Alice Salles

@alicesalles

Feminismo, Voltaire & Susan B. Anthony

Origem como ramificação ideológica do socialismo

O feminismo como ramo ideológico foi primeiramente criado por um socialista (sim, homem) utópico em 1837. O seu nome? Charles Fourier. Isso mesmo, o cidadão que acreditava que os oceanos se transformariam em limonada.

Enquanto seus ideais igualitários orbitavam no campo utópico, seu discurso parecia louvável, afinal, quem não concorda que mulheres podem (e devem, se for o que desejam) ocupar os mesmos cargos, dedicar o mesmo esforço ao seu ramo e gozar do mesmo teor de talento que os homens? Todos concordam. Porém, o romance de Fourier e supostos direitos das mulheres acabaram quebrando barreiras ideológicas. O socialismo que serviu de embasamento teórico para absolutamente todos os ideais mantidos por Fourier também moldaram sua visão em relação à igualdade entre os sexos. Suas intenções, em um primeiro instante admiráveis, se transformaram em ação estatal: ele queria um mundo livre de caos, esforço pessoal e trabalho planejado por uma força superior.

Seu objetivo como ideólogo era criar um esboço de um mundo ideal onde ninguém precisaria de incentivos para buscar o aperfeiçoamento pessoal. Seu mundo seria repleto de seres perfeitos, iguais e “livres.”

Valores como resultados de uma sociedade livre de coerção estatal

Quando um país é livre, leis são implementadas para garantir a liberdade pessoal e livre troca entre indivíduos.  Valores só podem existir quando a liberdade é protegida e comunidades tem espaço para criarem seus alicerces conforme a necessidade e o desejo mandam, contanto que não interfiram de modo coercivo com a liberdade dos outros.

Uma sociedade planificada pelo Estado determina e impõe barreiras ao desenvolvimento pessoal ao restringir sua capacidade de escolha. O feminismo radical propõe que a igualdade entre os sexos seja observada perante a lei e reforçada por instituições estatais. Igualdade reforçada por leis… Onde já ouvimos esse absurdo antes?

Voltaire e suas “Cartas Filosóficas”

Em “Cartas Filosóficas”, Voltaire afirmou que a política apenas estimula o preconceito ao invés de incitar boa vontade. A observação foi concebida enquanto vivia na Inglaterra que, na época (1733), era o lar de milhares de pessoas com ideais religiosos dos mais variados. Voltaire se espantou com a ideia de que pessoas com valores tão distintos pudessem viver e fazer negócios tranquilamente e pacificamente umas com as outras.

Enquanto leis da época mantinham que a Inglaterra e a Irlanda só poderiam ser servidas por oficiais que fossem também Anglicanos, Voltaire estressava que, o papel da lei nas vidas dos Ingleses era praticamente nulo. Enquanto na França, ideais religiosos diversos geravam discórdias, na Inglaterra, onde leis contra “não-conformistas” ainda eram válidas, a diversidade e a convivência saltavam aos olhos.

A grande diferença entre França e Inglaterra era a existência da Bolsa de Valores em Londres: um local onde judeus, muçulmanos e cristãos se uniam para negociar riquezas, apertavam as mãos uns dos outros e, ao final do expediente, seguiam seus caminhos separadamente. Em paz.

“Satisfeitos,” encerrou.

Enquanto uma nação mantinha que igualdade só poderia ser atingida quando uma sociedade inteira dividisse o mesmo grupo de valores,  a outra nação existia sem perder tempo na criação de um conjunto de valores comuns para todos.

Perante a lei, contratos legais seriam mantidos caso as partes envolvidas fossem mulçumanas, judias ou cristãs, mas o cidadão também era livre dentro de sua sociedade e corpo de leis regentes para abandonar uma negociação com outra pessoa por qualquer motivo que fosse, pessoal ou não, ideológico ou não. A não-existência de leis regulamentando o trato entre diversos grupos garantia a variedade.

A igualdade perante a lei entre pessoas diversas não existia, mas sim a livre associação entre pessoas diversas. O livre contrato sim, era protegido por lei. Em outras palavras, a garantia de uma vida harmoniosa entre grupos diversos só era possível enquanto membros da comunidade pudessem discordar e optar por deixar uma negociação por conta até de motivos pessoais.

Feminismo que nunca foi

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Feminista, eu? Nope. Individualista ~

Mulheres que foram equivocadamente catalogadas como seguidoras de uma suposta vertente do feminismo conhecida como feminismo individualista, geralmente baseavam seus princípios no trabalho de escritores como Mary Wollstonecraft, John Stuart Mill e sua esposa Harriet Taylor.

