Alexandre Borges

@alex_borges




Um café e a conta: o milionário boêmio que bancou Prestes.

Lendo a ultra-esquerdista e cada vez mais governista Piauí, revista criada e dirigida pelo herdeiro de um dos maiores bancos do país e irmão do cineasta que fez uma hagiografia de Che Guevara, lembrei de Celestino Paraventi (foto), uma figura que muitos brasileiros deveriam conhecer.

Paraventi foi um milionário de origem italiana que herdou do pai a primeira torrefação de café do estado de São Paulo. Cantor lírico, boêmio, era amigo pessoal de Luís Carlos Prestes e Olga Benário, que chegaram a ser levados por seu motorista num Lincoln do ano até a casa de campo dele, na margem da Represa Guarapiranga, para curtirem uma lua-de-mel. História mais comunista, impossível.

Celestino Paraventi Pelas contas bancárias das empresas de Celestino Paraventi no exterior o governo Stálin mandava dinheiro para os comunistas brasileiros sem deixar rastros, já que a movimentação financeira era tão alta que não despertava suspeitas do governo. Paraventi bancava não só muitos comunistas brasileiros como suas famílias e até suas publicações.

Além dos recursos do Komintern, Paraventi usava as empresas da família para despejar ainda mais dinheiro nas contas dos comunistas. Muitas publicações de esquerda eram bancadas por ele, que direcionava a publicidade do Café Paraventi para elas, como “O Homem do Povo”, de Oswald de Andrade. Diziam que não havia um único jornal de esquerda sem anúncios do Café Paraventi.

O dinheiro soviético vinha para Prestes e seus revolucionários para que pudessem dar um golpe comunista no Brasil, o que foi tentado em 1935 como vocês sabem. Paraventi tinha uma admiração quase religiosa por Prestes, a ponto de tentar vender o patrimônio da família para entregar a ele em nome da revolução comunista, o que fez com que seus parentes tentassem interná-lo num hospício. Quando suas ligações com Prestes foram descobertas pelo governo Vargas, chegou a ser preso.

Paraventi lembra também a trajetória de Eduardo Matarazzo Suplicy, bisneto no homem mais rico da história do Brasil, o Conde Matarazzo, que teve sua fortuna avaliada em 10% do PIB brasileiro em um determinado momento. Eduardo casou com Marta Teresa Smith de Vasconcellos, bisneta do Barão de Vasconcellos, outra herdeira brasileira cuja família tinha até um castelo na região serrana no Rio. Os irmãos Ana Lucia de Mattos Barretto Villela e Alfredo Egydio Arruda Villela Filho, da família que é a maior acionista individual do grupo que controla o Banco Itaú, são os criadores daquele instituto Alana, que detesta o “consumismo” e quer decidir que tipo de propaganda seus filhos podem assistir.

Conhecer essas figuras é fundamental para acabar com o mito de que ricos são necessariamente “capitalistas” e “de direita”, quando muitos deles, especialmente os herdeiros que não construíram o patrimônio da família, estão entre os maiores financiadores da esquerda desde Karl Marx, que passou a vida sendo bancado pelo herdeiro alemão Friedrich Engels.

Um dia deveríamos criar o Prêmio Celestino Paraventi para o herdeiro colaboracionista do ano. Quem sabe a Piauí não se interessa pela pauta?

Bowe Bergdahl e o impeachment de Barack Obama

Bowe Bergdahl (28), filho do caminhoneiro Robert Bergdahl e da dona-de-casa Jani Larson, um rapaz tímido que nunca tirou carteira de motorista e foi educado pela mãe em casa, é o centro do que pode ser a maior polêmica de governo Barack Obama.

Filho de pais presbiterianos ortodoxos aparentemente convertidos ao islamismo, Bowe foi também budista e dançava balé até entrar no exército. Era tido pelos colegas do exército como introspectivo e estudioso, do tipo que deixava de sair nos dias de folga para aprender tudo que podia sobre o Afeganistão, país para onde tinha sido enviado.

Seus colegas disseram que várias vezes manifestou o desejo de largar o exército e emigrar para o Paquistão ou Índia (seu posto, em Yahya Kheyl, era relativamente próximo da fronteira com o Paquistão). Bowe dizia abertamente ter vergonha de ser americano e de pertencer ao exército, era contrário à guerra e seus emails enviados a amigos e parentes, agora públicos, mostram um estado de espírito perturbado, raivoso e revoltado com sua condição de membro das forças de ocupação.

