Arca Reaça

@reaconaria

A Lava Jato, a ‘direita xucra’ e a bandalheira

Artigo muito bom e, na medida do possível, suave de José Fucs contra aqueles que criticam quem incentiva a punição de políticos pela Lava Jato sem olhar para o partido de quem roubou.

De uns tempos para cá, intensificaram-se os ataques contra os cidadãos de bem que louvam a Lava Jato e procuram demonstrar a sua indignação com a política, os partidos e os políticos do País.
Agora, os ataques não vêm mais só do PT e de outros partidos e organizações de esquerda, que, desde o princípio, não poupam críticas à Lava Jato, sob o argumento de que ela está “criminalizando” a política e abrindo espaço para que um “salvador da Pátria”, sem ligação com política tradicional, possa vencer as eleições de 2018 e assumir o poder.

De repente, os petardos começaram a ser disparados também de trincheiras que estavam alinhadas às forças que levaram milhões de brasileiros às ruas, vestidos de verde-amarelo, para apoiar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, esbravejar contra a bandalheira generalizada e manifestar seu repúdio a tudo-isso-que-está-aí.
Subitamente, jornalistas que ganharam visibilidade vociferando contra o PT, cientistas políticos independentes, sem vínculos com a esquerda que domina a academia no País – sim, eles existem! – e outras vozes que bradavam pelo impeachment passaram a criticar o movimento em defesa da Lava Jato e de repulsa à política velhaca que prosperou no País.

As críticas se multiplicaram depois da convocação de mais uma manifestação para o próximo domingo, 26, por parte dos grupos que lideraram a luta pelo impedimento de Dilma, com o objetivo de apoiar a Lava Jato, o fim do foro privilegiado, as reformas estruturais e um Estado eficiente e desinchado.

Além de defenderem a ideia de que a Lava Jato opera fora dos limites legais, inspirada por uma espécie de messianismo, os críticos mais contundentes “de direita” dizem que a “criminalização” da política jogará o País nas trevas, ao favorecer a candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) nas eleições para a presidência da República, em 2018. Ou, então, que a repulsa pela política levará ao retorno da esquerda ao poder. Teme-se também que o movimento possa dar espaço para o “Fora Temer”, defendido pelo PT e pelas esquerdas de todos os tons, apesar de tal bandeira não estar na pauta dos grupos que lutaram pelo impeachment.
Em seus artigos e em seu programa de rádio, o jornalista Reinaldo Azevedo chegou a chamar de “direita xucra” os grupos que defendem a Lava Jato e pregam nas redes sociais contra a política e os políticos. Segundo ele, a demonização da política e dos políticos de forma geral levaria ao “rebaixamento da ordem democrática” e seria “um salto para trás, à esquerda ou à direita”.

De fato, não faltam exemplos históricos de regimes autoritários forjados a partir de um discurso de ódio à política e de aversão ao status quo, como diz Reinaldo Azevedo. O fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha são os casos mais emblemáticos, mas a lista é longa. Obviamente, isso deve ser motivo de preocupação permanente para todos os que acreditam nos valores da democracia Ocidental, alvo de ataques permanentes das esquerdas e dos obscurantistas de direita, na liberdade e no livre arbítrio.

Mas, apesar de algumas iniciativas isoladas de grupos pouco representativos, que defendem uma intervenção militar para acabar com a roubalheira dos políticos e a baderna social, não se tem notícia até o momento de que estejamos no limiar de um golpe fascista destinado a por um fim no regime democrático reinstalado no País em meados da década de 1980. Ao que se sabe, nem Bolsonaro apoia uma proposta do gênero.

Parece improvável também que estejamos diante do renascimento iminente do PT e de seus aliados de esquerda, nocauteados pelo impeachment e pelo envolvimento de suas principais lideranças no petrolão e em outros escândalos bilionários de corrupção, cuja escala jamais se viu na história desse País.

Talvez, a busca por lideranças desvinculadas da política tradicional abra espaço para o aparecimento de líderes populistas, num momento em que o Brasil precisa desesperadamente de gente séria, capaz de identificar os grandes problemas nacionais e de buscar as melhores soluções para resolvê-los, sem viés ideológico, e para recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento sustentável. Seria uma tragédia de custos incalculáveis que um líder populista assumisse o comando do País em 2018.

Ainda assim, como condenar os milhões de brasileiros que defendem uma faxina completa na política, diante da deterioração sem precedentes da moralidade e do assalto ao dinheiro público para beneficiar partidos e gatunos políticos, em troca de contratos espúrios e empréstimos polpudos a empreiteiras, grandes frigoríficos e empresas de outros ramos de atividade?

Será que o medo dos fantasmas de Bolsonaro, do retorno da esquerda ao poder e do populismo deveria levar os brasileiros indignados com a bandalheira, na qual está envolvida boa parte dos políticos do País, a se calar ou a fazer um recuo tático neste momento, para evitar eventuais contratempos no futuro?

Será que merecem ser achincalhados os brasileiros que se revoltam contra a política e os políticos que legislam em causa própria, para aumentar os próprios salários e benefícios ou para perpetuar o foro privilegiado, que lhes garante julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), onde os processos costumam ser deixados para as calendas?

Será que se deve humilhar em praça pública os brasileiros que se rebelam contra as tentativas do Congresso Nacional de promover uma anistia ao caixa 2 na calada da noite e uma reforma política que prevê o voto em lista fechada, para perpetuar no poder os políticos que controlam as máquinas partidárias?

Provavelmente, não. Ainda que a indignação popular esteja contaminada pela emoção, parece natural que haja um questionamento da política, dos partidos e dos políticos. No cenário surrealista que predomina na arena política, é perfeitamente compreensível que a indignação dos brasileiros de bem desemboque na busca por representantes sem ligação com tudo-isso-que está-aí.

É claro que há exceções, honrosas exceções, na política. Felizmente, há políticos que não fazem parte da banda podre que se incrustou nos partidos e dá o tom na política nacional. A população certamente saberá reconhecê-los, dando-lhes um voto de confiança nas urnas, quando chegar a hora. Mas a extensão do tumor que se desenvolveu no tecido político do País não deixa muito espaço para quimeras.

Na verdade, a ojeriza aos políticos tradicionais não é um fenômeno restrito ao Brasil. Em todo o planeta, uma onda antipolítica está em evolução, em face da incapacidade do sistema político tradicional atender aos anseios da maioria silenciosa que, nos últimos tempos decidiu sair do armário e fazer ouvir a sua voz, para o bem ou para o mal, “empoderada” pelas redes sociais. Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – ele próprio um cacique da política tradicional – reconhece a força do fenômeno.

“No mundo todo, se está com um pé atrás em relação à política e aos políticos”, disse ele em entrevista para a série “A reconstrução do Brasil”, publicada pelo Estado para discutir os principais desafios do País depois do impeachment (leia as reportagens da série em http://www.estadao.com.br/tudo-sobre/a-reconstrucao-do-brasil). “Os políticos falam de uns temas e a sociedade de outros. Daí vem essa sensação de vazio, de falta de correspondência entre os anseios das pessoas e o comportamento dos políticos.”

Por tudo isso, mais do que demonizar os brasileiros que se levantam contra a corrupção e a políticagem praticada no País, seria mais apropriado, provavelmente, compreender melhor o que o que está por trás dessa indignação, da repulsa aos políticos tradicionais e à política, do desejo de renovação do sistema e da busca por novos líderes.

Afinal, trata-se, felizmente, de um contingente robusto de cidadãos, que representa uma reserva moral essencial para impor limites à bandalheira e para renovar a esperança de que o Brasil não é um caso perdido.

As noivas-crianças do Boko Haram, grupo terrorista islâmico

Tradução com pequenas adaptações* da excelente reportagem de Stephanie Sinclair, do New York Times:

Após conquistar Bama, a segunda maior cidade do estado nigeriano de Borno, um pequeno grupo de terroristas da organização islâmica Boko Haram forçaram a entrada na casa com telhado de palha da família de Hawa, exigindo a garota de 15 anos como noiva.

“Meus pais se recusaram a me deixar partir e casar,” Hawa me disse em novembro. “Então eles mataram meus pais na minha frente.”

