Alexandre Borges

@alex_borges




Ninguém é de ferro: “Iron Man 3” e a política externa americana

Vi ontem “Iron Man 3” [texto com spoilers], um filme descartável e quase inocente, mas que pelo enorme sucesso de público e pelas mensagens políticas merece atenção. O filme fez mais de US$ 1,2 bilhão de bilheteria no mundo para um custo estimado que não ultrapassa US$ 500 milhões entre produção e marketing, uma máquina de fazer dinheiro.
Não há um corte ideológico explícito, mas é possível identificar como eixo principal do roteiro a idéia essencial da esquerda americana em política externa: os inimigos do país, especialmente islâmicos, são fantoches criados pelos próprios americanos com a conivência de políticos mal intencionados, o que mostra a arrogância preconceituosa dessa elite do cinema que realmente pensa que o resto do mundo é incapaz de criar seus próprios vilões. Para um típico intelectual americano das faculdades da Ivy League e seus seguidores no colunismo político, qualquer aposentada do Kentucky é uma ameaça muito maior à paz mundial do que toda a Irmandade Muçulmana.
O filme não me incomodou particularmente, não é um panfleto ideológico ultrajante como os primeiros minutos de “Argo”, e a única parte realmente imperdoável é a morte da estonteante Rebecca Hall. De resto, é o filme pipoca que se espera de uma produção como essa. Mesmo assim, Hollywood não perde a chance de espalhar seus ovos de Páscoa ideológicos aqui e ali.
A imagem da foto é de um armamento que imita a roupa do Homem de Ferro para usos militares – a cor vermelha e azul com estrelas é uma referência direta à bandeira americana e indireta ao Capitão América. Quando vi a imagem desse armadura, antes mesmo de assistir o filme, não tive dúvidas de que ela “cairia em mãos erradas” em algum momento, o que serviria como alerta para o público de que o complexo militar americano pode ser o maior inimigo do próprio país se controlado por gente má, esse pessoal que Hollywood não gosta mas que a velhinha do Kentucky insiste em votar nas eleições.
O final do filme também tem um recado claro quando Tony Stark aciona o “clean slate protocol”: vamos destruir nossas próprias armas que o mal irá embora do planeta como num passe de mágica, um tipo de raciocínio entre o inocente e o suicida que influencia da esquerda até parte da direita infelizmente.
Os conservadores alfabetizados defendem o conceito que tem origens no império romano e que virou uma espécie de marca registrada do governo Reagan: “Peace through strength” (vejam esse vídeo da campanha de Reagan em 1980 http://youtu.be/_VXXwyl5G0A). A estratégia defende que a paz é alcançada pela força do próprio poderio militar, que age como o mais forte argumento de dissuasão. Uma guerra é evitada quando o inimigo calcula que o custo dela é insuportável para ele, uma idéia que qualquer conservador entende mas que é impenetrável num cérebro esquerdista ou anti-americano.
Para se comprar esse argumento, é necessário que você acredite na estatura moral do Ocidente e dos EUA e é por isso que parte do esforço intelectual e cultural da esquerda nas últimas décadas, especialmente em Hollywood, é destruir a autoridade moral do país.
O governo Obama, diretamente influenciado pelos intelectuais que acreditam que os EUA são o mal do mundo, assim como nos tempos do desastroso Jimmy Carter, prefere o “lead from behind”, com os resultados que estamos vendo no Oriente Médio. Obama nunca disse a frase publicamente, mas ela é aceita por representantes do seu governo como uma maneira alternativa de dizer que basta “sentar e negociar” ou sair de cena que tudo se resolve. Neville Chamberlain também pensava assim em relação a Hitler.
O atual governo americano claramente busca diminuir a influência dos EUA no mundo, como vimos recentemente no episódio em que Barack Obama e John Kerry chegaram a ensaiar uma ação militar na Síria mas, depois de levarem um humilhante passa-moleque de Vladmir Putin, saíram assoviando e olhando para o lado como se nunca tivessem mencionado a intenção de bombardear as forças de Bashar al-Assad (o que a grande maioria dos conservadores foi contra, registre-se).
Reagan lembrava que os valores da liberdade não passam pela corrente sanguínea e que estamos sempre a uma geração de perdermos tudo e por isso a importância de ficarmos atentos às idéias políticas que Hollywood passa para as novas gerações. “Iron Man 3” é um filme sem grandes pretensões e só merece a menção por ter essa mensagem política equivocada e, no limite, autodestrutiva para o país.
O filme termina, assim como “Tropa de Elite 2”, com um discurso em off do protagonista, com texto e imagens que resumem cada uma dessas idéias para o que o público não perca nenhum detalhe da aula e faça depois do dever de casa. Cabe à direita fazer o seu também e sempre que puder lembrar dos resultados obtidos no mundo real tanto pelo “peace through strength” quanto pelo “lead from behind” ao longo da história. Os fatos falarão por si.

PS – Sobre “Batman – The Dark Knight Rises”, leia mais aqui: http://bit.ly/aborges12

Meu manifesto ambientalista: vamos proteger o peixe-bolha

A ONG ambientalista “Conservação Internacional” lançou hoje no Brasil uma campanha publicitária com espécies em risco de extinção: a arara azul, o tamanduá bandeira e o urso panda. O tema central do três anúncios, que indiretamente criticaria o capitalismo, acaba sendo uma lembrança dos seus méritos insuperáveis.