Na madrugada de 30 de junho de 2009, Bergdahl largou suas armas e abandonou seu posto em circunstâncias ainda obscuras, mas seus ex-companheiros afirmam categoricamente que ele fugiu por vontade própria. Para todos os efeitos, Bergdahl era um desertor, e deserção é um crime militar gravíssimo em qualquer lugar do mundo.

Bergdahl acabou capturado pelos talibãs, o que não é surpreendente se você sai perambulando sozinho e desarmado naquela zona de conflito. Pelo menos seis militares americanos morreram em ações de busca e resgate a Bergdahl.

Após diversas negociações, Bergdahl foi trocado pelo governo Obama por cinco dos mais perigosos detentos da prisão de Guantánamo, em Cuba, o que colocou a América num dos maiores turbilhões políticos da sua história recente.

As circunstâncias da troca são pra lá de controversas, o que fez com que muitos falem na abertura de um processo de impeachment contra Barack Hussein Obama. O que se sabe até o momento:

– A negociação foi feita à revelia da lei, que obriga o governo comunicar previamente ao Congresso qualquer tipo de negociação desse tipo. Pelo menos 80 membros do governo americano e do Qatar estavam envolvidos nas negociações e, mesmo assim, nenhum congressista foi avisado. Em 2011 e novamente em 2013, o Congresso havia sido formalmente consultado sobre a negociação e recusou os termos por unanimidade, tanto no senado quanto na câmara dos deputados.

– Mesmo alguns dos mais ferrenhos defensores de Obama no próprio partido, como a senadora californiana Dianne Feinstein, estão revoltados com a decisão unilateral do governo e pedindo mais explicações. O governo estava ciente de que deveria consultar o Congresso para fechar qualquer acordo e, mesmo assim, fez a troca, alegando que Bergdahl estava em péssimas condições de saúde e poderia morrer a qualquer momento, o que impediria uma consulta formal ao poder legislativo. As imagens do saudável e sorridente Bowe Bergdahl após a soltura desmentem categoricamente esta versão, o que fez o governo Obama mudar o discurso e dizer que ele estava sob ameaça de morte, o que justificaria então o bypass no Congresso.

– A crítica mais leve que o acordo recebeu, dos tradicionais apoiadores de Obama na imprensa e na política, é que a troca como foi feita, envolvendo cinco dos mais perigosos terroristas do mundo, deveria ter sido muito mais amplo, envolvendo outras contrapartidas e não somente a libertação de um único sargento. Com a libertação desses terroristas, o combalido talibã ganha vida nova.

– O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, e toda cúpula do seu governo, estariam se sentindo traídos pelo governo Obama pelo acordo, feito à sua revelia e pelas suas costas. Karzai teria se mostrado extremamente incomodado com o acordo e com a possibilidade de outras negociações estarem ocorrendo entre o governo americano e os talibãs sem seu conhecimento ou aprovação.

– “Não negociamos com terroristas” não é apenas um bordão de Jack Bauer, o lendário personagem de Kiefer Sutherland em “24 Horas” (http://youtu.be/Aw8PWR7S_Rk), mas uma maneira de mostrar aos terroristas que eles não devem sequestrar americanos porque não vai terminar bem para eles, assim como bandidos evitam matar policiais porque sabem as conseqüências. O governo Obama passou uma mensagem aos terroristas do mundo todo: sequestrem americanos que estamos abertos para negociar. Não é preciso ser vidente para saber que essa atitude colocou em risco a vida de milhares de americanos e que deverá ser responsável por muitas mortes ainda.

– Bergdahl era um desertor e está sendo tratado pelo governo como herói de guerra, o que colocou as forças armadas, os veteranos e todos os patriotas do país em choque. Ele deveria enfrentar a corte marcial, o que é a expectativa de todos os militares do país, mas o governo anunciou que ele seria aposentado com honras e todos os benefícios, em flagrante desrespeito às leis. Só isso já será suficiente para colocar o país em pé de guerra internamente.

– Susan Rice, a poderosa assessora para assuntos de segurança nacional do presidente, uma espécie de Marco Aurélio Garcia deste Lula americano, fez um road show nos programas de TV no último fim de semana para dizer, entre outros absurdos, que Bergdahl havia “servido o país com honra e distinção”, o que é uma mentira deslavada. Rice já havia mentido no episódio de Bengazi, em que passou semanas dizendo que os ataques haviam sido causados por um vídeo no YouTube.

