Alexandre Borges

@alex_borges




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Vai trabalhar, vagabundo.

“Knock-out game” é um perigoso passatempo que está se espalhando rapidamente entre jovens das periferias americanas e que consiste em chegar de surpresa numa pessoa que caminha na rua e dar um soco tão forte que ela desmaie, caia apagada no chão. Em pelo menos três estados americanos, há registro de mortes causadas pelo tal jogo.

A polícia diz que até agora os agressores são em geral negros e as vítimas, brancas. Muitos dos alvos são judeus, o que levanta questões adicionais sobre a história de antissemitismo disseminado em comunidades negras nos EUA por ativistas como Louis Farrakhan há décadas. Judeus ortodoxos já estão sendo aconselhados a tomar precauções extras de segurança. Alguns jovens chamam o jogo de “Caçada ao Urso Polar” porque as vítimas preferenciais são brancas.

Há quem relacione o “knock-out game” ao produto de entretenimento mais lucrativo da história, o recém-lançado videogame Grand Theft Auto V, já que esse tipo de agressão é comum no jogo, mas é claro que é muito mais do que isso e reduzir a discussão ao GTA é fugir da raiz do problema. O “knock-out game” é um problema que, se você ignora, pode um dia se transformar literalmente num soco na cara.

A imprensa, para não variar, chama seus “especialistas” para culpar tudo que possa ser relacionado com distribuição de renda ou com uma demonstração de “macheza”, como se fosse natural aos homens sair agredindo qualquer pessoa aleatoriamente nas ruas. A covardia dos ataques, como a que atingiu uma mulher de 78 anos outro dia, é tudo menos demonstração de coragem ou força, é exatamente o contrário.

O que chama atenção também, neste caso, é o silêncio dos ativistas de sempre e do presidente Barack Obama, tão ávidos para enxergar racismo na morte de Trayvon Martin, tese desmontada pela justiça, mas que não se mostraram interessados até agora pelo “knock-out game” e suas vítimas. O silêncio deve durar até que haja uma morte do lado dos agressores, já que, evidentemente, um dia algum americano branco usará uma arma legal para se defender e a esquerda americana terá um novo Trayvon Martin para faturar politicamente em cima.

Outra característica do “knock-out game” é que os jovens não roubam depois que as vítimas caem no chão apagadas, eles apenas saem rindo, saltitando e comemorando cada ataque – o que também desmonta a tese de que estão perturbados, fora do juízo perfeito pela “opressão” da sociedade racista, quando para eles é claramente um jogo.

Há um fenômeno social muito mais sério e grave acontecendo e que, com raras exceções, não é dada a devida atenção: o número de homens adultos que estão fora da força de trabalho, muitos morando com os pais, e que simplesmente desistiram de buscar emprego ou entrar no mercado. Alguns vivem de bicos, outros dormem de dia e passam a noite jogando videogames, outros fazem serviços temporários apenas para juntar dinheiro extra para as drogas e algum lazer, mas há um grave e perverso componente no comportamento desses homens que não formam famílias, não criam filhos, não buscam realização profissional, nada além de prazer e diversão que o cheque da assistência social do estado ao menos em parte garante todo mês.

Nos EUA, segundo dados do próprio governo, 92 milhões de adultos, um em cada três, não estão trabalhando ou desistiram de procurar emprego. É o nível percentual de adultos trabalhando mais baixo desde 1978, quando outro radical de esquerda, Jimmy Carter, ocupava a Casa Branca. O número de empregos criados no país atualmente não é suficiente nem para dar conta do crescimento populacional, quanto mais incorporar desempregados ao mercado de trabalho. O número de americanos recebendo algum tipo de assistência do governo recentemente rompeu a barreira de 100 milhões.

Sem querer entrar numa discussão estereotipada ou superficial sobre o papel dos homens no século XXI, é preciso refletir sobre o que o jornalista econômico Charles Payne quis dizer com a idéia de que “o welfare state está criando o eunuco moderno, castrado na alma por ter perdido seu papel como formador de família, de tomador de riscos e de líder”. Esses jovens que batem em avós distraídas nas ruas e depois saem rindo não tem qualquer idéia do que até bem pouco tempo se entendia por ser um homem.

O welfare state dispensa a necessidade da família tradicional por motivações puramente ideológicas e está usando dinheiro público para isso. Onde se tinha historicamente dois adultos somando esforços para conseguir pagar o orçamento doméstico e educar os filhos, agora entra o estado substituindo um deles. Para quem acha que isso é consequência de crises recentes e não causa, quando o movimento progressista chegou ao poder nos EUA, há mais de um século, o presidente Woodrow Wilson já dizia que cada cidadão deveria “se casar” com o estado.

