhos estão destinados a se tornarem a próxima geração de terroristas, crescendo sob a ideologia nefasta de seus pais.

Esse comércio por noivas crianças já era comum antes do conflito. De acordo com a ONG “Girls Not Brides” (Garotas, Não Noivas), uma parceria global de organizações cívicas, cerca de 43 por cento das garotas da Nigéria se casam antes dos 18 anos. No norte do país o índice é de 76 por cento. As garotas são forçadas em casamento geralmente por questões econômicas: uma boca a menos para alimentar em sua família de origem e fontes de trabalho, sexo e pagem para a família do noivo. Agora que a região está sendo destruída pela violência, que as escolas são fechadas e famílias empobrecem, mais e mais pais desesperados vêem casamentos precoces como uma forma de proteger suas filhas

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Dada, 14 anos, com sua filha. Ela foi sequestrada junto de sua irmã mais velha e conseguiu escapar há um ano, mas sua irmã não.

Eu nunca o considerei meu marido. Se eu gostasse dele, não teria fugido. Eu me sentia como um fantasma. Eu não tinha medo de escapar, estar viva naquele acampamento já era a pior coisa que poderia me acontecer.
DADA, 14

Numa tarde quente, num apertado escritório em Maiduguri, capital do estado de Borno, conversei sobre as garotas de Chibok, muitas supostamente já casadas com terroristas, com Engr Satomi Ahmad, o chefe executivo do órgão do Estado de Borno responsável pelo gerenciamento de emergências.

“Como chefe dessa agência, as garotas de Chibok, para mim, não representam nem 0,1 por cento do total das garotas sequestradas,” disse Ahmad.

Relatórios fornecidos pelo governo da Nigéria estimam que cerca de 9 mil mulheres e garotas foram sequestradas desde que o Boko Haram começou seus ataques. Satami Ahmad acredita existir ainda cerca de 13 mil sob domínio deles e não registradas, e provavelmente muitas mais em regiões perigosas demais para avaliar.

No último mês de novembro conversei com cerca de 30 garotas que foram sequestradas e forçadas a se casar com homens que estão entre os mais violentos do mundo. Elas relatam casos em que foram mantidas em cativeiros por meses, de amigos que foram queimados vivos, de serem forçadas a se casar e serem molestadas sexualmente por homens que “fediam a sangue”.

Balkisu, 16 anos, foi sequestrada quando tinha 14 e mantida em cativeiro por 15 meses na selva.

Minha amiga morreu quando dava à luz. Quando a vi morrer, decidi escapar. Quando cheguei em casa, descobri que estava carregando uma criança morta. Eu adoraria ter conseguido dar à luz e cuidar daquele bebê.
BALKISU, 16

Gogogi, 15 anos, foi sequestrada e teve de se casar com um terrorista. Ela conseguiu escapar com sua bebê.

Eles sequestraram todas as garotas da vila. Nos colocaram em uma grande casa e nos casamos após duas semanas. Após minha primeira tentativa de fuga, eles me encontraram e ameaçaram matar minha mãe, que me escondia. Eles ponderaram entre me matar ou me bater e por fim decidiram me açoitar. Eu estava grávida.
GOGOGI, 15

Elas descreveram os riscos que correram para se libertar: correr sob tiros e batalhas, às vezes grávidas ou carregando bebês, cruzando rios, andando por dias sem comida ou água e temendo ser encontradas mesmo após chegarem a algum lugar seguro.

Hawa não sabe quanto tempo passou no acampamento do Boko Haram no mato, mas foi tempo o bastante para dar à luz um bebê, que ela batizou Mubarak. A criança tinha cerca de 6 meses quando Hawa, agora com 17, escapou. Mas a jornada de volta troxe uma nova tragédia: durante a longa caminhada até Maiduguri, o bebê morreu.

“Eu não tinha leite o suficiente para alimentá-lo”, disse Hawa.

A vida fora do cativeiro tem suas próprias privações para as garotas chamadas de “Noivas do Boko Haram”. Os outros nigerianos suspeitam de suas lealdades após tanto tempo em cativeiro.