– Há fortes indícios de que Bergdahl passou para o lado do inimigo, virou muçulmano, mudou seu nome para um nome árabe e que passou a agir como um colaborador dos talibãs contra o próprio país. Bergdahl teria passado segredos militares para os talibãs que causaram diversas mortes de ex-companheiros. Especialistas dizem que é impensável admitir que os talibãs mantiveram um prisioneiro de guerra por cinco anos em excelentes condições de saúde como Bergdahl foi devolvido se ele não tivesse mudado de lado.

– O grupo que trocou Bergdahl pelos prisioneiros de Guantánamo não era exatamente o talibã, mas os Haqqani, um grupo radical islâmico que fica baseado exatamente na região da fronteira do Paquistão com o Afeganistão próxima do posto em que Bergdahl estava quando sumiu. Os Haqqani, com ligações com a Al Qaeda e com os talibãs, formam um grupo de bandoleiros que aterrorizam as cidades por onde passam basicamente em busca de dinheiro.

– Especialistas no assunto dizem que os Haqqani só entrariam nesse negócio para faturar alto na troca, e a triangulação seria uma maneira do governo Obama poder mandar dinheiro público para os talibãs em nome de uma troca de um militar. Se for isso mesmo, impeachment é pouco. No mínimo, se conseguirem provar que Obama mandou dinheiro do tesouro para trocar Bergdahl sem consultar o Congresso é um crime que pode dar cadeia para ele.

– Os cinco terroristas libertados de Guantánamo na troca estão entre os mais perigosos do mundo e é claro que causarão novas mortes de americanos a partir de agora, sem contar os 52 americanos que morreram na busca e captura destes presos. Um militar sabe os riscos que corre ao entrar na carreira, faz um juramento, e é injustificável que, mesmo que Bergdahl não seja um desertor, se troque um soldado por cinco líderes do inimigo em plena guerra. Não se está dizendo que o governo não deveria buscar meios de libertar o americano por questões humanitárias, mas evidentemente que não desta forma.

– Barack Obama tinha como uma de suas mais importantes bandeiras de campanha o fechamento da prisão de Guantánamo. Ele não teve condições políticas de realizar a promessa, mas é razoável imaginar que ele nunca mudou de idéia. Muitos analistas estão defendendo que Obama usou a troca como desculpa para soltar cinco dos mais perigosos terroristas daquela prisão, o que seria um ardil para começar seu fechamento sem consultar ninguém, já que, se esses cinco podem ser soltos, por que não os outros que ainda estão lá?

Rose GardenComo se tudo isso não bastasse, na cerimônia com os pais de Bergdahl no Rose Garden, em plena Casa Branca (foto), o pai de Bowe, Robert “Bob” Bergdahl, que cultiva agora uma barba enorme, abriu seu pronunciamento em árabe dizendo “bism allah alrahman alraheem“, algo como “em nome de Alá, o misericordioso”, o que foi interpretado como um ritual religioso para reclamar a Casa Branca para Alá. Nesse momento, Bob Bergdahl recebeu um largo sorriso de Obama, que estava ao seu lado, e depois falou em pachto, uma das línguas faladas no Afeganistão, com a ridícula justificativa de que o filho já não entendia mais inglês. Cinco anos em cativeiro e não fala mais inglês? Ah, tenha dó!

Bowe Bergdahl está num hospital militar em Landstuhl, na Alemanha, e não quis falar nem com os pais depois que foi resgatado, portanto o caso ainda está longe de resolvido e muitas informações devem ainda aparecer.

O que aconteceu nos últimos dias nos EUA é de uma gravidade tão evidente que os americanos ainda parecem atônitos com a percepção de que Barack Hussein Obama é ainda pior do que o que seus mais duros críticos diziam e é, sem dúvida, o maior risco à segurança nacional que o país já teve.

A direita matou Tony Ramos

Se você sente náuseas com blogueiros bancados por estatais, espere até assistir um filme “baseado em fatos reais” patrocinado por elas. Bem vindo à era da história reescrita pelo cinema nacional chapa-branca.