Ano passado, o caso de Angel Adams, 38 anos, moradora de Tampa, na Flórida, mãe de 15 crianças de três pais diferentes, ficou famoso nos EUA quando seus filhos foram encontrados em condições insalubres e ela, ao ser entrevistada, disse  “alguém tem que ser responsável pelas minhas crianças”. Ela recebeu do governo casa mobiliada, eletrodomésticos, além de comida e da ajuda dos vizinhos e, mesmo assim, seus filhos continuam mal cuidados enquanto ela acha que é tudo culpa dos outros, incluindo do governo, menos dela. Em 2013, nasceu o décimo sexto filho de Angel Adams, chamada por alguns analistas de “welfare mom”, já que ela simboliza de maneira dramática a idéia de que você não é responsável nem pelos filhos que coloca no mundo.

Enquanto Angel Adams tem novos filhos, o campeonato brasileiro de futebol foi vencido esse ano, com folga e por antecipação, pelo Cruzeiro Esporte Clube de Belo Horizonte. Um detalhe que passou despercebido por parte da imprensa: o Cruzeiro é o time com mais jogadores casados que disputou o título. Durante o ano, nenhuma orgia registrada, nenhum hotel quebrado, nenhum flagra com “modelo e manequim” fazendo barraco em casa noturna. Coincidência?

Para Payne, é preciso analisar as consequências de se ter milhões de adultos saudáveis, pagos pelo governo para não trabalhar e não cuidar de eventuais filhos nascidos em relações fortuitas, que passam o dia sentados na porta de casa ou parados nas esquinas esperando o tempo passar. Um dado perturbador que Payne também cita: há cinquenta anos, o problema de saúde que liderava as aposentadorias por invalidez nos EUA era “doença cardíaca” e hoje é “dor nas costas”. Payne afirma que hoje basta um jovem saudável e forte dizer ao governo que está com dor nas costas para passar a viver de mesada de programas assistenciais do governo.

O Brasil também conhece o fenômeno, ao qual deu o nome de geração “nem nem” (nem trabalha, nem estuda). Nos últimos dez anos, o número de brasileiros de 17 a 22 anos que nem estudam e nem trabalham passou de 23,9% para 26,6% segundo o IBGE. E o que eles fazem o dia inteiro para preencher o tempo é um problema social que o welfare state só agrava.

Na Suécia, uma espécie de paraíso ficcional criado pela esquerda, os estupros saíram do controle. O país-símbolo do welfare state e do politicamente correto, segundo alguns levantamentos, está se tornando a capital mundial dos estupros, rivalizando em números apenas com a África do Sul. Se considerarmos o IDH do país e os programas assistenciais mais perdulários que se tem notícia, a comparação levanta questões morais e sociológicas que evidentemente não interessa à esquerda discutir.  Na Suécia, até pré-adolescentes são vítimas comuns de estupros de jovens cada vez mais acomodados com os gordos cheques governamentais e sem qualquer motivação para buscar um emprego formal.

Os números de estupros registrados na Suécia continuam crescendo e um terço deles têm como vítimas mulheres abaixo dos 15 anos de idade (por favor não me venham a conversa de que há um excesso de registros feitos por ex-namoradas enciumadas, como alguns especularam quando esses números apareceram, as discussões metodológicas não mudam o fato de que os números são altíssimos e com viés de alta).

Recentemente, a imprensa mundial fez festa com o fato de que a Suécia estaria fechando presídios por falta de presos, mas o que os jornais não parecem interessados em mostrar é que prender menos não significa menos crimes, especialmente num país mergulhado numa espiral psicótica de teorias sociais esquerdistas em que o crime não pode mais ser chamado de crime. Agora você entende porque quando uma vítima nutre afeição e passa a defender o agressor chamamos de “Síndrome de Estocolmo”, numa referência direta a um sequestro ocorrido na capital sueca em 1973.

É importante que se entenda que nem todo país com alto índice de desemprego é vítima de “knockout games” ou estupros em série. É preciso também que o trabalho seja demonizado, é necessário que se crie via universidades, cultura pop e imprensa a idéia marxista de que a atividade remunerada na economia de  mercado é algo perverso, opressor, que a inserção na força de trabalho é uma espécie de escravidão dos dias de hoje. É preciso também um ambiente hedonista e niilista que leve à busca desenfreada do prazer inconsequente, de preferência subsidiado pelo governo, o que para quem está numa idade de hormônios à flor da pele é um convite quase irresistível.