Os anúncios trazem ilustrações com esses animais no lugar de frangos ou bois em indústrias alimentícias, criados para o abate, acompanhados da seguinte pergunta: “Se o homem precisasse de carne de arara azul, ela estaria em extinção?”

A intenção da campanha é clara: defender que os animais que estão em risco não são suficientemente protegidos pelo homem porque não são “úteis” e não rendem dinheiro para ninguém. Os anúncios terminam dizendo: “quando existe interesse econômico, as pessoas encontram uma solução”. Ler uma frase dessas num anúncio de uma ONG, a despeito das intenções de quem fez, realmente não acontece todo dia.

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O mais curioso disso é que fica a impressão de que a campanha busca criticar o “utilitarismo” da economia de mercado quando, na verdade, acaba lembrando a todos o motivo pelo qual é tão bem sucedida: quando há necessidade, o sistema de incentivos único do capitalismo cria as condições para que os indivíduos busquem caminhos inovadores para resolver problemas e quando existe “interesse” a sociedade encontra as soluções que precisa.

Em seu livro “Privatize Já”, o economista Rodrigo Constantino dedica um capítulo inteiro ao sucesso da economia de mercado contra o “ecoterrorismo”, na preservação de florestas e no combate ao desmatamento, e em cada tema relacionado à sustentabilidade, preservação ambiental e da biodiversidade do planeta você vai encontrar, ao menos nos empreendimentos que seguem uma lógica de mercado, experiências com resultados incomparavelmente superiores aos bilhões e bilhões desperdiçados por organizações ligadas à ONU e governos.

Os países ocidentais são, sob qualquer medida, os que mais investem em preservação ambiental, a despeito do que dizem os anticapitalistas travestidos de ecologistas, os “melancias” (verdes por fora, vermelhos por dentro), na expressão eternizada pelo escritor James Delingpole em seu livro homônimo. O país que mais polui no mundo é a China comunista. Mesmo os EUA, quando o governo se mete, enfia os pés pelas mãos. O país foi durante os últimos anos o maior propagandista do embuste chamado “aquecimento global antropogênico”, que usou dados falseados, mistificações e muito alarmismo para enriquecer basicamente os contribuintes de campanha do partido democrata. Se houver reencarnação do tipo imaginado pelos indianos e você voltar numa próxima vida como um desses animais em risco,  peça ao menos que seja num país em que se leia mais Adam Smith do que Karl Marx.

A preservação da arara azul segue um caminho curioso: pela sua inegável beleza, ela é tão badalada que estrelou uma animação de Hollywood gerando US$ 500 milhões de bilheteria. O urso panda também foi transformado em lutador de kung fu e gerou outro meio bilhão para o cinema, além de ser uma atração bastante lucrativa em zoológicos de várias partes do mundo e é o campeão entre os bichos de pelúcia. Se a arara azul e o panda não fossem tão atrativos aos olhos da humanidade, será que seriam foco de campanhas publicitárias de ONGs em busca de doações?

Em “Bastardos Inglórios”, o personagem Hans Landa pergunta ao fazendeiro francês: “toda doença que o rato pode espalhar, o esquilo também pode. Mas você não sente pelos esquilos o mesmo que sente pelos ratos, não é?”. Quentin Tarantino, assim como Vinícius de Morais, também acredita que beleza é fundamental, o que também dá um certo caráter utilitarista para quem tem como missão proteger pandas e araras azuis (não sei se é o caso da ONG que fez os anúncios citados, registre-se).

Recentemente a Associação Britânica de Ciência fez um concurso para eleger os bichos mais feios do mundo e o vencedor foi o “Blobfish” ou peixe-bolha, que habita a região da Austrália e da Tasmânia e corre tanto risco de extinção quando pandas e araras. Em função da pesca de arrasto, o famoso “arrastão”, é um animal que está desaparecendo por culpa do homem, mas ele é feio e não desperta tanta atenção das ONGs.

É hora de apoiarmos o peixe-bolha! Pandas, araras azuis e outros animais “fofos” já tem protetores em número suficiente, mas quem está defendendo o rato-toupeira-pelado e o aie-aie de Madagascar, ambos bem colocados no concurso de feiúra animal e também com risco de desaparecer? Uma organização preocupada com a biodiversidade, que lute para preservar animais que não viram bichos de pelúcia e que não rendem imagens para campanhas publicitárias, terá todo o meu apoio.

Para vencer a esquerda é preciso envelhecer

Em 27 de julho de 2004, alguns dos grandes estrategistas da esquerda americana foram mobilizados para plantar uma semente: a eleição do primeiro presidente negro dos EUA. O palco era a convenção nacional do Partido Democrata em Boston e a cena política americana nunca mais foi a mesma depois desse dia.

O breve discurso daquele desconhecido político de Illinois, que acabou se tornando a estrela da festa, não tinha uma única palavra fora do lugar. Cada frase do texto escrito por ele com a ajuda da dupla David Axelrod e Robert Gibbs, seus principais assessores políticos até hoje, transformaram um professor universitário, ativista de movimentos de esquerda, senador estadual e candidato ao senado federal, em alguém que a imprensa passou a tratar instantaneamente como um novo Martin Luther King Jr.

As frases utilizadas eram basicamente uma compilação cuidadosa dos seus discursos de campanha ao senado federal naquele ano, testados nos meses anteriores nas mais diversas plateias e ambientes. Há poucas dúvidas de que, não fosse este discurso na DNC em Boston, não haveria um presidente Obama quatro anos depois. Em apenas 17 minutos, aquele obscuro político de Chicago assumia para o país a face da renovação da política americana, iniciando a corrida para tomar a vaga de Hillary Clinton e se tornar o 44º presidente americano.