A grande diferença entre mulheres que mudaram a história sem nunca terem abraçado agendas feministas e aquelas que assumem serem feministas fervorosas é o foco de suas exigências.

Para um individualista, seja ele homem ou mulher, a lei nunca deve criar barreiras para mulheres ou para homens em qualquer ambiente, seja ele de trabalho, social ou educacional. Wollstonecraft, em seu trabalho mais proeminente, afirmou que a independência “é a bênção de qualquer virtude.”

Mulheres com princípios individualistas das mais variadas estirpes acabaram sendo as maiores aliadas daqueles buscando liberdade individual durante a história, como foi o caso de Susan B. Anthony. Ao exigir que todos aqueles nascidos nos Estados Unidos fossem protegidos pela constituição, Anthony impulsionou o movimento abolicionista e o que viria a ser chamado de “movimento pelos direitos das mulheres”, apesar de nunca ter reivindicado direitos especiais ou restritivos para combater a desigualdade entre homens e mulheres.

Mulheres como Anthony não lutaram pela implementação de leis que colocassem entraves entre adultos consensuais, mas sim por uma legislação que fosse cega às diferenças entre pessoas distintas.

Os fins nem sempre justificam os meios, principalmente quando o seu discurso parte do princípio que seu objetivo é a liberdade, mas o meio requer que as leis sejam transformadas radicalmente para que determinada ação seja criminalizada.

O Poder Absoluto & Seu Maior Desafio: O Mercado

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Quão vergonhoso deve ser para um cidadão absolutamente independente a ideia de que a única razão pela qual uma grande parte da população acredita ter algum direito que deva ser promovido e sustentado pelo governo seja puro resquício de uma época em que todos viam reis como representantes divinos na terra?

Seu desejo incansável por ações governamentais que endereçam direitos que você considera inalienáveis nada mais é do que o vestígio de um condicionamento antigo. Com o advento da descoberta de um sistema mais humano e balanceado de se desenvolver e manter uma sociedade civilizada (o sistema do mercado), membros da sociedade passaram a depender cada vez menos de uma presença autoritária e responsável pelo rumo das nações. Apenas a liberação que o mercado proporcionou foi capaz de desafiar a autoridade de um poder absoluto.

A liberdade proporcionada pela capacidade individual e potencia humana colocou o poder ilimitado do governo em xeque. O individuo finalmente havia notado que responsabilidade e poder andam de mãos dadas.

A responsabilidade pelo que você encara como direitos não deve ser posta nas mãos do governo se o seu objetivo é viver sem amarras. O governo deve ter apenas uma responsabilidade em relação ao cidadão: deixá-lo livre para que ele possa servir o outro e ser servido conforme as necessidades apareçam.

Incentivos existem quando desafios são postos no seu caminho. Intervencionismo governamental impõe limites irrevogáveis aos incentivos naturais, restringe a criatividade, reprime a excelência moral. Não existe resposta fácil para problema algum se o que você realmente almeja é ser livre, mas existe um meio de se ver livre de um estado econômico falido: tire o poder das mãos do governo e traga-o para as mãos do indivíduo.

Orquídeas & Economia

Quando meios de trocas perdem o valor, serviços básicos são vistos como privilégios já que a oferta é escassa, mas a procura é grande.

Quando confundimos privilégios com direitos por conta de um problema muito maior do que o que conseguimos entender, as reinvindicações se tornam impossíveis de serem respondidas. Apenas políticos prontos para proferir respostas artificiosas conseguem a atenção de quem pede por mais direitos.

Demonizar o meio de troca é um artifício simplório usado por quem não entende que, a moeda é apenas um componente de um sistema de troca que facilita nossas vidas. O verdadeiro problema não é o sistema de troca ou seu componente mais mal visto, a moeda, mas sim nossa arrogância ao imaginar que podemos planejar seu desempenho.

Um dos nossos maiores problemas atualmente é nossa fixação intelectual com um tipo de economia projetada e planificada que vai diretamente contra sua natureza.

A economia, meu amigo, é tão orgânica quanto o relacionamento entre orquídeas e troncos de árvores.

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Dirigismo, ou intervencionismo direto na economia não passa de uma promessa inválida e enganosa.