Em “Vai Trabalhar, Vagabundo”, Chico Buarque resume a idéia da esquerda sobre o trabalho numa sociedade de livre mercado: “Prepara o teu documento / Carimba o teu coração / Não perde nem um momento / Perde a razão / Pode esquecer a mulata / Pode esquecer o bilhar / Pode apertar a gravata / Vai te enforcar / Vai te entregar / Vai te estragar / Vai trabalhar.” O trabalho é, na visão de um ícone da esquerda brasileira, uma derrota para o sistema e a morte do prazer. Em 2013, o filme “Vai Trabalhar, Vagabundo”, com Hugo Carvana no papel principal, faz quarenta anos e hoje somos liderados na política, na cultura e das universidades, por pessoas que foram educadas na juventude com essas idéias. O resultado está aí.

Há poucas semanas, Glenn Beck disse que a ansiedade que se vê nos jovens hoje é porque exigimos pouco deles, eles não são desafiados, não são testados, estamos sempre mimando, negligenciando e perdoando a nova geração. Beck disse “dê um pé na bunda do seu filho” e a imprensa tirou a frase do contexto de propósito para criar uma narrativa de que ele estava incitando a violência infantil, com a desonestidade intelectual de sempre. Qualquer pessoa que conheça o pronunciamento original de Beck sabe perfeitamente o que ele quis dizer.

Em resumo: jovem que trabalha ou que quer trabalhar, que pensa em formar uma família, que sonha em vencer profissionalmente, não soca idosas por trás apenas para preencher o tempo livre e remunerado pelo governo. Como disse Ronald Reagan, o melhor programa social que existe é o trabalho.

A verdadeira cabeça do brasileiro

Pesquisa do Datafolha, publicada na Folha deste domingo (27), mostra que 95% dos paulistanos são contra os Black Blocs, ou seja, são contra a baderna, o vandalismo e o quebra-quebra. Noventa e cinco por cento.

Há 15 dias, o jornal publicou uma pesquisa dizendo que metade da população brasileira é “de direita” e apenas 30% são “de esquerda”, a partir de critérios enviesados, fabricados pelos esquerdistas do instituto e do jornal, que tendem a engordar os números da esquerda. É perfeitamente possível aceitar que mais de 70% dos brasileiros estão ideologicamente no centro, centro-direita e direita.

Na matéria, o jornal ainda comete o absurdo de dizer que ideologia “não se traduz em voto” porque o brasileiro, mesmo sendo de direita, não vota em candidatos de direita. O jornal só deixa de mencionar mais explicitamente que o Brasil não tem candidatos de direita, o que invalida a conclusão. O jornalista e analista político da Folha Fernando Rodrigues escreveu um artigo recentemente chamando o Brasil de “atrasado’ e “conservador”, sugerindo que os dois termos seriam equivalentes.

Na mesma pesquisa, para 85% dos brasileiros, acreditar em Deus torna as pessoas melhores. Para 48%, os sindicatos “servem mais para fazer política do que para defender os trabalhadores”. Você pegou a idéia.

Em abril deste ano, o mesmo Datafolha mostrou que 93% dos paulistanos são a favor da redução da maioridade penal, o que deve reunir todos na cidade que não são professores da USP, blogueiros do UOL com sobrenome japonês ou presidiários. Diz a Folha: “Redução da maioridade penal opõe analistas e sociedade“.

O resumo de tudo isso é que o resultado das pesquisas, como admite a própria Folha, “opõe analistas e sociedade”. É óbvio e evidente que os chamados cientistas políticos, analistas, intelectuais, sociólogos, jornalistas, marqueteiros e consultores que assessoram os políticos brasileiros estão vivendo em outro país, não no Brasil.

Em maio, o cérebro ideológico do PT, das áreas de humanas da USP e do jornalismo brasileiro, Marilena Chauí, deu uma pista da motivação que separa o povo do que o Brasil convencionou chamar de intelectual:

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– “Eu odeio a classe média.”

– “A classe média é o atraso de vida”

– “A classe média é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista.”

– “A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e ela é uma abominação cognitiva, porque ela é ignorante”.

Para o IBGE, mais da metade da população do país está na classe média (renda per capita entre R$ 300 e R$ 1.000), portanto há uma chance bastante razoável da Marilena Chauí odiar a maioria dos eleitores que, por sua vez, só votam nos candidatos que ela defende por falta de opção. A rejeição é mútua.

Essa população que Marilena odeia tem valores muito mais próximos de liberais e conservadores do que de esquerdistas, desde o tipo obamista-chique até o black bloc psolento.

O brasileiro não quer quebra-quebra, baderna, fogo em ônibus, alta carga tributária, e não compra a tese de que bandido é vítima, de que Cuba é um paraíso, de que a redução do crime virá da liberação da venda de heroína nas escolas ou que a modernidade é todo mundo pelado, o dia inteiro sem trabalhar e recebendo dinheiro do governo.