Eles então se viraram para seu avô. “O que você tem a dizer?” perguntaram os terroristas. Ele hesitou mas aceitou, e eles então lhe deram alguns milhares de “naira nigeriana”, moeda local, como parte do pagamento pela noiva. Aproximadamente R$ 35. Os homens então levaram Hawa.

Haha, 17 anos, foi sequestrada pelo Boko Haram quando tinha 15 anos. Os terroristas mataram seus pais quando eles se recusaram a liberá-la para o grupo.

Após invadirem Bama, os terroristas do Boko Haram vieram à minha casa, um deles me viu e disse “Eu quero casar com você.” Eu disse Eu não vou casar com você. Meus pais não vão me dar para você. Então ele disse “O.K., isso é fácil. Vou matá-los e então você terá que decidir.” Nós nos casamos na floresta de Sambisa. Três meses depois, ele veio me dizer que queria atacar uma comunidade. Meu marido foi assassinado neste ataque. Eu estava grávida naquele momento”.
YAKAKA, 17

“Eu estava aterrorizada,” disse Hawa, lembrando daquela noite em setembro de 2014.

Além dela outras 20 garotas, a maioria amigas e companheiras de aula, foram levadas para um dos acampamentos do grupo no meio da floresta de Sambisa que possui mais de 500 quilômetros quadrados.

Maimuna, 16 anos, tem um bebê de 6 anos cujo pai é um terrorista do Boko Haram

Após o início de sua insurgência contra o governo da Nigéria em 2009, o Boko Haram já avançou de sua base na floresta com bombas, assassinatos e sequestros  como parte do esforço para derrubar o governo e criar um Estado Islâmico.

Sequestros como o de Hawa não são incomuns no norte da Nigéria, embora o mundo todo só tenha tomado conhecimento disso quando o grupo sequestrou 276 alunas de seu alojamento na cidade de Chibok, em 2014. Sob o mantra “Devolvam Nossas Garotas”, o caso explodiu nas redes sociais. Porém, devido às poucas notícias daquela região remota, o interesse do público desapareceu.

Quase três anos depois, está mais claro que os sequestros de Chibok foram apenas uma parte de uma tática terrível: casamentos com crianças como arma de guerra.

Hassana e Hussaina, gêmeas de 14 anos que foram sequestradas quando tinham 11 anos e foram mantidas reféns por 2 anos. Elas conseguiram fugir após ouvirem boatos de seus iminentes casamentos com os criminosos do Boko Haram

A situação era insuportável. Eles matavam pessoas na nossa presença para que tivéssemos medo. Infelizmente, tivemos que deixar alguns amigos para trás. Nós torcíamos para encontrar soldados e esperávamos não tomar tiros quando eles nos vissem. Tínhamos perdido a esperança de que seríamos resgatadas. Nós procuramos por comida durante os sete dias que levamos para chegar a Maiduguri.
HASSANA, 14

De acordo com a ONG “Internation Crisis Group”, a relativa facilidade com que o Boko Haram conseguiu realizar os sequestros de Chibok encorajou o grupo. Com uma frequência cada vez maior, tanto crianças cristãs e, mais recentemente, muçulmanas, passaram a ser sequestradas, enfraquecendo as comunidades que se opunham às táticas brutais do grupo. Para atrair jovens recrutas e motivar os combatentes, o Boko Haram usa essas noivas como prêmios para os terroristas. Assim que essas garotas atingem a puberdade, casamentos forçados geralmente torna essas crianças em mães contra suas vontades. Seus filhos estão destinados a se tornarem a próxima geração de terroristas, crescendo sob a ideologia nefasta de seus pais.

Esse comércio por noivas crianças já era comum antes do conflito. De acordo com a ONG “Girls Not Brides” (Garotas, Não Noivas), uma parceria global de organizações cívicas, cerca de 43 por cento das garotas da Nigéria se casam antes dos 18 anos. No norte do país o índice é de 76 por cento. As garotas são forçadas em casamento geralmente por questões econômicas: uma boca a menos para alimentar em sua família de origem e fontes de trabalho, sexo e pagem para a família do noivo. Agora que a região está sendo destruída pela violência, que as escolas são fechadas e famílias empobrecem, mais e mais pais desesperados vêem casamentos precoces como uma forma de proteger suas filhas

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Dada, 14 anos, com sua filha. Ela foi sequestrada junto de sua irmã mais velha e conseguiu escapar há um ano, mas sua irmã não.

Eu nunca o considerei meu marido. Se eu gostasse dele, não teria fugido. Eu me sentia como um fantasma. Eu não tinha medo de escapar, estar viva naquele acampamento já era a pior coisa que poderia me acontecer.
DADA, 14

Numa tarde quente, num apertado escritório em Maiduguri, capital do estado de Borno, conversei sobre as garotas de Chibok, muitas supostamente já casadas com terroristas, com Engr Satomi Ahmad, o chefe executivo do órgão do Estado de Borno responsável pelo gerenciamento de emergências.

“Como chefe dessa agência, as garotas de Chibok, para mim, não representam nem 0,1 por cento do total das garotas sequestradas,” disse Ahmad.

Relatórios fornecidos pelo governo da Nigéria estimam que cerca de 9 mil mulheres e garotas foram sequestradas desde que o Boko Haram começou seus ataques. Satami Ahmad acredita existir ainda cerca de 13 mil sob domínio deles e não registradas, e provavelmente muitas mais em regiões perigosas demais para avaliar.

No último mês de novembro conversei com cerca de 30 garotas que foram sequestradas e forçadas a se casar com homens que estão entre os mais violentos do mundo. Elas relatam casos em que foram mantidas em cativeiros por meses, de amigos que foram queimados vivos, de serem forçadas a se casar e serem molestadas sexualmente por homens que “fediam a sangue”.

Balkisu, 16 anos, foi sequestrada quando tinha 14 e mantida em cativeiro por 15 meses na selva.

Minha amiga morreu quando dava à luz. Quando a vi morrer, decidi escapar. Quando cheguei em casa, descobri que estava carregando uma criança morta. Eu adoraria ter conseguido dar à luz e cuidar daquele bebê.
BALKISU, 16

Gogogi, 15 anos, foi sequestrada e teve de se casar com um terrorista. Ela conseguiu escapar com sua bebê.

Eles sequestraram todas as garotas da vila. Nos colocaram em uma grande casa e nos casamos após duas semanas. Após minha primeira tentativa de fuga, eles me encontraram e ameaçaram matar minha mãe, que me escondia. Eles ponderaram entre me matar ou me bater e por fim decidiram me açoitar. Eu estava grávida.
GOGOGI, 15

Elas descreveram os riscos que correram para se libertar: correr sob tiros e batalhas, às vezes grávidas ou carregando bebês, cruzando rios, andando por dias sem comida ou água e temendo ser encontradas mesmo após chegarem a algum lugar seguro.

Hawa não sabe quanto tempo passou no acampamento do Boko Haram no mato, mas foi tempo o bastante para dar à luz um bebê, que ela batizou Mubarak. A criança tinha cerca de 6 meses quando Hawa, agora com 17, escapou. Mas a jornada de volta troxe uma nova tragédia: durante a longa caminhada até Maiduguri, o bebê morreu.

“Eu não tinha leite o suficiente para alimentá-lo”, disse Hawa.

A vida fora do cativeiro tem suas próprias privações para as garotas chamadas de “Noivas do Boko Haram”. Os outros nigerianos suspeitam de suas lealdades após tanto tempo em cativeiro.

O uso de crianças pelos terroristas como homens-bomba – 75 por cento delas garotas – aumenta a atmosfera de medo e desconfiança, gerando um devastador efeito cascata para as garotas que escapam..

Aisha A., 15 anos, segura sua filha de um ano chamada Hadiza, que nasceu em cativeiro

Fui sequestrada de minha casa na noite. Eu estava apenas andando pelo bairro quando os terrroristas vieram e me forçara a subir na moto.  Eu havia casado há um semana. Meu bebê nasceu na floresta. Os terroristas anularam aquele casamento e casei novamente com um deles. Voltei ao meu marido quando consegui fugir. Ele me aceitou de volta.
AISHA A., 15

“Alguns nos culpam, outros não nos querem por perto” disse Aisha I, de 17 anos. Após três anos e meio em cativeiro, ela chegou a Maiduguri sem lar e grávida de três meses.