Neste histórico dia de 2004, Obama defendeu tudo que hoje, como presidente, nega: o sonho americano, a economia de livre mercado e a sociedade pós-racial. Com o país hipnotizado em frente à TV, ele disse a frase que marcaria sua carreira política para sempre: “there’s not a black America and white America and Latino America and Asian America; there’s the United States of America.”

Ao se apresentar pela primeira vez em cadeia nacional, Barack Obama criou as bases para a construção do mito. Ele abre o discurso dizendo a todos que vinha do mesmo estado que Abraham Lincoln, colando sua imagem no venerado presidente que aboliu à escravidão. Foi seu cartão de visita e sua principal mensagem naquele dia: eu sou o filho legítimo da luta pelos direitos civis dos anos 60, eu sou a prova de que vencemos o racismo, eu sou o novo Lincoln. Não sou um político, sou um símbolo.

Na eleição presidencial anterior, em 2000, o partido democrata já havia feito um teste. O carismático deputado Harold Ford, Jr., com apenas 30 anos na época e também de ascendência negra, foi o keynote speaker da convenção do partido. Seu discurso foi muito bem recebido pela plateia, mas como Ford não venceu a eleição daquele ano ao senado, seu nome perdeu força para vôos mais altos. Sua aparição, mesmo assim, serviu como um valioso balão de ensaio.

Em 2001, a série de TV mais popular dos EUA, “24 horas”, teve como protagonista um presidente negro. O personagem David Palmer, como Obama, era também um senador do partido democrata que chegava à presidência, vendido ao telespectador como um político próximo da perfeição. Até seu maior escândalo, a revelação pública de um assassinato cometido por seu filho, era moralmente justificável, já que tinha sido motivado pelo estupro da sua filha por um branco.

Tudo na trama reforçava a imagem de David Palmer como um presidente com uma estatura moral fora do comum, um homem-santo e incorruptível, pós-racial e acima do bem e do mal, e mesmo quando se rendia ao varejo da política era sempre em nome de um bem maior. Foram quase 200 episódios em oito temporadas, de 2001 a 2010, e não há qualquer dúvida de que David Palmer também ajudou a preparar, mesmo que inadvertidamente, o terreno para o surgimento de Barack Obama.

O endosso mais relevante e decisivo para popularizar Obama de vez foi, claro, de Oprah Winfrey. A mais importante e influente apresentadora da TV americana abraçou sem cerimônia o candidato no seu programa e fora dele, participando de comícios em todo país e mergulhando de corpo e alma na sua campanha eleitoral, quebrando decisivamente eventuais resistências ao seu nome nas famílias americanas. O apoio apaixonado e militante de Oprah foi talvez o fator isolado mais importante para a consolidação do nome de Barack Obama como um candidato viável à presidência da república.
 
Barack Obama é entendido por muitos desavisados como uma obra do acaso ou produto da crise econômica de 2008 e não fruto deste árduo, corajoso, criativo, competente, regiamente financiado, ousado e perseverante trabalho de estratégia política da esquerda americana, aquela herdeira da geração dos revolucionários de 1968.

Assim que os votos foram contados em 2004 e George W. Bush reeleito, alguns analistas davam a esquerda americana como morta, mas ela estava, como sempre esteve, trabalhando e com olhos já voltados para 2008. Hoje os engenheiros de obra pronta acreditam que viabilizar a candidatura de um negro com sobrenome Hussein em meio à reeleição de Bush era quase inevitável, um “momento histórico”, pela incapacidade de entender que esse tal “momento histórico” foi fruto de uma estratégia muito bem planejada e executada.

Hoje é o partido republicano que está dividido e nas cordas, apanhando de forma sistemática e diária na imprensa. Na última semana, o senador texano Ted Cruz, ligado ao Tea Party, ficou durante 21 horas seguidas defendendo a retirada de fundos orçamentários para a implementação do sistema de saúde socialista nos EUA, que certamente completará a promessa de Barack Obama de “transformar para sempre os EUA” causando danos irreparáveis à economia do país. O senador republicano tomou conta do noticiário, francamente desfavorável a ele como era de se esperar, mas encantou parte do eleitorado por sua ousadia e firmeza de caráter contra o impopular Obamacare. Só que isso já não é mais suficiente.

Ted Cruz, 43 anos, é uma figura ímpar. De origem hispânica, foi um advogado brilhante com credenciais acadêmicas inquestionáveis. Formado em Harvard, tornou-se depois uma estrela radiante em Princeton, um debatedor admirado e respeitado, além de um orador hábil e persuasivo. Há quem diga que o ódio que desperta no establishment político de Washington é exatamente por ser “um deles”, um intelectual da Ivy League que, ao contrário do que se espera dos membros da elite acadêmica do país, é um expoente do conservadorismo, sem concessões ao pragmatismo das velhas ratazanas da capital.

Imaginar um Ted Cruz candidato a presidente americano hoje é algo tão improvável e bizarro como Barack Obama em 2004, mas se Cruz contasse com a máquina eleitoral democrata, que inclui a imprensa, as universidades, as celebridades e Hollywood, seria imbatível em 2016.