É óbvio e evidente que o eleitorado brasileiro está pronto para uma candidatura viável de centro-direita e é essa cambada de vagabundos sanguessugas, com seus títulos acadêmicos em marxismo aplicado, que cercam os partidos e políticos brasileiros e dizem o contrário a eles. E é por isso que os políticos brasileiros estão hoje apenas brigando para dizer que são mais esquerdistas do que os outros.

O povo está preocupado com 70.000 homicídios por ano, o que certamente inclui gente que ele conhece, um vizinho ou um parente pelo menos. Os jornalistas e sociólogos estão preocupados com o Amarildo.

O povo está preocupado com o dinheiro no fim do mês que não dá, os jornalistas e sociólogos querem mais impostos e mais dinheiro na mão dos burocratas do governo.

O povo está preocupado com o futuro dos filhos, os jornalistas e sociólogos com o casamento da Daniela Mercury.

O povo está preocupado com o fogo no ônibus que ele pega e na destruição da estação de metrô que ele usa, os jornalistas e sociólogos estão preocupados em acabar com a PM.

O primeiro passo para uma candidatura de centro-direita: demitam todos esses pilantras, filhotes ideológicos da Marilena Chauí, que fazem fortunas dizendo que o povo é de esquerda. Coloquem todos no olho da rua aos pontapés, de preferência jogando o que tiverem nas suas gavetas de trabalho pela janela.

Mandem os sociólogos para a rua e aproveitem para ouvir as ruas diretamente, sem intermediários, sem “o povo disse isso mas quer na verdade aquilo”. O povo hoje só não vota na direita porque não tem alternativa.

A política brasileira é a negação do livre mercado até nisso: os “consumidores” gritando por um produto e todos os vendedores oferecendo outro, completamente diferente, e que só uma minoria engole com prazer.

Um viva aos reis incompetentes

Você e eu devemos parte da democracia ocidental a um sem-terra. Mais especificamente, a um João Sem-Terra que por seus defeitos e por fazer quase tudo errado ajudou a mudar para sempre a maneira de governar no ocidente.

João Sem-Terra tinha uma família conturbada. Seu pai, Henrique II, era um mulherengo incontrolável que teve pelo menos dez filhos fora do casamento. Leonor, sua mãe, foi casada com rei francês Luís VII, com quem teve duas filhas, tendo depois mais oito com Henrique. Leonor falava oito línguas, conhecia matemática, filosofia e astronomia, e entrou para a história como uma das mulheres mais poderosas e cultas da Idade Média. Acredita-se que ela já tinha um caso com Henrique enquanto ainda era esposa de Luís VII.

Leonor casou com Henrique em 1152, separando dele em 1170, e foi morar na Aquitânia, sul da França. Em 1173, Leonor e os três filhos mais velhos (Godofredo,  Henrique e Ricardo Coração de Leão) lideraram uma revolta contra Henrique, com apoio do ex-marido Luís VII, mas foram todos derrotados. O rei inglês culpou Leonor pela traição, mandando a ex-mulher para a prisão e depois perdoando os filhos. João ficou ao lado do pai o tempo todo e virou seu preferido. O apelido de “João Sem-Terra” vinha do fato dele, por ser o filho mais novo, não ter muitas terras para herdar.

Ricardo Coração de Leão foi educado pela mãe na cultura francesa, nunca aprendeu a falar inglês, detestava o pai e não se identificava com a Inglaterra, a despeito da idolatria que o país têm por ele até hoje. Com a morte de Henrique II em 1189, Ricardo assume o trono, raspa os cofres da coroa britânica, liberta Leonor do cárcere e parte para as Cruzadas. Ricardo deixou a Inglaterra sem a presença de um rei e com impostos altíssimos para sustentar sua guerra, o que gerou enorme descontentamento na corte. Durante a viagem, Ricardo nomeia o sobrinho Artur, filho de Godofredo, como sucessor, mas morre flechado numa batalha em 1199. João mandar prender Artur e assume o trono.

O agora Rei João, personagem da lenda de Robin Hood como Ricardo, não inspirava respeito ou admiração do povo, que colocava em dúvida sua legitimidade e não engolia a prisão e o sumiço inexplicável de Artur, que nunca mais foi visto. Os nobres estavam cansados da família de João, uma dinastia real recente que tinha começado com seu pai Henrique e que trazia no pacote guerras caríssimas e um tratamento muitas vezes distante e negligente com o país.

O novo rei fez por merecer o ceticismo e colecionou uma série espetacular de fracassos políticos e militares. Perdeu diversas guerras, que geraram enormes prejuízos para a coroa, e teve que aumentar ainda mais os impostos. Para completar, bateu de frente com o Papa e foi excomungado. Os nobres resolveram dar um basta e agir, cercando Londres e forçando João a assinar um acordo em 15 de junho de 1215, única saída possível para que não fosse deposto. Neste dia, o mundo conhecia um documento que formalmente colocava limites por escrito na monarquia em relação não só à corte mas também a todos os súditos.