Como as outras ex-sequestradas com quem falei, Aisha e Hawa se encontram sem formação escolar, dinheiro, apoio familiar ou qualquer pessoa a ajudá-las a se reintegrar pacificamente e em segurança à sociedade. De fato, aprendi após entrevistar representantes de várias organizações globais, poucos sequer sabiam que as garotas que escaparam estavam vivendo em Maiduguri.

Por que ninguém está ajudando na busca das garotas desaparecidas da Nigéria, sejam aquelas que estão na floresta ou aquelas que escaparam? O esforço e os recursos estão focados nas 276 garotas. Líderes do Boko Haram alegam que as garotas que eles sequestraram não querem voltar para casa. Mas representantes do governo e fugitivas com quem falei dizem o contrário.

Em minha última manhã em Maiduguri, fui me despedir de Aisha. A luz entrou no quarto simples em que ela vive, e a vi preparar chá, organizar seus poucos pertences e cuidar de seu filho. Cada tarefa é um pequeno passo rumo a uma vida que ela espera um dia reconstruir.

“Meu sonho para o futuro é que Deus me ajude”, disse Aisha. “E que aqueles que ainda estão na floresta consigam escapar.”

 

* Na reportagem, os membros do Boko Haram são chamados de guerreiros ou insurgentes. Aqui, preferi o termo terroristas. A reportagem original pode ser lida neste link.

 

Pobres liberais!, por Arthur de Azevedo

Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo (1855 -1908) foi um dramaturgo, poeta, contista, jornalista e fundador da Academia Brasileira de Letras. Mais detalhes sobre sua biografia podem ser conferidos no site da ABL.

Hoje, trazemos ao site o conto ‘Pobres liberais!’.

Artur de Azevedo, por Modesto Brocos (1891)

“Foi no tempo do Império.

O notável político   Dr. Francelino  Lopes, sendo  presidente  de uma  província  cujo nome não mencionarei   para   não   ofender   certas   suscetibilidades,   aliás   mal   entendidas,   resolveu, aquiescendo ao desejo dos chefes mais importantes do partido conservador (era o que estava  de cima), fazer uma grande excursão por todo o interior da província, visitando as principais localidades.

A notícia dessa resolução abalou necessariamente a população inteira, e por toda a parte, não só as câmaras municipais como os cidadãos mais importantes, correligionários do governo, se prepararam para receber condignamente o ilustre delegado do gabinete imperial.

Na primeira cidade visitada pelo Dr. Francelino, foi S. Exa. recebido na estação da estrada de ferro,   que   se   achava   ricamente   adornada,   ao   som   do   hino   nacional,   executado   por   uma indisciplinada charanga, e das bombas dos foguetes estourando no ar e das aclamações do povo, cujo entusiasmo, se não era real, era, pelo menos, espalhafatoso e turbulento.

Estavam presentes todas as autoridades locais. Houve três discursos, cada qual mais longo, a que S. Exa. respondeu com poucas mas eloqüentes palavras.

Da   estação   da   estrada   de   ferro,   seguiu   o  presidente,   a   carro,  acompanhado   sempre   pelas autoridades   e   grande   massa   de   povo,   para   a   câmara   municipal,   onde   o   esperava   opíparo banquete, a que fez honra o estômago de S. Exa., o qual estava a dar horas como se fosse o estômago de um simples mortal.

À mesa, defronte do presidente, sentou-se a Baronesa de Santana, esposa do chefe do partido dominante, abastado fazendeiro, que se reservara a honra e o prazer de hospedar o grande homem.

Este, que era bem parecido, que não tinha ainda 40 anos, e gozava na capital do império de uma reputação um tanto donjuanesca, sentia-se devorado pelos olhares ardentes da baronesa, de idade digna de um príncipe.

Eram 9 horas da noite quando terminou o banquete pelo brinde de honra, erguido por S. Exa. à sua majestade, o Imperador.

Como   a   charanga   estivesse   presente   e   as   moças   manifestassem   o   desejo   de   dançar, improvisou-se   um   baile,   e   o   Dr.   Francelino   Lopes   dançou   uma   quadrilha   com   a   baronesa, apertando-lhe   os   dedos   de   um   modo   que   nada   tinha   de   presidencial.   A   essa   inócua manifestação muscular limitou-se, entretanto, o esboçado namoro, que não prosseguiu por falta absoluta de ocasião.

Como o presidente se queixasse da fadiga produzida pela viagem, a festa foi interrompida, e as autoridades conduziram S. Exa. aos aposentos que lhe estavam reservados em casa do barão, na mesma praça onde se achava o edifício da Câmara.

Nessa casa que, apesar de baixa, era a melhor da cidade, haviam sido preparadas duas salas e uma alcova para o ilustre hóspede.

Qualquer dos três compartimentos estava luxuosamente mobiliado e o leito era magnífico.

Os  donos  da  casa,  o  presidente  da  Câmara,  o juiz  de  direito,  o  juiz municipal,  o vigário,  o delegado de polícia e outras pessoas gradas, mostraram a S. Exa. os seus cômodos, pedindo-lhe mil desculpas por não ter sido possível arranjar coisa melhor, e todos se retiraram fazendo intermináveis mesuras.

O último a sair foi o bacharel Pinheiro, proprietário e redator principal d’A Opinião Pública, órgão do partido conservador.

–   Peço   permissão   para   oferecer   a  V.   Exa.   o  número   do  meu  jornal  publicado   hoje.   Traz  a biografia   e   o   retrato   de   V.   Exa..   V.   Exa.   me   desculpará,   se   não   achar   essa   modesta manifestação de apreço à altura dos merecimentos de V. Exa.

O Dr. Francisco Lopes agradeceu, fechou a porta e soltou um longo suspiro de alívio.

* * *

Logo que se viu sozinho, o presidente lembrou-se do seu criado de quarto, que ali devia estar… Onde se meteria ele? Provavelmente adormecera noutro cômodo da casa.

Felizmente o dorminhoco tivera o cuidado de desarrumar a mala de S. Exa. e pusera à mão a sua roupa de cama e os seus chinelos.

O   hóspede   descalçou-se,   despiu-se,   envergou   a   camisola   de   dormir,   deitou-se,   e   abriu  A Opinião Pública, disposto a ler a sua biografia antes de apagar a vela.

Apenas   acabara   de   examinar   o   retrato,   detestavelmente   xilografado,   sentiu   S.   Exa.   uma dolorosa contração no ventre, e logo em seguida a necessidade imperiosa de praticar certo ato fisiológico de que nenhum indivíduo se pode eximir, nem mesmo sendo presidente da província.

Ele saltou do leito e começou a procurar o receptáculo sem o qual não poderia obedecer à natureza; mas nem  no criado-mudo nem debaixo da cama encontrou coisa  alguma. Farejou todos os cantos: nada!

O barão, a baronesa, o presidente da Câmara, os juízes, o vigário, o delegado de polícia, o redator d’A  Opinião Pública, ninguém  se lembrara de que S. Exa. era um homem  como os outros homens!

O   Dr.   Francelino   Lopes   quis   bater   palmas,   chamar   alguém,   pedir   que   o   socorressem;   mas esbarrou num preconceito ridículo da nossa educação; envergonhou-se de confessar o que lhe parecia uma fraqueza e era, aliás, a coisa mais natural deste mundo; receou perder a sua linha de   primeira   autoridade   da   província,   desabar   do   pedestal   de   semideus  aonde   o   guindaram durante a festa da recepção.

Além disso, que diria a formosa provinciana, a bela baronesa cujos dedinhos apertara, e cujos olhos pecaminosos o haviam devorado? Como dona da casa seria ela a primeira a saber, e achá-lo-ia ridículo e grosseiro!

Entretanto, o momento era crítico. O delegado do governo imperial começava a suar frio…

Mas de repente olhou para A Opinião Pública e lembrou-se não sei de que aventura sucedida a outro hóspede, que se achava em semelhante emergência. Não refletiu nem mais um segundo: o jornal do Bacharel Pinheiro, desdobrado sobre o soalho, substituiu o receptáculo ausente.

Desobrigada a natureza, S. Exa. foi de mansinho, cautelosamente, abrir uma janela.