O uso de crianças pelos terroristas como homens-bomba – 75 por cento delas garotas – aumenta a atmosfera de medo e desconfiança, gerando um devastador efeito cascata para as garotas que escapam..

Aisha A., 15 anos, segura sua filha de um ano chamada Hadiza, que nasceu em cativeiro

Fui sequestrada de minha casa na noite. Eu estava apenas andando pelo bairro quando os terrroristas vieram e me forçara a subir na moto.  Eu havia casado há um semana. Meu bebê nasceu na floresta. Os terroristas anularam aquele casamento e casei novamente com um deles. Voltei ao meu marido quando consegui fugir. Ele me aceitou de volta.
AISHA A., 15

“Alguns nos culpam, outros não nos querem por perto” disse Aisha I, de 17 anos. Após três anos e meio em cativeiro, ela chegou a Maiduguri sem lar e grávida de três meses.

Como as outras ex-sequestradas com quem falei, Aisha e Hawa se encontram sem formação escolar, dinheiro, apoio familiar ou qualquer pessoa a ajudá-las a se reintegrar pacificamente e em segurança à sociedade. De fato, aprendi após entrevistar representantes de várias organizações globais, poucos sequer sabiam que as garotas que escaparam estavam vivendo em Maiduguri.

Por que ninguém está ajudando na busca das garotas desaparecidas da Nigéria, sejam aquelas que estão na floresta ou aquelas que escaparam? O esforço e os recursos estão focados nas 276 garotas. Líderes do Boko Haram alegam que as garotas que eles sequestraram não querem voltar para casa. Mas representantes do governo e fugitivas com quem falei dizem o contrário.

Em minha última manhã em Maiduguri, fui me despedir de Aisha. A luz entrou no quarto simples em que ela vive, e a vi preparar chá, organizar seus poucos pertences e cuidar de seu filho. Cada tarefa é um pequeno passo rumo a uma vida que ela espera um dia reconstruir.

“Meu sonho para o futuro é que Deus me ajude”, disse Aisha. “E que aqueles que ainda estão na floresta consigam escapar.”

 

* Na reportagem, os membros do Boko Haram são chamados de guerreiros ou insurgentes. Aqui, preferi o termo terroristas. A reportagem original pode ser lida neste link.

 

Pobres liberais!, por Arthur de Azevedo

Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 -1908) foi um dramaturgo, poeta, contista, jornalista e fundador da Academia Brasileira de Letras. Mais detalhes sobre sua biografia podem ser conferidos no site da ABL.

Hoje, trazemos ao site o conto ‘Pobres liberais!’.

Artur de Azevedo, por Modesto Brocos (1891)

“Foi no tempo do Império.

O notável político   Dr. Francelino  Lopes, sendo  presidente  de uma  província  cujo nome não mencionarei   para   não   ofender   certas   suscetibilidades,   aliás   mal   entendidas,   resolveu, aquiescendo ao desejo dos chefes mais importantes do partido conservador (era o que estava  de cima), fazer uma grande excursão por todo o interior da província, visitando as principais localidades.

A notícia dessa resolução abalou necessariamente a população inteira, e por toda a parte, não só as câmaras municipais como os cidadãos mais importantes, correligionários do governo, se prepararam para receber condignamente o ilustre delegado do gabinete imperial.

Na primeira cidade visitada pelo Dr. Francelino, foi S. Exa. recebido na estação da estrada de ferro,   que   se   achava   ricamente   adornada,   ao   som   do   hino   nacional,   executado   por   uma indisciplinada charanga, e das bombas dos foguetes estourando no ar e das aclamações do povo, cujo entusiasmo, se não era real, era, pelo menos, espalhafatoso e turbulento.

Estavam presentes todas as autoridades locais. Houve três discursos, cada qual mais longo, a que S. Exa. respondeu com poucas mas eloqüentes palavras.