Magna CartaA Magna Carta simbolizou um dos poucos momentos na história em que um governante aceitou perder poderes e colocar limites no que podia decidir ou fazer. O documento trazia novidades surpreendentes e fazia da coroa britânica um caso único na Europa.

A mãe de todas as constituições impedia o rei de criar novos impostos ou leis sem a aprovação de um conselho formado por representantes da corte. Um dos artigos do documento também dizia: “nenhum homem livre será preso ou privado de uma propriedade, ou tornado fora-da-lei, ou exilado, ou de maneira alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém agir contra ele, a não ser por julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra.”

Henrique II, pai de João, já havia sido pioneiro ao unificar o sistema jurídico do país baseado na common law, mas foi a Magna Carta que criou as bases para as modernas constituições e o que entendemos hoje por governos limitados e democracia constitucional. Como resultado da inépcia de João Sem-Terra no trono, a Inglaterra inaugurava um tipo de regime em que mesmo os reis deveriam se submeter a um conjunto de regras claras, escritas e publicamente divulgadas, num documento maior e mais importante do que eles, que hoje chamamos de Constituição.

Totalitarismo e Hegemonia

No clássico “Poder, a história natural do seu crescimento”, Bertrand de Jouvenel descreve o desenvolvimento dos sistemas de governo dessa época até os estados totalitários do século XX, aqueles que atingem o poder “total” e nos quais é “tudo para o Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”. Jouvenel escreveu o livro em 1945, numa época em que o próximo passo do totalitarismo estava apenas começando.

Se a primeira metade do século XX é marcada pelas grande guerras e pelo surgimento dos estados totalitários, a segunda metade conheceu a forma mais perfeita e sofisticada de controle da sociedade: a hegemonia cultural. Ao longo do século passado, a guerra militar foi dando lugar à guerra no campo das idéias. As idéias do estatismo e do governo “total” vão aos poucos tomando conta da cultura, da academia e da imprensa ocidental até não terem mais qualquer resistência ou oposição relevantes, com raras exceções.

A hegemonia cultural estatista no ocidente é de tal ordem que governos passaram a ter “o poder invisível e onipresente de um imperativo categórico, de um mandamento divino”, como sonhado por Antonio Gramsci. A dominação do poder estatal, que foi militar durante séculos, passou para a esfera ideológica, a forma acabada de dominação imaginada por George Orwell em “1984” na qual o pensamento oposicionista é suprimido pelo controle até da linguagem.

Em diversos acontecimentos recentes, especialmente no Brasil, a força da hegemonia cultural estatista se mostrou em todas as cores. A ausência de pensamento alternativo e lideranças políticas fora do estatismo mostram que a batalha pelos corações e mentes está sendo perdida e que pouco adianta hoje discutir estratégias eleitorais de curto prazo sem entender que o campo de batalha é a cultura.

Manifestações contra o quê mesmo?

O Brasil se surpreendeu com movimentos que reuniram mais de dois milhões de manifestantes nas ruas a partir de junho, numa modalidade de protesto inusitada, sem uma causa definida, sem um alvo claro, sem uma agenda única de reinvindicações. Os dois slogans mais ouvidos eram idéias vagas apropriadas de campanhas publicitárias: “o gigante acordou” saiu da assinatura de um comercial do uísque Johnny Walker e “vem pra rua” dos filmes da FIAT para a Copa das Confederações.

Havia um descontentamento difuso no ar, com a popularidade da presidente apresentando desgaste, mas nada que comprometesse a eleição do ano que vem. O Brasil é governado pelo mesmo partido há 10 anos e praticamente não tem qualquer oposição relevante, tanto na política quanto na imprensa. Com tantos anos no poder e sem enfrentar adversários com propostas alternativas claras, a população não tem sequer idéia do que ou quem colocar no lugar do PT.

Um resumo do que é uma campanha eleitoral: candidatos se apresentam, dizem quais são suas propostas e porque elas são as melhores do que as dos outros, definem quem são seus adversários e porque estão errados, tudo em termos claros, persuasivos e inteligíveis para a população. Esse tipo de confronto praticamente inexiste no Brasil, com suas campanhas descerebradas e medíocres em que se discutem nomes e não idéias.

Na primeira semana de junho, o Brasil conhece o Movimento Passe Livre e figuras como Mayara Vivian, a ativista que sonha com um mundo “sem catracas”, um eufemismo para a defesa do comunismo. Seu MPL começa a realizar protestos isolados com algumas dezenas de militantes contra o aumento das passagens de ônibus. Acontecem confrontos com a polícia, tumultos, cenas de vandalismo e interrupções no trânsito, que foram vistos com estranhamento e surpresa pela população que não aderiu à baderna, assim como a imprensa, que tinha uma cobertura dúbia e errática, alternando apoio e crítica ao movimento.