A praça estava deserta e silenciosa. Nas sacadas da Câmara Municipal morriam as últimas luminárias. A cidade inteira dormia.

Ele agarrou cuidadosamente A Opinião Pública pelas quatro pontas e atirou tudo fora.. – Depois fechou a janela, lavou-se, perfumou-se, deitou-se, e, com muita pena de não poder ler a sua biografia, apagou a vela.

Pouco   depois   dormia   o   sono   do   justo,   que   tem   igualmente   desembaraçado   o   ventre   e   a consciência.

* * *

O Dr. Francelino Lopes despertou, ou antes, foi despertado de manhã, por um rumor confuso, que se fazia ouvir na praça, aumentando gradualmente.

Prestou o ouvido, e começou a distinguir, entre aquela estranha vozeira, frases de indignação, como:

– É uma infâmia!

– Que pouca vergonha!

– A vingança será terrível! etc.

E o barulho aumentava!

Não podia haver dúvida: tratava-se de uma perturbação da ordem pública.

O presidente vestiu-se à pressa, abriu a janela, e foi recebido por uma estrondosa ovação. Na praça estavam reunidas mais de quinhentas pessoas.

– Viva o Sr. Presidente da Província!

– Vivou!

E a charanga executou o hino.

Terminado   este,   o   Bacharel   Pinheiro   aproximou-se   da   janela   presidencial,   e   pronunciou   as seguintes palavras:

– Numerosos habitantes desta cidade, admiradores das altas virtudes e dos talentos de V. Exa., vieram hoje aqui, ao romper d’alva, no intuito de dar os bons dias a V. Exa., acompanhados de uma banda de música para tocar a alvorada; mas, aqui chegando, foram surpreendidos pelo espetáculo de uma injúria ignóbil, cometida contra a pessoa de V. Exa. e contra a imprensa livre!

– Apoiado! regougaram aquelas quinhentas gargantas como se fossem uma só.

– Deixamos a injúria no lugar em que foi encontrada, isto é, debaixo da janela de V. Exa., a fim de que  V. Exa. veja a que desatinos  pode levar nesta  cidade o ódio  político  e do que são capazes os liberais!

– Apoiado! vociferou a turba.

– Sim, foram os liberais! Só essa gente imunda poderia encher de imundícies a respeitável efígie e a biografia de V. Exa.!

– Apoiado!

– Mas fique certo, excelentíssimo, de que, se foi grande a ofensa, maior será o desagravo!

O presidente respondeu assim:

– Meus senhores, o acaso tem mistérios impenetráveis… tudo pode ser obra do acaso, e não dos liberais. (À parte) Pobres liberais! (Alto) Todavia, se ofensa houve, foi uma ofensa anônima, tudo  quanto   pode   haver   de   mais   anônimo…   E   as   ofensas   anônimas   desprezam-se!   Viva   sua majestade o imperador!

– Vivou!

– Viva a religião do Estado!

– Vivou!

– Viva a constituição do Império!

– Vivou!

E a charanga atacou o hino.”

ArcaReaça: entrevista com Bruno Tolentino

Entrevista, resgatada pela editora Vide Editorial, originalmente publicada nas Páginas Amarelas da revista Veja, em 20 de março de 1996. Bruno Tolentino faleceu em 2007.

Quero o país de volta

O poeta que passou trinta anos na Europa se diz horrorizado com o baixo nível, acha que o país regrediu e parte para a briga.

Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

Por Geraldo Mayrink

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem – todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.

Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merquior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás.

Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA – Por que tantas brigas ao mesmo tempo?
TOLENTINO – Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

VEJA – Por que não?
TOLENTINO – Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

VEJA – Qual o problema?
TOLENTINO – Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

VEJA – Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?
TOLENTINO – Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

VEJA – O que você tem contra a música popular?
TOLENTINO – Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

VEJA – O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.
TOLENTINO – Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

VEJA – Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?
TOLENTINO – Não sabem inglês, nem alemão, nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase “ele tem um pássaro”, que é literal, mas que em alemão quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

VEJA – Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?
TOLENTINO – Na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, que em Lilliput só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”. Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: “Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e…” É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

Bruno Tolentino e Ferreira Gullar

Bruno Tolentino e Ferreira Gullar

VEJA – Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?
TOLENTINO – O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e – como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? – o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

VEJA – Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?
TOLENTINO – A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

VEJA – Caramba… Não sobra nenhum crítico brasileiro?
TOLENTINO – Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim…

VEJA – O senhor também não sobra?
TOLENTINO – Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos crititicos e poetômanos. Infelizmente ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

VEJA – Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?
TOLENTINO – Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

VEJA – O senhor poderia dar exemplos disso?
TOLENTINO – Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. “Faz a melhor imitação de poesia que já li”, dizia. Parecia piada mas não era.

VEJA – O senhor acha que a imitação é ruim?
TOLENTINO – A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

VEJA – Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?
TOLENTINO – Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

VEJA – Então as universidades não servem para nada?
TOLENTINO – A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

VEJA – O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?
TOLENTINO – O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil “ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas”, como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos “grandes centros” produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o “rigor” (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

VEJA – Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado…
TOLENTINO – É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

Bruno Tolentino, Miguel Reale e Olavo de Carvalho

Bruno Tolentino, Miguel Reale e Olavo de Carvalho

VEJA – Tem a ver com o quê?
TOLENTINO – A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

VEJA – O senhor não está exagerando, sendo duro demais?
TOLENTINO – Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.

VEJA – Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país…
TOLENTINO – O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

VEJA – Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?
TOLENTINO – Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.”

O imbecil juvenil, por Olavo de Carvalho

Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria – a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação – literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo miméticode que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.

Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.

Fonte

O diabo e a democratização do ensino

Trecho do livro ‘Cartas de um diabo a seu aprendiz”, publicado em 1942, de C.S. Lewis:

Nessa terra promissora, o espírito do eu sou tão bom quanto você passou a ser algo mais do que uma influência puramente social. Ele começa a se infiltrar no sistema educacional. Não posso dizer com certeza até onde ele foi no presente momento. E isso tampouco importa. Uma vez que vocês captarem a tendência, poderão facilmente prever seus desdobramentos futuros; especialmente se nós mesmos desempenharmos um papel nesses desdobramentos. O princípio básico da nova é que os alunos lentos e vagabundos não devem sentir-se inferiores aos alunos inteligentes e esforçados. Isso seria “antidemocrático”. Essas diferenças entre os alunos – porque elas são, muito obviamente, individuais –  precisam ser disfarçadas. Isso pode ser feito em vários níveis. Nas universidades, as provas devem ser elaboradas de tal forma que quase todos os alunos consigam boas notas. Os vestibulares devem ser feitos para que todos ou quase todos os cidadãos possam entrar nas universidades, quer tenham a capacidade (ou o desejo) de se beneficiarem com uma educação superior, quer não. Nas escolas, as crianças que forem lentas ou preguiçosas demais para aprender línguas, matemática e ciências podem ser levadas a fazer aquilo que as crianças costumavam fazer em seu tempo livre. E possível deixá-las, por exemplo, fazer bonequinhos de argila e dar a isso o nome de Educação Artística. Mas durante todo esse tempo jamais deve haver nenhuma menção ao fato de que elas são inferiores às crianças que estão efetivamente estudando. Qualquer bobagem em que es­tiverem envolvidas deve ter — acho que os ingleses já estão usando essa expressão — “igualdade de valor”. E é possível conceber um esquema ainda mais drástico. As crianças que estiverem aptas a ser transferidas para uma classe mais adiantada podem ser mantidas na classe an­terior usando métodos artificiais, com a justificativa de que as outras poderiam ter algum tipo de trauma — por Belzebu, que palavra mais útil! — caso ficassem para trás. Assim, o aluno mais inteligente permanece democraticamente acorrentado a seus colegas da mesma idade – com toda a sua carreira escolar, e um menino capaz de compreender Esquilo ou Dante é obrigado a ficar sentado ouvindo seus coevos tentando soletrar “O VOVÔ VIU A UVA”.