Hoje não basta mais um desconhecido, mesmo que brilhante, para se fazer um candidato vencedor à presidência dos EUA e, sem contar com os recursos que Obama contou, Ted Cruz não tem chance alguma, a despeito de suas inegáveis qualidades pessoais e sua determinação ideológica admirável.

Aquele Barack Obama apresentado ao mundo na convenção democrata de 2004 foi escolhido depois de anos de doutrinação política que contou com mentores como Frank Marshall Davis e Bill Ayres, além de muita experiência no ativismo político e na política do seu estado. Sua carreira, cuidadosamente planejada nos mínimos detalhes, é uma prova de como é complexo o marketing político atual, que agora mergulha também no Big Data e na revolução tecnológica das redes sociais.

A máquina que elegeu Obama em 2008 e reelegeu em 2012 começa a especular, timidamente ainda, o nome do advogado e ambientalista Van Jones para 2016, outro negro com aparência de galã de Hollywood, figura fácil nos talk shows da TV americana e ativista político com todas as credenciais ideológicas marxistas exigidas para suceder o atual presidente. Se os patrocinadores da campanha de Barack Obama abraçarem o nome de Van Jones, Hillary Clinton não dará nem para o começo e será novamente atropelada nas primárias. O tempo dirá.

No Brasil, os profissionais estão trabalhando dia e noite para reeleger Dilma Rousseff. No final de junho deste ano, em meio às manifestações que tomaram conta do país, Franklin Martins foi reincorporado por Lula ao time dos principais de estrategistas do PT para liderar o front de batalha da comunicação, junto com João Santana e Rui Falcão.

Em poucas semanas, os resultados falam por si. A imprensa passou a defender abertamente a importação dos cubanos de jaleco e demonizar os médicos brasileiros como “coxinhas” reacionários e corporativistas. As organizações Globo, que hoje exibem às seis da tarde na TV uma novela que é uma espécie de telecurso segundo grau de doutrinação comunista, pediu formalmente desculpas pelo seu apoio à revolução de 1964 e seu noticiário está mais favorável do que nunca ao petismo.

O mais impressionante dos trabalhos recentes dos estrategistas de comunicação de Dilma Rousseff foi a invenção desse factóide chamado “espionagem americana”, a partir de fragmentos de informação vazados pelo neo-russo Edward Snowden e o ativista antiamericano, dublê de jornalista do The Guardian, Glenn Greenwald. A pantomima, por mais ridícula que possa parecer a qualquer bípede minimamente letrado, já virou tema de discurso da Dilma na ONU para captação de imagens para o programa eleitoral e revitalização da militância, um pouco combalida pelo mensalão mas que com a reedição do velho antiamericanismo já está de novo pintada para a guerra. Militante não precisa de argumentos racionais, inimigos externos, bodes expiatórios e palavras de ordem bastam para partirem pra rua, como os populistas sabem desde sempre.

Os prováveis competidores de Dilma na eleição do ano que vem, Marina Silva, Eduardo Campos e Aécio Neves, foram praticamente banidos do noticiário, não merecendo mais do que citações pontuais e normalmente neutras ou negativas. Marina Silva e Eduardo Campos, satélites do petismo, não representam alternativas no campo ideológico, e o provinciano Aécio Neves, com suas inserções publicitárias constrangedoras e surpreendentemente amadoras até para os padrões tucanos, não mostra cacife eleitoral para sequer chegar ao segundo turno. O PSDB continua sendo a oposição que o PT pediria a Deus se acreditasse Nele.

No dia em que Aécio Neves começar a incomodar, se é que esse dia chegará, faço uma previsão: o noticiário brasileiro será invadido subitamente pelo “mensalão mineiro”, não se falará de outra coisa, e Aécio irá para a defensiva e sua candidatura perderá o gás. Se nada surpreendente acontecer até o ano que vem, a reeleição de Dilma é líquida e certa.

Se o resultado eleitoral de 2014 é mais que provável, a reeleição de George W. Bush, no campo ideológico oposto, era também certa em 2004 e nem por isso a esquerda americana deixou de trabalhar e plantar a semente para a eleição do seu candidato em 2008.  Na falta de chances reais de vitória em 2004, os estrategistas do partido democrata aproveitaram o momento para ao menos apresentar ao eleitorado um candidato ideológico e carismático para a próxima eleição e deu certo. Mas quem está fazendo trabalho semelhante no Brasil de hoje?

A própria esquerda, claro, com Marina Silva e Eduardo Campos, dois políticos que investem na acumulação de cacife eleitoral para 2018, com Dilma fora da cédula e um Lula que, sem especular sobre seu estado saúde, pode não ser mais ativo no processo até lá.

A eleição de 2014 no Brasil deveria ser aproveitada pelas forças políticas fora do petismo e da esquerda, se é que existem, para iniciar o mesmo movimento feito por Obama em 2004, Marina em 2010 ou que Campos fará ano que vem. É a hora de mirar em 2018, já que cinco anos são mais do que suficientes para a viabilização de uma estratégia eleitoral consistente e que realmente consiga emplacar o próximo presidente.

É claro que o campo de batalha não é só esse. A ocupação de espaços e a luta em todas frentes, especialmente a cultural, é uma luta ainda mais importante e que Olavo de Carvalho sempre nos lembra, mas a apresentação de um nome para o eleitorado nacional ano que vem pode ser uma boa oportunidade para uma candidatura vencedora em 2018. Para isso alguém deveria estar disposto a trabalhar diligentemente cinco anos para viabilizar a candidatura ou ao menos abrir uma alternativa política fora da esquerda. Quem tem estômago e resiliência para perseverar durante tanto tempo num projeto político no Brasil?