Qualquer governo seja ele democrático, federalista ou monárquico, que decide não interferir com a economia, garante com que os cidadãos de suas nações possam prover para os seus e consumir serviços básicos. Em contrapartida, qualquer governo seja ele democrático, federalista ou monárquico, que decide interferir e esboçar uma economia perfeita ou um sistema econômico infalível para o bem “geral da nação” estará fadado a promover a miséria entre os seus.

Bertolucci, Protestos na Paulista e o Fim De Desejos Incomuns

“A revolução não é um jantar de gala,” Theo, o filho de um poeta Francês abastado, lê em voz alta “ela não pode se desdobrar com elegância, delicadeza, cortesia, moderação ou generosidade. Uma revolução é uma insurreição, um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra”.

Ao fechar o livro, Theo comenta que uma revolução de verdade é como um “grande filme épico”.

Mathew por sua vez responde “nesse grande filme épico, todos nós somos extras.”

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“esses soldados vermelhos carregam o mesmo livro, cantam os mesmos slogans. nesse grande filme épico…”

Quando Bernardo Bertolucci escreveu The Dreamers, ele queria explicar para a nova geração o quanto se sentiu traído pelo seu próprio legado: o ideal brutal de uma revolução focada em destruir uma classe em nome da seguinte havia roubado uma grande parte da sua vida.

Bertolucci que, por muitos anos fez cinema pra comunista cult de país mercantilista e semi-capitalista ver, havia se redimido. Mathew era a personagem jovem e deslumbrada da história que por ser livre foi também a voz da razão relutante da narrativa.

Era como se o jovem diretor estivesse enviando um recado ao jovem estudante: esse ideal violento e sufocante que visa a igualdade diante da destruição do indivíduo não é o que você busca.

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“todos são extras”

“Isso não é o que nós fazemos”, Mathew clama enquanto aponta para os jovens Franceses que destroem patrimônio público pelas ruas enquanto outros arremessam coquetéis molotov contra policiais; “isso sim é o que fazemos” diz enquanto se aproxima de Theo e cola seus lábios nos dele.

Coerência nada mais é do que uma mera conformidade entre ideias, mas não chega a ser um valor. Enquanto alguns caem nos braços da razão cedo, outros se entregam a paixão do filme épico retratando milhões de soldados marchando com o mesmo livro nas mãos, dividindo os mesmos meios e bens, idolatrando o mesmo objetivo. Da mesma forma, enquanto coerência não for valor, qualquer medida será justificável.

Atear fogo a um meio de transporte lotado de gente mantido pelos impostos que os pais dos protestantes pagam é justificável; tirar a roupa diante de uma igreja e gritar slogans anti-America é justificável; exigir que um serviço público seja gratuito enquanto negligencia a necessidade do uso de demais investimentos para que o serviço continue sendo prestado é justificável.

A falta de compreensão em relação à engrenagem econômica é compreensível, o que não é compreensível é o descaso em relação ao indivíduo diante da maior injustiça possível: a aniquilação de aspirações incomuns e do esforço individual.

O fim do desejo ao bem de todos porque não representa o ideal de um bem comum.

O Homem Sem Nome, a Imagem Definitiva do Séc. XX

Hoje é o aniversário da imagem mais icônica do século XX.

cover-Time- Acontecimentos Anteriores ao Protesto na Praça da Paz Celestial em Pequim

Durante o curto experimento com práticas capitalistas implementadas dentro da China comunista sob o comando de Deng Xiaoping a partir de 1978, 73% das fazendas que eram antes coletivizadas passaram a ser tocadas por iniciativa privada e quase 80% das indústrias do país passaram a fazer lucro.

O sistema de preços sob controle do governo não respondeu às expectativas da nação que, de repente, estava diante de uma modernização até então impensável. Alguns preços, no entanto, continuavam sob o controle do governo enquanto o preço de outros produtos flutuava radicalmente, fazendo com que apenas certos membros da população pudessem adquirir mercadorias escassas.

O governo então decidiu que o melhor seria a liberalização da moeda, o que causou pânico entre membros da esquerda dentro do partido. A estabilização não viria do dia para a noite já que  mudança abrupta havia encontrado uma população pouco preparada para enfrentar o mundo de forma independente.

Educação era um problema, já que as universidades locais não ensinavam o suficiente para que a população adquirisse habilidades básicas para desenvolver serviços e produtos necessários para os demais. O período de adaptação foi curto o suficiente para causar desestabilidade dentro do partido e longo o suficiente para gerar esperança dentro da parcela de uma sociedade geralmente mais entusiasmada e pronta para enfrentar qualquer desafio em nome da liberdade: estudantes.