Resumindo, não é absurdo esperar pela abolição praticamente total da educação quando finalmente o eu sou tão bom quanto você sair vitorioso. Todos os incentivos para aprender e todas as penalidades para a ausência do desejo de aprender desaparecerão. Os poucos que quiserem aprender não poderão fazê-lo; afinal, quem são eles para se destacarem entre seus colegas? E, de qualquer modo, os professores — ou devo dizer “babás”? – estarão excessivamente ocupados tranquilizando os ignorantes e dando-lhes tapinhas nas costas para perderem tempo ensinando de verdade. Não precisare­mos mais ter de planejar e trabalhar arduamente para espalhar a arrogância serena ou a ignorância incurável entre os homens. Os próprios vermezinhos farão isso por nós.

É claro que isso só aconteceria se toda a educação se tornasse estatal. Mas é isso que acontecerá, pois faz parte do mesmo movimento. Os impostos, inventados para esse propósito, estão acabando com a classe média, a classe que estava disposta a economizar e fazer sacri­fícios para que seus filhos recebessem uma educação privada. A remoção dessa classe, além de estar ligada à abolição da educação, felizmente é mais uma consequência inevitável daquele espírito que diz eu sou tão bom quanto você. Foi este, afinal de contas, o grupo social que deu aos humanos a esmagadora maioria de seus cientistas, físicos, filósofos, teólogos, poetas, artistas, compositores, arquitetos, juristas e administradores. Se alguma vez já houve um bando de galhos que precisavam ter suas pontas cortadas para ficarem no mesmo nível das outras, certamente esse grupo era composto pela classe média. Como disse um político inglês, pouco tempo atrás, “a democracia não deseja grandes homens”

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Revisado por Maíra Pires @mairamadorno

No último dia

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Nelson Boeira Faedrich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

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“No Último Dia”, ilustração de Nelson Boeira Faedrich

O dia mais sagrado entre todos os dias é aquêle em que teremos de morrer: o dia solene da transformação. Já pensaste seriamente nessa hora tremenda, inelutável e derradeira, que terás de passar nesta terra?

Era uma vez um homem, um fanático, como se costuma dizer, um dêsses que lutam pelo Verbo, que para êle era a Lei; um servidor zeloso de um Deus zeloso . . . E agora se achava a Morte ao pé da sua cama, a Morte, de rosto carrancudo.

— Chegou a tua hora. Tens de seguir-me — disse a Morte, tocando-lhe os pés com o dedo glacial.

Os pés do homem gelaram. A Morte tocou-lhe então a testa, depois o coração, que se despedaçou àquele contato A alma seguiu o anjo da Morte.

Entretanto, naqueles poucos segundos que se escoaram, durante o transe, passou, como passam as altas e negras ondas de um mar, pelo agonizante, tudo quanto a vida lhe trouxera, tudo quanto a vida nêle despertara. E assim, com um único olhar, devassa as profundezas insondáveis e abrange com o raio de um só pensamento o caminho incomensurável: desvenda, com um só olhar, num conjunto imenso, os enxames inumeráveis de astros, de globos e mundos, na vastidão do espaço.

Em semelhante momento, sente-se o pecador tomado de aflição: não lhe resta mais nada a que se apegar, e ele tem a sensação de que vai afundando num infinito vazio. Não assim o homem justo ; êsse reclina serenamente a cabeça, como uma criança resignada: “ Seja feita a Vossa vontade!”

O homem que ali estava morrendo, porém, não tinha alma de criança: sentia-se homem. Não se horrorizava, naquele momento, como o pecador; sabia que tinha a fé verdadeira, Observara os preceitos da religião em todo o seu rigor. Não ignorava que milhões de pessoas tinham de transpor a via larga que conduz à condenação : seria capaz de aniquilar-lhes os corpos a ferro e fogo, como são e serão sempre aniquiladas as suas almas. O seu caminho, porém. dirigia-se para o céu, onde a graça lhe abriria a porta a prometida graça.

E a alma acompanhou o anjo da Morte; mas antes, dirigiu ainda um último olhar para o leito onde jazia a imagem de barro, vestida com a mortalha branca, uma imagem estranha do seu próprio Eu…

Iam caminhando, e voando. Atravessavam uma vasta sala, mas essa sala era ao mesmo tempo um bosque; ali a natureza cerceada, amarrada, estacada e arranjada em fileiras— era, enfim, tratada artificialmente, como os antigos jardins franceses: era uma mascarada !

— Eis a vida humana! disse o anjo da Morte.

Todos andavam mais ou menos disfarçados. Nem todos os que trajavam veludos e se cobriam de ouro eram na verdade os mais nobres e mais poderosos; e nem todos os esfarrapados eram de fato os mais pobres e humildes. Que mascarada esquisita, aquela ! E – o que parecia mais estranho – cada pessoa trazia, escondida sob as vestes, alguma coisa que procurava furtar aos olhares das outras. Contudo, sacudiam-se uns aos outros, violentamente, para que o objeto escondido aparecesse ; via-se então apontar a cabeça de um animal a careta de um macaco, um bode grotesco, uma serpente viscosa, um peixe meio morto.

Era o animal que nos aflige a todos: o animal que se arraigou no homem. E todos aquêles animais iam pulando, dando saltos, na ânsia de avançar. Cada pessoa procurava cingir bem ao corpo a roupa, mas vinha outra que a afastava, gritando:

— Vejam, vejam! Olhem! Aqui está êle ! Aqui está ela !

E cada qual queria desnudar a miséria do outro.

— Que animal trazia eu? perguntou a alma peregrina.

O anjo da Morte apontou para um vulto soberbo que estava em frente dêles. Tinha a cercar-lhe a cabeça uma auréola brilhante e multicor; mas junto do coração do homem estavam ocultos os pés do animal: os pés de um pavão. A auréola era apenas a cauda cintilante da ave.

Continuaram a andar e ouviram vozes desagradáveis que se elevavam dos galhos das árvores; eram vozes humanas:

— Ó andarilho da Morte! Não te lembras de mim?

Eram os maus pensamentos, os maus desejos do tempo em que vivia, que lhe dirigiam aquela pergunta:

— Não te lembras de mim?

Por um momento a alma sentiu-se tomada de pavor: reconhecera as vozes, os maus pensamentos e desejos que assim se erguiam, como testemunhas em um tribunal. E exclamou:

— Na nossa carne, na nossa natureza perversa, nada existe de bom. Mas os maus pensamentos que havia em mim não chegaram a se concretizar em atos. O mundo não viu o mau fruto.

E tratou de se apressar, para escapar àquela vozearia importuna. Mas as grandes aves negras esvoaçavam em roda dela, gritando, como se quisessem dar a notícia ao mundo inteiro. A alma dava saltos, como um veado perseguido, mas a cada passo tropeçava em seixos pontiagudos, que lhe dilaceravam os pés, magoando-os dolorosamente.

— De onde vêm estas pedras que cobrem a terra, como folhas sêcas?

— São as palavras imprudentes que deixaste escapar. Elas feriram profundamente o coração do teu próximo – mais profundamente do que essas pedras te esfolam os pés !

— Eu não tinha essa intenção —- disse a alma.

— Não julgues, para que não sejas julgado! bradou uma voz nos ares.

— Todos nós pecamos— exclamou a alma, tornando a erguer-se.

— Observei a Lei, obedeci ao Evangelho, fiz o que pude, não sou como os outros…

Estavam então diante da porta do Céu, e o anjo que guardava a entrada perguntou:

— Quem és? Dize-me qual é tua fé, e comprova-a pelos teus atos !

— Cumpri rigorosamente todos os preceitos. Humilhei-me à vista do mundo. Odiei e persegui o mal e os maus.

—És, então, um dos sequazes de Maomé ?

— Eu? Não! Jamais!

“— Todos os que tomarem a espada morreräo à da”, diz o Filho. Tu não tens a sua crença. Serás, talvez, um filho de Israel, que dirá, como Moisés : “Olho por ôlho, dente por dente !” Um filho de Israel, cujo Deus zeloso é o deus sòmente do teu povo ?

— Sou cristão ! — Não o reconheço nem na tua fé, nem nos teus atos. A doutrina de Cristo é feita de reconciliação, amor e graça.

— Graça! — ecoou a voz pelo espaço infinito.

Abriu-se a porta do Céu, e a alma adejou para ir ao encontro daquela magnificência.