Da   estação   da   estrada   de   ferro,   seguiu   o  presidente,   a   carro,  acompanhado   sempre   pelas autoridades   e   grande   massa   de   povo,   para   a   câmara   municipal,   onde   o   esperava   opíparo banquete, a que fez honra o estômago de S. Exa., o qual estava a dar horas como se fosse o estômago de um simples mortal.

À mesa, defronte do presidente, sentou-se a Baronesa de Santana, esposa do chefe do partido dominante, abastado fazendeiro, que se reservara a honra e o prazer de hospedar o grande homem.

Este, que era bem parecido, que não tinha ainda 40 anos, e gozava na capital do império de uma reputação um tanto donjuanesca, sentia-se devorado pelos olhares ardentes da baronesa, de idade digna de um príncipe.

Eram 9 horas da noite quando terminou o banquete pelo brinde de honra, erguido por S. Exa. à sua majestade, o Imperador.

Como   a   charanga   estivesse   presente   e   as   moças   manifestassem   o   desejo   de   dançar, improvisou-se   um   baile,   e   o   Dr.   Francelino   Lopes   dançou   uma   quadrilha   com   a   baronesa, apertando-lhe   os   dedos   de   um   modo   que   nada   tinha   de   presidencial.   A   essa   inócua manifestação muscular limitou-se, entretanto, o esboçado namoro, que não prosseguiu por falta absoluta de ocasião.

Como o presidente se queixasse da fadiga produzida pela viagem, a festa foi interrompida, e as autoridades conduziram S. Exa. aos aposentos que lhe estavam reservados em casa do barão, na mesma praça onde se achava o edifício da Câmara.

Nessa casa que, apesar de baixa, era a melhor da cidade, haviam sido preparadas duas salas e uma alcova para o ilustre hóspede.

Qualquer dos três compartimentos estava luxuosamente mobiliado e o leito era magnífico.

Os  donos  da  casa,  o  presidente  da  Câmara,  o juiz  de  direito,  o  juiz municipal,  o vigário,  o delegado de polícia e outras pessoas gradas, mostraram a S. Exa. os seus cômodos, pedindo-lhe mil desculpas por não ter sido possível arranjar coisa melhor, e todos se retiraram fazendo intermináveis mesuras.

O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A Opinião Pública, órgão do partido conservador.

–   Peço   permissão   para   oferecer   a  V.   Exa.   o  número   do  meu  jornal  publicado   hoje.   Traz  a biografia   e   o   retrato   de   V.   Exa..   V.   Exa.   me   desculpará,   se   não   achar   essa   modesta manifestação de apreço à altura dos merecimentos de V. Exa.

O Dr. Francisco Lopes agradeceu, fechou a porta e soltou um longo suspiro de alívio.

* * *

Logo que se viu sozinho, o presidente lembrou-se do seu criado de quarto, que ali devia estar… Onde se meteria ele? Provavelmente adormecera noutro cômodo da casa.

Felizmente o dorminhoco tivera o cuidado de desarrumar a mala de S. Exa. e pusera à mão a sua roupa de cama e os seus chinelos.

O   hóspede   descalçou-se,   despiu-se,   envergou   a   camisola   de   dormir,   deitou-se,   e   abriu  A Opinião Pública, disposto a ler a sua biografia antes de apagar a vela.

Apenas   acabara   de   examinar   o   retrato,   detestavelmente   xilografado,   sentiu   S.   Exa.   uma dolorosa contração no ventre, e logo em seguida a necessidade imperiosa de praticar certo ato fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir, nem mesmo sendo presidente da província.

Ele saltou do leito e começou a procurar o receptáculo sem o qual não poderia obedecer à natureza; mas nem  no criado-mudo nem debaixo da cama encontrou coisa  alguma. Farejou todos os cantos: nada!

O barão, a baronesa, o presidente da Câmara, os juízes, o vigário, o delegado de polícia, o redator d’A  Opinião Pública, ninguém  se lembrara de que S. Exa. era um homem  como os outros homens!