Eles estavam prontos para a liberdade.

Com o afrouxamento da moeda, chineses comuns começaram a experimentar os benefícios de uma economia baseada no mérito e no serviço com fins individualistas, mas o partido faria pouco ou quase nada para criar um sistema judiciário competente e neutro. Liberdade de expressão era um conceito ainda inconcebível até então, mas não por muito mais tempo.

O então diretor do grupo de pesquisas astrofísicas da Universidade de Ciência e Tecnologia da China Fang Lizhi que havia retornado recentemente de um curso em Princeton, começou a visitar várias universidades Chinesas onde falava com jovens sobre a separação de poderes, liberdade de expressão e direitos humanos.

Grupos pró-liberdade e separação dos poderes começaram a pipocar por todos os lados. Jovens de toda a China começavam a notar o que seus pais e avós nunca tiveram a oportunidade de compreender: o humano é um indivíduo com desejos e aspirações particulares, um sistema totalitário e paternalista como o comunismo era a antítese da liberdade individual e dos direitos do humano comum.

A bolha criada por um sistema que havia voluntariamente empobrecido o intelecto de toda a sua nação havia estourado.

Protestos

Enquanto membros da direita dentro do partido liderados por Hu Yaobang clamavam por mais liberalização política, absolvição do papel do governo na economia e pluralismo de ideias, a ala alarmista e de esquerda do partido acreditava que as reformas haviam ido longe demais.

Diante da morte repentina de Hu Yaobang, a voz mais ativa pro-liberdade dentro da política Chinesa, estudantes por toda a parte começaram a reagir.

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Hu Yaobang

O governo começava a sentir sua estrutura sendo rejeitada.

A partir de 17 de abril de 1989, estudantes marcharam na direção da Praça da Paz Celestial e ali ficaram. Os milhares de estudantes presentes apresentaram sete exigências para o governo. Após a resposta positiva, demonstradores partiriam do local, mas não até que partido concordasse com as demandas.

A lista era breve e direta. Estudantes exigiam apenas o que qualquer cidadão de uma nação livre aceita como seus direitos naturais.

1-    O partido deve aceitar a visão de Hu Yaobang e continuar com suas reformas liberais e democráticas;

2-    Assumir que sua retórica contra a liberalização burguesa é simplesmente enganosa;

3-    Publicamente anunciar a renda de seus membros mais ilustres e de suas famílias;

4-    Dissolver seu monopólio sobre órgãos da imprensa e acabar com qualquer censura;

5-    Aumentar o financiamento da educação;

6-    Dissolver qualquer opressão contra demonstradores pacíficos;

7-    Fornecer uma cobertura objetiva dos estudantes em meios de comunicação oficiais.

Exigências foram respondidas com mais opressão e as demonstrações se tornaram violentas.

No dia 26 de abril, por volta de 100,000 estudantes marcharam na direção da praça enquanto a imprensa oficial pedia por um término das demonstrações.

Zhao Ziyang, o então secretário-geral do partido comunista, decidiu que a repressão absoluta das massas não resolveria esse problema. O partido permitiu a abertura da imprensa e as demandas dos estudantes agora eram retratadas positivamente.

Alguns estudantes se sentiam satisfeitos com a abertura da imprensa, outros nem tanto. Revoltas, greves de fome e mais demonstrações foram recebidas com o decreto de lei marcial que colocou o “Exército de Liberação Popular” nas ruas para deter demonstradores resistentes.

No dia 4 de Junho, a grande maioria de demonstradores foi removida forçosamente da praça.

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O Homem Sem Nome e suas Sacolas de Compras

No dia 5 de Junho, um estudante desconhecido que carregava duas sacolas de compras parou diante de um dos tanques do “Exército de Liberação Popular”. Cada vez que o tanque tentava dirigir ao redor do estudante, ele se colocava diante do tanque novamente. Esse momento foi registrado em vídeo em fotografias que falam por si: apenas um homem contra uma nação militarizada e comunista.

Um homem cansado da retórica fraudulenta do partido socialista.

Enquanto a população de uma nação é mantida sob a escuridão diante da verdade irrefutável, a retórica populista conquista milhares de seguidores. Somente a educação independente e a destreza individual podem quebrar esse ciclo.

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Essa imagem é a mais icônica do século passado. Meu desejo mais íntimo é que ninguém tenha que viver o mesmo novamente para que os demais acordem.

Fontes: The Tiananmen Papers; Silenced Scream: a Visual History of the 1989 Tiananmen Protests, Wikipedia.

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