A semana seguinte começa com a divulgação de uma pesquisa bombástica do Datafolha, que colocava o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, como favorito disparado para a eleição do próximo ano para o Palácio dos Bandeirantes. A manchete do jornal Folha de S. Paulo de 10 de junho dizia: “Alckmin venceria até Lula na disputa pelo governo paulista”, exibindo o confortável índice de mais de 50% das intenções de voto. Mesmo quando a simulação incluía Lula na disputa, Alckmin aparecia com o dobro de preferência do eleitorado com 42% contra 26% do ex-presidente.

Não é preciso ser um analista político para saber que o governo de São Paulo era visto como o grande desafio eleitoral do PT para 2014, que havia conquistado a prefeitura da capital no ano passado e dava a reeleição de Dilma Rousseff como certa e tranquila. O resultado do Datafolha daquela segunda-feira jogava um balde de água fria nas pretensões eleitorais do PT para tirar Alckmin do cargo e mandava um sinal claro de que alguma coisa mais radical precisava ser feita para mudar o quadro.

As manifestações continuam e vão criando mais e mais confusão, especialmente nas capitais. Ônibus são apedrejados e queimados, estações de metrô vandalizadas, vitrines de lojas quebradas e muros pichados. Os confrontos com a polícia ficam mais violentos e acontecem as primeiras prisões. Na quarta-feira, 12 de junho, os jornais começam a tratar os manifestantes, a grande maioria ainda ligada ao MPL ou instigada por ele, como arruaceiros. Líderes do MPL dão entrevistas dizendo que o quebra-quebra era uma resposta à truculência da política. A população continua a assistir tudo de fora.

A quinta-feira, 13 de junho, é um divisor de águas. Geraldo Alckmin, em viagem à Paris com o prefeito Fernando Haddad, declara que vai ser duro com o vandalismo (o número de ônibus danificados se aproxima de cem na capital paulista) e convoca a tropa de choque para proteger a população, o patrimônio público e privado da cidade. No final da tarde, os ativistas da Mayara Vivian bloqueiam a rua da Consolação em direção à avenida Paulista, desrespeitando um acordo prévio com a polícia, e tudo sai do controle. Há confronto, feridos e uma jornalista da Folha de S. Paulo aparece na capa do jornal do dia seguinte com o olho atingido por uma bala de borracha. O jornal dá várias páginas para a cobertura dos confrontos com imagens de feridos e fotos da tropa de choque.

A opinião pública passa a sexta-feira sendo bombardeada pelas imagens e aparece um “inimigo”, a polícia de São Paulo. Sub-celebridades fazem uma campanha oportunista nas redes sociais simulando o olho ferido da jornalista. A discussão sobre os confrontos incendeia o país e a população resolve aderir e o resto é uma história ainda bem viva na memória. O povo nas ruas rejeita a partidarização das manifestações e cada um sai de casa para fazer sua própria reinvindicação.

Faça um teste: pergunte a dez pessoas contra o quê elas protestavam e há uma chance bastante razoável de você receber dez respostas totalmente diferente. Tudo acabou virando uma caótica micareta de cartazes com frases de mural de Facebook tão descartáveis que não resistiram ao teste do tempo, como dito no sensacional e profético vídeo “Reunião de Emergência” do Porta dos Fundos, já assistido mais de 5 milhões de vezes no YouTube. A presidente, vivida pela atriz Júlia Rabello, pede que o grupo de políticos tenha paciência: “é só um tempo até o povo dispersar, em um mês tudo volta a ser o que era antes, vai voltar campeonato brasileiro, vai voltar Big Brother”. Dito e feito.

A insatisfação difusa da população é fruto direto da falta de lideranças com uma agenda política alternativa para o país. A popularidade da presidente despencou dando um recado claro da população para os políticos: queremos novas idéias, novos nomes, novos partidos, estamos prontos para ouvir vocês, mas eles não responderam. O povo cansou de esperar, saiu das ruas e, aos poucos, a avaliação positiva de Dilma começa a mostrar sinais de recuperação. Em política não há vácuo e se não há opositores para aproveitar a janela de oportunidade ela se fecha e volta tudo a ser como antes.

O grande inimigo das democracias contemporâneas é o estado.

A falta de oposição e de beneficiários das manifestações brasileiras é consequência direta da hegemonia cultural da esquerda e do estatismo. A insatisfação amorfa da população tem um componente revelador, que mostra que hoje o eleitor brasileiro sequer consegue conceber uma forma alternativa de política e é por isso que a mais importante frente de batalha hoje é a hegemonia da discussão política exercida pelo estatismo em todas as esferas, especialmente a cultural.