Enquanto a esquerda pensa na próxima geração, seus adversários pensam no máximo na próxima eleição e por isso estão perdendo todas. A cada eleição perdida, a tarefa de tirar o petismo do poder vai ficando mais difícil. O PT já está no terceiro mandato presidencial consecutivo, tem quase 80% do congresso na base aliada e recentemente mostrou sua força avassaladora até no judiciário. O aparelhamento da máquina pública levará décadas para ser desfeito.

A política é cada vez mais um terreno para profissionais. Numa entrevista poucos meses antes de morrer, pediram à Nelson Rodrigues uma mensagem ao jovens e ele respondeu: “por favor, envelheçam”. Meu conselho aos adversários do petismo: sigam o que disse o anjo pornográfico e ganhem alguns cabelos brancos. Não há mais lugar para amadores.

Crise de representatividade

Como acontece com tudo que o petismo encosta, a discussão da reforma política teve morte cerebral anunciada e é mantida viva apenas por aparelhos. Seu falecimento pode enterrar, infelizmente, uma discussão urgente para o país: o sistema eleitoral, um dos maiores responsáveis pela tal “crise de representatividade” que tanto se falou no Brasil depois das manifestações. Numa pesquisa recente, 70% dos brasileiros sequer lembram em que votaram para deputado e esse dado, por si, já deveria encerrar qualquer dúvida sobre a necessidade de mudança.

Além de absurdo, o sistema atual é fruto direto da visão de que a politica é o terreno para iluminados que não podem nem devem discutir temas pedestres como assoreamento de córregos, iluminação de ruas, segurança na porta das escolas ou a instalação de novos brinquedos numa praça. Deputados “proporcionais” só deveriam se eleger carregando bandeiras com “grandes temas”, deixando a vida do dia-a-dia do cidadão comum a cargo de subprefeituras e secretarias anódinas que ninguém conhece, acompanha ou fiscaliza.

Nada materializa melhor o distanciamento entre representantes e representados do que Brasília, a capital que reúne a cúpula dos três poderes da república. Sob o pretexto de levar o desenvolvimento para o interior do país, Juscelino Kubitschek construiu um Olimpo com palácios e monumentos de gosto duvidoso e sem esquinas, com áreas reservadas para políticos e burocratas livres de gente comum, sob a batuta do arquiteto stalinista Oscar Niemeyer.

Niemeyer foi chamado de “metade gênio, metade idiota” pelo jornalista Reinaldo Azevedo, mas suas criações, frutos da eventual metade gênio do arquiteto, são no mínimo polêmicas. É difícil imaginar uma única pessoa que tenha como sonho de consumo morar num dos 1.160 apartamentos espalhados pelos 35 sinuosos andares do Edifício COPAN, a maior estrutura de concreto do país. Uma obra dos anos 50 e já datada, enquanto prédios europeus de 200 anos ou mais continuam tão belos, acolhedores e elegantes como no dia da inauguração.

O arquiteto que criou numa prancheta a capital do Brasil justificava as 30 milhões de mortes do genocida soviético dizendo que “os homens passam, a revolução fica”, uma fé que carregou até o túmulo. Para Demétrio Magnoli, “Niemeyer inscreve-se na matriz de Le Corbusier, o fundador de uma arquitetura da destruição que, consagrada à estética do poder, odeia a história, o espaço público e as pessoas comuns”. Segundo o sociólogo, “a estética de Niemeyer é uma declaração política”, a da “a crença fundamental na ‘missão civilizatória’ do Estado – isto é, no privilégio estatal de mobilizar ilimitadamente a terra urbana para esculpir a cidade (e a sociedade) segundo os ideais da elite dirigente.”

Enquanto era festejado e enriquecia com o dinheiro dos bocós e deslumbrados daqui, não se tem notícia de uma única encomenda feita por Stálin ou seus sucessores na URSS ao arquiteto, que viam neste propagandista apenas mais um dos seus prestadores de serviços ideológicos. O escritor Claude Lanzmann, ex-amante de Simone de Beauvoir, depois de se hospedar num hotel projetado pelo arquiteto no Rio, disse: “as pessoas fazem prisioneiros andarem em círculos nas prisões cortando assim qualquer projeto, qualquer futuro, é isso o círculo. Os arquitetos que constroem prédios circulares são idiotas. Não tenho nenhum respeito por Oscar Niemeyer”. Para o francês, Niemeyer era nada menos que “um criminoso”.

A discussão da arquitetura de Brasília não é mera frivolidade. Ela é fruto direto dae um projeto político autoritário, elitista e ditatorial que deseja governos afastados do populacho para que seus burocratas, intelectuais e PhDs possam tranquilamente escolher os destinos do povo sem ter o incômodo de olhar para eles, esbarrar neles na rua ou ter que conversar com eles em locais como praças, reuniões escolares dos filhos ou na orla da praia, como na ex-capital. Ainda segundo Magnoli, “uma edificação de Niemeyer jamais se relaciona significativa ou funcionalmente ao entorno construído, que ele despreza, pois não emergiu de seu traço.” Niemeyer, como todo protótipo de Nero, quer colocar fogo no passado e reconstruir o mundo a partir das suas próprias utopias. Sabemos como isso termina.