Mas a luz que dela irradiava era tão penetrante, tão deslumbrante, que a alma recuou, como se tivesse diante de si um gládio desembainhado. Soavam melodias tão suaves e tão comoventes, como nenhuma voz humana poderia desferir. A alma, tremendo, foi-se abaixando cada vez mais. Mas a claridade celestial penetrou-a, e ela sentiu e percebeu o que jamais sentira com tamanha fôrca: o pêso do seu orgulho, da sua dureza e dos seus pecados — fêz-se a luz no íntimo do seu ser.

– O que realizei de bom no mundo foi porque não pude proceder de outro modo: mas o mal que fiz . . . êsse vinha de mim mesmo !

E a alma, ofuscada pela luz celeste, tão pura, caiu desmaiada: tôda enovelada em si própria, abatida, estava ainda imatura para a bênção do Céu. E, lembrando-se do Deus severo e justo, não se atrevia a murmurar :

– Graça !

E foi então que veio a graça — a graça que esperava !

O Céu de Deus enchia o espaço infinito; o amor de Deus pulsava em todo êle, abundante e inesgotável. E as vozes cantaram:

— Ó alma humana ! Torna-te compassiva, santa, magnífica e eterna!

E todos nós – todos nós recuaremos tremendo, no último dia da nossa vida terrena, como aquela alma; recuaremos tremendo, diante do esplendor e da magnificiência do Reino Celestial; cairemos profundamente; havemos de nos prosternar em humildade. E todavia seremos erguidos pelo Seu amor, sustentados pela Sua graça. Esvoaçando por novas veredas, purificados, melhores e mais nobres, cada vez mais próximos da magnitude daquela luz, por ela fortalecidos, seremos capazes de subir até a eterna claridade!

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A Menina Judia

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Nelson Boeira Faedrich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

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Ilustração de Nelson Boeira Faedrich

Na escola das crianças pobres, entre os outros alunos, achava-se uma menina judia.

Era uma criança boa e viva, e a mais atilada de toda a classe. Mas tinha de ser excluída de uma aula: não podia tomar parte na lição de religião, porque a escola era cristã.

Durante aquela aula podia ela abrir o seu compêndio de geografia, ou resolver o problema do dia seguinte. Mas terminado este, e sabida também a lição de geografia, deixava o livro aberto e punha-se a escutar. Ouvia, silenciosa, as palavras do professor cristão; e ele não tardou em notar que ela prestava mais atenção do que as outras crianças.

– Lê o teu livro, Sara – disse um dia o professor com voz branda, mas firme.

Contudo os olhos da menina, aqueles olhos pretos, tão brilhantes, continuavam fixos nele. E quando um dia lhe fêz uma pergunta, viu que Sara sabia responder melhor do que todas as outras. Ela ouvira, entendera, e gravara profundamente no coração tudo quanto êle dissera.

Seu pai era um homem pobre e honesto; ao matricular a menina, impusera a condição de que ficaria excluída do ensino da religião cristã. Contudo, para evitar que surgisse alguma perturbação ou alguma dificuldade entre
outras crianças, a afastavam da classe durante essas lições, permitindo-lhe que ficasse na sala. Agora, aquilo não podia continuar assim.

O professor foi falar com o pai e explicou-lhe que devia retirar a menina daquela escola, corria risco de se tornar cristã. E declarou:

— Já não posso contar como espectadores indiferentes aquêles olhos radiantes da menina; ela demonstra grande fêrvor, e uma alma sedenta das palavras do Evangelho.

Derramando lágrimas, o pai respondeu:

— Eu mesmo sei muito pouco acêrca dos preceitos dos meus antepassados. Mas a mãe de Sara era uma filha de Israel que possuía uma fé firme, e, quando estava morrer, jurei-lhe que nossa filha nunca se batizaria. Tenho de cumprir o meu juramento, que para mim vale por uma uniäo com Deus!

E a menina judia saiu da escola dos cristãos.

* * *

Correram anos.

Em uma cidade pequenina da província, servia numa casa humilde uma pobre moça israelita. Tinha cabelo prêto como o ébano e olhos escuros como a noite; mas eram tão cheios de brilho e de luz como costumam ser os olhos da filhas do Oriente. Era Sara. Conservava no rosto aquela mesma expressáo da criança que se sentava na carteira da classe a escutar, pensativa, as palavras do professor cristão.

Todos os domingos o som do órgäo da igreja e do canto da congregacäo atravessava a rua e inundava a casa onde a moça judia, em tudo diligente e fiel, se entregava aos seus trabalhos. Uma voz interior dizia-lhe: “Guardará o sábado.” Era a voz da Lei. Mas o seu sábado era para os cristãos um dia útil, e parecia-lhe que aquilo não bastava. E do íntimo da alma subia uma pergunta:

– Deus também contará os dias e as horas?

E, depois que essa idéia lhe ocorrera, consolava-se ao pensar que a hora da oração era menos perturbada no domingo dos cristãos. E então, quando entravam pela cozinha onde trabalhava os sons do órgão e dos hinos, até aquêle lugar se tornava sagrado para ela. E punha-se ler naqueles instantes o Velho Testamento, tesouro e esteio de seu povo — mas lia somente o Antigo. O que lhe haviam dito o pai e o professor, quando ela deixou a esco1a, o juramento que o pai fizera à mãe agonizante — que a filha jamais receberia o batismo cristão, que ela nunca renegaria a fé dos antepassados— tudo isso permanecia gravado o íntimo da alma. O Novo Testamento devia ser para ela um livro selado; e contudo sabia tanta coisa daquele livro! O Evangelho ecoava-lhe na alma, juntamente com as lembranças da infância.

Uma noite estava sentada a um canto da sala; o patrão lia em voz alta, e ela podia escutar tranquilamente, pois que êle não lia o Evangelho, mas um velho livro de histórias. Tinha pois o direito de ouvir a leitura.

Contava o livro, a história de um cavalheiro húngaro que fôra feito prisioneiro por um paxá turco. O paxá mandou jungir o prisioneiro ao arado, juntamente com os bois, e ordenou que o açoitassem e torturassem, em meio de zombarias, até que caísse de inanição. A espôsa leal do cavalheiro vendeu suas jóias, penhorou o castelo e as terras; os amigos do cavalheiro reuniram grandes somas pois o resgate exigido era uma quantia quase astronômica. Conseguiram, porém, reuni-la e o cavalheiro foi resgatado da escravidão e da ignomínia. Enfêrmo e combalido chegou à pátria; mas logo atroou* os ares um chamado geral, para a luta contra o inimigo da cristandade. O cavalheiro ouviu o chamado, e nada pôde retê-lo. Não descansou um só dia. Ordenou que o montassem no seu cavalo de batalha. Voltou-lhe a côr às faces ; parecia que recuperara as fôrças perdidas, quando partiu para o combate, para a vitória.

E aquêle mesmo paxá que mandara atrelá-lo à charrua caiu-lhe nas mãos, prisioneiro, e foi encarcerado nas morras do castelo. Mas menos de uma hora depois, lá ia o cavalheiro falar-lhe:

— Sabes o que te espera?

— Sim, a tua vingança.

—É verdade, mas é a vingança de um cristão. A doutrina do Cristo manda-nos perdoar o inimigo, pois Deus é amor. Vai-te em paz! Parte para a tua terra! Devolvo-te aos teus. Mas daqui em diante procede com humanidade e brandura com os que padecem !

Ouvindo aquelas palavras, o prisioneiro rompeu em pranto e exclamações :

— Como poderia eu imaginar que havia no mundo tamanha brandura? Estava certo de que me esperavam tormentos ignominiosos, por isso tomei o veneno que trouxe escondido. Dentro de poucas horas sucumbirei ao seu efeito. Tenho de morrer, não há salvação. Mas antes de morrer desejo que me comuniques a doutrina de que dimana tamanha abundância de amor e de clemência, porque deve ser grande e divina! Deixa-me morrer nessa doutrina, como um cristão.

E foi feita a sua vontade.

Essa era a que o patrão leu no velho livro de histórias. Todos a escutavam com grande interêsse. Mas a que lá estava sentada, em silêncio no seu canto, essa sentia-se inflamada. Grossas lágrimas inundavam-lhe os negros e brilhantes olhos. E ali ficou, piedosa e simples, como outrora na carteira da classe, sentindo a magnitude dos Evangelhos, enquanto as lágrimas lhe iam rolando pelas faces. Contudo, as últimas palavras da mãe agonizante tornaram a lhe soar dentro do coração:

“Não permitas que minha filha se torne cristã.”