É preciso que a população entenda claramente todos os problemas causados na vida dela pela altíssima carga tributária, pela burocracia, pela intervenção galopante do estado na economia, pela corrupção desenfreada e um estado mastodôntico impossível de controlar, além das mazelas estruturais da educação, saúde, transporte e tudo mais que atrapalha a vida do cidadão e que é causado diretamente pelo gigantismo estatal. É preciso que esse “rei incompetente”, o estado, seja cercado e seus poderes limitados. Não falta incompetência, mas ainda falta quem esteja disposto a colocar o rei-estado contra a parede.

Na crise da coroa britânica no tempo do Rei João não havia defensores de ideais democráticos nem abnegados amigos do povo, a Magna Carta foi uma solução negociada para que a crise não continuasse, mas o que importa como lição é que o acordo para minimizar os problemas causados pelo rei incompetente foi limitar seus poderes e não meramente trocar o ocupante do trono.

A Inglaterra do século XIII, cansada da negligência, da inépcia, dos altos impostos, dos escândalos, cortou as asas do rei e durante quase mil anos conheceu o crescimento do país que viria a se tornar um império e criar a nação mais próspera e livre do mundo no outro lado do Atlântico.  A diminuição drástica do poder do estado dá certo desde 1215 é a guerra que vale a pena ser travada hoje.

Texto publicado originalmente na edição impressa da revista Vila Nova

Ted Cruz ou Renan Calheiros?

A imprensa brasileira, sempre obediente, continua repetindo o que manda a esquerda americana: o congresso atrapalha o aiatolá. Ah se ele pudesse gastar como quisesse, não? Os ianques têm muito o que aprender com o Brasil!

Nos EUA, como não tem Renan Calheiros, José Sarney e similares, o governo tem realmente que negociar o mérito das questões no congresso, não basta um ministério e uma diretoria de estatal aqui, a liberação de verba para uma ponte acolá, que tudo se resolve. Ted Cruz não é Severino Cavalcanti, para horror da tropa de choque obamista.

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Como o voto é distrital e o congressista é cobrado no seu distrito pelas promessas de campanha (por exemplo, repelir o desastroso Obamacare), o político acaba, vejam vocês, realizando em Washington o que ele prometeu que ia fazer aos eleitores. Agora tente explicar isso para um jornalista ou analista político brasileiro.

A batalha no congresso americano pelo orçamento federal é uma prova da vitalidade do sistema democrático, com longa tradição no país, e deveria servir como propaganda para a adoção do voto distrital e do fortalecimento do poder legislativo por aqui, que tem entre suas atribuições formais controlar e fiscalizar o executivo. Pior que o congresso atual, só congresso nenhum, como chegou a sugerir recentemente o inacreditável Cristovam Buarque.

Quem fica escandalizado com a política americana em pleno funcionamento num sistema republicano com reais separações entre poderes, não entende a página um do que é democracia.

Os argumentos mais comuns dos radicais obamistas são risíveis:

1. “O presidente foi eleito, deveriam respeitam a vontade do eleitor.” – Os congressitas não foram eleitos também? Seus eleitores não merecem o mesmo respeito?

2. “Os republicanos possuem uma ala radical” – Os democratas não? Tente conhecer o que pensam diversos congressistas do partido do governo, há todo tipo de radical ideológico e maluco, como por exemplo o deputado Hank Johnson, da Geórgia, que pediu a retirada das tropas da ilha de Guam, no Pacífico, porque o peso deles poderia afundar a ilha.

3. “Os republicanos deveriam se render” – O Brasil não tem oposição, a base aliada do governo aqui é proporcionalmente maior do que na Venezuela. Precisa mesmo explicar a importância de haver oposição?

4. “A estratégia foi impopular” – Os dois lados perderam aos olhos da opinião pública e Obama está com recorde negativo de aprovação no cargo. Além disso, há uma sutileza importante: pesquisas com “registered voters” (eleitores que podem votar) não querem dizer muita coisa, o que importa são os “likely voters”, quem realmente vota. Os eleitores registrados que não votam normalmente são uma parcela da população pouco informada ou pouco interessada em política, muito influenciada pelo noticiário, e que portanto é ótima para passar a idéia de que o eleitorado pensa o que os jornalistas gostariam que pensassem, o que muitas vezes não tem conexão com o que acontece nas urnas.

Toda essa gritaria contra o Tea Party indiretamente justifica o mensalão e a compra de votos do Congresso, tudo em nome da “governabilidade”, um eufemismo canalha para caracterizar um congresso irrelevante ou conivente.

Quando a imprensa grita contra os congressistas da oposição americana, o que está sentindo falta mesmo é do Renan Calheiros.