Voto proporcional e voto distrital

De todas as idéias engenhosas para separar representantes e representados, o sistema eleitoral proporcional merece um lugar de destaque. Nessas horas, a proverbial pobreza intelectual do país dá lugar a sistemas realmente engenhosos com resultados acima das expectativas até para seus criadores.

É esse impenetrável e quase ininteligível sistema que faz com que um deputado federal como Vanderlei Assis pudesse ser eleito em 2002 com apenas 275 votos, na esteira da votação do folclórico Enéias Carneiro. Na atual legislatura, apenas 38 dos 513 deputados tiveram votos acima do coeficiente necessário, ou seja, 92% dos deputados estão lá apenas por conta de um puxador de votos da sua coligação. Não faz sentido.

O sistema proporcional atual elege deputados baseados numa complexa conta em que os votos de cada partido são somados e, a partir deste número, distribui-se cadeiras para os mais votados da legenda. Esse sistema faz com que o deputado federal mais votado do Brasil na última eleição, o palhaço Tiririca, cujo mote de campanha foi “pior do que está não fica”, leve na carona dos seus mais de 1,3 milhão de votos, outros três deputados. A bancada do Tiririca, com quatro deputados federais incluindo o próprio, é maior que a do PSOL, com três.

Tiririca teve 6,3% dos votos válidos do eleitorado paulista, o que significa que bastou 1 em cada 16 paulistas resolver dar um recado irônico aos políticos para que esse senhor ganhasse mais do que o dobro de votos do segundo colocado.Numa eleição distrital, ele teria que unir o partido em torno do seu nome para se candidatar num determinado local e lá conquistar 50% mais um dos votos válidos.

Porque o voto distrital é melhor

Tente imaginar um lugar em que você não pode eleger o síndico do seu prédio entre os moradores. Ele seria escolhido numa campanha que envolve toda a cidade, que envia os síndicos eleitos para uma câmara em que as decisões do seu prédio são tomadas por alguém que não faz idéia quem é você,  onde você mora, mas que decide o fornecedor de limpeza do seu corredor, o sistema de segurança da sua portaria e a viabilidade de pintar ou não a fachada de uma cor que ele também escolhe por você. Parece ridículo, mas é assim que funciona a eleição de vereadores, deputados estaduais e federais hoje no Brasil.

Com a adoção do voto distrital “puro”, as 513 vagas para deputado federal são divididas entre 513 distritos no país, cada um com sua própria eleição majoritária, em que apenas o mais votado em cada distrito é eleito, num processo preferencialmente de dois turnos. O candidato de cada partido é escolhido num processo interno conhecido como primárias e, no momento do início da campanha, toda legenda se aglutina em torno de um único nome para o distrito.

No sistema proporcional, os candidatos competem uns com os outros, mesmo os companheiros de partido. O eleitor vota em um candidato e na maior parte das vezes elege outro, o que explica a falta de representatividade absurda que existe. E isso tem que acabar.

A campanha eleitoral é local, sem longos e caros deslocamentos, sem acordos com dezenas ou centenas de caciques locais ou grupos de pressão, ela acontece rua a rua, de casa em casa, olhando no olho do eleitor. Seu deputado vai ter que pedir voto para você ou não se elege.

A eleição do deputado distrital depende diretamente da identificação real do eleitor com o candidato, o que tira o sono de qualquer chacrete, pagodeiro ou ex-BBB. E principalmente dos antidemocratas que preferem a comodidade de contratar puxadores de voto e os marqueteiros mais caros do pais para construírem suas bancadas. Não custa lembrar que Joaquim Barbosa, FHC e Aécio apoiam, o PT e seus blogueiros são contra. Faz sentido.

Outro atrativo irresistível do voto distrital é o “recall”: os eleitores do distrito podem, dentro de regras pré-definidas, questionar o eleito e fazer uma nova eleição para confirmar ou não seu mandato. Nesse sistema, o mandato é válido enquanto o eleitor achar que é. Como alguém pode ser contra isso é um desafio à lógica.

Muitas das críticas ao voto distrital, feitas por diversos esbirros do petismo na imprensa, não se sustentam. Vamos às principais:

Mito 1 – O voto distrital tende ao bipartidarismo

O Brasil tem hoje 30 partidos, muitos apenas legendas de aluguel. Dizer que uma concentração partidária é ruim para o país hoje é agredir a experiência o bom senso. A concentração partidária, com fortalecimento dos partidos, é muito bem vinda.

O bipartidarismo é um fenômeno americano, outros países como a França e a Inglaterra possuem o sistema de voto distrital e isso não levou a que apenas dois partidos sobrevivessem. Na Câmara dos Comuns do Reino Unido, oito partidos têm representantes. Na França, onze partidos têm representantes no parlamento.

Mito 2 – O deputado vira um “vereador federal”

De novo, não há qualquer problema em que o deputado federal cuide das questões reais do dia a dia do seu distrito, muito pelo contrário, é desejável. O Senado, que seria mantido no sistema atual, existe exatamente para que ilustres políticos, ex-presidentes, ex-governadores, consagrados juristas, em longos mandatos de oito anos, possam refletir sobre os destinos do país como altos conselheiros da nação. E é o Senado que dispensa a necessidade do sistema distrital misto, um arremedo entre o sistema atual e o distrital puro.

Mito 3 – O fim das discussões dos grandes temas

Com o voto distrital, deputados ficariam apenas cuidando de suas paróquias, sem lidar com os “grandes temas” nacionais, o que é uma suposição sem suporte nos fatos e na experiência de outros países em que, mesmo com esse sistema, os deputados continuam discutindo grandes temas. A novidade é que o temas práticos, com impacto direto na qualidade de vida do cidadão, passam a ter vez também.