E com elas soava também o mandamento:

—Honrarás pai e mãe!”

— Não, eu não sou admitida na comunidade dos cristãos – disse ela consigo. — Chamam-me “judia suja”. Os meninos do vizinho assim disseram no domingo, quando fiquei parada diante da porta aþerta da igreja, vendo os círios chamejarem e o canto da congregação. Desde os tempos da escola experimento o poder do Cristianismo, um poder que se ašsemelha a um raio de sol; por mais que eu cerre os olhos, êle me ilumina o coração! Contudo, não te magoarei no teu túmulo, minha mãe. Não faltarei ao juramento que meu pai fêz: não lerei a Bíblia cristã. Tenho o Deus dos meus antepassados e ficarei com Êle…

* * *

Mais uma vez correram anos.

Morreu o patrão. A viúva ficou sem recursos. Queriam despedir a criada, mas Sara não abandonou a casa. Foi um esteio, na miséria; mantinha tudo em ordem, trabalhava até altas horas da noite, ganhando com o seu esfôrco o pão de cada dia. Não apareceu nenhum parente para ajudar a família, e a viúva ia ficando cada vez mais fraca, e passou na cama meses inteiros. Sara trabalhava, e também ia sentar-se ao pé do leito da enfêrma, dela cuidando, velando por tudo. Era piedosa — era um anjo de bênção, naquela pobre casa.

Um dia a doente disse-lhe:

— Ali está a Bíblia, sôbre a mesa, Sara. Lê-me um pouco . . . A noite me parece tão longa, tão longa . . . e meu coração tem sêde da palavra de Deus.

E Sara, curvando a cabeça, pegou no livro. Uniu as mãos em tôrno da Bíblia dos cristãos, abriu-a e leu para a doente. A cada passo sentia os olhos rasos de lágrimas, mas êles luziam e cintilavam, enquanto no seu coração ia fazendo-se a luz.

— Mãe ! — disse ela baixinho. —— Tua filha não deve receber o batismo dos cristãos; não deve ser recebida na comunhão dêles. Assim o determinaste, e eu hei de honrar a tua vontade. Quanto à vida neste mundo, estou de acôrdo contigo. Mas para além desta terra, mais além, existe uma união mais sublime, em Deus, que nos conduz e guia para além da morte. Assim o compreendo. Não sei mesmo como foi que aprendi a compreender, mas foi por intermédio de Cristo.

Estremeceu ao pronunciar o nome sagrado, e desceu sobre ela um batismo, como se fossem labaredas de fogo que se lhe apoderavam de todo o corpo. Ela torcia-se, em convulsões; os membros perdiam a fôrça. Caiu desmaiada mais fraca do que a enfêrma que estava cuidando.

Pobre da Sara ! — diziam todos. — Está exausta pelo trabalho e pelas vigílias.

Levaram-na para o hospital dos pobres. Lá morreu, e foi levada para o túmulo — não no cemitério dos cristäos, onde não havia lugar para a moça judia. Foi enterrada fora do muro.

Mas o sol de Deus, que brilha sôbre os jazigos dos cristãos, lança sua luz também sôbre o túmulo da judia, lá fora, junto do muro. E quando ressoam os salmos no cemitério cristão, vão êles ecoar também por sôbre o túmulo solitário.

Também àquela morta destina-se o chamado da ressurreição, em nome de Cristo, Nosso Senhor, que disse aos seus discípulos :

“João certamente batizou com água: mas vós sereis batizados com o Espírito Santo.”

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A Margarida

Conto de Hans Christian Andersen. Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich
Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

amargarida_andersen2-2Escuta a minha história !
Lá no campo, à beira da estrada, há um chalèzinho de veraneio; e sabes que na frente do chalé fica o jardinzinho, cheio de flores, fechado por uma cerquinha de sarrafos brancos, não é? Pois em um montículo de terra, fora da cerquinha, no meio da grama verde e fresca, nasceu uma margarida. O sol espalhava seus raios quentes e brilhantes por igual sôbre as grandes e esplêndidas flores do jardim e sôbre a margarida, e por isso ela cresceu ràpidamente; e foi assim que uma manhã estava completamente desabrochada, com suas delicadas pétalas alvas e lustrosas, que cercavam o pequenino sol amarelo do centro.

Nunca a florzinha se lembrou de que ninguém a via, assim escondida no meio da relva; vivia contente. Voltava-se para o sol que a aquecia, olhava para êle. e ouvia o rouxinol que cantava no ar.

A margarida sentia-se tão feliz como se fôsse um dia de grande festa, e contudo era apenas segunda-feira. Tôdas as crianças estavam na escola; e enquanto lá estavam, sentadas nos bancos, aprendendo as lições, a florzinha, na sua haste verde, aprendia com o sol ardente e com tudo o que a rodeava, como Deus é bom.
Entretanto o pequenino rouxinol exprimia clara e lindamente tudo o que ela sentia em silêncio! E a flor olhava para cima com uma espécie de respeito para o feliz passarinho, que podia voar e cantar. Não se entristecia de não poder fazer o mesmo, porque pensava:
– Posso ver e ouvir; o sol brilha e me aquece, e o vento me beija. Oh! Sou abençoada com tamanha riqueza!

Lá dentro do jardim cercado erguiam-se algumas flores grandes e de haste rígida; e quanto menos fragrantes, mais orgulhosas eram! As peônias enchiam-se de vento, para ver se ficavam maiores do que as rosas. As tulipas ostentavam as côres mais alegres de tôdas; e, como sabiam disso, erguiam-se direitas como velas, vara serem bem vistas de todos. Nem sequer sabiam da existência da florzinha que vivia fora do cercado, e que olhava sempre para elas, dizendo consigo:

– Como são lindas! E ricas! Sim, aquêle nobre passarinho certamente vai descer para vê-las. Como sou feliz por viver tão perto delas e poder ver tanta beleza !

Justamente nesse momento ouviu um ruído que vinha do alto.

E o rouxinol voou para o chão; contudo não procurou as peônias e tulipas; não, êle voou para a humilde margaridinha da grama, que até se assustou, de alegria. Não sabia o que havia de pensar daquilo, tão surpreendida.

O passarinho ia saltando em roda e cantando:

—Oh! Que relva macia! E que linda florzinha, com o coração de ouro e tôda vestida de prata!

Porque o centro amarelo da margarida parecia mesmo de ouro, e as pequeninas pétalas que o cercavam brilhavam como alva prata.

E que feliz era ela! Ninguém pode imaginar como era feliz. O passarinho beijou-a com o bico, cantou para ela, e depois tornou a subir para o céu azul. E passou-se um quarto de hora inteirinho, antes que a flor se recobrasse. Meio vexada, e ainda cheia de felicidade, olhou para as outras flores, as do jardim; certamente tinham visto a honra e a felicidade que lhe tinham sido conferidas, e deviam saber como se sentia feliz. Mas as tulipas esticavam-se, com o dôbro da rigidez anterior, e tinham as faces vermelhas de raiva. Quanto às broncas peônias, era bom, na verdade, que não pudessem falar, porque senão a pequenina margarida não havia de ouvir coisas muito agradáveis. Bem via a pobre florzinha que estavam tôdas de mau humor e isso muito a afligiu.

Logo depois entrou no jardim uma menina, trazendo uma faca brilhante e aguçada; foi para as tulipas e cortou-as, uma por uma.

—Ai! Que coisa horrível!— suspirou a margarida; agora para elas está tudo acabado!

A menina foi embora, levando as tulipas. E a margarida ficou muito alegre de ter nascido na grama, fora do cercado, e de ser uma florzinha desprezada! Sentia-se realmente grata por isso; e quando o sol se escondeu poente, dobrou as pétalas e adormeceu, e sonhou tôda a noite com o sol e com o lindo passarinho.