A hora e a vez da ruptura sistêmica

Como é impossível entender o que se passa no país dos Black Blocs através dos filtros da grande imprensa, é importante recorrer a fontes primárias como esse vídeo divulgado em 13 de junho pelo “Juntos”, o braço do PSOL que vai para as manifestações vestido de amarelo. É muito importante que a opinião pública entenda quem são essas pessoas que tomaram conta das ruas do Brasil, essa gente produzida aos milhares pelas universidades sustentadas com seu dinheiro. Não espere que produzam um prêmio Nobel, elas têm mais o que fazer.

Um dos psolentos do vídeo fala que é do “tribunal popular”, seja lá o que isso signifique, mas quem é minimamente alfabetizado e já estudou Revolução Francesa sabe que o termo não traz boas lembranças. Um outro está vestindo uma camisa com uma imagem de Lênin, o idealista que montou o regime responsável pela morte 30 milhões de pessoas do próprio povo e por 18 milhões enviados para campos de trabalho escravo. O leninista diz que vivemos um “prelúdio de um novo tempo, o tempo de rua”. O dia 13 de junho, data em que o vídeo foi postado, é exatamente aquela quinta-feira em que o caldo entornou em São Paulo e a jornalista da Folha foi atingida no olho por uma bala de borracha.

Tribunal popular

Você acha, sinceramente, que vai sentar com uma pessoa dessas e ter uma conversa racional sobre política? Você acha que é uma batalha de argumentos, que é só segurar aumento de passagem de ônibus que eles vão trabalhar, estudar ou produzir alguma coisa para o país?

O discurso deles no vídeo segue uma cartilha, nada é gratuito ou por acaso, é tudo para, no limite, justificar o quebra-quebra e a “ruptura sistêmica”. Não acredita? Leia outra fonte primária: o programa oficial do PSOL, no próprio site do partido. Diz o texto: “a lógica egoísta e destrutiva da produção, condicionada exclusivamente ao lucro, ameaça a existência de qualquer forma de vida. Assim, a defesa do socialismo com liberdade e democracia (sic) deve ser encarada como uma perspectiva estratégica e de princípios. Não podemos prever as condições e circunstâncias que efetivarão uma ruptura sistêmica.”

Traduzindo:

– O capitalismo liberal para esses democratas ameaça a existência de qualquer forma de vida! Se você defende o sistema de livre mercado, você é um perigo para todas as espécies do planeta. Será essa a base da acusação no seu julgamento do tribunal popular? Se for, boa sorte para você.

– Eles não podem prever como se fará a derrubada do sistema atual, ou melhor, qualquer forma de ação revolucionária é aceitável para fazer a “ruptura sistêmica”. Isso não é uma teoria conspiratória, é o que defende o programa do partido do Jean Wyllys e do Marcelo Freixo. Nem o Hezbollah diria melhor.

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Você pode dizer que eles nunca conseguirão dar um golpe de estado, mas é o que eles pregam, é o que sonham, e isso deveria levantar algumas questões sobre a adequação deste partido e de outros com as mesmas idéias no jogo democrático que eles claramente desprezam.

O fato é que esse pessoal hoje sai das péssimas faculdades brasileiras e vai para Folha, para o Estadão ou para o UOL escrever as notícias que você lê, para ONGs e movimentos sociais que influenciam diretamente as políticas públicas, e enquanto esse ciclo vicioso não for quebrado só vai piorar. Há uma guerra ideológica que precisa ser enfrentada porque ameaça a democracia e se só um lado está jogando, o resultado final não pode ser surpresa. Acha exagero? Leia essa matéria do O GLOBO que mostra que o PSOL é o partido preferido dos jornalistas.

Jean-Wyllys-Quando eles passam dos 40 anos de idade, estes radicais vão dirigir as redações dos jornais, as áreas de humanas das universidades, os núcleos de conteúdo das TVs ou escrever roteiros de novelas, e são reverenciados e festejados pela cultura.

É o que vivemos hoje com a geração forjada nos anos 60/70 no Brasil. O moleque fedorendo e barbudo de ontem é o Caetano vestido de Black Bloc e o Chico Buarque defendendo a censura de hoje. O vídeo do PSOL não é caseiro, ele tem produção e edição profissional, custou dinheiro, tem alguém pagando isso e não é pouco. Esse pessoal não está para brincadeira, como você pode ver em qualquer manifestação. Eles querem ver o circo pegar fogo e estão contando com a conivência ou com a negligência dos palhaços e do respeitável público.

Se você der os ombros e esquecer o assunto, o assunto um dia vai lembrar de você. Como disse Churchill, “houve um momento em que um simples memorando teria impedido Hitler.” Os problemas não somem porque são ignorados, você descobre isso em algum momento da vida, de um jeito ou de outro.

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