O voto distrital tem um impacto direto nos grupo de pressão (sindicatos, igrejas, associações profissionais, ativistas e lobista em geral) que, no sistema atual, com algum investimento na campanha do seu candidato, podem emplacar com certa facilidade um ou mais deputados. Ao obrigar os grupo de pressão a atuar localmente, distrito a distrito, a eleição de deputados “dos taxistas”, “dos gays”, “dos militares”, perde espaço. Eles passam a ter que direcionar seus esforços diretamente para os deputados já eleitos, que não devem mais seus cargos a eles, tornando a relação menos promíscua.

Mito 4 – A eternização de maiorias e caciques locais

Essa discussão, de um ponto de vista da ciência política, é a mais interessante.Os críticos do sistema distrital dizem que, se um distrito tem uma composição relativamente coesa, ela tenderá a sempre eleger seus próprios representantes, calando a voz das minorias. Por exemplo: um distrito com presença majoritária de descendentes de alemães no interior catarinense poderia eleger um dos seus para sempre, excluindo outros grupos da chance de serem representados.

Essa é basicamente uma visão preconceituosa de quem tende a balcanizar a sociedade em minorias ou grupelhos que não se relacionam, não se integram e não se respeitam. E essa é a sociedade dos sonhos dos que querem uma sociedade desintegrada, sem laços, que apenas preste continência ao estado.

Se um determinado distrito tem uma determinada maioria que vota coesa, uma situação hipotética que não necessariamente ocorrerá, isso é necessariamente um problema? Isso não serviria, pelo contrário, para integrar ainda mais aquela determinada comunidade nos seus valores comuns? Não é louvável que cada distrito efetivamente represente um “capital social”, uma comunidade no sentido mais amplo do termo?

Nenhum sistema é perfeito nem é uma panaceia para todos os males do país, mas a adoção do voto distrital é evidentemente uma evolução. Toda essa discussão pode parecer acessória, mas é a regra do jogo eleitoral, que se reflete diretamente da relação do eleitor com seu candidato. E isso é a essência da democracia.

O voto distrital hoje é o sistema dos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Austrália, Alemanha, Japão, Nova Zelândia, entre outros países que não costumam eleger Tiriricas, e é hora de olhar sem preconceito xenófobo para essa experiência tão bem sucedida em outros países.

A mudança do sistema eleitoral depende dos atuais congressistas, eleitos pelo sistema proporcional e que tem pouco ou quase nenhum interesse em mudar as regras do jogo no qual estão ganhando. Como no caso do Ficha Limpa, só a pressão da sociedade mudará o sistema, ele não mudará sozinho.

Se você quiser participar dessa campanha, entre no site  e veja como.

Voto distrital já!

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Pare de reclamar e vá trabalhar, o povo é de direita.

Esquerdismo, desde a revolução francesa, é obra de radicais da classe média. Alguns são artistas e intelectuais que sonham com um regime de força tutelado por eles, outros são sindicalistas corruptos que assediam empresários para fazer dinheiro fácil, outros que buscam a proteção de empregos estáveis na burocracia estatal, além dos milionários culpados que, levados por suas pulsões de morte, financiam os revolucionários que vão cortar sua cabeça.

Por isso, uma das frases mais equivocadas do ideário nacional é a que diz que só no Brasil “pobre é de direita”, como se isso fosse paradoxal ou estapafúrdio. A frase completa, que inclui prostitutas e cafetões, é atribuída ao Tim Maia. Mas quem entendeu a verdadeira essência do povo nesse sentido foi Joãozinho Trinta: “pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual.”

O povo é direita não porque eu quero, mas porque qualquer pesquisa séria de opinião comprova, como várias que o Datafolha já fez. Elas reforçam que todo os pilares do conservadorismo estão bastante arraigados na população de baixa renda do país (parêntesis: não use a terminologia marxista de “classe”, que dá uma idéia propositadamente errada de que são como castas indianas estanques, use “renda”, que numa economia de livre mercado é uma condição transitória e móvel). E é esse espírito do povo brasileiro que ainda resiste à transformação do país em mais uma triste república bolivariana.

Não custa lembrar que o Lula “original” ou “autêntico”, aquele que defendia com todos os perdigotos o calote da dívida externa e a estatização do que fosse possível, perdeu três eleições presidenciais de goleada, duas delas no primeiro turno. O Lula maquiado e vestido por Duda Mendonça de 2002, que falava em superávit fiscal, metas de inflação, que publicou a “Carta ao Povo Brasileiro” e que colocou Henrique Meirelles no Banco Central, venceu duas eleições suadas, no segundo turno, e contra ícones do carisma como Geraldo Alckmin, que ficou em terceiro numa eleição para prefeito em São Paulo. Lula, mesmo maquiado pela marquetagem política, venceu por falta de adversários.

Numa eleição puramente ideológica em 2005, o povo brasileiro derrotou toda a esquerda, o Chico Buarque, os artistas da Globo, o governo, e disse um “não” sonoro ao absurdo plebiscito que, na prática, iria desarmar o campo para facilitar a vida do MST e suas invasões. Em 2007, o povo vaiou Lula com gosto na abertura do Pan no Maracanã. Em abril desse ano, depois de várias mortes brutais, 93% dos paulistanos, segundo o Datafolha, queriam a redução da maioridade penal, mais uma vez dando uma banana para todo o proselitismo da esquerda, da imprensa, dos intelectuais, dos “especialistas em segurança” do Bom Dia Brasil, da GloboNews e da Carta Capital. Mais uma vez o povo falou, mas nenhum político quis ouvir e todos continuam brigando para ver quem é o mais esquerdista.