O   Dr.   Francelino   Lopes   quis   bater   palmas,   chamar   alguém,   pedir   que   o   socorressem;   mas esbarrou num preconceito ridículo da nossa educação; envergonhou-se de confessar o que lhe parecia uma fraqueza e era, aliás, a coisa mais natural deste mundo; receou perder a sua linha de   primeira   autoridade   da   província,   desabar   do   pedestal   de   semideus  aonde   o   guindaram durante a festa da recepção.

Além disso, que diria a formosa provinciana, a bela baronesa cujos dedinhos apertara, e cujos olhos pecaminosos o haviam devorado? Como dona da casa seria ela a primeira a saber, e achá-lo-ia ridículo e grosseiro!

Entretanto, o momento era crítico. O delegado do governo imperial começava a suar frio…

Mas de repente olhou para A Opinião Pública e lembrou-se não sei de que aventura sucedida a outro hóspede, que se achava em semelhante emergência. Não refletiu nem mais um segundo: o jornal do Bacharel Pinheiro, desdobrado sobre o soalho, substituiu o receptáculo ausente.

Desobrigada a natureza, S. Exa. foi de mansinho, cautelosamente, abrir uma janela.

A praça estava deserta e silenciosa. Nas sacadas da Câmara Municipal morriam as últimas luminárias. A cidade inteira dormia.

Ele agarrou cuidadosamente A Opinião Pública pelas quatro pontas e atirou tudo fora.. – Depois fechou a janela, lavou-se, perfumou-se, deitou-se, e, com muita pena de não poder ler a sua biografia, apagou a vela.

Pouco   depois   dormia   o   sono   do   justo,   que   tem   igualmente   desembaraçado   o   ventre   e   a consciência.

* * *

O Dr. Francelino Lopes despertou, ou antes, foi despertado de manhã, por um rumor confuso, que se fazia ouvir na praça, aumentando gradualmente.

Prestou o ouvido, e começou a distinguir, entre aquela estranha vozeira, frases de indignação, como:

– É uma infâmia!

– Que pouca vergonha!

– A vingança será terrível! etc.

E o barulho aumentava!

Não podia haver dúvida: tratava-se de uma perturbação da ordem pública.

O presidente vestiu-se à pressa, abriu a janela, e foi recebido por uma estrondosa ovação. Na praça estavam reunidas mais de quinhentas pessoas.

– Viva o Sr. Presidente da Província!

– Vivou!

E a charanga executou o hino.

Terminado   este,   o   Bacharel   Pinheiro   aproximou-se   da   janela   presidencial,   e   pronunciou   as seguintes palavras:

– Numerosos habitantes desta cidade, admiradores das altas virtudes e dos talentos de V. Exa., vieram hoje aqui, ao romper d’alva, no intuito de dar os bons dias a V. Exa., acompanhados de uma banda de música para tocar a alvorada; mas, aqui chegando, foram surpreendidos pelo espetáculo de uma injúria ignóbil, cometida contra a pessoa de V. Exa. e contra a imprensa livre!

– Apoiado! regougaram aquelas quinhentas gargantas como se fossem uma só.

– Deixamos a injúria no lugar em que foi encontrada, isto é, debaixo da janela de V. Exa., a fim de que  V. Exa. veja a que desatinos  pode levar nesta  cidade o ódio  político  e do que são capazes os liberais!

– Apoiado! vociferou a turba.

– Sim, foram os liberais! Só essa gente imunda poderia encher de imundícies a respeitável efígie e a biografia de V. Exa.!

– Apoiado!

– Mas fique certo, excelentíssimo, de que, se foi grande a ofensa, maior será o desagravo!

O presidente respondeu assim:

– Meus senhores, o acaso tem mistérios impenetráveis… tudo pode ser obra do acaso, e não dos liberais. (À parte) Pobres liberais! (Alto) Todavia, se ofensa houve, foi uma ofensa anônima, tudo  quanto   pode   haver   de   mais   anônimo…   E   as   ofensas   anônimas   desprezam-se!   Viva   sua majestade o imperador!

– Vivou!

– Viva a religião do Estado!

– Vivou!

– Viva a constituição do Império!

– Vivou!

E a charanga atacou o hino.”

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