Como filme, “Getúlio” não inova em nada. A fotografia é óbvia, a trilha é burocrática, a narrativa é claramente inspirada em “A Queda – As Últimas Horas de Hitler (2004)”, as atuações esquemáticas, com momentos constrangedores como quando os atores tentam falar com sotaque gaúcho. Como registro histórico, “Getúlio” é um acinte a serviço de uma agenda política.

Para não deixar dúvidas, João Jardim, diretor e co-roteirista do filme, disse: “é bom lançar o filme em ano de eleição, para fazer com que as pessoas reflitam antes de votar”. Em diversas entrevistas, Jardim deixa claro que vê similaridades entre o momento político atual brasileiro e aqueles 19 dias que separaram o atentado a Carlos Lacerda na Rua Tonelero e o suicídio de Vargas.

GetúlioO Getúlio Vargas de João Jardim é o defensor dos trabalhadores que criou a Petrobras, uma das patrocinadoras do filme, o que teria colocado o ex-presidente em oposição aos militares. Em que país João Jardim foi encontrar militares opositores de estatais? No Brasil é que não foi. O regime militar iniciado em 1964 encontrou um país com 50 estatais e devolveu com mais de 500. Se esses são os militares que não gostam de estatais, imagino o que fariam se gostassem.

A Petrobras foi criada a partir de uma campanha ultranacionalista encabeçada pelo general Felicíssimo Cardoso, que entrou para a história como o “general do petróleo”. Felicíssimo esteve à frente da campanha “O Petróleo é Nosso”, criou um think tank (Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional) e uma revista com o objetivo explícito de pressionar o governo a criar a estatal. Se alguém pode ser considerado o “pai” da Petrobras é o general Felicíssimo Cardoso, mas como ele é também tio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fica fácil entender porque seu nome está sendo apagado da história e não é lembrado nos filmes que a Petrobras hoje patrocina.

De todos os crimes e licenças do roteiro, o mais grave é relativizar algo que é fato (o atentado a Carlos Lacerda, que vitimou o major Rubens Vaz) e dar como certa a inocência de Vargas, o que está longe de ser um ponto pacífico da história brasileira. O diretor de “Getúlio” tem todo direito de não acreditar que o ex-ditador, líder de um dos regimes mais autoritários e sangrentos da história do país, o famigerado Estado Novo, não estava diretamente envolvido com o atentado, mas colocar a questão como resolvida e Vargas como inocente é reescrever a história.

O cinema praticamente nasceu produzindo libelos políticos. O clássico “O Nascimento de uma Nação” (D. W. Griffith, 1915) já defendia a agenda política racista do Partido Democrata americano e do presidente da época, Woodrow Wilson, colocando negros como uma sub-raça e enaltecendo a Ku Klux Klan. Griffith inspirou Serguei Eisenstein, seu fã confesso e cineasta-militante do bolchevismo soviético. Desde então, o cinema nunca parou de defender, explicitamente ou não, causas políticas, especialmente os produzidos com patrocínio direto ou indireto de governos.

Em “Getúlio”, o roteiro pretende resolver uma das maiores polêmicas da história do Brasil: Vargas estava envolvido ou não na tentativa de assassinato de Carlos Lacerda? Para o filme, não estava e pronto. Não satisfeito, o roteiro dá piscadelas para teorias conspiratórias lisérgicas como sugerir que Lacerda pudesse ter simulado o próprio atentado, algo que nem o getulista mais empedernido ousaria pensar.

O filme quer passar a idéia de que Vargas, defensor do povo e das estatais, foi vítima de uma armação política suja com o apoio da imprensa golpista. O protagonista do filme tem pouca noção do que seus auxiliares mais próximos faziam dentro do palácio e sua boa fé acabou por custar seu governo. O Getúlio de João Jardim é, evidentemente, o Lula do ideário petista, um pai dos pobres vilipendiado por uma trama que unia a imprensa e a direita inescrupulosa, antidemocrática e sedenta de poder.

Ao colocar Tony Ramos no papel principal, logo o ator mais querido e popular do Brasil, João Jardim buscou criar uma identificação imediata do público com o ex-presidente, uma opção para que o espectador não tivesse qualquer dúvida de quem apoiar desde o início. Já nos créditos finais, o filme subestima mais uma vez a capacidade do público de tirar suas próprias conclusões e coloca uma frase de Tancredo Neves, num didatismo gritante, afirmando que o suicídio de Vargas em 1954 atrasou o golpe militar em dez anos.