Em pesquisas do Datafolha publicadas em 2007 e 2012, o brasileiro se mostrou alinhado em praticamente todas as questões sociais importantes, de religião às drogas e o aborto, da redefinição do casamento até a maioridade penal, com o que pensa o conservadorismo clássico e com pouca semelhança com as bandeiras que defendem as cracolândias ideológicas das universidades, roteiristas de novelas globais e das redações brasileiras. O povo diz repetidamente “eles não me representam”.

É importante que se diga que o Datafolha e a Folha se interessam pelo tema pelo motivo errado. Em agosto de 2012, num evento chamado “A Ascensão Conservadora em São Paulo”, na USP, alguns expoentes do petismo como Marilena Chauí, Vladmir Safatle e André Singer, o triunvirato que praticamente dita o que a Folha pensa politicamente, chocou um ovo de serpente: a importação de uma estratégia da esquerda americana de eliminar do debate político os termos “direita” e “esquerda” e trocar por “conservadores” e “liberais”. A estratégia é engenhosa porque abre as portas da esquerda para quem rejeita o estatismo e o dirigismo econômico mas que igualmente tem problemas com quem defende as tradições culturais e valores morais construtivos da sociedade ocidental, como se fossem dissociáveis da economia de livre mercado.

A matéria da Folha de 25/12/2012 sobre o assunto é consequência direta desse evento na USP e das eleições municiais paulistanas, em que o fenômeno Celso Russomanno pegou todos os sociológos de entrevista de calça curta, já que é impossível encaixar o apresentador nas tradicionais definições de esquerda e direita. O contrabando do embuste ideológico criado nos EUA cairia como uma luva já que Russomanno era apoiado pela Igreja Universal e é um processo que está apenas começando.

Se o povo brasileiro é direita, se dá todas as provas nas ruas e nas urnas de que rejeita o estatismo, a destruição sistemática e planejada da família tradicional, dos valores judaico-cristãos e as aventuras da heterodoxia econômica, por que não há políticos brasileiros dispostos a empunhar essa bandeira? Lançar uma candidatura brasileira de direita seria como pescar naqueles parques “pesque e pegue” em que a pescaria é apenas um exercício de jogar as iscas e esperar que os peixes venham alegremente ser fisgados, certo? Não tão rápido.

Antes de se pensar em candidaturas, é preciso tratar da ausência de uma produção cultural e política que defenda esses valores, que faça o combate ideológico em todas as frentes possíveis, que lute por cada centímetro do campo de batalha da política. Sem idéias claras, sem uma mensagem bem articulada e persuasiva, os políticos não terão como seduzir um eleitorado sedento por alternativas e que foi aos milhões para as ruas nas últimas semanas.

Por isso, parem de se lamentar pelo resultado desastroso do STF em relação aos embargos infringentes. E principalmente pare de perder tempo em discussões pessoais ou virtuais com esquerdistas, não vale seu tempo, sua energia e suas boas intenções. Há algo como 60 a 70% do eleitorado brasileiro, numa estimativa conservadora (com trocadilho), esperando propostas bem articuladas de direta para pular no barco.

Vejo muita gente boa da direita perdendo um tempo precioso em discussões com esquerdistas que falam português (petistas) ou inglês (obamistas), como se fosse possível converter com argumentos racionais gente que, depois da adolescência, ainda acredita em Lula ou Barack Obama. Deixe que a vida se encarregue deles e vá cuidar de quem realmente precisa de você. Não tenha crises de auto-estima tentando receber elogios da esquerda, condescendendo com suas idéias em busca de afagos. Quando um esquerdista te fizer um elogio, pare e analise o que acabou de fazer errado.

Depois da eleição de Barack Obama em 2008, nasceu nos EUA o primeiro movimento popular sem qualquer cabresto da esquerda, o Tea Party. As pessoas iam as ruas defendendo nada mais que responsabilidade fiscal, menos impostos e meritocracia, as idéias que constituíram o país e fizeram dele o projeto humano com melhores resultados da história. E como eles foram chamados pela imprensa? Radicais, extremistas, preconceituosos e todo tipo de xingamento que a esquerda sempre faz. Só que o Tea Party não se intimidou e teve uma vitória histórica nas eleições de 2010 e conseguiu influenciar o debate político do país profundamente. O Tea Party não quer agradar a esquerda, não quer aprovação da esquerda, não quer negociar com a esquerda, ele quer vencer a esquerda. E é disso que se trata.

Os políticos, ativistas e intelectuais brasileiros que quiserem ajudar precisam se preparar culturalmente para o debate e depois entender como articular suas idéias. Não precisam nem criar nada do zero, basta ler os discursos de Winston Churchill, Ronald Reagan ou Margareth Thatcher, está tudo lá, não só as idéias corretas mas uma capacidade ímpar de articular, persuadir e seduzir o público.

Celso de Mello é passado, olhe para frente e pare de “mimimi”. Tome uma atitude. Se você pretende continuar no Brasil e criar seus filhos aqui, não há espaço para azedume e chororô, há muito, mas muito trabalho a fazer e mal começamos.

Arregace as mangas e mãos à obra. Precisamos de você.

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