No outro dia, quando a nossa pequenina flor, fresca e cheia de alegria, tornou a abrir suas brancas pétalas para o sol brilhante e o claro ar azulado, ouviu a voz do passarinho; mas seu canto era triste. E o pobre rouxinol tinha razão para estar triste: fôra apanhado em um laço e pôsto em uma gaiola perto da janela aberta. Êle cantava, cantava as alegrias do vôo livre e ilimitado; cantava a beleza do trigo novo nos campos e o prazer de alçar-se no espaço sem fim. O pobre passarinho era certamente muito infeliz — prisioneiro naquela gaiolinha estreita!

Bem quisera — e com que vontade! — a pequenina margarida ajudá-lo, mas que podia ela fazer? Não o sabia, não: mas esqueceu imediatamente como tudo era lindo ao redor dela, como o sol brilhava, e esqueceu-se até da alvura e beleza de suas pétalas. Ela só pensava agora no passarinho prisioneiro, ao qual não podia auxiliar de modo algum.

Saíram do jardim dois meninozinhos; um trazia na mão uma faca, aquela com que a menina tinha cortado as tulipas. Foram direito à pequenina margarida, que não podia imaginar o que pretendiam fazer. E um dêles disse :

— Aqui podemos cortar um lindo torrão para o rouxinol.

E começou a cortar fundo ao redor da margarida, deixando-a no centro do torrão.

— Arranca a flor — disse o outro.

A margaridinha estremeceu de mêdo, porque sabia que se fôsse arrancada morreria, e desejava tanto viver, pois que ia ser posta dentro da gaiola do rouxinol!

— Não, deixa-a aí! — disse o primeiro. — É tão bonita !

E assim foi: deixaram-na ali, e foi posta dentro da gaiola.

Mas o pobre passarinho lamentava a perda da liberdade, batendo as asas contra os arames da gaiola; e a florzinha não podia falar — não podia dizer uma só palavra de confôrto, como tanto desejava . . . E assim se passou tôda a manhã.

— Não há água aqui! — gemia o rouxinol cativo ; foram embora e esqueceram-se de mim; nem uma só gôta de água para beber! Tenho a garganta sêca e ardente! Tenho fogo e gêlo dentro do corpo! E não posso respirar! Ai! Vou morrer! Tenho de deixar. o calor do sol, as frescas árvores verdes, tôdas as lindas coisas que Deus criou!

Meteu o bico na relva fresca, para se refrescar um pouco . . . e então avistou a margarida; cumprimentou-a, beijou-a com o biquinho e disse-lhe:

– Tu também, tu também, pobre florzinha, vais murchar e secar aqui! Cada talinho, cada folhinha de relva, há de ser para mim como uma árvore verde, e cada uma de tuas pétalas brancas, como uma flor perfumada! Mas ah! Tu me avivas ainda mais a recordação do
que perdi!

Se eu pudesse consolá-lo! -— pensava a margarida.
Contudo não podia mover uma pétala . . . mas o passarinho notou a sua dedicação e, ainda que tivesse despedacado as folhinhas de relva, na angústia da sêde, não tocou na flor.

Chegou a hora do crepúsculo, mas ninguém trouxe para o pobre passarinho uma gôta d’água; êle distendia as lindas asas, batendo-as convulsivamente; seu canto era um gemido lamentoso; a cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coraçãozinho despedaçou-se de sêde e de angústia. Agora a flor não podia, como fizera na véspera, fechar as pétalas para dormir: triste e aflita, pendeu para o chão.

Os meninos só apareceram na manhã seguinte; e quando acharam o passarinho morto, choraram muitas lágrimas. Cavaram um pequenino túmulo, que adornaram de pétalas de flores; meteram o cadáver em uma caixinha vermelha, muito linda — e foi um entêrro principesco, o entêrro do pobre passarinho!

Enquanto êle ainda vivia e cantava, esqueceram-no – deixaram-no padecer na sua gaiola — e agora, que estava morto, cobriam-no de enfeites e de lágrimas.

Mas o torrão de terra com a margarida, êsse foi atirado à estrada: ninguém se lembrou daquela que mais lamentara a sorte do pobre rouxinol e que tanto desejara consolá-lo.amargarida_andersen-2

A menina dos fósforos

Traduzido por Pepita de Leão, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich – Coleção “Contos de Andersen”, Editora Globo – 1959. Grafia original mantida.
Parte da série especial em comemoração ao Dia das Crianças

Era véspera de Ano Bom. Fazia um frio intenso; já estava escurecendo e caía neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que caía ràpidamente, uma criança, uma menina, descalça e de cabeça descoberta, vagava pelas ruas. É certo que estava calcada, quando saiu de casa; mas as chinelas eram muito grandes, pois que a mãe as usara, e escaparam-lhe dos pèzinhos gelados, quando atravessava correndo uma rua, para fugir de dois carros que vinham a tôda a brida. Não pôde achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo e declarando que aquilo ia servir de berço aos seus filhos, quando os tivesse. Continuou, pois, a menina a andar, agora com os pés nus e gelados. Levava no avental velhinho uma porção de pacotes de fósforos, e tinha na mão uma caixinha: não conseguira vender uma só em todo o dia, e ninguém lhe dera uma esmola nem um só vintém.
Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansaço e o desânimo -— a estátua viva da miséria.

Os flocos de neve caíam, pesados, sôbre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam lá dentro; vagava na rua um cheiro bom de pato assado — era a véspera do Ano Bom -— isso sim, não o esquecia ela.

Achou um canto, formado pela saliência de uma casa, e acocorou-se ali, com os pés encolhidos, para abrigá-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. Não se animava a voltar para casa, porque não tinha vendido uma única caixinha de fósforos, e não ganhara um vintém; era certo que levaria algumas lambadas. Além disso, lá fazia tanto frio como na rua, pois só havia o abrigo do telhado, e por êle entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham vedado as enormes frestas.

Tinha as mãozinhas tão geladas . . . estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles fósforos pequeninos, sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e riscá-lo na parede para acendê-lo… Ricto!… Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!

Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela, quando ela o abrigou com a mão. E era uma vela esquisita, aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de pés e maçanêtas de bronze polido. Ardia nela um fogo magnífico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os pés enregelados, para aquecê-los, e . . . crac! Apagou-se o clarão! Sumiu-se a estufa, tão quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um fósforo apagado na mão. Só via agora a parede escura e fria.

Riscou outro. Onde batia a sua luz, a parede tornava-se transparente como a gaze, e ela via tudo lá dentro da sala. Estava posta a mesa, e sôbre a toalha alvíssima via-se, fumegando entre tôda aquela porcelana tão fina, um belo pato assado, recheado de maçãs e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo soalho direito à menina, que estava com tanta fome, e . . .

Mas que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o fósforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria, na noite escura. Riscou outro fósforo, e àquela luz resplandecente, viu-se sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Oh! Era muito maior, e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos brilhavam milhares de velinhas; e estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A criança estendeu os braços, diante de tantos esplendores, e então, então . . . apagou-se o fósforo. Tôdas as luzinhas da árvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrêlas, que cintilavam no céu. Mas uma caiu lá de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.

— Morreu alguém — disse a criança.

Porque sua avó, a única pessoa que a amara no mundo, e que estava morta, lhe dizia sempre que quando uma estrêla desce, é que uma alma subiu para o céu. Agora ela acendeu outro fósforo; e desta vez foi a avó que lhe apareceu, a sua boa vovó, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.

— Vovó! — gritou a pobre menina. — Leva-me contigo . . . Já sei que quando o fósforo se apagar, tu vais desaparecer, como se sumiram a estufa quente, e o rico pato assado, e a linda árvore de Natal!

E a coitadinha pôs-se a riscar na parede todos os fósforos da caixa, para que a avó não se desvanecesse. E êles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vovó tão alta, nem tão bela! E ela tomou a neta nos braços, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe . . . longe da terra, para um lugar lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sêde, nem dor, nem mêdo, porque elas estavam agora com Deus.

A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de beatitude. Morta. Morta de frio, na última noite do ano velho.
A luz do Ano Bom iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a mão cheia de fósforos queimados.

— Sem dúvida ela quis aquecer-se — diziam.

Mas . . . ninguém soube que lindas visões, que visões maravilhosas lhe povoaram os últimos momentos, nem em que halo tinha entrado com a avó nas glórias do Ano Novo !

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“A menina dos fósforos”, ilustração de Roswitha Wingen-Bitterlich

 

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