“Getúlio” é uma peça de propaganda ideológica dissimulada, com uma leitura muito particular e ideológica da história do Brasil, que faz escolhas que tentam recontar a época torcendo episódios para que se encaixem na narrativa que interessa ao diretor e aos patrocinadores do filme.

Se “Getúlio” for o marco inicial de uma safra de filmes militantes, é mais um motivo para arrumar as malas e buscar o Galeão que tanto assombrava Vargas, um mártir da própria consciência que levou para o túmulo a verdade sobre a tentativa de assassinato de um opositor, o único crime comprovadamente ocorrido naqueles 19 dias de agosto de 1954.

Todo poder aos sovietes petistas

Esse país de vocês ganhou um decreto realmente peculiar semana passada, o de nº 8243. Ele institui a “Política Nacional de Participação Social – PNPS” que tem como objetivo “consolidar a participação social como método de governo”.

A linguagem sinuosa e dissimulada do decreto é proposital, mas vamos traduzir: se você é um militante ou é um membro do Agitprop petista aboletado em algum agrupamento apelidado de “movimento social”, você passará a ter, oficialmente, poder político acima do cidadão comum e poderá influenciar diretamente, sem intermediários, (leia-se Congresso Nacional, por exemplo) a gestão do país.

A idéia é antiga e remonta ao paleolítico do comunismo. Desde a Primeira Internacional e da Comuna de Paris, em meados do séc. XIX, os comunistas desdenham do sistema republicano, com representantes eleitos, a tal democracia burguesa. As idéias de separação de poder de Montesquieu e da democracia representativa sempre foram consideradas empecilhos para a “democracia direta” ou plebiscitária, uma excrescência jacobina que sempre termina em barbárie.

A Atenas do séc. IV a.C. tentou uma forma de democracia direta, em que os julgamentos eram realizados por 500 “juízes” sorteados entre os seis mil cidadãos com plenos direitos políticos, que decidiam por maioria simples os casos do dia-a-dia. O resultado era uma cidade em que todos acusavam todos pelos motivos mais banais, com julgamentos realizados de maneira açodada e emocional, com vereditos diretamente influenciados mais pela eloquencia do orador do que pelo mérito da questão. A experiência ateniense e seus resultados desastrosos já deveriam ser suficientes para enterrar de vez a idéia jacobina de governar por plebiscitos. Mesmo o atual regime suíço, que muitos consideram um tipo de democracia direta, é uma experiência totalmente distinta e com diversas salvaguardas para que leis não sejam aprovadas no calor das emoções (e estamos falando de suíços, não necessariamente o povo mais emotivo do mundo).
Vladimir Ilyich LeninA experiência mais emblemática desse tipo de grupamento não-eleito com poderes políticos são os “sovietes” ou conselhos operários, que ajudaram a criar as condições para a revolução russa em 1917. Instituídos em 1905 e festejados por Lênin como “expressão da criação do povo”, os sovietes chegaram a criar uma corrente do comunismo chamada “conselhismo”, uma oposição ao comunismo de estado, que acreditava serem os conselhos operários formas superiores de participação popular na política.

Com a revolução de 1917, os bolcheviques lançaram o lema “Todo poder aos Sovietes” e até a dissolução da URSS os sovietes eram considerados pilares essenciais do regime comunista.

Não se enganem, esse pessoal sabe o que está fazendo. Mais um mandato presidencial para o PT e esse país estará irreconhecível em 2018, podem anotar.

– Decreto nº 8242: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Decreto/D8243.htm

Para sempre, Lacerda.

Há exatos 100 anos, no dia 30 de abril de 1914, nascia no Rio de Janeiro (registrado em Vassouras, no interior do estado) o jornalista, escritor e político Carlos Frederico Werneck de Lacerda, um dos principais personagens da história do Brasil, que morreu prematuramente, aos 63 anos, em 1977.

Seu nome foi uma homenagem da família comunista à Karl Marx (Carlos) e Friedrich Engels (Frederico), por mais surpreende que possa parecer, já que é o mais notório anticomunista do país. Ele também se opôs ao nacionalismo “desenvolvimentista” do getulismo, de inspiração fascista, que com o comunismo fazem as duas nefastas correntes de pensamento ideológicas majoritárias do Brasil até hoje, um país incapaz de conceber uma terceira via liberal-conservadora.

Carlos Lacerda surgiu no cenário político nacional em 1935, aos 21 anos, já um orador brilhante, carismático e arrebatador, no evento de lançamento da ANL (Aliança Nacional Libertadora), entidade ligada ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e obediente aos ditames de Moscou via Comintern. Nesse dia, o estudante Carlos Lacerda foi escolhido para ler o manifesto e pedir que Luís Carlos Prestes, que estava na URSS, fosse aclamado como presidente de honra da ANL.

Seu rompimento com o movimento comunista viria em 1939, expurgado do partido por um texto escrito por ele sob encomenda tratando da “vitória” do getulismo sobre o comunismo. Ele trabalhava numa revista que publicou uma série de artigos comemorativos do primeiro aniversário do Estado Novo de 1937 por encomenda do DNP, depois batizado de DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), e a Lacerda foi pedido o texto sobre o comunismo. Obediente e precavido, consultou oficialmente o partido e, por tabela, Moscou, para saber se aceitava a tarefa e como deveria proceder. Foi orientado a escrever a matéria passando a idéia de que a Intentona Comunista foi algo isolado, de um punhado de doidos conspiradores, a maioria já cassados e presos, e sem qualquer articulação com o comunismo internacional. Cumpriu as ordens mas foi demonizado pelos comunistas brasileiros e chutado para fora do movimento, um choque do qual demorou anos para superar.

Nos anos 40 entra para a UDN. Em 1947 é eleito vereador e começa oficialmente a carreira como político. Lacerda se tornaria o maior opositor à volta de Getúlio Vargas ao cargo de presidente e começava o caminho que depois viria a associar seu nome ao “derrubador de presidentes”.

Sua oposição a Getúlio Vargas terminou, numa série estonteante de eventos em três semanas de agosto de 1954, com o suicídio do presidente, o que fez com que se refugiasse, ironicamente e por alguns dias, em Cuba – pouco antes de virar o zoológico dos irmãos Castro, claro. De volta ao Brasil, foi a principal pedra no sapato de Juscelino Kubitschek e o grande cabo eleitoral de Jânio Quadros em 1960. No final dos anos 60, ao se tornar amigo e correligionário de Juscelino na Frente Ampla, perguntou ao ex-presidente porque nunca permitiu que tivesse uma concessão de TV e JK respondeu: “se eu te desse um canal de TV você me derrubaria”.

Conspirou contra Jango, apoiou a revolução de 1964 e depois foi cassado por ela, quando era o político mais popular do Brasil e o mais provável vencedor numa eleição presidencial prometida por Castello Branco que nunca aconteceu, quando os militares deram o golpe dentro do golpe e se encastelaram no poder até 1985, manchando para sempre a imagem do regime que livrou o país do caos instaurado pelo errático, incompetente, inconsequente e radical governo de João Goulart.

Como governador da Guanabara (1960-1965), foi um revolucionário em métodos de gestão, no estabelecimento de metas e em resultados que transformaram para sempre a atual cidade do Rio de Janeiro. Difícil imaginar um administrador público republicano com uma história de tamanha competência, trabalho duro e um legado de realizações no Brasil como ele.

Quem é do Rio de Janeiro ou vive na cidade deveria agradecer todos os dias a quem fez a adutora do Rio Guandú, que acabou com o crônico problema de falta d’água da cidade, mas não só: o governo Lacerda está em quase todo lugar, como na criação do túnel Rebouças, no alargamento da praia de Copacabana e no plano diretor que idealizou a Linha Vernelha e a Linha Amarela, esta última merecidamente batizada com seu nome.

Além de todas essas facetas, era também um intelectual de primeiro time, tendo criado a Editora Nova Fronteira, uma das mais conhecidas do mercado editorial do país até hoje. É também tio-avô de Marcio Lacerda, atual prefeito de Belo Horizonte (antes que me perguntem, não estou nem aí para os boatos sobre seu bissexualismo, seu caso com a atriz Shirley MacLaine, irmã de Warren Beatty, entre outras fofocas de alcova).

Carlos Lacerda foi expulso pelos comunistas e cassado pelo militares, mas seu espírito incontrolável e sua oratória demolidora marcaram a política brasileira por décadas. Sua intolerância com a corrupção, com a mediocridade, sua recusa em negociar princípios por cálculos políticos e arranjos fisiológicos, sua coragem e seu carisma tornaram Carlos Lacerda uma das figuras mais hipnotizantes da história do Brasil.

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